A marcha dos mentecaptos*

Benedito Tadeu César**
Nesta quarta, 4 de maio de  2016, na Câmara Municipal de Porto Alegre, seria reavaliada a Moção de Repúdio ao Reitor, ao Vice Reitor e a um professor da Faculdade de Direito da UFRGS por terem permitido e participado de debates sobre o momento político atual na universidade.
Na votação realizada na semana passada, a moção foi aprovada por 14 votos contra 13.
Os debates foram acalorados. O auditório da CMPA foi ocupado por manifestantes a favor e contra a moção e os ânimos se exaltaram, tanto no Plenário quanto no Auditório.
A ala da direita urrava impropérios contra o “comunismo” e pela “escola sem ideologia”. A da esquerda gritava por democracia e contra o fascismo.
Todos os vereadores que se manifestaram, a não ser o proponente da moção, declararam voto contrário a ela, em nome da liberdade de pensamento e de expressão. O proponente, em seu discurso, em dado momento, fez menção a mim, afirmando que o professor Benedito Tadeu César, militante do Partido dos Trabalhadores, se utiliza dos bens públicos para fazer pregação ideológica em sala de aula, utilizando equipamentos e emails da universidade para isso.
Ao final dos debates, a moção em discussão foi retirada, obedecendo a um acordo feito entre as partes em disputa. O vereador que censurava a UFRGS, seu reitor, vice e professores, retirou a moção em troca da retirada de moção anterior que censurava o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) pelo apoio que expressou à médica pediatra que se recusou a atender ao filho da suplente de vereadora do PT, Ariane Leitão, por motivos ideológicos.
Na saída do Auditório da CMPA, cruzei com o vereador proponente da Moção de Repúdio à UFRGS e que havia feito referência a mim. Tentei esclarecer, cordialmente, que ele estava mal informado a meu respeito.
Disse-lhe que, mesmo que eu quisesse me utilizar dos bens, do ambiente e dos alunos da UFRGS para fazer pregação ideológica, eu não poderia pelo simples fato de já ter me APOSENTADO desde o mês de julho de 2010.
Disse-lhe que a desinformação pode provocar erros graves e que ele deveria ser mais cuidadoso em suas afirmações. Ele respondeu que eu havia proposto à Associação dos Docentes da UFRGS uma nota contra a sua moção, ao que eu lhe respondi que ele continuava mal informado, pois, não obstante eu tenha sido diretor da ADUFRGS, me encontro há anos afastado da militância docente.
Exaltado, ele pôs-se a gritar, chamando-me de filho da puta!
Subi o tom, respondendo-lhe que lhe faltava educação e que ele me devia desculpas, tanto pela calúnia relativa ao uso indevido da posição de docente universitário, quanto pela ofensa que ele acabava de me fazer.
Afirmei que se ele não o fizesse eu o processaria por calúnia e injúria. Chamei-o de mal educado e de mentecapto* e, ao mesmo tempo, afirmei que ele sequer deveria saber o significado desta palavra.
Ânimos serenados, dirigi-me à saída do edifício, quando fui alcançado por um funcionário da CMPA, informando-me que três integrantes da Banda Loca, que compunham a maioria da platéia favorável à Moção de Repúdio aos Reitores e Professor da UFRGS, estavam planejando me bater na saída do prédio.
Caminhamos até a porta principal, no andar superior, e, ali, o funcionário chamou dois seguranças que se encarregaram de retirar os indivíduos que me esperavam, com cara de poucos amigos, na rampa de acesso.
Enquanto esperava para sair em segurança, algumas senhoras de idade avançada e moças aproximaram-se do vereador Adeli Sell (PT), celular em punho, chamando-o de “corno”, na tentativa de fazer com que ele revidasse.
Outros integrantes da Banda Loca surgiram, também com celulares em punho, e tentaram provocar tumulto, nos empurrando e insultando, com o objetivo de criar uma reação e filmá-la.
Antes disso, ainda durante os debates em Plenário, eles já haviam provocado um tumulto envolvendo uma aluna da UFRGS, que foi intimidada, e um professor universitário de outra universidade que saiu em sua defesa.
Naquele momento, ele filmaram a reação do professor e estão divulgando o vídeo editado na página da Banda Loca e do MBL.
A direita raivosa e obscurantista avança.
Na verdade, por trás do aparente recuo advindo da retirada da Moção de Repúdio à UFRGS, o que ocorreu foi uma vitória, ainda que relativa, desta direita babona.
Ao que tudo indica, a Moção contra a UFRGS foi uma reação contra a Moção de Repúdio ao Simers e seu apoio à discriminação ideológica a uma criança.
Atacaram a UFRGS para conseguir um acordo que sepulta um ato de barbárie contra a inteligência e a tolerância política.
O acordo feito, ainda que necessário para manter o equilíbrio na CMPA, favorece enormemente às forças do atraso e da incivilidade.
* mentecapto adjetivo substantivo masculino
1. que ou quem é mentalmente desordenado; que ou quem perdeu o juízo, o uso da razão; alienado, louco.
2. que ou quem é destituído de inteligência, de bom senso; tolo, néscio, idiota.
**Benedito Tadeu César é cientista político

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