Categoria: Cultura-MATÉRIA

  • É o Schaan, agora em romance ecológico

    É o Schaan, agora em romance ecológico

    Geraldo Hasse

    Eis um livro surpreendente. Começa com a capa – tomada pela cabeça negra de uma jaguaruna (cujo desenho não tem autor identificado nos créditos) –, segue com a orelha assinada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil afirmando tratar-se, este romance, de uma obra-prima da
    literatura regional e, logo depois, vem o preâmbulo do
    jornalista-historiador Juremir Machado da Silva dizendo que o leitor encontra neste livro “um rio caudaloso, selva de imagens, (…), enchente de metáforas”.
    O que dizer mais?

    Felizmente, logo no início, o autor Roberto Schaan Ferreira (que não é um estreante, em 2011 ganhou o Açorianos de Narrativa Longa com o romance Por que os Ponchos são Negros) dá uma pista do caminho que vai trilhar. Caminho áspero, selvagem, violento, no qual a divindade se faz representar por um felino invisível. Na primeira de suas 270 páginas, Schaan faz referência ao espaço vasto e o tempo moroso. É seu modo denso de falar do pampa profundo, onde se cria gado sem cercas, graças a seres humanos que se movimentam no lombo de cavalos. Os fabulosos centauros da mitologia gaúcha…
    Como um esgrimista incansável, o ficcionista opera em alta voltagem. A tensão aparece logo na primeira frase do romance: “De repente o cavalo voltou a cabeça para a esquerda, orelhas tesas em direção ao mato”. Em outras palavras, seria o caso de dizer que alguma coisa acontece atrás das árvores, mas somente algumas páginas adiante o narrador voltará a esse episódio-chave. “Isso é onça”, diria um compositor caipira. Já temos leitura suficiente para concluir que o cavalo estava pressentindo o jaguar, ou a jaguaruna, que sempre andará por perto, mas sem mostrar.
    A narrativa é exuberante na descrição de detalhes da paisagem e dos procedimentos no trato com os animais, especialmente os cavalos. A gadaria pasta e os humanos se alimentam de carne bovina. Qualquer semelhança com a gastronomia gauchesca não será mera coincidência. Foi mais ou menos aqui que tudo começou.
    O cenário tem nome: Rincão do Inferno, nas cabeceiras do rio Camaquã.
    No romance não é citada nenhuma cidade, mas quem nasceu na metade sul do Rio Grande acaba percebendo que esse território fantástico fica entre Lavras do Sul, Jaguarão, Pinheiro Machado, Bagé e Piratini, a vila histórica escolhida pelo coronel Souza Netto para proclamar a república, à revelia dos companheiros entreverados em outros locais.
    O autor Roberto Schaan Ferreira nasceu em Passo Fundo mas na juventude campereou à larga no Rincão do Inferno, onde já havia ambientado seu primeiro romance (Por Que os Ponchos são Negros). Agora ele vai mais
    fundo e não parece fora de propósito dizer que Deus Estava Longe, a segunda narrativa longa, é um resgate sentimental de uma paisagem única, quase desconhecida da maioria dos sul-rio-grandenses.
    Leitura fácil como andar em cavalo manso. Por conhecer o terreno, Schaan viaja voluptuosamente para o passado. As terras e os animais têm donos, mas estes não aparecem, mal são nomeados em parágrafos passageiros. À medida que a leitura flui, vai ficando claro que os protagonistas dessa história são os trabalhadores que lutam para sobreviver nesse meio áspero, quase deserto: são capatazes, peões, posteiros, domadores, negros escravos, quilombolas e uma surpreendente índia charrua, que vive e procria com o fugitivo (negro) de uma estância. Nesse lugar não há soldados mas, de vez em quando, aparecem
    grupos de caçadores empenhados em aprisionar negros que fugiram de seus donos e se organizaram em quilombo. Sim, no Rincão do Inferno há pelo menos um quilombo cujos pioneiros, depois de um ano, decidem sair em busca de mulheres, sem as quais a vida transcorria sem graça. Não foi difícil raptar ou propiciar a fuga de algumas escravas sedentas de liberdade.
    O ano das ações iniciais é 1831, mas logo se vê que as datas não importam muito. De repente, os acontecimentos podem estar dentro do chamado período farroupilha, que começou em 1835 e continua até hoje, em eventos oficiais e programas de CTG. Mas para o final do livro, já se fala nos soldados imperiais comandados por um certo Barão até que se ouvem, mal e mal,  os ecos do massacre de Porongos.
    Mesmo com poucos e esquivos personagens, este livro apresenta maior riqueza de detalhes sobre o pampa do que o decantado Don Segundo Sombra, romance do argentino Ricardo Güiraldes sobre a vida campeira
    lançado em 1924 em Buenos Aires. Bueno que apareça no Rio Grande de hoje um escritor capaz de produzir relatos carregados de sentimento telúrico.
    Aos falar da potência das plantas, da força das águas e do poder dos ventos, além de outras minúcias da vida no campo, Schaan produziu um romance ecológico que nos remete a um das maiores obras da literatura brasileira. Quem se lembra do rio Urucuia citado intermitentemente no maior livro de Guimarães Rosa? É um rio pequeno consagrado por personagens que só andam a cavalo nas veredas dos sertões de Minas Gerais. Respeitemos o Camaquã, cujas águas nascidas numa serrania
    inóspita descem ao encontro da Grande Laguna, como Schaan chama a Lagoa dos Patos. É um rio pequeno, de uns 250 km, que ganhou uma nova dimensão graças a essa copiosa narrativa.
    Roberto Schaan Ferreira autografa Deus Estava Longe na praça de autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre, às 18h de terça-feira (14/11), o mesmo dia do massacre dos lanceiros negros no Cerro dos Porongos, em 1844.

  • Combo de arte gratuito ao público: uma ação do Instituto Zoravia Bettiol

    Combo de arte gratuito ao público: uma ação do Instituto Zoravia Bettiol

     O Instituto Zoravia Bettiol montou uma programação especial, com diferentes manifestações artísticas e culturais, para receber o público neste sábado (11/11), das 16h às 20h, na galeria da artista e no jardim que a ornamenta, na Rua Paradiso Biacchi, 109, Ipanema, zona sul de Porto Alegre.

    Prestes a completar 88 anos de idade e esbanjando energia criativa e determinação, Zoravia diz que o evento acontecerá “faça chuva ou faça sol”. A entrada é franca.

