Retrato do Brasil canalha

GERALDO HASSE
O Brasil que se faz ouvir e ver na maioria das emissoras de rádio e TV, obrigadas por lei a transmitir a propaganda eleitoral, expõe sem dó a mixórdia cultural que espelha a canalhice dominante. Todos querem fazer parte do circo responsável pela exploração da boa fé do povo mergulhado na ignorância.
A maioria dos candidatos fala em combater a corrupção, gerar emprego e distribuir a renda. Nada mais óbvio.
Examinando as propostas feitas pelos presidenciáveis, salvam-se poucas novidades. Por exemplo, Ciro Gomes (PDT) cresceu nas pesquisas ao sacar o lance de livrar as pessoas do Serasa, no qual estão pendurados mais de 60 milhões — um terço da população ou mais da metade do povo trabalhador.
É uma proposta aparentemente exequível, mas depende de um acordo operacional com os bancos, que não costumam dar pontos sem nós. Ademais, é um lance que pode ser executado por qualquer um, dando como resultado um alívio temporário. Do jeito que a máquina de endividamento funcione, logo o povo estará novamente com a corda no pescoço.
Por isso, a proposta mais importante do ponto de vista sociocultural foi apresentada por Fernando Haddad (PT), que promete a desconcentração da posse dos meios de comunicação — coisa que os governos petistas ensaiaram e não tiveram coragem de fazer, mesmo dispondo de um projeto elaborado pelo jornalista Franklin Martins, que conhece o assunto por dentro.
Evidentemente, o alvo central é a Rede Globo, que combina uma grande competência técnica a uma profunda capacidade de manipulação jornalística, habilidade que se espraia por outros departamentos como os de telenovelas e esportes.
A matriz do problema é que a Globo opera como um complexo cultural que se considera tutor do país, zelador das mentes e explorador dos corações dos brasileiros.
Tamanha distorção não seria tão grave se essa rede sediada no Rio de Janeiro tivesse ideias próprias e/ou independentes.
O pior da história é que a Globo se sente à vontade como agente de ideias alienígenas. A rede não é do tipo vira-lata. É de raça treinada para abanar o rabo aos gurus do famigerado Mercado, que só tem olhos para as roletas viciadas do rentismo favorecedor das cúpulas excludentes.
No programas ditos de jornalismo, somos forçados a assistir a uma matilha de lulus engravatados trabalhando diuturnamente para encher a cabeça dos teleouvintespectadores com algumas ideias prontas, sempre as mesmas. Acostumaram-se a menosprezar a inteligência dos “leitores”.
Enquanto isso, velhos perdigueiros bons de serviços são colocados em programas noturnos onde se resignam a recolher cacos de audiência. Isso quando não precisamos ver goiabeiras dando mangas fora de época.
Verdade que tais espetáculos não são exclusivos da Globo. Outras emissoras operam com o mesmo afã neoliberal, sem demonstrar paciência ou vontade de ouvir os outros lados das histórias, como deveria ser normal na mídia.
Não há dúvida de que o poder da Globo precisa ser diluído entre grupos menores, mas nem isso garante a pluralidade ideológica desejável nos meios de comunicação de um país democrático.
Por isso, é necessário que o povo eleja um presidente consciente de que o domínio globocrático sobre os brasileiros é apenas um dos aspectos mais notórios da desigualdade de oportunidades vigente no país.
Tal como acontece com as redes de rádio e TV, a má distribuição de renda reflete o enorme volume de privilégios expressos na legislação tributária, na posse de terras, no controle dos meios de produção e na acumulação de propriedades em geral, inclusive no volume de aplicações financeiras e depósitos bancários das minorias. Os pobres poupadores de cadernetas estão fora disso.
Sem um retalhamento desses mecanismos de concentração econômica, não se irá longe.
Também é preciso lembrar que nem todo o poder emana da Globo, já que o comando das redes de comunicação está nas mãos de grupos globais que controlam as redes de transmissão de dados.
Claro, Oi, Telefonica e TIM são os nomes dos polvos tentaculares que abusam dos usuários brasileiros sem lhes dar ouvidos ou menosprezando suas queixas, como não acontecia nem na época em que esses serviços eram monopólio estatal exercido pela Embratel.
Os órgãos de defesa dos consumidores e as agências reguladoras da prestação de serviços públicos concedidos têm pouca força diante desses potentados empresariais.
Portanto, não basta implodir legalmente o complexo plim-plim, é preciso reformar diversos itens desse quebra-cabeça chamado Brasil.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O país inteiro é uma zona de cangaço pós-moderno, que corrompe não somente o sentido do público e a dignidade da democracia, mas também implode a solidariedade e o respeito à dignidade humana”.

Tarso Genro, em crônica no Sul21 de 5/9/2018

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