Indústria brasileira perde para as commodities

Pelo terceiro mês consecutivo, o Índice de Desempenho Industrial gaúcho (IDI-RS), divulgado recentemente pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), registrou queda de 1,6% em maio, na comparação dessazonalizada com abril. O índice acumula baixa de 3% desde março.

Esses números apenas confirmam a crise que a indústria brasileira vem amargando há décadas.  Durante o governo militar do general Ernesto Geisel, foi instituído o II Plano Nacional de Desenvolvimento, também chamado II PND (1975 -1979), que tinha como finalidade estimular a produção de insumos básicos, bens de capital, alimentos e energia.

O II PND foi uma resposta à crise econômica decorrente do primeiro choque do petróleo (1973), no fim do chamado “milagre econômico brasileiro”, período de seis anos consecutivos com taxas de crescimento superiores a 10% ao ano. Foi o último grande plano econômico do ciclo desenvolvimentista, por muitos considerado o mais amplo programa de intervenção estatal na economia do país.

Também na década de 70, a indústria gaúcha conquistou mercados fora do Brasil, graças aos incentivos do governo federal que desejava impulsionar as exportações de produtos manufaturados. Ao contrário dos dias atuais, o objetivo do governo era evitar a dependência da economia nacional às exportações de commodities.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), com base nos dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostrou o alto preço que a  sociedade brasileira paga pela queda na produtividade do setor industrial, provocada principalmente pela falta de uma política para o setor.

A participação de setores produtores de bens de capital e de bens de consumo duráveis no Produto Interno Bruto (PIB) industrial passou de 23,8% para 18,7%, entre os biênios de 2007/2008 e 2017/2018. O Brasil perdeu 5,1 pontos percentuais de presença desses setores mais complexos.

Eles produzem bens mais sofisticados, com alto valor agregado e contribuem para o aumento do nível de educação e de renda, ao contratarem profissionais mais qualificados. Além disso, esses setores elevam a capacidade tecnológica do país por serem mais intensivos em pesquisa e desenvolvimento e estimulam o desenvolvimento de novos produtos, criando novos mercados e gerando mais crescimento.

O economista-chefe da CNI, Renato da Fonseca, explica que, nos últimos anos, a estrutura industrial intensificou um movimento em direção a setores produtores de bens de consumo semiduráveis ou não duráveis, típicos do início do processo de industrialização.

A participação desses setores tradicionais passou de 25,6% para 35% entre os biênios de 2007/2008 e 2017/2018 e a presença de setores que produzem bens intermediários caiu de 49,3% para 44,4%. O resultado disso é que o Brasil tem uma das mais baixas participações de setores intensivos em tecnologia e inovação na comparação com países da OCDE. Ocupa a 23ª posição entre 28 países.

O presidente da Fiergs, Gilberto Porcello Petry, comentou as comparações entre os setores do agronegócio e da indústria, atribuídas ao ministro da Economia Paulo Guedes no lançamento do plano Safra 2021. Na ocasião, o ministro destacou que o agronegócio “passou” a indústria de transformação e que “o país manteve os sinais vitais graças ao campo”, referindo-se às repercussões econômicas da pandemia. “Se há desindustrialização, como diz o ministro, precisamos reverter esse processo com urgência, pois não existe país desenvolvido no mundo que não tenha uma indústria forte”, disse Petry.

O conceito da Indústria 4.0 – que engloba um amplo sistema de tecnologias avançadas como inteligência artificial, robótica, internet das coisas e computação em nuvem, – está mudando as formas de produção e os modelos de negócios. Enquanto isso, o Brasil exporta commodities e ainda não decidiu sobre a tecnologia 5G, essencial para a quarta revolução industrial.

Nos primeiros dias de julho, a eleição do empresário Josué Gomes, com 97% dos votos, para a presidência da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp), encerrou 17 anos de Paulo Skaf no cargo.

Gomes é filho do ex-vice-presidente da República, José Alencar, durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010, e assume em janeiro de 2022. Seu discurso de posse focou a carga tributária, mas fez um comentário que pela primeira vez em décadas a participação da indústria no PIB foi um pouco inferior à do setor agropecuário. “É preciso retomar a competitividade da indústria”, disse.

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