A vitória épica de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de 2026 tem uma importância que ultrapassa a política interna brasileira. Ela influencia a posição do Brasil no bloco do Brics na disputa pela reorganização da ordem internacional, na qual países emergentes procuram ampliar sua autonomia diante das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos, e reduzir a concentração de poder econômico, financeiro, tecnológico e militar no Ocidente.
O Brasil ganha maior capacidade de negociação diante dos Estados Unidos e mantém seu comércio com a China. Este talvez seja o ponto mais importante do ponto de vista geopolítico. O mundo atravessa um período de competição estratégica entre Washington e Pequim. Os Estados Unidos procuram preservar sua influência econômica, tecnológica e militar na América Latina, enquanto a China amplia sua presença industrial, comercial, financeira e tecnológica.
O Brasil tem interesses importantes com os dois países. A China é seu principal parceiro comercial, enquanto os Estados Unidos continuam sendo um parceiro estratégico relevante em investimentos, tecnologia, finanças e comércio.
Questionado sobre a vitória de Lula na reeleição e as expectativas da China para as relações bilaterais, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, disse que a China está pronta para trabalhar com o Brasil para avançar na construção da comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado, observou ele.
O comércio entre Brasil e China atingiu o recorde de US$ 143,3 bilhões nos primeiros nove meses de 2026, reforçando a posição da China como o maior parceiro comercial do Brasil. As exportações brasileiras para o mercado chinês totalizaram US$ 84,7 bilhões entre janeiro e setembro, um aumento de 12% em comparação com o mesmo período de 2015. As importações da China subiram 9,9%, para US$ 58,6 bilhões. Os dados foram divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil
Dependência do dólar
A 18ª cúpula do Brics em Nova Délhi, realizada este ano, teve uma agenda econômica bastante concreta. Um dos temas principais foi o comércio em moedas nacionais e redução da dependência do dólar. A vitória de Lula fortalece a busca por alternativas à dependência do dólar.
Não está em discussão, pelo menos como proposta consensual, criar uma moeda única do Brics. O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, que representou o Brasil na cúpula, destacou que o foco não é “desdolarizar”, mas sim criar novas formas de promover o comércio de maneira mais rápida, direta e barata.
Apesar da intransigência natural dos Estados Unidos, uma retomada da discussão de propostas em relação ao dólar, que foram deixadas de fora desde a reunião de Bretton Woods, em 1944, começou a acontecer após a crise financeira mundial em 2008.
Banco do Brics
O Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do Brics, presidido por Dilma Rousseff, financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. O fortalecimento do banco pode ampliar o financiamento de ferrovias, portos e corredores logísticos, energia renovável e infraestrutura elétrica, saneamento e abastecimento de água, industrialização e modernização tecnológica e projetos de integração econômica entre países emergentes.
Na prática, é uma alternativa dos países integrantes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Indonésia) aos mercados financeiros dos Estados Unidos e às instituições criadas no pós-guerra, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que exigem contrapartidas de políticas neoliberais extremamente prejudiciais às economias do sul global.
A declaração da cúpula do Brics realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2025, destacou justamente a ampliação do financiamento em moedas locais e o fortalecimento do banco como instrumentos de desenvolvimento.
A continuidade de Lula na Presidência consolida o Brasil como um dos principais articuladores políticos do Sul Global, com capacidade de aproximar países que defendem uma ordem internacional menos concentrada nas potências tradicionais. Representa também a continuidade e o fortalecimento de políticas de combate ao desmatamento e a preservação da Amazônia, segundo avaliações de entidades ambientais e de líderes internacionais.
Virada surpreendente
Em virada surpreendente, o presidente Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato.
O presidente russo Vladimir Putin enviou felicitações a Lula: “Prezado amigo, aceite meus mais calorosos parabéns por sua reeleição como presidente da República Federativa do Brasil. Os resultados da votação confirmaram plenamente o reconhecimento de seus concidadãos às suas notáveis qualidades de liderança, seu apoio à política de desenvolvimento socioeconômico sustentável do país e a proteção de sua soberania e legítimos interesses no cenário global”.
Na Ásia, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, celebrou a vitória de Lula e manifestou interesse em aprofundar a parceria estratégica entre Brasília e Nova Délhi, especialmente na defesa das prioridades compartilhadas do Sul Global. “Minhas mais calorosas felicitações ao meu caro amigo, presidente Lula, pela sua notável vitória na reeleição”, escreveu nas redes sociais. Modi afirmou ainda que espera ampliar a colaboração entre os dois países em diferentes setores. “Juntos, continuaremos a fortalecer nossa cooperação em diversos setores, avançar as prioridades compartilhadas do Sul Global e trabalhar por um mundo mais inclusivo, equitativo e sustentável.”


