Todo golpe começa antes

PC de Lester
O que caracteriza o golpe contra o governo Dilma não é o processo de impeachment em si. O que caracteriza o golpe é o “conjunto da obra”.
A cooptação de políticos, a manipulação das informações, os vazamentos seletivos de denúncias, a criminalização de determinadas lideranças, enfim um conjunto de iniciativas que configuram um assalto à opinião pública.
Foi assim no último golpe, percebe-se o script nos eventos de hoje.
Em 1964, quando o general Mourão Filho botou as tropas na rua, o golpe já estava vitorioso.
Ele se antecipou, para ficar com os louros de ser o chefe, como fica muito claro no seu Diário de um Revolucionário (LPM, 1978). Acabou alijado no primeiro minuto.
Quando Auro Moura Andrade, presidente do Senado, declarou a Presidência vaga na madrugada de 2 de abril, embora João Goulart ainda estivesse em Porto Alegre, já estava combinado que os jornais dariam em manchete que o presidente havia fugido.
Quando Michel Temer abandona o governo e “vaza” seu manifesto, ele já sabe que a imprensa vai tratá-lo, não como um traidor oportunista, mas como um estadista que apresenta seu programa de salvação do país.
Um comentarista político, que habita o centro dos acontecimentos, escreveu há um mês: “Alguém precisa dizer a Dilma que ela já caiu”. A Rádio Gaúcha, às dez da manhã do domingo do impeachment, já entrevistava Eliseu Padilha como o estrategista vencedor.
Um golpe começa muito antes, demanda muito tempo e dinheiro e não se concretiza sem uma longa conspiração, que envolve operadores profissionais, oportunistas conscientes, omissos por conveniência e, como a cobertura do bolo, uma imprensa competente para o assalto à opinião pública, que dá validade política ao golpe.

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