Infraestrutura brasileira está sucateada

O discurso da equipe econômica do ministro da Economia Paulo Guedes de que o setor privado é a solução para eliminar a carência de infraestrutura do país está sendo contestado. A perspectiva de maiores investimentos nos próximos anos em infraestrutura, com aumento da participação privada, não será suficiente para suprir o déficit de gastos no setor. É o que aponta o Livro Azul, levantamento inédito da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), lançado nesta semana, na abertura do Abdib Fórum 2020 – Experience.

Segundo o presidente-executivo da entidade, Venilton Tadini, o objetivo do estudo é “mostrar que, por melhor que tenha sido o esforço para atrair o investidor privado, não dá para o setor privado resolver sozinho”.

O Livro Azul mostrou que os investimentos no país vinham em queda e estão em patamares muito abaixo dos níveis mínimos necessários, classificando o setor como “sucateado”. O investimento realizado na infraestrutura brasileira somou R$123,9 bilhões em 2019, inferior em 31,3% ao pico atingido em 2014, quando foram aplicados R$180,3 bilhões no setor em números atualizados, informa o trabalho.

Seriam necessários ao menos R$284,4 bilhões de investimentos por ano, o que corresponde a 4,3% do PIB, ao longo dos próximos dez anos, para o país reduzir gargalos ao desenvolvimento econômico e social, na conta da Abdib.

A defasagem mais visível é nos setores de saneamento básico e de transportes e logística. Em transportes, seriam necessários R$149 bilhões por ano (2,26% do PIB), mas foram investidos somente R$25 bilhões em 2019 (0,34% do PIB), juntando investimentos públicos e privados.

Foram mapeados 1.200 projetos e/ou iniciativas a partir da consulta ao poder concedente em cada esfera administrativa do país (governo federal e estados). Desse total, aproximadamente 800 ativos são blocos de exploração de petróleo e gás ofertados na 17ª rodada, na nova modalidade de oferta permanente.

O trabalho traça ainda um pequeno perfil de cada projeto e mostra também o seu atual estágio. Por isso, a grande maioria ainda não estima valores de investimentos a partir deles.

A associação mapeou duas áreas específicas para tentar chegar a um valor estimado de investimentos para os próximos cinco anos: rodovias e saneamento. No caso das rodovias, a expectativa é que os projetos de concessão adicionem R$7,4 bilhões de investimentos no ano de 2021.

O número sobe gradativamente até R$22,4 bilhões em 2024. No total, a estimativa é de acréscimo de investimentos de R$82 bilhões de concessões no setor. Já para o saneamento básico, estima-se que os investimentos privados comecem em R$1,3 bilhão em 2021 e alcancem o pico de R$8,5 bilhões até 2025, somando R$ 32 bilhões no período.

Num outro recorte, com obras de valor superior a R$ 1bilhão, foram indicados 50 projetos, que somam R$334 bilhões. O maior deles é o conjunto de trechos rodoviários chamado de rodovias integradas do Paraná, em estudos com valor preliminar de investimento previsto de R$42 bilhões.

De acordo com Venilton Tadini, o caminho de investir em infraestrutura via setor privado está acertado, mas ele é insuficiente. Em 2019, o investimento privado já passou de 70% do total de investimentos, mas em algumas áreas, como a de rodovias, ele corresponde a menos de 20% da necessidade estimada do país.

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