Raul Seixas, o “Monstro Sist” e o conformismo

O sistema – enquanto engenharia social montada para submeter os menos conscientes aos ímpetos dos poderosos – produz seres previsíveis e infelizes, porém conformados: pessoas que praguejam por não gozarem do melhor emprego, por não ganharem os melhores salários, por não comprarem os melhores carros, pelas injustiças… mas é só chegar o final de semana – e seus goles de esquecimento – que tudo fica “globeleza”. Insatisfeitos mas obedientes, aceitam manter o “silencioso desespero” de suas vidas, como dizia Thoreau.
A Arte é um dos presentes dos Céus para chacoalhar as estruturas da sociedade quando seus integrantes se encontram alheios às infinitas possibilidades que a vida proporciona. Raul Seixas (28/07/45 a 21/08/89) foi um desses artistas que fizeram da arte uma espada para combater a hipocrisia e transmitir os valores de liberdade e coragem, que nortearam sua passagem por este planeta.
Com temas irreverentes e profundos e uma ousadia rítmica que unia vertentes distantes como Xaxado e Rock and Roll, a música de Raulzito, como também era chamado, seduziu milhões de fãs pelo “som” e o conteúdo originais. Mais do que palavras bem colocadas, suas letras inspiravam as pessoas a questionarem a ordem estabelecida e a buscarem um caminho alternativo às conveniências do sistema, ou o “Monstro Sist”, como tratava.
A canção “Ouro de Tolo” é uma das obras que condensam o espírito contestador do “Maluco Beleza”.  Versos como “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar” e “Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado” são um tapa na nuca dos reféns da mesmice cotidiana.
O mais impactante para o paradigma vigente, porém, ele deixa para o final: convicto da existência de seres inteligentes provenientes de outros planetas, termina a letra da música com uma provocação inquietante para os que preservam pelo menos um pouco da curiosidade dos grandes homens: “Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador”.
Com todos os seus erros humanos, o baiano Raul Seixas foi um desses raros exemplos de artistas que conseguiram fazer do próprio ofício um instrumento para alertar os que, apesar de todo sofrimento, persistem “bravamente” na zona de conforto. (Na maioria das vezes, é o próprio sistema que se vale da influência da arte para propagar a programação mental que mais lhe convém.) É urgente o surgimento de artistas com a coragem e o talento de Raul Quem sabe assim o algo mais substantivo possa ser feito contra o “Monstro Sist”.

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