    A ocasião servirá também para dar visibilidade às atividades do instituto, congraçar os associados e captar novos sócios. Já dispondo da aprovação do projeto arquitetônico, a instituição agora busca recursos para viabilizar a revitalização de sua futura sede, a Casa dos Leões, na Rua dos Andradas, 507, cedida pela prefeitura e que abrigará o acervo de pinturas, gravuras, desenhos, arte têxtil, arte mural e instalações de Zoravia. Durante o evento, que a artista prefere classificar como “encontro com amigos”, ela estará à disposição para conversar e responder perguntas sobre o instituto.

    Coral da Procergs/Divulgação

    MÚLTIPLAS ATIVIDADES

    Quem usufruir da programação deste sábado poderá não só ver (e ouvir) arte como também fazer atividades artísticas. A presença do coletivo Urban Sketchers será um convite a todos que gostam de desenhar com liberdade da técnica e de acordo com a subjetividade de cada um. É só levar o material de sua preferência e se integrar ao grupo.

    Professora de Artes Elaine Veit / Divulgação

    Uma oficina de caleidociclo, um tipo de dobradura em papel, será ministrada pela professora Elaine Veit, artista visual graduada e licenciada pelo IA/UFRGS, especialista em Expressão Gráfica e em Educação Humanizadora, com 30 anos de experiência em sala de aula. A oficina Tetraedos em Movimento acontecerá das 16h30 às 17h20, com vagas para 10 jovens e adultos. As inscrições devem ser feitas até as 16h15. O material necessário é tesoura, canetas coloridas, cola bastão ou cola branca.

    A atriz Deborah Finocchiaro/ Divulgação

    As conhecidas atrizes da cena porto-alegrense Deborah Finocchiaro e Nora Prado declamarão poesias dos livros A Espessura da Vida, Alma das Flores e Afetos Flutuantes, de autoria de Nora, que falam sobre amor, tempo, memória, guerra e a finitude da vida. Haverá ainda apresentação do coral da Procergs, regido pelo maestro Manuel Abreu

    A atriz Nora Prado/ divulgação

    Na galeria, está aberta à visitação, até 30 de novembro, a mostra Ícones, Pinturas e Acervo de Artistas Brasileiros e Estrangeiros, de Zoravia.

    Outras atrações são os painéis interativos para fotos com Alice e a Rainha de Copas – obras de Zoravia -, banquinhas de venda de delícias e bebidas, loja de suvenires com produtos artísticos e livros do instituto.

    Em frente à galeria, há uma pracinha com parque de brinquedos para crianças, lugar tranquilo, seguro, com pouco trânsito e bastante espaço para estacionar sem custo.

    SERVIÇO

    O quê: Encontro no jardim – atividades culturais e artísticas

    Quando: sábado (11/11), das 16h às 20h

    Local: Galeria e Atelier da artista Zoravia Bettiol

    Endereço: Rua Paradiso Biacchi, 109, Ipanema, zona sul de Porto Alegre

    Entrada franca

    Fone: (51) 3354-2456

  • Schlee volta à Feira como personagem

    Schlee volta à Feira como personagem

    Cinco anos depois de viajar para o outro lado, o escritor Aldyr Garcia Schlee volta à Feira do Livro de Porto Alegre como personagem central de um livro escrito pelo fotojornalista  Luiz Carlos Vaz, seu mais constante parceiro entre 1973 e 2018. Notícias do Schlee, editado pela Ardotempo, é um carinhoso apanhado de crônicas, fotos e lembranças sobre o jaguarense que viveu a maior parte da vida em Pelotas, onde marcou época como jornalista, professor e escritor.

    Com autógrafos marcados para esta quarta-feira (8/11) às 19 horas, o lançamento de Notícias do Schlee” coincide com a última visita de Schlee a Porto Alegre, no dia 3 de novembro de 2018, quando autografou O Outro Lado – Noveleta Pueblera, seu último livro. De volta a Pelotas, precisou ser levado para o hospital. Debilitado por um câncer diagnosticado em 2011, morreu 12 dias depois, em pleno feriado da República.

    Nascido em 22 de novembro de 1934 em Jaguarão, Schlee era estudante de Direito e diagramador do Diário Popular quando ganhou em fins de 1953 o prêmio pelo desenho da nova camiseta da Seleção Brasileira de Futebol, a amarela consagrada como a “Canarinho”. Com apenas 19 anos, ele se tornou uma celebridade nos meios jornalísticos do Rio de Janeiro.

    De volta a Pelotas, passou dois anos desfrutando da fama de artista e negligenciando a vida estudantil. Ao se formar advogado em 1959, já estava apto a abraçar a carreira de professor. Primeiro lecionou Língua Portuguesa e Literatura, depois Direito Internacional Público.
    Paralelamente a essas funções públicas, dedicou-se ferrenhamente à escrita de artigos, crônicas, contos e romances. Sua obra é considerada um marco da literatura do pampa, bioma campestre compartilhado pelo Brasil, o Uruguai e a Argentina.

    Casado com a professora primária Marlene Rosenthal, Schlee teve três filhos: Aldyr,  nascido em 1960; Andrey, em 1963, e Sylvia, 1973, ano em que chegou de Bagé o fotógrafo Luiz Carlos Vaz, autor da primeira foto da caçula Sylvia. Aos 21 anos, Vaz sobrevivia até então como autor de pôsteres de crianças e teve a sorte de ser contratado para trabalhar como fotógrafo da incipiente seção de impressos da jovem Universidade Federal de Pelotas, fundada em 1969. O chefe era o professor Schlee, que estava sendo processado pela Justiça Militar (só seria absolvido na década seguinte). Desde então, os dois sempre trabalharam juntos, tanto que Vaz acabou se tornando “filho adotivo” do casal Schlee, história que nasceu de uma brincadeira de D. Marlene Rosenthal Schlee diante de um visitante algo cerimonioso.

    Os dois, Aldyr e Marlene, faziam sala para um repórter alemão que chegara sabendo tudo sobre o escritor, que se divertia com as perguntas do interrogador. Eis que adentra a sala, sem bater ou tocar a campainha, o Vaz, notório filho de Hulha Negra, ainda distrito de Bagé. Cumprimenta e vai para a cozinha, como se fosse da casa. O repórter quis saber quem era. Marlene brincou: “É filho de outro casamento…”

    O alemão se surpreendeu com a informação que não combinava com sua pesquisa prévia, e quis saber qual dos dois, Marlene ou Aldyr, era o autor do bendito fruto recém-chegado à residência. Os Schlee deram um pouco de corda no repórter antes de esclarecer que Vaz era de fato “filho de outro casamento”, mas era tão próximo que havia se tornado, na prática, um membro extra da família. De fato, ele sempre contou com o apoio dos Schlee no trabalho e nos estudos: além de se formar em Jornalismo, Vaz fez mestrado e doutorado em memória social; e ainda foi professor de comunicação e comentarista de rádio.

