VÂNIA MÖLLER / Paradoxo da tolerância

Um paradoxo é algo que vai na contramão da opinião geral ou de crenças comuns que uma maioria cultiva sobre determinada coisa, pessoa ou situação. Se é assim, é permissível chamar, também, de desacordo ao que uma multiplicidade de pessoas entende como adequado ou não.

Ser tolerante significa ter flexibilidade para aceitar ações, discursos e fatos contrários aos de suas próprias crenças. E como a tolerância fornece espaço para a existência e ratificação das diferenças, é um ato social essencial para a vivência em grupo. E quanto a isso não restam dúvidas.

Contudo, a tolerância que engloba as formas de liberdade religiosa, moral, política ou social pode e deve ser estancada, na prática, naquelas situações em que a existência humana corre o risco de acabar ou quando algo ou alguém provoca, inegavelmente, sofrimento e medo a outro e deixa evidente os indícios de perda de liberdade. E isso gera um paradoxo.

O filósofo Karl Popper, em seu livro A sociedade aberta e seus inimigos, bem observou que no ambiente social a tolerância sem limites gera o desaparecimento da tolerância, traçando, com isso, o paradoxo da tolerância.

E aqui entramos numa seara delicada, por vezes difícil, e cabe a pergunta: até que ponto devemos ser tolerantes? Qual é o nível máximo que devemos admitir e que se torna um farol para agir contrariamente à tolerância? Uma das conclusões a que se pode chegar é a de que a tolerância não pode e não deve ser aceita se estiver em pauta a liberdade e a tranquilidade de ir e vir e de viver em paz.

E é quando aparecem os desacordos, ou os paradoxos, e a forte indicação de ser importante não cair no excessivo zelo que rege a liberdade de expressar-se ou agir, pois existem, sim, situações em que a tolerância pode gerar atos danosos e incontroláveis. E essas especificidades recebem o nome de paradoxos da tolerância porque se não houver um freio na capacidade de tolerar, haverá, decididamente, amplitude de atitudes que, além de danosas, podem chegar a extremos e a circunstâncias irreparáveis.

Exemplos de comportamentos que não devem ser tolerados são inúmeros, e eles não ficam restritos a atos que acometem corpos, mas se manifestam em palavras, gritos ou mesmo em discursos que podem vir a arruinar mentes. São caracterizados por abusos físicos e morais sofridos no próprio seio familiar, por imposição de comportamentos com o uso da força e que cerceiam movimentos e falas, e aparecem nitidamente em apologias a doutrinas que já demonstraram, pelo terror causado, que não devem tratadas de modo banal.

Temas que ferem a dignidade humana e ultrapassam os limites cabíveis de tolerar devem ser freados e regidos conforme as regras do bem viver. E quando pessoas tentam burlar tais regras e impor comportamentos que não devem ser aceitos, o jeito é deixar a tolerância de lado e dizer: “isso não, e ponto”. E pode e deve ser uma carta a ser tirada da manga, uma ferramenta apta a ser usada em situações que extrapolam e tentam acabar com o que está sacramentado como bom e aceitável para todos.

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Vânia Möller é licenciada em filosofia, dá cursos de argumentação e é criadora do @canaldoargumento (Instagram).

 

 

 

Um comentário em “VÂNIA MÖLLER / Paradoxo da tolerância”

  1. Popper esquece que para excessos existem leis. Por sinal, hoje vemos que determinados “supremos” são admiradores de Popper, pois sequer a Constituição respeitam, bem como esquerdistas e direitistas radicais que parecem acreditar que a morte do inimigo é essencial para a convivência pacífica.

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