O poeta Nei Duclós retorna ao “crime” de 1976

“Este é o poeta Nei Duclós”, me disse Jorge Escosteguy (Scotch), indicando um sorridente magrão de olhos azuis e cabelos compridos. Posso estar enganado quanto à data — final de 1976, acredito – mas não quanto ao local: foi no corredor de acesso às baias da redação da revista Veja, onde fazíamos parte da colônia gaúcha, ao lado de JA Dias Lopes, Valdir Zwetsch e Vitor Hugo Sperb — tínhamos ainda como uma espécie de gaúcha honorária a Dorrit Harazim, cidadã do mundo nascida casualmente em Iraí.
Como sempre, o santanense Scotch estava apressado e praticamente rebocava o amigo uruguaianense, que não escondia a timidez (ou seria constrangimento?), para a editoria de artes&espetáculos, onde o editor José Márcio Penido, mineiro cordial, lhe daria alguns trabalhos avulsos. Resenhas de livros, que dariam ao novato gaúcho (“noviço rebelde”, quase escrevi) um duplo prazer: ler livros recém-lançados e tirar disso seu ganha-pão.
Eram tempos difíceis, politicamente, mas não faltava trabalho razoavelmente bem remunerado: bastava um frila por semana numa das revistas da Abril ou em outras editoras de São Paulo ou do Rio para um jovem repórter sustentar-se. Caras criativos e competentes como Nei Duclós nadavam de braçada no mercado editorial do auge da Ditadura Militar.

neu-na-ufrgs-foto-juarez-fonseca
Foto de Juarez Fonseca, na Ufrgs

Aos 28 anos, já tarimbado como jornalista, Nei era festejado como o poeta que se revelara excepcional logo no primeiro livro, Outubro, lançado em 1976 em Porto Alegre. Nos anos seguintes ele lançaria outros, como No Meio da Rua (1979), mas acabaria deixando a poesia mais ou menos de lado para lutar pela sobrevivência na Paulicéia áspera e cruel. Ele e Scotch trabalhavam juntos na IstoÉ e até na revista da Fiesp nos anos 1990,  quando o santanense sucumbiu a um infarto, 20 anos atrás.
Agora, 40 anos depois da memorável estréia literária do poeta Nei Duclós, ei-lo de volta com o mesmo Outubro numa edição comemorativa recheada de aportes, considerações e elogios de amigos e admiradores, entre eles Claudio Levitan, Dilan Camargo, Juarez Fonseca e Luiz Carlos Merten, gaúchos que afirmam ver nesse livro uma espécie de “manifesto de uma geração”.  De fato, Outubro mantém acesa a chama da juventude poética dos terríveis anos 70.
nei-duclos
Nei Duclós fotografado por Nana Monteiro/ND

Morando num ermo recôndito em Florianópolis depois de trabalhar por duas ou três décadas em São Paulo, sempre entremeando jornalismo, crônica ,conto, assessoria de imprensa e poesia, Nei Duclós não conserva da fisionomia da juventude senão os profundos olhos azuis. A cabeleira hippie deu lugar a um corte convencional de barbearia e a magreza poética transformou-se numa opulenta obesidade. Nada de novo nas fronteiras da vida: muitos magros viraram gordos enquanto alguns se tornaram praticamente irreconhecíveis à medida que o tempo lhes alterava a estampa, mas nem todos renunciaram à humanidade. Embora castigado pelos transes da vida, Nei Duclós não perdeu o peculiar senso de humor e se manteve fiel ao seu passado poético. Mais do que isso, ele continua escrevendo e publicando artigos, crônicas, contos e poemas em seus endereços digitais, como se pode conferir no site www.consciencia.org/neiduclos, no seu blogoutubro.blogspot.com, no Facebook e no Twitter, tudo isso indicado no Google.
nei-outubroVisto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.
Em poucos versos ele liquida o assunto: “Sempre que vejo um rio/parece que do outro lado/está a Argentina” (Lição de Travessia, poema em que ele fala “d’as balsas carregadas da infância”). Para encurtar esta resenha, vejam o poema que ele escreveu sobre Mario Quintana:
“Olhem o antípoda
olhem o animal da palavra
É um dinossauro na cidade de vidro
Borboleta branca na floresta queimada
 
Respeitem seu andar
e desconfiem com temor
de sua conversa fiada
 
Ele é o flagelo do Senhor
e vocês não sabem”
 

2 comentários em “O poeta Nei Duclós retorna ao “crime” de 1976”

Deixe uma resposta