O mistério do vazamento

PINHEIRO DO VALE
O mistério da República é localizar a quem interessava detonar o ministro do Planejamento de Michel Temer, o senador roraimense Romero Jucá, com a divulgação do conteúdo de conversas embaraçosas entre ele e um aliado há mais de três meses.
Deitar na lona um peso pesado como Jucá é uma proeza de múltiplos resultados, todos negativos para o governo recém-instalado.
Não obstante estar envolvido em fase de indiciamento em sete processos tramitando no Supremo, Jucá emergia no colégio de cardeais, não era membro da banda do baixo clero no ministério Temer.
Ao contrário, o senador nortista faz parte da banda virtuosa do gabinete peemedebista, ao lado de Henrique Meirelles. Wellington Moreira Franco e outros astros do segundo escalão, como Pedro Parente. Pois não é que ele caiu de quatro logo ao levar o primeiro tiro?
De fato, Jucá não era tão ficha limpa assim como se pintava na nova imagem, pois desde sempre, como político dos fundões remotos, construiu lá carreira passando por cima de obstáculos que, no Sul, já teriam acabado com ele há muito tempo.
No jovem estado de Roraima esses tropeços não passavam de pecadilhos. Não adiante se espantar: o Brasil é assim.
Antes de cair nas malhas dos templários de Curitiba, Jucá já passara pelos incômodos do fisiologismo da política naquelas bandas, envolvido numa negociata de desvio de madeira de terras indígenas quando ainda de sua estreia na esfera federal, como simples e jovem presidente da FUNAI.
Na Justiça o processo se extinguiu por prescrição. Na política foi absolvido com a alegação então aceita de que a madeira não era dele, o dinheiro foi para o partido, com os apoios decorrentes foi catapultado para o governo do Estado e daí para a arena nacional na Câmara, no Senado e, desta feita, num ministério de primeira linha.
Tudo isto para dizer que Jucá não é pouca coisa. Quem olhasse sua posição até a noite de domingo diria que se tratava de uma nova estrela no firmamento. Deixava obscuras bancadas periféricas para se lançar como teórico da economia, gestor de primeira linha, articulador político de alto desempenho, conselheiro de pé de ouvido do presidente. Ou seja: um manda chuva.
Já se sabe que a gravação era parte do material da delação premiada de seu interlocutor, o ex-presidente da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobrás, Sérgio Machado, já nas malhas do juiz Sérgio Moro. Ou seja: o autor da gravação foi o próprio delator Sérgio Machado.
Então por que se botou a boca no trombone? Os primeiros suspeitos são os próprios membros do Judiciário, agastados com o que consideraram uma desfaçatez de Michel Temer passar por cima dos indiciamentos e outros que tais, nomeando Jucá ministro de linha de frente sem a menor cerimônia.
Esta suposição ganharia verossimilhança porque estaria repetindo o episódio das gravações de Dilma e Lula.
Consta que, ao se convencerem de que a presidente levava Lula para a Casa Civil como uma manobra para tirá-lo da frente do juiz Sérgio Moro, jogaram na rua a evidência que tinham para que ninguém duvidasse. E Lula caiu.
Agora repetem a dose com Jucá: Temer desconheceu as evidências aceitas pelo juiz e ministros do Supremo e, então, levou. E Jucá recebeu um tiro no meio da testa, não nas costas como seria numa outra versão, de cunho conspirativo, que também corre (irresponsavelmente, pois não se sabe de onde saiu) em Brasília.
Na capital federal o menor segredo é a origem de um boato. Quando não tem dono, todo o mundo fica alerta. É o caso deste, atribuído a forças ocultas que teriam como objetivo fortalecer a posição do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Vejam os leitores como se explica esta fantasia: Jucá seria uma ameaça à candidatura de Meirelles para 2018. É pouco?
Nessa narrativa entram vários por quês. Meirelles é candidato a Fernando Henrique, o ministro da economia salvador da Pátria.
A se confirmar que Meirelles fica com Fazenda e Planejamento (com todo seu cortejo de bancos e outras instituições), configura-se o desenho que Lula sugeriu a Dilma.
Então Temer comprou a peça, podendo haver um acerto de bastidores para leva-lo como nome da chamada base aliada, catalisando uma coligação considerada impossível no cenário atual.
Entretanto, ela poderia se compor para a eleição de 2018, se não no primeiro, no segundo turno. Se fosse assim, outro candidato dentro do mesmo governo seria um empecilho. Melhor matar a cobra de pequena.
Se for isto que ocorreu inocenta o PT, pois estaria por traz de tudo o trio dos “imperdoáveis”, quais sejam: o juiz Sérgio Moro, o procurador geral Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Teori Zavascki (este mencionado por Jucá como “inconversável”).
Há outra também alicerçada na ambição de Jucá de chegar a uma candidatura presidencial: o  PMDB de São Paulo, apoiado pelas frações sulistas, não veria com bons olhos a recondução do grupo liderado pelo ex-presidente José Sarney. Também é improvável, mas possível.
Há tantas versões que se desfiarmos todas aqui, não caberiam no servidor da Internet. A verdade é que há muito mais coisas no ar do que aviões de carreira, diria o gaúcho Barão de Itararé.
Quem morre de rir destas trapalhadas é a presidente afastada Dilma Rousseff. Embora saiba que estes fatos não influem no resultado da votação deu impeachment no Senado.
Sua tropa parlamentar tem se mostrado muito limitada, não conseguindo ir além de um discurso considerado simplório. Como comentou um velho comunista veterano deste tipo de embates, relembrando a origem desses debatedores: “é nível secundarista”.
Nas ruas, nas assembleias, nos espaços públicos em que pode se manifestar, Dilma se aproveita para, como fizeram com ela os tempos em que tinha as mãos atadas pelo cargo, fazer sangrar o governo golpista. Como diz o provérbio sueco: “a espada das mulheres está na boca delas”.

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