Indústria agroquímica chinesa quer dobrar faturamento no Rio Grande do Sul

O investimento de R$ 150 milhões na construção de mais uma unidade de fungicidas da Adama, em Taquari (RS), controlada pela gigante chinesa China National Chemical Corporation, mais conhecida como ChemChina, é uma pequena amostra do crescente mercado de agrotóxicos na América Latina. A inauguração está prevista para novembro de 2021.

Os chineses têm um plano de dobrar a receita da sua operação brasileira com o lançamento de dez novos produtos no mercado em cinco anos. Será a quinta unidade de produção da empresa no município gaúcho.

A Adama também conta com uma fábrica em Londrina (PR), onde são produzidas diferentes formulações. Em 2019, faturou US$ 700 milhões no país. Ao redor do mundo, a Adama conta com mais de sete mil empregados espalhados em 100 países. No Brasil, são 600 colaboradores diretos.

Em outubro de 2011, a ChemChina adquiriu 60% participação na israelense Makhteshim Agan. Em 2014, a empresa mudou seu nome para Adama. Em junho de 2016, a China Securities Regulatory Commission aprovou a aquisição dos 40% restantes das ações pela ChemChina, tornando-a a única proprietária da empresa por meio de sua subsidiária Hubei Sandona Co.

Apesar do impactado causado pela pandemia de covid-19, que achatou a renda dos agricultores em alguns mercados, no Brasil a Adama cresceu devido as condições climáticas favoráveis e aumento da área plantada com soja e milho.

Na América Latina, o incremento nas vendas da empresa foi de 12,4% na comparação com abril a junho do ano passado, chegando a US$ 220 milhões. O resultado foi fruto do aumento das vendas em países agrícolas e também da alta nos preços dos produtos na região.

A força da ChemChina

Fundada em maio de 2004, a ChemChina pertence ao governo chinês. De lá para cá, comprou diversas empresas e hoje é uma potência do setor químico do mundo. Em 2006, comprou duas companhias francesas, a Adisseo, que atua no setor de nutrição animal, e a operação de silicone na Rhodia. Em 2015, a aquisição da Pirelli foi feita por meio da China National Tire & Rubber Co. (CNRC), subsidiária da ChemChina no setor de borrachas.

Opera em seis setores de negócios abrangendo novos materiais químicos e especialidades químicas, agroquímicos, processamento de petróleo e produtos refinados, pneus e produtos de borracha, equipamentos químicos e design de P&D. Ela ocupa o 144º lugar na lista “Fortune Global 500” e é a maior empresa química da China. Tem 148 mil funcionários, 87 mil  trabalham no exterior.

Em 2017, a ChemChina concluiu a compra por US$ 43 bilhões do grupo suíço Syngenta, a maior aquisição até aquele momento de uma companhia chinesa no exterior. O grupo suíço era a maior empresa de agrotóxicos do mundo e a terceira em sementes. O novo Syngenta Group é formado pelos ativos agrícolas das chinesas ChemChina e Sinochem, somados aos negócios da Adama e da Syngenta. Registrou vendas de US$ 12 bilhões no primeiro semestre de 2020, 2% mais que no mesmo período do ano passado.

O Grupo Sinochem, fundado em 1950, é uma empresa estatal-chave sob a supervisão da Comissão de Supervisão e Administração de Ativos estatais do Conselho de Estado da China (SASAC).É um dos principais operadores integrados na indústria de petróleo e química, fornecendo insumos agrícolas (sementes, agroquímicos e fertilizantes) e serviços agrícolas.

Possui cinco Unidades Estratégicas de Negócios (SBU): Energia, Produtos Químicos, Agricultura, Imobiliário e Finanças. Opera mais de 300 subsidiárias em todo o mundo.  O Grupo Sinochem tem quase 60 mil funcionários em todo o mundo. Está entre as primeiras empresas chinesas na lista Fortune Global 500 e tem 30 aparições no total, ocupando a 109ª posição em 2020

A compra é parte de um movimento global de fusões no setor de agrotóxicos que preocupa as organizações de proteção ao meio ambiente.

Produtos perigosos

Aproximadamente um terço da receita das principais fabricantes de agrotóxicos do mundo vem de produtos classificados como “altamente perigosos”, que têm como destino, em sua maioria, países emergentes, como Brasil e Índia, e países pobres.

O levantamento feito pela Unearthed, organização jornalística independente financiada pelo Greenpeace, em parceria com a ONG suíça Public Eye, mostrou que, em 2018, as vendas desse tipo de pesticida renderam cerca de US$ 4,8 bilhões às cinco maiores companhias do setor.

A Public Eye e o Unearthed usaram leis de acesso à informação para obter dados da Agência Europeia de Produtos Químicos e de órgãos de Reino Unido, Alemanha, Suíça, Bélgica e França, onde ficam algumas das maiores fábricas de grandes produtoras, como Bayer, Syngenta e Basf.

Um exemplo é o polêmico agrotóxico paraquate, usado no Brasil desde os anos 1970, tendo como seu principal fabricante a Syngenta. Segundo a Anvisa, o paraquate não deixa resíduos nos alimentos, mas o problema está no risco à saúde dos aplicadores. Tem alto grau de toxicidade e capacidade de levar à morte quem o ingere, após causar lesões nos pulmões e fígado, porque não tem antídoto.

O paraquate está proibido em dezenas de países e desde 2007 não tem o registro renovado na União Europeia. O produto é associado também à causa de câncer e a riscos para a doença de Parkinson.

Em 2019, os institutos de defesa agropecuária do Rio Grande do Sul e do Paraná, informam que foram vendidos 6,14 milhões e 8,4 milhões de litros de produtos comerciais contendo paraquate, respectivamente, com um crescimento de 46,7% e 91% ante 2018.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem tentando bani-lo nos últimos anos, mas o agricultores e indústrias pedem tempo para apresentar estudos quanto à segurança do paraquate e conseguem protelar a medida.

Com informações do jornal Valor Econômico, Agência Reuters e France Presse, Public Eye, Embrapa e sites da Adama, Sinochem e ChemChina

 

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