Parem as máquinas!, o Jornalismo morreu com a Democracia

andres vince
Onze entre dez jornalistas sonhavam em entrar na redação gritando “parem as máquinas!”. Era o anúncio que o repórter tinha acabado descobrir uma bomba nuclear e que estava disposto a detona-la.
Folclore profissional à parte, teremos cada vez menos manchetes capazes de cometer qualquer abalo ao novo establishment instalado imediatamente após o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república.
A imprensa se esmera em envernizar o golpe. Todo santo dia tentam, miseravelmente, escamotear as trapalhadas do governo (?) Temerildo, realizando uma assessoria de imprensa capaz de colocar inveja em qualquer grande agência de publicidade.
Mais à vontade entre os seus (o empresariado pé de chinelo norte-americano), Temerildo disse com todas as letras, sem edição: “farei uma reforma RADICAL na Previdência” (ênfase do próprio na palavra radical). Nenhuma repercussão, nenhum debate. Ninguém pra perguntar: “Como assim ‘radical’, Temerildo?”.
Enquanto isso, por aqui a imprensa ilude o trabalhador dizendo que a população está crescendo e ficando mais velha, a legislação é de 1940 e tal. Como se o sistema de previdência fosse alheio a esse detalhe. Talvez, em 1940, os estudiosos que formularam a legislação achavam que a população ia ficar estagnada pra sempre e que os avanços da ciência eram pra pessoa morrer aos 50 anos, porém, saudável.
O governo usa os dados do IBGE pra provar que o topo da pirâmide (os mais velhos) está crescendo, mas omite deliberadamente que a base (os mais jovens) cresce na mesma proporção ou até mais. Assim como no caso tal déficit da Previdência, que só é real quando omitidas outras bases de receita, como o imposto de 5% sobre o lucro das empresas. Mostram o total deficitário, mas não mostram como chegaram lá.
Temerildo fala em reforma radical lá fora, e aqui dentro assevera: “não vamos mexer nos direitos do trabalhador”. Então, parece que o objetivo mesmo é exterminar esses direitos. O Temerildo parece aquele porta voz do governo iraquiano, que durante a segunda invasão norte-americana ao país do Oriente Médio dava uma coletiva garantindo que Bagdá estava em segurança, enquanto a imagem ao fundo mostrava os misseis rasgando os céus da cidade. Mentira pura e simples, em rede nacional.
É tão aleatoriamente sincronizado esse golpe, que o Judiciário, até então em preocupante silêncio, sai de trás da cortina pra dizer, via TRF-4 e por 13 votos a 1, que o juiz Sérgio Moro pode fazer o que bem entender, pois, segundo palavras do relator do processo que buscava frear seu ímpeto cadeieiro: “É sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada operação ‘lava jato’, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único, excepcional) no Direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns”.
E o paragrafo 37 da Constituição que diz :”Não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Lixo nele. Repercussão dessa decisão? Zero. Alguma dúvida que a ditadura já se instalou?
Hoje, quase já não temos as tais ‘máquinas’ e as pessoas capazes de entrar na redação gritando desesperadamente “parem as máquinas!” estão sendo presas e criminalizadas, por um estado de exceção sem precedentes, sem que isso seja visto como um ataque às garantias individuais! Bovinamente bizarro.
Parem as máquinas!, para sempre.

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