    Quando Schlee morreu, Vaz era visto naturalmente como a pessoa certa para escrever a biografia do velho amigo. Ele demorou alguns anos para  se convencer de que possui matéria-prima suficiente para honrar a memória do amigo e chefe. Esbanjando bom humor, lança agora Notícias do Schlee. São mais de 30 capítulos de lembranças. Portador de um arquivo imensurável, Vaz revela-se um ótimo cronista ao mostrar fragmentos da vida do profescritor jaguarpelotense. O livro tem prefácio assinado por Aldyr Rosenthal Schlee, o filho mais velho do personagem.

    Quem aprendeu a apreciar a figura de Schlee como pessoa e escritor tem nesse livro mais um motivo para recordá-lo em alto astral.

  • Gumercindo Saraiva, o caudilho que perdeu a cabeça, chega à Feira do Livro em 3ª edição

    Gumercindo Saraiva, o caudilho que perdeu a cabeça, chega à Feira do Livro em 3ª edição

    Chegaram à feira do livro de Porto Alegre nesta sexta-feira os primeiros exemplares da terceira edição do livro “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” , de Tabajara Ruas e Elmar Bones.

    O livro teve duas edições pela Record, esgotadas, e agora sai pela Editora JÁ.

    O texto é um ensaio jornalístico e literário  sobre o universo pastoril que forjou o Rio Grande do Sul, a partir de uma de suas figuras mais representativas: o caudilho Gumercindo Saraiva.

    Tabajara e Bones  percorreram os caminhos do caudilho, para buscar sua memórias, entender suas motivações, no contexto de uma economia assentada nas estâncias,  na criação e no comércio do boi.

    A dita economia pastoril, cujo pilar era  a propriedade da terra, sobre a qual se reproduzia o boi, fonte de toda a riqueza.

    Arquétipo desse mundo, Gumercindo teve sua cabeça cortada, para provar que ele era mortal. Ao cortar-lhe a cabeça, tornaram-no imortal. Criou-se uma lenda.

    A cabeça de Gumercindo Saraiva está à venda na Feira do Livro, na banca da ARI, na loja virtual da editora e na Amazon. Ou peça ao seu livreiro.

     

  • Com “Gestualle II” em exposição na Galeria Delphus, Marcelo Zanini celebra 60 anos

    Com “Gestualle II” em exposição na Galeria Delphus, Marcelo Zanini celebra 60 anos

    Médico renomado e reconhecido por suas obras de arte abstrata, Marcelo Zanini é o artista do mês de novembro na Delphus Galeria de Arte. Com curadoria de Paulo Amaral, ele inaugura a exposição Gestuale II, na segunda-feira, 06 de novembro, no espaço localizado na Av. Cristóvão Colombo, 1501, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. A exposição marca também os 60 anos do artista, celebrados em 29 de novembro.

    Gestuale II fica na Delphus até o dia 6 de dezembro. A visitação pode ser realizada de segunda à sexta-feira das 9h às 18h45min e, aos sábados, das 9h às 13h. Entrada franca.

    Obra: Scirocco 100X100- 2023.

    “Essa exposição é uma extensão da recente e bem-sucedida mostra individual com 22 obras que o artista apresentou em setembro deste ano na Rodyner Gallery, em Cascais, Portugal”, conta o curador Paulo Amaral, que selecionou 12 obras de grandes dimensões para expor em Porto Alegre. Os quadros mesclam criações recentes do artista e produções históricas que marcam a trajetória de Zanini.

     Obra: Palla 180X160 -2023

    Paulo Amaral explica que o nome Gestuale II foi escolhido para essa exposição por ser um seguimento da recentemente realizada em Cascais e por denotar o amplo gesto que caracteriza as produções do artista. “Seu estilo revela o pintor intuitivo, de pinceladas gestuais fortes, harmônicas, ricas em volume e cores”, complementa.

    Obra ; Dantesco 150X140 – 2022.

    Marcelo Zanini mergulhou na pesquisa do expressionismo abstrato na década de 90, participando de exposições no Brasil e no exterior. Ele concilia o trabalho médico com a pintura e fez de sua clínica uma verdadeira galeria de arte, que também abre espaço para o amplo estúdio onde produz suas obras. “Na medicina eu trabalho com precisão milimétrica, mas na arte abstrata eu exerço a liberdade nos gestos e na profusão de cores”, revela Zanini.

    O próprio artista explica seu processo de produção: “Começo novas pinturas com um sentimento de combate e de curiosidade, deixando a pintura indicar sua direção à medida que acrescento elementos e cores, muitas vezes resultando o inesperado. Algumas das melhores obras que criei surgiram da experimentação ousada e da renúncia a noções preconcebidas. É emocionante ver as diferentes formas e transparências ocorrendo à minha frente durante o processo pictórico”.

    Marcelo Zanini Foto: Tatiana Csordas’/Divulgação

    Em sua primeira exposição individual na Galeria Delphus, o artista do mês Marcelo Zanini convida os visitantes a uma imersão em seu universo abstrato. “Suas obras têm o dom de despertar e provocar no espectador sentimentos múltiplos que vão do assombro ao enternecimento”, conclui o curador Paulo Amaral.

    SERVIÇO

    Gestuale II por Marcelo Zanini
    Curadoria: Paulo Amaral

    Visitação: de 6 de novembro a 6 de dezembro de 2023

    Horários: de segunda à sexta-feira das 9h às 18h45min e, aos sábados, das 9h às 13h.

    Local: Delphus Galeria de Arte, na Av. Cristóvão Colombo, 1501, Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

  • Domingo na praça: dia de celebrar o patrono e sua obra literária

    Domingo na praça: dia de celebrar o patrono e sua obra literária

    O escritor Tabajara Ruas assumiu como patrono da 69ª Feira do livro de Porto Alegre quebrando o protocolo. Considerou desnecessário citar nominalmente as autoridades presentes ao ato de abertura, com exceção ao presidente da Câmara do Livro, Maximiliano Ledur. “Sintam-se todos cumprimentados”, abreviou Taba. Já haviam sido nomeadas pela mestre de cerimônias, Tânia Carvalho.

