Quintana vive!

O centenário de nascimento do alegretense Mário de Miranda Quintana, em 30 de junho, motiva inúmeras intervenções artísticas, desde fotográficas até literárias, registrando e saudando a trajetória do “poetinha” por estas plagas terrenas. O agora membro da “Academia Celeste de Letras” deixou um legado de singeleza e sarcasmo, de franqueza e deboche, numa longa bibliografia de poesia e prosa iniciada com “A Rua dos Cataventos”, em 1940.

O multipremiado Quintana, que nos abandonou aos 86 anos, em 5 de maio de 1994, desafiava “a senhora da foice”: “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. O tradutor renomado de Marcel Proust, Voltaire, Virginia Woolf, entre inúmeros outros “best-sellers” estrangeiros, sempre perambulou tranqüilo pela Rua da Praia, em Porto Alegre, nas proximidades de sua segunda casa, a redação do jornal “Correio do Povo”, observando as ruas, esquinas e gente, meio sorumbático, meio lunático, mas atento ao cotidiano, marca de sua escrita.

A saudação, por ocasião dos festejos de seus 60 anos, de autoria de Manoel Bandeira e Augusto Meyer em plena Academia Brasileira de Letras, imortalizou o sentimento brasileiro: “Meu Quintana, os teus cantares/ Não são, Quintana, cantares:/São, Quintana, quintanares. /Quinta-essência de cantares…/ Insólitos, singulares…/ Cantares? Não! Quintanares!(…)”

A herança de Quintana, nos observando lá de cima, pairando sobre as nuvens, o sol e a lua, ao lado do Anjo Malaquias, continua brindando à vida e revelando singularidades em sua vasta obra. Desdenhou os acadêmicos que o rejeitaram por três vezes: “Todos esses que aí estão/ atravancando meu caminho,/ eles passarão…/ eu passarinho!”.

A bibliografia traça a trilha: o “Aprendiz de Feiticeiro”, de “Sapato Florido”, percorre “Na volta da esquina”, junto com “A Vaca e o Hipogrifo” os “Esconderijos do Tempo” perseguindo “O Batalhão de Letras”. “Da preguiça como método de trabalho”, “Porta Giratória” para os “Apontamentos de História Sobrenatural” renasce o “Caderno H”. Sacramentando: “Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”. Quintana permanece alerta, moderno, atento e eterno. Quintana vive…!

Vilson Antonio Romero, jornalista, diretor da Associação Riograndense de Imprensa – e-mail: [email protected]

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