Fique deitadão ou o fruto do trabalho não pertence ao trabalhador

A pandemia provoca mudanças surpreendentes no mundo do trabalho. Nos Estados Unidos está ocorrendo uma grande onda de pedidos de demissão, que chegou a 4,5 milhões de americanos, deixando seus postos de trabalho em novembro de 2021, no mesmo momento em que número de vagas continuava elevada, de acordo com o Bureau of Labor Statistics dos EUA. O movimento foi chamado de Great resignation – Grande Renúncia.

O fenômeno começou a se registrar nos Estados Unidos em plena pandemia: um abandono massivo e voluntário de empregos raramente visto em seu mercado de trabalho, e que dificultou o preenchimento de vagas por parte dos empregadores.

Segundo analistas, um dos pontos que afastou o trabalhador do mercado é o auxílio fornecido pelo governo norte-americano aos desempregados durante a crise da Covid-19. Existe ainda, para quem se demitiu, a opção de trabalhar como freelancer. Os salários aumentaram e, mesmo assim, as empresas enfrentam escassez de pessoal.

A experiência de uma emergência de saúde pública sustentada levou muitos americanos a reavaliar suas opções de trabalho. A Grande Renúncia pode levar a uma maior regulamentação do mercado de trabalho norte-americano, onde as leis e garantias trabalhistas são muito menos sólidas do que no Brasil.

O relatório “The Next Great Disruption is Hybrid Work – Are you ready?”, da Microsoft, apresentou os resultados de um estudo realizado a mais de 30 mil pessoas, em 31 países.  A pesquisa mostrou que 41% dos trabalhadores estavam pensando em desistir ou mudar de profissão este ano.

Salários estagnados nos EUA

A Grande Renúncia nos Estados Unidos foi precedida por uma estagnação muito maior – de décadas – nos salários e benefícios dos trabalhadores, conforme análise do Wall Street Journal. Nos empregos de menor renda, os rendimentos não acompanharam o ritmo da inflação, enquanto o trabalho se tornou mais informal e precário.

Na Europa social-democrata, uma rede de segurança mais forte levou a um pouco menos de disrupção na força de trabalho. No entanto, dados coletados pela OCDE, mostram que em seus 38 países membros, cerca de 20 milhões de pessoas a menos estão trabalhando do que antes do ataque do coronavírus. Desses, 14 milhões saíram do mercado de trabalho e são classificados como ‘não trabalhando’ e ‘não procurando trabalho’. Em comparação com 2019, mais três milhões de jovens não estão empregados, não estudam nem treinam.

Também na China surgiu o Great resignation, chamado de tang ping em mandarim. O professor Biao Xiang, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, disse à BBC que essas tendências mostram o desejo da geração mais jovem de “abandonar a competição estúpida” e de reconsiderar velhos modelos de sucesso.

No Brasil, onde o movimento foi chamado pela imprensa de “Fique deitadão”, com cerca de 70 milhões de brasileiros entre os desempregados e os informais, obviamente nada aconteceu. O modelo econômico brasileiro é comumente definido como neoliberalismo. Na realidade é um modelo neocolonial de exportação de commodities. Com a destruição do mercado interno, o Brasil torna-se uma grande fazenda de plantação de soja, com uma organização econômica presa na transição entre o feudalismo e o mercantilismo.

Segundo a desembargadora da Justiça do Trabalho aposentada e pesquisadora do CESIT/Unicamp, Magda Biavaschi, a reforma trabalhista de 2017, durante o governo interino de Michel Temer, trocou as fontes do direito do trabalho por pactos entre desiguais. Fundamentada no princípio da supremacia do negociado sobre o legislado, avançou no sentido da supremacia do contrato individual, provocando a desconstrução de um processo lento, difícil, tipicamente brasileiro, que iniciou em 1930, com Getúlio Vargas.

Alienação do trabalhador

A insatisfação do trabalhador tem outros motivos mais antigos, que a mídia corporativa prefere não abordar para evitar citar o “inominável”. Karl Marx, escreveu nos seus manuscritos, em 1844, sobre a alienação do trabalhador do produto de seu trabalho. O produto do trabalho não pertence ao trabalhador, que não exerce controle sobre ele. Por isso, que o objeto produzido pelo trabalho se apresenta a ele como um ser alienado, como um poder independente do produtor. A vida que ele emprestou ao objeto o enfrenta de modo hostil e alienado.

Segundo Marx, o desapossamento do trabalho consiste em sua exterioridade em relação ao trabalhador, em seu caráter coercitivo e na autoalienação que impõe ao trabalhador. O trabalho é exterior ao trabalhador, isto é, não pertence à sua essência, em que por isso ele não se afirma, antes se nega no seu trabalho; não se sente bem, mas infeliz.  Não desenvolve qualquer energia livre física ou espiritual, antes mortifica o seu físico e arruína o seu espírito. Por isso, o trabalhador só se sente em si fora do trabalho e fora de si no trabalho.

Ao publicar “A teoria da alienação em Marx”, em 1970, o filósofo húngaro István Mészáros enfatizava a necessidade de se pensar sobre os efeitos nocivos da globalização capitalista. Já nos anos 2000, Mészáros completava: “a verdade incômoda é que a crise estrutural do sistema do capital se aprofunda com o passar do tempo, acarretando destrutividade para todo domínio vital.”

 

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