O último bastião da legitimidade

PINHEiRO DO VALE
Dilma espera pelos templários de Curitiba. Ela começa a admitir a seus fiéis que os jovens juízes, promotores e procuradores da Justiça Federal estão produzindo uma limpa tão profunda nos quadros da política tradicional brasileira que ainda antes do fim do ano os cenários serão outros.
Por ser uma outsider da política, erguida como um poste pronto e acabado, como gostam de dizer seus detratores, ela acredita que será dessa distância de todos os fragmentos e remendos que formam o estado brasileiro sairá sua força para derrubar o impeachment.
Começando pelo fim: o golpe não é uma simples figura de compêndios de ciência política. No Brasil de hoje esse vocábulo se inseriu na cabeça da classe média letrada como a expressão da ilegitimidade.
Essa versão corre o mundo e cristaliza a imagem do Brasil. Portanto, a volta de Dilma será um desmentido categórico à comunidade das nações da reconversão do País à “república de bananas”. Mesmo abalado, o Brasil ressurge como um estado-estável, uma figura que separa os países do mundo segundo o vigor de suas instituições democráticas.
Cientistas políticos (que ainda refutam a palavra golpe por inadequada à letra dos manuais) já consideram que a volta de Dilma é essencial para a estabilização política e econômica. Começam a perceber que o Brasil mudou e que somente a legitimidade assegura a estabilidade (incluindo aí a econômica e a jurídica, essenciais para os negócios).
Essas análises começam a chegar numa conclusão surpreendente, neste momento.
Dizem que com todo o sistema político-partidário em decomposição, totalmente putrefato virando carniça, o reduto final para a sobrevivência do estado democrático será recorrer a seus fundamentos, que é a legitimidade original do voto. Nesse bastião está Dilma Rousseff.
Os partidos políticos, as corporações, as organizações da sociedade civil, os interesses legítimos e ilegítimos, todos afundam no mesmo barco. Com os quatro ex-presidentes vivos sob suspeição ( a LavaJato se aproxima de FHC), com o presidente interino entrando nesse mesmo barco, só vai restar a eleição de 2014 para conferir legitimidade a qualquer mandato.
Dilma foi vítima desse sistema deteriorado. O PT uniu-se com o PMDB, aliando as duas forças majoritárias do Brasil e juntos tomaram o poder. Segundo muitos cientistas políticos especializados em analise de eleições, o PT deu a Dilma 30 milhões de votos, o PMDB 25 milhões.
Uma boa parte, decisiva, dessa votação veio do Norte-Nordeste captados nas clientelas dos grandes caciques regionais, alimentados por recursos federais. Se isto compromete Dilma, esvazia a contribuição do Michel Temer.
Sendo paulista, não teve ação direta na região que decidiu o pleito.
Rapidamente, o parceiro da esquerda, o PMDB, viu a brecha para tomar-lhe as rédeas.
Acenando com o expurgo do PT, o partido aliado cooptou a oposição derrotada para uma revanche.
Não valeu de nada: o sistema político eleitoral está tão corrompido que não escapa ninguém do conluio com os interesses econômicos. Todos os partidos captaram dinheiro de empresas.
Conta-se nos dedos vereadores, deputados estaduais, federais, senadores, governadores ou presidentes que não beberam destas fontes.
Todos devem ser chamados a responder no confessionário dos templários de Curitiba. Eles estão puxando o fio da meada e já criaram um movimento que não há mais como deter.
As forças desencadeadas no Judiciário ganharam moto próprio e vão levando tudo por diante. É uma corrida contra o tempo. Em 180 dias tudo pode ruir, sobrando apenas Dilma com seus 54 milhões de votos e o Supremo Tribunal Federal na superestrutura do poder.
Estes analistas asseguram que Dilma Rousseff, com sua legitimidade, será a última trincheira da democracia e da credibilidade do Brasil. Sem outra saída à mão, o establishment tomará juízo para botar a carreta nos trilhos.

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