    Ele preferiu citar as duas pessoas que o ensinaram a ler: sua mãe, Irma Gutierrez, e seu pai, Napoleão Ruas, ambos leitores contumazes, na distante Uruguaiana de meados do século XIX. Tanto é, que deram à prole nomes inspirados em personagens de José de Alencar: Tabajara, Ubirajara, Potiguara, Tapejara e Paraguaçu. Fez mais três agradecimentos nominais: a Lígia Walper, companheira dos últimos 30 anos, e aos filhos do casal, Lucas e Tomás.

    Então Tabajara avisou que de novo não faria o esperado, não diria palavras elegantes e acadêmicas, sobre livros e literatura, “enaltecendo esta arte que ainda faz as pessoas pensarem”. Partiu da realidade: lamentou a guerra fraticida no Oriente, a escalada da ultradireita no mundo, na América e no Brasil, o alinhamento das milícias, as mazelas locais: “A fome, que em nossa cidade está tão presente, com gente desassistida jogada em cada esquina, a parca educação oferecida às nossas crianças, a herança e os resquícios do desgoverno recente, aliado à pandemia, me faz acreditar cada vez mais que quem ler, sabe o caminho”.

    “Se não sabe, pensa, intui, raciocina e acha. Para encontrar o caminho, qualquer caminho, é preciso, sim, ler, pesquisar e pensar”, resumiu o patrono, antes de ler duas antigas crônicas suas sobre a Feira do Livro de Porto Alegre.

    Na abertura da Feira, Airton Ortiz, patrono em 2014 e hoje presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, segreda a Tabajara a palavra ‘mágica’ que só os patronos conhecem e ninguém sabe qual sua utilidade | Ramiro Sanchez/@outroangulo/JÁ

    Tabajara Ruas autografa às 19 horas deste domingo, 29, seu mais recente livro, Você sabe de onde eu venho, sobre a conquista brasileira de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial, lançamento da AGE.

    Mais cedo, às 17h30, o patrono conversa com Hilda Simões Lopes, Letícia Wierzchouwski e Sergius Gonzaga, no Auditório Barbosa Lessa, no Espaço Força e Luz (Rua dos Andradas, 1223), onde receberá amigos e leitores.

     

  • ARI lança no sábado (28) livro de entrevistas póstumas com personalidades do jornalismo gaúcho

    ARI lança no sábado (28) livro de entrevistas póstumas com personalidades do jornalismo gaúcho

    A Associação Rio-grandense de Imprensa realiza o lançamento do livro “Entrevistas póstumas: eles deixaram as respostas. Nós fizemos as perguntas” neste sábado, 28 de outubro, às 18 horas, em sessão de autógrafos na 69ª Feira do Livro de Porto Alegre, no Auditório do Memorial do RS (Praça da Alfândega s/n). O evento terá a presença dos jornalistas que participaram da obra, com o objetivo de homenagear o talento de profissionais gaúchos que se destacaram no Jornalismo e na Literatura.

    O livro “Entrevistas póstumas: eles deixaram as respostas. Nós fizemos as perguntas” é uma obra coletiva, idealizada a partir de um trabalho realizado pela ARI, em 2021, durante a Feira do Livro daquele ano. Na ocasião, para marcar o cinquentenário da morte de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foram convidados 50 jornalistas de todo o Estado para que cada um elaborasse uma pergunta que se encaixasse em “respostas” previamente selecionadas a partir do vasto conteúdo deixado pelo Barão. Esta entrevista coletiva foi publicada em três páginas no Jornal do Comércio e abre a coletânea do livro que está sendo lançado pela ARI

    Além do Barão de Itararé, o livro traz entrevistas com Augusto Meyer, Barbosa Lessa, Caio Fernando Abreu, Carlos Nobre, Erico Verissimo, Josué Guimarães, Lara de Lemos, Lya Luft, Mario Quintana, Moacyr Scliar, Paulo Sant’Anna, Sergio Jockymann e Simões Lopes Neto. A obra tem apresentação do presidente da ARI, José Nunes, prefácio de Luís Augusto Fischer e ilustrações de Celso Schroeder. A jornalista Cláudia Coutinho, primeira vice-presidente da ARI, assina a edição, e Luiz Adolfo Lino de Souza, presidente do Conselho da entidade, responde pelo projeto gráfico. O time de jornalistas que realizaram as entrevistas é formado por Antonio Czamanski, Antônio Goulart, Flávia Cunha, Flávio Dutra, Jurema Josefa, Magali Schmitt, Marco Antônio Villalobos, Nilson Souza, Patrícia Lima, Tatiana Gomes, Thamara Costa Pereira e Vera Guimarães.

    “Aqui não há figuras irrelevantes: são todos escritores próximos ao mundo do jornalismo, todos nascidos aqui na ponta sulina do país, todos já falecidos. O truque foi tomar o depoimento a partir de fontes escritas, em jornais e livros, num recorte que faz reviver o escritor, o jornalista, eventualmente o militante de uma causa”, escreve Luís Augusto Fischer no prefácio da obra. “Este livro é, sem dúvida nenhuma, um marco para a literatura sul-rio-grandense, especialmente para conhecer um pouco do que escreveram e disseram em suas tantas entrevistas”, destaca o presidente da ARI, José Nunes.

  • João Carlos Bento mostra 20 anos de pintura, com 40 quadros, na Galeria Bublitz

    João Carlos Bento mostra 20 anos de pintura, com 40 quadros, na Galeria Bublitz

    Galeria Bublitz apresenta mostra retrospectiva do artista e arquiteto, com vernissage no dia 28 de outubro.

    Uma exposição histórica do artista João Carlos Bento vai ocupar a Galeria Bublitz. É a mostra “20 anos de pintura”, uma retrospectiva do aclamado porto-alegrense que leva obras emblemáticas de sua trajetória para esse espaço tradicional de arte no Estado. O vernissage será realizado no sábado, 28 de outubro, das 10h às 13h, na Galeria Bublitz, localizada na Av. Neusa Goulart Brizola, 143, em Porto Alegre. São 40 obras do artista, que poderão ser conferidas no local até o dia 28 de novembro. Entrada franca.

    “A arte está presente na minha vida desde sempre, no início de forma amadora e a partir de 1978, de forma acadêmica, após a formatura no Instituto de Artes da UFRGS”, relata João Carlos Bento. A expressão de sua arte começou em desenhos e gravuras, em preto e branco, mas em 2003 um fato marcou o início de uma nova fase, que acabaria sendo sua marca-registrada. “Há 20 anos, fui convidado para fazer uma assessoria na escolha de pintores e artistas de uma galeria em Goiânia. Foi aí que conheci Siron Franco e foi ele quem despertou em mim a curiosidade para a pintura”, revela.

