Número de desempregados bate recorde e país entra de novo no mapa da fome

Entre a terceira e a quarta semana de agosto aumentou em mais de um milhão o número de desempregados no país. A população desocupada de 13,7 milhões de pessoas cresceu frente à semana anterior (12,6 milhões de pessoas) e, também, em relação à semana de 3 a 9 de maio (9,8 milhões).

Com isso, a taxa de desocupação (14,3%) para o período de 23 a 29 de agosto também cresceu em relação à semana anterior (13,2%) e frente à primeira semana de maio (10,5%), conforme dados da Pnad Covid Semanal, pesquisa divulgada nesta sexta-feira (18/9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde a primeira semana de maio, início da série histórica da pesquisa do IBGE, o total de pessoas desempregadas cresceu 39,4%, o correspondente um incremento de 3,87 milhões de pessoas em busca de trabalho.

Nesta semana, o IBGE anunciou também o levantamento que mostrou avanço da insegurança alimentar grave, ou fome, no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando 10,28 milhões de pessoas. O Brasil retornou ao Mapa da Fome – lista de países com mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável. Desde 2014 o país já havia deixado a lista.

Sem carteira assinada

O país perdeu 1,2 milhão de empregos com carteira assinada no primeiro semestre deste ano e o desempenho só não foi pior porque as contratações dos chamados intermitentes, funcionários que trabalham por hora ou por um período determinado, se mantiveram positivas ao registrar a criação de 20,5 mil novos postos de trabalho no período. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A destruição de empregos industriais estimada para o ano de 2020 não é comparável a nenhuma outra crise econômica recente. Estima-se uma inédita contração da força de trabalho da ordem de 1,2 milhão de ocupações industriais que, corresponde a apenas 14,6% da redução potencial total de 8,3 milhões de ocupações.

Mercantilismo

O capitalismo precisa de dinheiro circulando na economia, com consumo e emprego. O problema da economia brasileira é que continua numa transição infindável entre o feudalismo e o capitalismo. No artigo “A tradição mercantilista na formação brasileira”, o professor José Arthur Rios, falecido em 2017, explica que na organização social brasileira as instituições econômicas atuam dentro de um sistema global orientado muito mais para a preservação do status quo do que para a gestação do futuro. “Daí uma série de fósseis históricos que juncam a trilha da economia nacional criando, por vezes, difíceis contradições internas ao se chocarem com o surto inovador dos últimos decênios e, principalmente, com a introdução de novas instituições ou novas tecnologias.”

O liberal clássico, economista francês, Jean-Baptiste Say (1768-1832) tinha uma ideia central conhecida como Lei de Say: “a oferta cria sua própria procura”, ou seja, o aumento da produção transformar-se-ia em renda dos trabalhadores e empresários, que seria gasta na compra de outras mercadorias e serviços. O problema é que no Brasil a concentração de renda é tanta, que não permite que ela chegue aos trabalhadores.

No caminho inverso do fortalecimento do mercado interno, autonomia, investimento em pesquisa e tecnologia, com aumento de renda e consumo, a burguesia brasileira aposta na precarização do trabalho. Trata-se de uma manifestação contemporânea da produção baseada na instabilidade e uso descartável do trabalho. As implicações da precarização ultrapassam o âmbito do trabalho, com a ruptura de vínculos estáveis que afeta a satisfação de necessidades e aspirações dos trabalhadores e seus núcleos familiares, trazendo consigo um aumento na pobreza e a desigualdade, potenciando o desemprego e rompendo o tecido social.

Rendimentos do trabalho

O professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, em seu artigo “Rendimentos do trabalho nos EUA”, publicado no jornal Valor Econômico, cita o texto de Anna Stansbury e Lawrence H. Summers que trata da queda dos rendimentos do trabalho na economia americana desde os anos 80 do século passado. Os autores atribuem o declínio do poder dos trabalhadores, nas últimas décadas, a três grandes mudanças.

Em primeiro lugar, o ambiente político tornou-se menos favorável ao poder dos trabalhadores, reduzindo a sindicalização e consequentemente o poder de barganha dos sindicatos.

Em segundo lugar, as mudanças nas empresas: o aumento do poder dos acionistas pressionou as empresas para reduzir os custos trabalhistas, resultando em reduções salariais e precarização do trabalho à medida que as empresas, cada vez mais, terceirizam e subcontratam mão-de-obra.

Em terceiro, mudanças nas condições econômicas: a intensificação do progresso tecnológico e a concorrência de países com baixos salários aumentou o poder dos empregadores americanos.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

 

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