Controle do Estreito de Ormuz é a arma mais poderosa do Irã

Neste momento, a situação no Estreito de Ormuz é definida por uma reabertura frágil e sob forte restrição iraniana, após um duvidoso cessar-fogo de duas semanas, anunciado na noite de terça-feira, 7 de abril, por Irã e os Estados Unidos (EUA), com intermediação do Paquistão. O acordo não foi seguido por Israel, que bombardeou o Líbano matando mais de 300 pessoas, o que provocou de novo a drástica redução do tráfego comercial como resposta à agressão.  

Após o início do conflito, o Irã declarou que tem controle militar do Estreito e decide quem pode ou não atravessar. Na prática, surgiram três situações: navios de países considerados aliados podem passar, depois de negociar previamente com autoridades iranianas.

Já os navios de países adversários estão proibidos de atravessar, como o caso de embarcações ligadas aos EUA ou Israel. A terceira situação envolve os poucos navios comerciais neutros que aceitam pagar e receber autorização para atravessar com “passagem segura”.

Alguns navios de grande porte pagam até US$ 2 milhões em criptomoedas ou iuan para contornar sanções internacionais do Departamento do Tesouro dos EUA. As transações são processadas por intermediários e janelas de câmbio na Ilha Qeshm, visando transferir fundos rapidamente para riais (moeda iraniana) ou contas no exterior, evitando o sistema SWIFT – um mecanismo de transferências financeiras interbancárias mundiais controlado pelos EUA. Há proposta de cobrança permanente de cerca de US$ 1 por barril de petróleo transportado.

O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima vital entre o Irã (norte) e Omã/Emirados Árabes Unidos (sul), conectando o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. É crucial por escoar cerca de 20% do petróleo mundial e 20% do gás natural liquefeito, sendo um ponto de estrangulamento energético global essencial. 

A guerra dos EUA e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, iniciado em fevereiro/março, não apenas gera tensões geopolíticas, mas também coloca em risco a dominância e a estabilidade da moeda dos Estados Unidos no cenário financeiro global. O ponto fundamental é o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, que aumenta a volatilidade nos mercados financeiros, questionando a eficácia do dólar como “porto seguro” em tempos de crise.

Semelhanças entre Ormuz e a crise do Canal de Suez

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz e as consequências sobre o poder do petrodólar tem certas semelhanças com a crise do Canal Suez (situado no Egito, que conecta o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho, ligando a Europa com o Oceano Índico), em 1956, que sepultou a libra esterlina como principal moeda de reserva e troca do mundo. A Crise de Suez é frequentemente considerada por historiadores como o momento simbólico que marcou o fim do Reino Unido como grande potência imperial global, processo que começou em Bretton Woods, EUA, no final da Segunda Guerra Mundial. Não foi apenas um conflito militar, mas uma crise financeira, diplomática e estratégica que mostrou que Londres já não podia agir independentemente das superpotências da União Soviética e dos EUA.

Na época, o governo britânico era o maior acionista da Companhia do Canal de Suez, detendo 44% das ações, enquanto particulares franceses detinham os 50% restantes. O canal movimentava 100 milhões de toneladas de carga anualmente, das quais três quintos eram petróleo do Oriente Médio destinado à Europa Ocidental. Mais de 40 países utilizavam o canal, que gerava uma receita anual de aproximadamente US$ 100 milhões, com um lucro líquido de cerca de US$ 30 milhões por ano, dos quais 44% iam para bancos e empresas britânicas.

Gamal Abdel Nasser – militar e político nacionalista egípcio, presidente de seu país de 1954 até sua morte em 1970 – deu origem a uma série de reformas pensando na nacionalização das riquezas egípcias e disseminação do panarabismo, total integração política e produtiva do mundo árabe. O capitão tornou o petróleo um bem nacional, expulsou empresas estrangeiras e aumentou o atrito com Israel.

Na diplomacia, passou a defender o não-alinhamento, ou seja, a neutralidade na polarização da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que apelou para um apoio forte da União Soviética.  Em julho de 1956, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez.

Em resposta, o Reino Unido, a França e Israel firmaram um acordo secreto para invadir o Egito e retomar o controle da via. A invasão começou em 29 de outubro de 1956. Embora militarmente bem-sucedida em curto prazo, a operação foi um desastre político para os britânicos. Durou nove dias, até 7 de novembro.

A União Soviética (URSS) não participou militarmente da guerra, mas teve um papel político e estratégico decisivo para forçar o fim do conflito. A URSS apoiou fortemente o governo de Nasser, incluindo defesa do Egito na Organização das Nações Unidas (ONU), condenação da invasão anglo-francesa e israelense e pressão diplomática internacional para cessar-fogo. Esse posicionamento ajudou a transformar a crise em um conflito global da Guerra Fria.

Curiosamente, EUA e URSS acabaram pressionando os mesmos países aliados do Ocidente (Reino Unido e França) a recuar. O governo do presidente dos EUA Dwight Eisenhower ficou furioso com a invasão por não ter sido informado sobre o plano secreto, considerado uma aventura colonial que atrapalhava a política de contenção da Guerra Fria contra a URSS. Em vez de apoiar o aliado, Washington decidiu usar o poder econômico para forçar o fim da guerra.

Os EUA ameaçaram vender suas reservas em libras esterlinas. Uma venda massiva da moeda por um governo estrangeiro teria causado uma desvalorização imediata e catastrófica. Os estadunidenses instruíram seus representantes no Fundo Monetário Internacional (FMI) a vetar qualquer empréstimo de emergência solicitado pelo Reino Unido.

Isso também marca o fim de uma era antiga: a Grã-Bretanha, outrora uma superpotência econômica, teve que depender de um parceiro mais poderoso, ou seja, os EUA, que lançaram “discretamente” uma “guerra cambial” contra a Grã-Bretanha, conseguindo, em última instância, eliminar a influência britânica no Canal de Suez.

Embora a Grã-Bretanha tenha vivenciado 14 crises da libra entre 1947 e 1972, a crise de 1956 foi particularmente singular. Pela primeira vez, a Grã-Bretanha sentiu o impacto das guerras cambiais, despertando de seu sonho secular de continuar uma grande potência, sendo reconhecida sua verdadeira posição internacional. Esse episódio mostrou ao mundo que o Reino Unido não tinha mais poder financeiro global.

Os EUA não apenas concretizaram seus interesses no Oriente Médio e controlaram países da Europa Ocidental, como também obtiveram enormes lucros com o petróleo, atingindo múltiplos objetivos simultaneamente. Ormuz será o Suez às avessas? 

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