Senhores da morte expandem seus negócios pelo mundo

MARIANO SENNA, de Berlim
No meio do caos há também oportunidade”, Sun Tzu, A Arte da Guerra
Nos tempos de crise é que ocorrem as grandes oportunidades. A ideia é velha, tem mais de dois mil anos. Vem da era em que Buda, Pitágoras e Confúcio iluminavam os caminhos humanos na terra.
Pelas mãos de um estrategista militar chinês (Sun Tzu) virou um clássico da literatura universal, “A Arte da Guerra”, que apropriado pelos gurus do marketing moderno foi transformado em bíblia do deus mercado. E a indústria de armas confirma a validade dessa crença.
Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI – http://www.sipri.org/) o gasto com armamentos aumentou 1% no mundo todo entre 2014 e 2015.
Parece pouco, especialmente considerando que é o primeiro aumento global desde 2011. Mas olhando os números em detalhe, pode-se chegar a uma conclusão bem diferente. O volume total em 2015 calculado pelo SIPRI é de 1,7 trilhão de dólares. Valor dos gastos de governos com suas forças armadas.
Não estão nesse cálculo as exportações e muito menos o contrabando, ou a venda ilegal de armamentos e munições.
Mariano Ilustra_1A Alemanha, por exemplo, um dos principais fornecedores internacionais, dobrou suas exportações de armas no mesmo período. O total recorde chegou a 8 bilhões de dólares, correspondente a um quinto do gasto militar do país.
Curiosamente, um dos principais contratos (U$ 1,3 bilhão) foi assinado com a Grã-Bretanha ainda dentro dos acordos de cooperação comercial da União Européia.
Mais controverso ainda é o negócio com o principal cliente, o Catar. Num contrato de 1,8 bilhão foram vendidos tanques, carros blindados, armamento pesado e munição. O país é conhecido na Alemanha como um dos principais financiadores do chamado “Estado Islâmico”.
A bronca é velha. Há anos o parlamento alemão se debate a cada novo pedido para exportação feito pelas fabricantes do país. A legislação alemã é considerada a mais rígida do mundo na questão. Para cada encomenda é necessária a aprovação do Bundestag, que raramente nega um pedido. Tudo em nome da prosperidade econômica interna.
Quem se mete na questão acaba defenestrado, e por meios oficiais mesmo. O tal lobby da indústria de armas tem tentáculos para muito além do legislativo.
Fora a doação para campanhas eleitorais, empresas como a Heckler & Koch (HK)  mantém uma equipe de advogados e contatos no judiciário que inibem qualquer um que ouse meter-se em seus negócios.
Foi o que aconteceu com o jornalista investigativo Jürgen Grässlin e seus colaboradores Daniel Harrich e Danuta Zandberg-Harrich. Em Setembro 2015 eles publicaram o livro “Rede da Morte” pela editora Heyne.
A obra revela como a HK conseguiu a licença para vender milhares de rifles de assalto G36 para compradores suspeitos em regiões de conflito no México.
A documentação envolve funcionários de pelo menos três ministérios (Economia, Relações Exteriores e Defesa), fora executivos da empresa e servidores de autarquias aduaneiras na Alemanha. Laureados com o “Grimme-Preis” pelos filmes que produziram com base no livro para a televisão alemã este ano, os autores acabaram processados pela promotoria pública de Stuttgart, capital do Estado de Baden-Württenberg, sede da empresa.
A acusação é a de ter revelado segredos de negociações comerciais protegidas pela lei. “É uma prova de que a indústria de armas hoje está mais poderosa do que nunca”, avalia Grässlin.
Segundo ele, o poder econômico dessas empresas torna completamente inútil o aparato de controle do Estado. O jornalista lembra do caso de exportações ilegais para a Colômbia, protagonizadas pela Sig Sauer e a Carl Walther em 2010.
Até hoje ninguém foi responsabilizado, reforçando a tradição germânica de encontrar brechas na interpretação das leis para justificar delitos. “Não é surpresa que armas de útlima geração acabem nas mãos de paramilitares, milicianos e terroristas”, conclui Jürgen Grässlin.
 

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