    AST 100 X 100 11-2015

    Para a mostra, João Carlos Bento vai destacar seus florais, que tanto encantam gaúchos e o público apreciador de arte no país.  E vai apresentar uma novidade, com três pinturas abstratas, que compõem uma nova fase de sua trajetória. “Com o retiro da pandemia, abri espaço para o abstrato, que tanto adoro, em uma técnica avançada em acrílica sobre tela”, detalha.

    O pintor e arquiteto João Carlos Bento – Foto: Sergio Vergara/ Divulgação

    Com uma trajetória de exposições em diversas galerias no Brasil e no exterior, como uma mostra individual no Centro Cultural de Saverne, na França, em 2016, João Carlos Bento também faz parte da história da Galeria Bublitz, que completa 35 anos em 2023. “É uma honra para nós recebermos uma retrospectiva do artista, que exibiu algumas de suas primeiras pinturas em mostras individuais na galeria em 2004 e em 2006 e esteve presente também em cinco exposições coletivas, a mais recente, quando comemoramos 30 anos de arte, em 2018”, recorda o marchand Nicholas Bublitz.

    Obra de João Carlos Bento/ Divulgação

    João Carlos Bento: 20 anos de pintura
    Local: Bublitz Galeria de Arte
    Endereço: 
    Av. Neusa Goulart Brizola, 143
    Período: 28 de outubro a 28 de novembro
    Vernissage: sábado, 28 de outubro, das 10h às 13h
    Visitação: 
    segundas às sextas, das 10h às 18h, e sábados, das 10h às 13h.

  • Tabajara Ruas: o autor e o personagem, oitenta e um invernos depois

    Tabajara Ruas: o autor e o personagem, oitenta e um invernos depois

    Aos 81 anos, comemorados em agosto, Tabajara Ruas chega à 69a Feira do Livro de Porto Alegre, da qual é patrono, com um lançamento, três reedições,  um roteiro de filme e muitos projetos. Consagrado autor, personifica o escritor cioso do seu ofício.     

    GERALDO HASSE

    O escritor Tabajara Ruas lança neste final de ano, pela Editora AGE, Você Sabe de Onde eu Venho, livro de 300 páginas sobre a conquista brasileira de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial.

    Trata-se de uma nova narrativa sobre a participação brasileira na luta contra o nazismo. “É uma versão ampliada de um folhetim que escrevi anos atrás para o jornal Zero Hora”, explica o autor nascido em Uruguaiana em agosto de 1942, os mesmos mês e ano da entrada do Brasil na guerra.

    O título do livro vem do primeiro verso do longo poema de Guilherme de Almeida transformado pelo maestro Spartaco Rossi no Hino do Expedicionário, que exalta as paisagens de onde saíram os 25 mil soldados brasileiros enviados à Europa. É quase impossível não arrepiar-se ao ouvir o resultado dessa parceria nacionalista de larga abrangência geográfica. Fala do pampa e dos cafezais, do engenho e dos canaviais. A vitória final ocorreu em 21 de fevereiro de 1945, após três meses de cerco para desalojar os inimigos alemães entrincheirados na montanha coberta de neve, a 60 quilômetros de Bolonha, no norte da Itália. Nos combates morreram 451 “pracinhas” sepultados no cemitério da vizinha cidade de Pistoia.

    A GUERRA COMO TEMA

    Um novo livro sobre ocorrências da última guerra mundial é mais uma prova do apelo que os temas bélicos exercem sobre Tabajara Ruas.

    Ele aprendeu a falar quando ainda se ouviam pela Voz do Brasil as dramáticas notícias sobre os combates na Europa. Fora isso, é bom lembrar que a fronteiriça Uruguaiana sempre esteve nas ordens-dos-dias militares desde que foi invadida e ocupada pelo exército do Paraguai em 1865, quando o imperador Pedro II esteve lá para os devidos fins.

    E nem é preciso falar das revoluções intestinas de 1893, 1923 e 1932 para entender o estado de espírito dos nativos dessa cidade, militarizada (Exército, Marinha e Brigada Militar) para vigiar inimigos estrangeiros e contrabandistas de combustíveis, pneus e outras mercadorias.

    Não se pode cravar que Tabajara Ruas seja o fruto mais original dessa conjuntura armada, mas os fatos estão aí: aos 81 anos, ele se fez reconhecer e consagrar como autor de livros e filmes que focalizam sobretudo atividades guerreiras de figuras históricas como os generais Antonio de Souza Netto, Bento Gonçalves e Davi Canabarro, além dos civis Giuseppe Garibaldi e Gumercindo Saraiva — personagens que descobriu aos poucos, à medida que lia, estudava, discutia e comparava narrativas, que não rejeitam a imaginação para preencher lacunas entre os fatos. Sua conclusão final é que, por conta de manipulações politiqueiras, “a mitologia é mais firme do que a História”, como consta em depoimento seu à segunda edição do livro Lanceiros Negros (JÁ, 2006). Para poder exercitar-se sem hesitações no terreno da ficção, ele sempre leu livros de História a fim de desvendar contradições, manipulações e sofismas em torno dos fatos. “Eu gosto muito de História, mas sou ficcionista”, eis sua profissão de fé no ofício de escritor.

    PATRONO

    Em 2023, Tabajara Ruas é o patrono da  69a Feira do Livro de Porto Alegre, o maior evento cultural da capital.

    Aproveitando a visibilidade, além do lançamento de Você Sabe de Onde eu Venho, estão sendo reeditados: Os Varões Assinalados e O Amor de Pedro por João, dois dos seus livros mais lidos, ambos pela L&PM. Pela JÁ Editora, sai  A Cabeça de Gumercindo Saraiva, em coautoria com Elmar Bones, um ensaio-reportagem sobre o caudilho que apavorou a República na guerra de 1893.

    O tema do primeiro é a Guerra dos Farrapos. Ele conta a gênese da obra: “Eu estava em Portugal quando li um livrinho do Alfredo Varela, o autor da história da “grande guerra” sulina contra o Império do Brasil em meados do século XIX”.

    Ao voltar para o Brasil, em 1981, mergulhou na leitura da coleção completa de Varela (seis volumes, alguns com 800 páginas), ganhando coragem para escrever o romance épico-varonil que, na literatura gaúcha, só encontra paralelo em Érico Verissimo.

    A primeira versão de Os Varões saiu como folhetim no jornal Zero Hora. Os primeiros capítulos saíram no primeiro semestre de 1985, o desfecho foi no 20 de setembro, o dia da proclamação da República Rio-Grandense, em 1836.

