CNI diz que Brasil transforma-se na roça do mundo

Uma patética entrevista do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Doellinger, provocou a ira do combalido setor industrial brasileiro. Ele defendeu no jornal Valor Econômico, entre outras sandices, a desindustrialização em favor de maior foco em segmentos nos quais o Brasil seria mais competitivo, como agricultura e mineração.

Doellinger é economista indicado ao Ipea pelo ministro Paulo Guedes e segue cegamente a atual política econômica do governo brasileiro, que é fruto de mitos e de um liberalismo anacrônico de Chicago dos anos 1960. Lamentavelmente comanda um dos mais antigos e renomados órgãos de estudos e análises econômicas do país.

Em nota, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, falando também pelas 70 associações do Fórum Nacional da Indústria, disse que não estava subestimando a importância dos setores agrícola e mineral. “Mas o fato é que o Brasil se transformaria em uma roça, a fazenda do mundo, exportando apenas commodities e matérias-primas, assim como empregos de qualidade, para as economias mais desenvolvidas”, completou.

Para Andrade, a afirmação de Doellinger se compara ao preceito defendido pelo Visconde de Itaboraí, no século XIX, de que ao Brasil “bastava exportar café”, numa tentativa de impedir o Barão de Mauá de levar adiante seu esforço pioneiro de industrialização do país. Irineu Evangelista de Sousa – (1813-1889), gaúcho de Arroio Grande, foi um símbolo dos empreendedores brasileiros do século XIX, perseguido pelo imperador Dom Pedro II e os barões da aristocracia rural que o cercavam.

Outro exemplo é o período do marechal do Exército Eurico Gaspar Dutra, presidente do Brasil entre 1946 e 1951, que assumiu depois do golpe de estado que derrubou o governo nacional-desenvolvimentista de Getúlio Vargas da presidência, em 1945. Vargas liderou a Revolução de 1930, que pôs fim à chamada República Velha, comandada pelas oligarquias rurais, abrindo espaço para a industrialização do Brasil.

Segundo Nelson Werneck Sodré, no livro História da Burguesia Brasileira, o governo Dutra foi a clara afirmação dos laços de dependência com o imperialismo e período em que a economia de exportação buscaria retomar a sua predominância sobre a de mercado interno.

Juscelino Kubitschek de Oliveira, político mineiro que ocupou a Presidência da República entre 1956 e 1961, deu mais importância ao “desenvolvimentismo” do que o “nacional”, de Getúlio Vargas, e abriu as portas para as montadoras de veículos multinacionais se instalarem no Brasil, impossibilitando o nascimento de uma indústria automotiva local.

Tem, ainda, a situação desencadeada pela abertura do mercado brasileiro iniciada no governo de Fernando Collor (1990-1992), responsável por enfraquecer a produção industrial interna. Collor optou por extinguir a maior parte das barreiras tarifárias herdadas do período de substituição de importações e fixou um cronograma de redução das tarifas de importação. Com a ascensão de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República (1995/2002), o processo de liberalização e privatização intensificou-se.

Segundo o presidente da CNI, o melhor exemplo para o Brasil seria a China, que também tem dimensões continentais e optou pela manufatura para liderar seu processo de desenvolvimento. “Hoje, a China é a nação que tem a maior produção industrial do mundo, à frente dos EUA desde 2009”, lembrou.

A despeito da destruição, o Brasil ainda tem a 16ª maior indústria do mundo. Apesar das perdas, o Brasil conseguiu se manter entre os 10 maiores produtores no ranking mundial até 2014. Entre 2015 e 2019, a participação do Brasil na produção industrial do mundo foi superada pelas indústrias do México, da Indonésia, da Rússia, de Taiwan, da Turquia e da Espanha, conforme estudo da CNI.

Nos anos 1980, o peso da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) do país era de 33%. A participação da indústria de transformação no PIB atingiu em 2019 o menor nível da série histórica do IBGE, iniciada em 1996: 11%. Em 2018, era de 11,4%. No melhor momento da série do IBGE, em 2004, no Governo Lula (PT), a fatia da indústria no PIB atingiu 17,8%.

Mesmo assim, o setor é responsável pelo recolhimento de 33% dos impostos federais e por 31% da arrecadação previdenciária patronal, conforme a CNI. Além disso, responde por 70% das exportações de bens e serviços, e por 69% do investimento empresarial em P&D, insumos indispensáveis para a competitividade dos demais segmentos, inclusive do agronegócio.

É digno de nota a indignação das entidades industriais porque em décadas de destruição do setor, o silêncio foi praticamente absoluto. Entre os motivos do silêncio talvez possa estar as polpudas verbas do Sistema S, que arrecada tributos que roçam os R$ 20 bilhões anuais, parte repassados para as entidades representativas da indústria.

O Governo Jair Bolsonaro, antes mesmo da posse deu o seu recado: Em dezembro de 2018, o então futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou o Sistema S para uma plateia de empresários reunidos na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan): “’Tem que meter a faca no Sistema S”, disse, criticando os custos do sistema. Para ele, os cortes nos programas precisam ser acentuados. “Com ‘interlocutor bom’, cortamos 30%. Se não, cortamos 50%”.

 

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