MIRIAM GUSMÃO / A idiotização do eleitor brasileiro

Quem tiver paciência e observar atentamente o horário eleitoral na TV constatará características gritantes de um processo de idiotização dos eleitores, que parece ter atingido seu auge. É um amontoado de imagens, em rápida sucessão, onde muitos antigos partidos ostentam suas siglas recentes e descoladas de sua história, enquanto as siglas mais tradicionais remanescentes são propositalmente escondidas pelos seus próprios partidos e candidatos. Os discursos personalistas não permitem distinguir linhas políticas e diferenças programáticas. A partição do tempo entre as candidaturas é absurdamente desigual, seguindo o regramento de uma legislação eleitoral que nem mesmo os progressistas da política tentaram mudar substancialmente ao longo dos últimos anos. O marketing político tomou conta do espetáculo, a tal ponto que os programas de maior duração parecem um contínuo, igualando direitistas e esquerdistas em indistintas imagens e declarações.

Nas campanhas de TV para a prefeitura de Porto Alegre, os candidatos aparecem caminhando. Volta e meia todos caminham! Foi assim que o atual prefeito fez sua campanha anterior e continua acreditando que dará certo de novo, em que pese sua decadente popularidade e apesar das investigações em curso a partir dos indícios de seus graves malfeitos. Caminhar e declarar amor à cidade, independente da realidade, eis a questão!  O marketing político enche os olhos e esvazia as memórias. Convicto de que o eleitor idiotizado não se lembra de nada do que os homens públicos fizeram há pouco tempo, um vereador ultradireitista que quer ser prefeito coloca sua cara em primeiro plano e insinua confiança mútua com o telespectador, dizendo: “Tu me conheces, eu vivo aqui com minha família”. E seu discurso tenta plantar a imagem de alguém de respeito, embora ele e sua família tenham o histórico de um desrespeitoso vídeo que gravaram e postaram nas redes sociais, em que ele espirra em uma parente, depois simulam um enterro e todos dançam, debochando das mortes pela Covid-19. O atual vice-prefeito, por sua vez, critica o atual prefeito, convicto de que o telespectador não refletirá que os dois executaram um mesmo programa de governo, numa mesma linha de ação neoliberal. Do mesmo modo, o prefeito anterior e o seu vice, cujos partidos estão na sustentação de Bolsonaro em Brasília, apresentam-se em candidaturas separadas e prometendo coisas que jamais realizaram, certos de que ninguém lembrará. Por sua vez, a candidata de centro-esquerda também caminha, também faz discurso personalista, também declara o mesmo amor genérico pela cidade, mantém-se alheia à dramática situação nacional e celebra sua boa colocação nas pesquisas eleitorais.

A disputa política tornou-se refém das pesquisas eleitorais e esse é um dos fatores que consolidam e ampliam a despolitização, ao lado da ausência de debates, que é o agravante deste ano. Num passado não muito distante, ao contrário de agora, os partidos progressistas eram contra o voto útil, derivado do jugo das pesquisas, em que o eleitor é estimulado a optar por quem está na frente das intenções de voto. Através do voto útil, o eleitor idiotizado tem a sensação de vitória com a hipótese de votar em quem vai ganhar. Ele não percebe a dinâmica invisível que tende a manter no poder as mesmas figuras públicas que já fazem o jogo político e que, tendo visibilidade, são mais lembradas nas pesquisas. A repercussão das pesquisas, da qual as grandes mídias diligentemente se encarregam, amplia, passo a passo, a visibilidade dos candidatos já bem visíveis, encaminhando, ainda que indiretamente, o rumo dos resultados, com pequenas trocas possíveis de posição entre os mais visíveis (geralmente com a direita passando à frente da centro-esquerda e confirmando “prognósticos isentos” dos “analistas”). Na época em que os cronogramas das campanhas eleitorais incluíam grandes debates nas TVs abertas, essa dinâmica podia ser rompida, eventualmente, por ser possível um mínimo de comparação entre as propostas e entre as competências dos candidatos. Um candidato menos visível poderia surpreender o compadrio e se destacar num debate, mexendo na correlação de forças. Agora a ideia das grandes emissoras é não fazer mais debates. E a pandemia restringe, neste ano, as grandes mobilizações de rua que tendem a fazer emergir da invisibilidade as candidaturas enraizadas nos movimentos populares.

Tudo parece indicar uma situação cristalizada, levando-se em conta os componentes que já mencionamos: ausência de debates, impossibilidade de grandes mobilizações de rua, disputa refém das pesquisas, adoção da defesa do voto útil pela centro-esquerda, programas eleitorais alienantes, similares e com distribuição de tempos extremamente desiguais entre os concorrentes.  Contudo, dois aspectos que não têm sido destacados dão margem para alterações no cenário, podendo resultar em situação mais positiva ou ainda mais negativa. Um deles consiste nas projeções de segundo turno, que a centro-esquerda desconsiderou na última eleição presidencial, em que todo o campo progressista acabou sofrendo uma derrota histórica dramática. O outro dado importante do atual momento eleitoral foi destacado devidamente pelo Jornal JÁ, como manda o bom jornalismo, na manchete do dia 20 de outubro último: Porto Alegre tem o maior número de indecisos entre as capitais: 54%.

Estranhamente os que se tornaram entusiastas de um modo manipulador de utilização das pesquisas eleitorais não estão dando a necessária importância a esse dado coletado pelo Ibope. O fato de, a menos de um mês da escolha do prefeito e dos vereadores da cidade, mais da metade da população da capital gaúcha ainda não saber em quem votar deveria ser motivo de muita reflexão e de mudanças de posturas por parte de quem vive da política. Esse maior percentual de indecisos dentre as capitais eleva-se ainda mais, para 64%, entre os eleitores com renda familiar de até um salário mínimo. O Instituto apurou que nas demais capitais também é elevado o número de indecisos e preocupante o número de eleitores que pretendem votar nulo ou em branco. São percentuais que já vinham crescendo nas últimas eleições.

Muitos questionamentos deverão ser feitos. Teria chegado a um ponto crítico a alienação do eleitor, potencializada por representantes não representativos e por velhas práticas que já não conseguem disfarce dentro de roupagens tecnológicas repetitivas? As candidaturas proeminentes, amalgamadas num mesmo espetáculo de mau gosto, não teriam cansado o eleitor? A decepção de boa parte dos eleitores com os pretensos salvadores da pátria e seus prepostos estaria indicando o declínio da cosmovisão neopopulista e a necessidade de resgate da cidadania? Seria hora de um novo regramento das disputas eleitorais? Seria hora de autocrítica dos que vivem da política? Há quem se deleite com o completo desinteresse do eleitor? Levará ainda muito tempo para o eleitor brasileiro, idiotizado e alienado, perceber que, inexoravelmente, sempre perderá, enquanto apenas sofrer a política? Conseguirá o idiotizado, mais dia ou menos dia, erguer-se como sujeito do seu próprio destino?

Miriam Gusmão é jornalista e professora aposentada.

 

 

 

 

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