    Para Ruas, não há como negar que a controvertida guerra dos farrapos buscava a liberdade – os caudilhos tentando se libertar do jugo imperial e os soldados negros querendo deixar de ser escravos.

    Segundo o romancista Luís Antônio de Assis Brasil, as 550 páginas do romance de Ruas constituem a obra definitiva sobre a revolução farroupilha. Nele, o ficcionista revela-se um exímio montador de diálogos, habilidade fundamental na elaboração de roteiros de cinema. Apesar de sua densidade e envergadura, Os Varões não é o favorito do autor.

    FUGINDO DA DITADURA

    “Meu melhor livro é este!”, afirma, apontando o novo volume recém-impresso de O Amor de Pedro por João. Trata-se de um romance sobre a busca da liberdade sob o sufoco da ditadura militar, motivo de sua saída clandestina do Brasil em 1971.

    Não é obra autobiográfica, embora romanceie episódios vividos ou presenciados por ele na vida estudantil e na luta pela sobrevivência fora do Brasil.

    Em depoimento ao JÁ, Ruas contou como deixou o Brasil. Compartilhava com mais três colegas uma república estudantil, cursava Arquitetura na UFRGS e trabalhava num escritório onde desenhava plantas. Vida espartana com seguidos sobressaltos de origem política: sem ser um militante exaltado, participava da Ação Popular, organização que combatia o governo, mas não aderiu à luta armada contra o regime militar.

    Em pleno período dos “anos de chumbo”, o apartamento no segundo andar de um predinho no bairro Auxiliadora foi denunciado por vizinhos incomodados com o barulho e o entra-e-sai de estranhos que se hospedavam ali por uns dias e logo seguiam viagem para onde ninguém podia saber.

    Um dia, no rastro de uns panfletos políticos, a polícia chegou e prendeu o mais sereno dos moradores, o poeta Nei Duclós, outro nativo de Uruguaiana, militante do jornalismo. Tabajara escapuliu por uma janela e “evadiu-se do local” só com a roupa do corpo, sem carregar nenhum pertence. Por alguns dias abrigou-se na casa de conhecidos no vale do rio dos Sinos, onde se convenceu de que não teria alternativa senão fugir para o Uruguai, mas sem correr o risco de expor-se na estação rodoviária ou dentro de um ônibus para alguma cidade da fronteira. Salvou-o a ajuda emergencial do jornalista santanense Jorge Escosteguy (1946-1997), que lhe arranjou uma carona discreta num carro da reportagem do jornal Zero Hora que cumpriria pauta jornalística em Livramento.

    Depois de uma viagem tranquila, o motorista o deixou numa rua do centro da cidade. Mal desembarcou, caminhou até atravessar a avenida que separa o Brasil do país vizinho. Livre em Rivera, nem pensou em ir para Uruguaiana, pois sabia que a casa paterna estava vigiada. Foi parar em Paissandu, onde – quase arquiteto – trabalhou por cerca de dois meses na construção civil.

    Dali atravessou o rio Uruguai e entrou na Argentina por Concepción, de onde se deslocou para Buenos Aires e, logo depois, para o Chile, onde muitos brasileiros torciam pelo governo de Salvador Allende. Foi morar em Valparaíso, onde obteve um emprego regular numa fábrica de móveis que soube aproveitar muito bem seus conhecimentos de arquitetura.

    Em 11 de setembro de 1973, o dia do bombardeio do palácio presidencial que marcou a morte de Allende e o início da ditadura do general Augusto Pinochet, Tabajara estava casualmente em Santiago. Para não ser preso junto com outros brasileiros, decidiu buscar refúgio numa embaixada. Boca braba. A oportunidade surgiu na frente do casarão da representação diplomática da Argentina. Ele ficou na avenida com um grupo de pessoas que observavam o movimento. De repente, quando o portão se abriu para a passagem de um carro, ele arrancou e entrou correndo no espaço diplomático argentino, ignorando os gritos de protesto dos guardas. Assim conseguiu asilo político. Dali foi levado para Buenos Aires, onde viveu até obter asilo na Dinamarca. Foi a partir daí que se empenhou em realizar o ideal de escrever. Seu primeiro livro, A Região Submersa, foi um policial publicado originalmente na Dinamarca e em Portugal. O personagem principal é o detetive Cid Espigão. Só depois veio O Amor de Pedro por João, cuja história começa dentro de uma embaixada.

    ESCRITOR NO EXÍLIO

    “Desde pequeno eu queria ser escritor”, diz ele. Admirou inicialmente Érico Verissimo de O Continente. Depois passou a apreciar americanos como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Por fim se ligou nos narradores latino-americanos Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Márquez, Juan Rulfo, Mario Vargas Llosa, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. No meio de tantos gênios, apareceu um divisor de águas: Juan Carlos Onetti, uruguaio que ele só foi conhecer graças ao jornalista Danilo Ucha (1946-2016). Com a autossuficiência típica dos santanenses, Ucha baixou numa mesa de café em Porto Alegre com um livro do ídolo a quem acabara de entrevistar em Montevidéu, no final dos anos 60.

    “Nunca vou esquecer a pose de Danilo Ucha observando nosso silêncio de fim de mundo”, escreveu Ruas, em relato sobre o impacto da descoberta dos fascinantes escritos do ícone da literatura uruguaia. Ruas considera Onetti um especialista na elipse – a arte de contar apenas o necessário, deixando ao leitor o direito de imaginar o restante.

    Por aí sabemos que Tabajara Ruas bebeu em várias fontes para poder se tornar não apenas escritor, mas roteirista e diretor de cinema. Dublê de escritor e cineasta, ele se configurou como um caso único no Rio Grande do Sul. Poderia ter se contentado com o trabalho como arquiteto, redator de releases, jornalista folhetinista, escritor. Foi muito além. Ao abraçar o cinema, colocou-se em condições de fundir duas expressões artísticas, uma milenar, outra secular.

    “Quis fazer cinema para realizar talvez a fantasia da nossa geração”, disse em 2023 em depoimento ao Jornal do Comércio. A geração em tela é aquela que frequentou a universidade nos anos 60 e fez passeatas contra a ditadura militar enquanto curtia filmes brasileiros e estrangeiros discutidos e analisados calorosamente em bares e repúblicas dos arredores do campus da UFRGS. Entre outros, Ruas gostava do baiano Glauber Rocha, do americano John Ford e do inglês David Lean, que dirigiu o épico “Lawrence da Arábia”. Sempre prestou atenção no modo como eram feitos os filmes de faroeste, de guerra e de mistério. Com orçamentos apertados e recursos escassos, chegou a fazer filmes com centenas de figurantes armados e montados a cavalo, contando com a ajuda de unidades da Brigada Militar e o apoio entusiástico de Centros de Tradições Gaúchas. Proezas de um esquerdista sem preconceitos ideológicos.

