Qual o país queremos nos próximos anos

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em 2025, cresceu 2,3%, frente ao ano anterior. Em valores correntes, totalizou R$ 12,7 trilhões e o PIB per capita chegou a R$ 59.687,49, com avanço real de 1,9% frente ao ano anterior.  A taxa de investimento foi de 16,8% do PIB, contra 16,9% em 2024. A taxa de poupança, por sua vez, ficou em 14,4% ante 14,1% em 2024.

Em cada análise dos números do PIB brasileiro a mídia corporativa encontra problemas. O Globo: “O que os números divulgados pelo IBGE revelam é que o resultado só não foi pior porque o consumo do governo acelerou no segundo semestre”.

Podemos analisar de outra forma: O País ficou na 6ª posição dentre as principais economias do G20 (que inclui países desenvolvidos e emergentes), superando o desempenho de algumas economias grandes, como os Estados Unidos.

Além da análise dos números, a discussão necessária neste momento de tantas incertezas é qual país queremos nos próximos anos. A base do modelo brasileiro entre 1930 e 1980 foi que o desenvolvimento exige política industrial, planejamento estatal e substituição de importações, com o PIB crescendo próximo dos 7% ao ano. O País saiu de uma economia agrária à industrial.

Na década de 1990 e início dos anos 2000, foi o período de maior intensidade do neoliberalismo. Essa fase foi marcada pela abertura econômica, privatizações, desregulamentação e redução da intervenção estatal na economia.  A indústria de transformação caiu de 32,1% do PIB em 1986 para 19,7% do PIB em 1998, queda de 12 pontos percentuais, conforme o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Em 2024, desceu a ladeira para 14,4% do PIB.

Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010, 2023) caracterizam-se por alianças amplas, equilibrando a dominação econômica com a gestão social, sem promover um confronto direto com as frações hegemônicas do capital.

Indústria ou commodities

O mundo capitalista continua dividido em dois pólos, o Centro com países industrializados que produzem bens manufaturados e tecnologia, controlam finanças e inovação e exportam produtos de alto valor agregado. Já a periferia é composta por países exportadores de produtos primários, especializados em commodities, baixa complexidade tecnológica e importam bens industriais.

O economista Celso Furtado já argumentava em seu livro clássico Formação Econômica do Brasil, que o subdesenvolvimento não é uma etapa atrasada do desenvolvimento. E explicava: “O subdesenvolvimento é uma estrutura própria, produzida historicamente pela inserção dependente da periferia no sistema mundial”. Ou seja, o Brasil não está “atrasado”, mas foi estruturado para cumprir um papel específico na divisão internacional do trabalho.

O Brasil continua numa posição periférica ou o agronegócio altamente tecnológico já rompeu parcialmente essa lógica? Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escancaram uma realidade. Em 2025, os desempenhos da Agropecuária (11,7%), da Indústria (1,4%) e dos Serviços (1,8%).  O agro teve um crescimento excepcional, com aumento relevante na produção de grãos, especialmente soja, milho e algodão.  

Só que não podemos esquecer que a Lei Complementar 87/1996, conhecida como Lei Kandir, trouxe para os estados brasileiros a desoneração das exportações de produtos primários e semielaborados em relação ao principal imposto estadual, o ICMS. Um impacto no federalismo fiscal brasileiro. A lei beneficiou diretamente o agronegócio e o setor extrativista mineral, enquanto reduziu a base de arrecadação dos estados, contribuindo para o aumento de suas dívidas. Uma queda abrupta e acentuada dessa arrecadação.

Em 2025, a receita total do Rio Grande do Sul foi de  R$ 69,6 bilhões. Só o ICMS arrecadou aproximadamente R$ 50,8 bilhões em 2024. Isso significa algo entre 70% e 73% da receita tributária própria do Estado, sem esquecer que 25% do ICMS arrecadado precisa ser repassado aos municípios. Estado e municípios afetados.

Nova Indústria Brasil

O projeto “Nova Indústria Brasil” (NIB), lançado pelo governo Lula em 2024, foi desenhado com o objetivo de reverter a desindustrialização precoce, aumentar a competitividade nacional e impulsionar o desenvolvimento tecnológico até 2033. No entanto, a indústria enfrenta dificuldades relacionadas a juros elevados, que encarecem o capital e limitam investimentos, um problema crônico da economia brasileira.

A taxa Selic (juros básicos da economia) continua em 15% ao ano há nove meses. Nos últimos 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 4,44%. Portanto o ganho real (descontada a inflação) para os bancos e fundos de investimentos é de incríveis 10,56 pontos percentuais, entre os três maiores do mundo. Como investir em produção com um ganho financeiro neste nível? O PIB é afetado drasticamente.

Além disso, a Selic em 15% ao ano pressiona o endividamento e reduz os investimentos do governo. No acumulado em doze meses, tendo como referência janeiro, só os juros nominais da dívida pública brasileira alcançaram R$1,086 trilhão, 8% do PIB. Esse valor é mais do que o dobro de todo o orçamento anual da Saúde e Educação somados.

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) encerrou 2025 em R$ 8,309 trilhões, ante R$ 6,966 trilhões, ao término de 2024. Portanto, praticamente bancos e grandes fortunas nacionais se beneficiam de cerca de 96% do total da dívida via títulos públicos. A composição dos detentores da Dívida Pública Federal interna foi dominada por Instituições financeiras: 32,88% do estoque; Fundos de pensão: 22,76% e Fundos de investimentos: 20,79%.

Como o banco pode ganhar 15% sem risco algum emprestando ao governo, ele só libera crédito ao público acima disso, para compensar o risco de inadimplência, custos administrativos e lucro. Por isso, taxas de empréstimo pessoal, cheque especial, cartão de crédito e crédito rotativo ficam muito acima de 15% — frequentemente até mais de 100% ao ano.

Por todos esses benefícios, temos parte substancial de nossa elite que luta com todas suas forças para manter a financeirização dominando a economia. Desta forma, a renda continua concentrada e nosso mercado interno não se desenvolve. É só observar o lobby contra a escala de trabalho 6 x 1, que deve ser votada pelo Congresso. E ainda tem os penduricalhos….

Com Agência Brasil, Banco Central e Ministério da Fazenda



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