    Se tudo correr bem, essa carreira integrada livros-filmes seguirá adiante com a filmagem de “O Fascínio”, novela de sua autoria que narra a história de um advogado que, disposto a receber uma herança, viaja de camioneta de Porto Alegre para a fronteira com a Argentina. Desnecessário dizer que é ficção sem viés autobiográfico. O roteiro está pronto. Falta arranjar os recursos financeiros, mas está definido que o codiretor será seu filho Tomás Walper Ruas, 21 anos, estudante de cinema na UFSC que desde criança acompanha a carreira cinematográfica dos pais. Este ano, Tomás estreou oficialmente como codiretor de “Edifício Bonfim”, longa rodado em Florianópolis sob o comando de Ligia Walper, sua mãe. Além de “Edifício Bonfim”, a Walper Ruas Produções está montando “Perseguição e Morte de Juvêncio Gutierrez”, baseado no livro de Tabajara ambientado em Uruguaiana. Os dois filmes serão lançados em 2024.

    Há outros projetos de longo prazo cuja realização depende da obtenção de recursos. Tabajara espera baixar a poeira da Feira do Livro para se dedicar a novos textos. Confessa sentir-se “travado” desde que contraiu o vírus da Covid em 2021, quando trabalhava na pré-produção de Juvêncio Gutierrez em Uruguaiana. Natural na idade, mas ele não se conforma com os lapsos de memória que interrompem suas conversas. Fora disso, sua saúde não o preocupa. Ainda assim, não disfarça certa a ansiedade às vésperas de protagonizar um dos momentos de maior ‘glamour’ a que pode chegar um militante das letras do Rio Grande do Sul.

    Após meio século de escrita, ostenta um cartel de uma dezena livros, meia dúzia de filmes e a disposição de aprofundar-se nas duas atividades principais de uma carreira profissional sem paralelo no Sul do Brasil. Ainda que seus leitores e espectadores não conheçam detalhes de sua vida, ele explica sem rodeios sua origem. Foi o segundo de uma penca de cinco irmãos, todos batizados com nomes compostos. “Meu nome completo é Marcelino Tabajara Gutierrez Ruas. Meu pai usou a mesma nomenclatura dupla para seus cinco filhos. Pela ordem: Ubirajara, Tabajara, Tapejara, Potiguara e Paraguaçu. Além de mim, o único vivo é o caçula, que se chama Francisco Paraguaçu, mas é conhecido por Chico. Mora em Porto Alegre”.

    Enquanto o pai, Napoleão, morreu com mais de 70 anos, a mãe, Irma Gutierrez, viveu até os 98 anos. O sobrenome materno levou muita gente a supor que a história narrada no livro e no filme Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez seria autobiográfica. Negativo. Tabajara esclarece que havia sim em sua família um tio chamado Juvêncio Gutierrez que nada tinha a ver com as atividades correntes em Uruguaiana. Ele era ferroviário em Alegrete. Seu nome evoca a primitiva genealogia sulina, com sua sonora mescla de ascendências luso-espanholas.

    Embora ambientada em Uruguaiana, Juvêncio sintetiza uma história típica da fronteira, onde é forte a tradição do contrabando, pano de fundo dessa ficção. O autor-diretor explica: “Eu fiz questão de recriar o contexto da minha infância/adolescência na cidade onde vivi até os 17 anos. Eu morava perto do rio Uruguai, a poucos metros do Colégio Santana. O narrador da história é um menino de 13 anos que estava abrindo os olhos para as coisas da vida. Tanto embaralhei histórias de amigos e colegas que dois deles vieram me perguntar quem era quem no livro”. Claro que o autor aproveitou para deixá-los mais em dúvida ao brincar sobre as habilidades de ambos no futebol.

    Eis aí um aspecto revelador da personalidade desse ficcionista que, de tanto escrever e fazer filmes, acabou por alcançar a dimensão de um personagem. Cabe lembrar aqui que o inefável Taba é multimídia capaz de atender a demandas extraordinárias. Em 2012, por exemplo, deu um curso sobre preparação de roteiros para vinte candidatos a escritor em Curitiba. Em 2009 foi convidado a participar de um seminário sobre “Os Anos de Onetti na Espanha”, organizado pelo Núcleo de Estudos sobre Onetti mantido na Universidade Federal de Santa Catarina. Eram 15 acadêmicos cujas conferências foram reunidas em livro editado pela editora Letras Contemporâneas. O único estranho no ninho de acadêmicos era Tabajara Ruas. Coube a ele ler uma crônica singela sobre como se encantou com a leitura de livros de Onetti no final dos anos 1960 em Porto Alegre e, depois, em Paissandu, onde acabou por concluir que seu fervor literário era maior do que o ardor revolucionário. É o texto mais fluente da coletânea, na qual consta também um belo ensaio do escritor uruguaio Carlos Liscano (então diretor da Biblioteca Pública de Montevideo) sobre o sonho de quem escreve.

    “Todo escritor é um personagem inventado pelo indivíduo que quer ser escritor. (…) O processo de invenção, no melhor dos casos e com sorte, ocorre ao redor dos trinta anos”. Segundo Liscano, Onetti lutou por isso desde a juventude. E chegou lá.

    Sua engenhosa teoria pode aplicar-se a outras personagens. No Uruguai, também chegaram ao patamar mais elevado escritores como Eduardo Galeano e Mario Benedetti. No Rio Grande do Sul, alcançaram esse status alguns como Érico Verissimo, Mário Quintana, LF Veríssimo, LA Assis Brasil e Sergio Faraco. Nessa constelação de estrelas da literatura pode se encaixar o mais profícuo escritor da margem oriental do rio Uruguai. Mesmo tendo atravessado 81 invernos, ele mantém o afã. E conserva o visual da juventude. Embora a barba esteja quase toda branca, como acontece com a maioria dos velhos, não perdeu a cobertura capilar. O cabelo grisalho continua caído para o lado direito. Nem boné usa. Chapéu também não. Capa, de vez em quando, como se viu durante as filmagens de “Senhores da Guerra”, o livro de José Antônio Severo (1941-2021) sobre os irmãos Bozzano, que se colocaram em lados opostos em conflitos armados em 1924. Não falta nada para Tabajara Ruas virar lenda.

  • Artistas visuais homenageiam escritores gaúchos na segunda edição da mostra “Autorias”

    Artistas visuais homenageiam escritores gaúchos na segunda edição da mostra “Autorias”

    Mostra Autorias, no Correios, reúne pinturas, desenhos, bordados, colagens, escultura e história em quadrinhos

     A segunda edição de Autorias, mostra em que artistas visuais do Rio Grande do Sul retratam escritores gaúchos, será aberta no sábado (28/10), às 11h, no Espaço Cultural Correios, como parte da programação da 69ª Feira do Livro de Porto Alegre. A visitação às obras, assinadas por nomes consagrados e por novos talentos das artes no Estado, prosseguirá até 2 de dezembro.

    No total, 43 artistas homenageiam 51 escritores. Desse universo, é inédita a presença de 25 artistas e de 25 autores. Entre os artistas que participam pela primeira vez de Autorias estão, por exemplo, Maria Tomaselli, Clara Pechansky, Edgar Vasques, Leandro Machado, Lucas Strey, Paulo Chimendes, Marcos Porto e Pablito Aguiar; e entre novos escritores homenageados com seus retratos aparecem Jeferson Tenório, José Falero, Carpinejar, Alcy Cheuiche, Taiasmin Ohnmacht, Armindo Trevisan, Lila Ripoll e o patrono da feira, Tabajara Ruas, além de outros. (Veja a relação completa dos participantes no final do texto.)

    A primeira edição da mostra Autorias foi realizada na Galeria Escadaria, no Viaduto Otávio Rocha em 2021/  Divulgação

    A primeira edição de Autorias foi realizada na Escadaria da Borges de Medeiros, simultaneamente à Feira do Livro de 2021. As obras dos 18 artistas de então, entre eles Erico Santos, Beatriz Balen Susin, Gilmar Fraga, Liana Timm e Ubiratan Fernandes, também estarão nos Correios na forma de retratos de Erico Verissimo, Mario Quintana, Simões Lopes Neto, Caio Fernando Abreu, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar, Lya Luft e de outros escritores.

    A exposição na Escadaria foi a primeira a exibir telas no espaço a céu aberto. O único dano não foi causado por intempérie: vândalos picharam e rasgaram por três vezes o retrato de Luis Fernando Verissimo, mas a obra foi restaurada e mantida até o encerramento da mostra. Depois, houve, ainda, um ato de desagravo a LFV.

     Ampliada e inclusiva

    Autorias – II chega agora ao Correios ampliada, inclusiva e plena de diversidade. Há um equilíbrio na participação de homens (48) e mulheres (46). Entre os homens, 23 são artistas e 25, escritores; entre as mulheres, 20 são artistas e 26, escritoras; 11 escritores e nove artistas são negros. A escritora indígena Vãngri Kaingáng é retratada pelo artista negro Alisson Affonso. A artista trans Marcela Meirelles é autora do retrato da feminista Clara Averbuck.

    As obras contemplam não apenas a pintura e o desenho, mas outras manifestações da arte do retrato, como bordado, colagem, escultura em papelão e história em quadrinhos.

    A artista Graça Craidy, que também é curadora e organizadora da mostra, diz que o objetivo é democratizar o acesso à arte e à literatura. “Queremos contribuir para que o público conheça os tradutores da cultura, nas letras e nas tintas, se veja nas suas narrativas e tenha orgulho da sua história colhida no cotidiano e transformada em arte”, declara ela.

     

    No texto de apresentação de Autorias, Graça reflete: “O que seria de um povo se, entre sua gente, não surgissem amoráveis prosadores dos seus enredos, mapeadores delicados dos seus anseios, tradutores generosos dos seus delírios, derrotas, renascimentos, paixões? A história de um povo é, também, além dos fatos, a história da sua imaginação, do quanto acalenta quereres, em que infernos se incandesce, com que valores constrói a tessitura dos seus sonhos”.

    SERVIÇO

     Exposição Autorias – II

     Local: Espaço Cultural Correios, no andar térreo do prédio do Memorial do RS, na Praça da Alfândega. Acesso pela lateral, na Av. Sepúlveda

     Abertura: 28 de outubro (sábado), às 11h

     Visitação: até 2 de dezembro

     Horário: No período da Feira do Livro, das 10h às 20h

    Entrada gratuita

     Os artistas e os respectivos autores retratados

     

    Adroaldo Selistre – Armindo Trevisan

    Alfeu Viçosa – Carpinejar

    Alisson Affonso – Vãngri Kaingáng

    Maria Carpi
    Assis Brasil

    Beatriz Balen Susin – Maria Carpi e Luiz Antonio de Assis Brasil

    Bernardete Conte – Simões Lopes Neto

    Carla Magalhães – Juremir Machado da Silva

    Clara Pechansky – Lila Ripoll

    Deja Rosa – Lilian Rocha

    Edgar Vasques – Rafael Guimaraens

    Emanuele de Quadros – Luisa Geisler

    Erico Santos – Lya Luft e Moacyr Scliar

    Fernando Lima – Tania Faillace

    Gilmar Fraga – Erico Verissimo e Carol Bensimon

    Giovana Hemb – Christina Dias

    Graça Craidy – Marô Barbieri e Dyonélio Machado

    Gustavo Burkhart – Luis Fernando Verissimo

    Gustavot Diaz e Ise Feijó – Caio Fernando Abreu

    Gustavo Schossler – Fernanda Bastos

    Helena Stainer – Cintia Moscovich e Cyro Martins

    Leandro Machado – Jorge Fróes

    Leandro Selister – Tabajara Ruas

    Liana d’Abreu – Lélia Almeida

    Liana Timm – Eliane Brum e Mario Quintana

    Lucas Strey – Ivo Bender

    Marcela Meirelles – Clara Averbuck

    Márcia Baroni – Maria Dinorah

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    Marcos Porto – Jeferson Tenório

     

    Maria Tomaselli – Marcia Tiburi

    Mario Schuster – Alcy Cheuiche

    Mariza Carpes – Leticia Wierzchowski

    Mitti Mendonça – Taiasmin Ohnmacht

    Nara Fogaça – Martha Medeiros e Josué Guimarães

    Ondina Pozoco – Ana Dos Santos

    Pablito Aguiar – José Falero

    Paulo Chimendes – Eliane Marques

    Paulo Correa – Maria Helena Vargas

    Pena Cabreira – João Gilberto Noll e Claudia Tajes

    Sandra Lages – Natalia Polesso

    Thiago Quadros – Sergio Faraco

    Ubiratan Fernandes – Jane Tutikian e Oliveira Silveira

    Wagner Mello – Ronald Augusto

    Zupo Opuz – Tau Golin