Categoria: HOTSITE Poetas da Dura Noite

  • Jaime Walwitz Cardoso

    Nasceu em Bagé no ano de 1948, filho de José Ferreira Cardoso e Cecy Walwitz. Foi sequestrado e condenado em 1969 por haver participado do movimento de resistência à ditadura, escrevendo poemas durante a prisão. Banido do Brasil em 1971, foi expulso do Chile em 1973. Exilou-se na Suécia onde publicou seus primeiros poemas e participou de diversas iniciativas de divulgação da cultura brasileira. No livro Domínios, retoma a atividade literária após sua volta ao Brasil com a Anistia de 1979.
     
    Cinzas
    A chama desaparece,
    Mas a luz e o calor resistem:
    Brilha a estrela morta,
    A brisa dormida ainda aquece.
    Com correta medida,
    Rigor e precisão,
    Sempre algo se descobrirá,
    Em meio ao frio e à escuridão,
    Da luz e do calor, da vida.
     
    Sintomático
    A poesia
    tem se preocupado muito comigo
    Há um olhar úmido
    Ensimesmado
    Refletido nesta página
    Tenho resistido ao sono
    Parece que ganhei
    Súbito medo
    De mim mesmo.

  • Guillermo Rallo

    Guillermo Rallo

    Nascido em Montevidéu, começou a trabalhar com 15 anos e logo participa do movimento sindical, colabo­rando no jornal Época. Militando na resistência armada, é sequestrado em 1972, ficando 12 anos sob prisão. Em 1973 escreve uma coleção de poemas, publicados em 2014 como Cantos de amor y dolor, com ilustrações do colega de cárcere Elbio Ferrario. Reside em Porto Alegre há vários anos.
     
    Hierro…
    Hierro
    cemento y hierro .
    hierro
    cemento y hierro
    por todos lados .
    Arena y hierro
    y cemento y hierro
    por todos lados .
    Hierro
    por arriba
    hierro
    por abajo
    y cemento.
    Cemento adelante
    y atras,
    y a derecha, y a izquierda,
    y arriba
    y abajo
    y adentro,
    adentro
    estamos nosotros,
    y adentro
    estoy yo!
     
    El tiempo sigue adelante…
    El tiempo sigue adelante
    con su marcha inexorable
    (y yo aquí…)
    y en los diarios
    o las radios
    el mundo vuelca
    miles y miles
    de noticias cada dia,
    susesos que conmueven
    al orbe
    o simples chimentos
    de la aldea
    (y yo aqui…)
    hay casamientos,
    nacimientos ,
    cumpleaños ,
    muertes,
    risas,
    llantos ,
    huelgas ,
    conflictos ideológicos ,
    guerras ,
    armisticios ,
    hambre ,
    abundancia,
    siempre mal repartida
    (y yo aqui…)
    tantas cosas por ver,
    por conocer,
    por vivir,
    por llorar,
    por palpitar
    ( y yo aqui…)
     
    Cruzó la paloma …
    Cruzó la paloma
    en la noche
    la reja de mi celda,
    volo a traves
    del horizonte sin nombre
    de mis sueños
    y llegó hasta ti
    con un mensaje en el pico
    mi amor.
     

  • Guilem Rodrigues da Silva

    Guilem Rodrigues da Silva

    Resistente à ditadura, foi refugiado político em Montevidéu durante dois anos, sendo o primeiro asilado da América Latina na Suécia em 1966. Condenado à revelia em 1968, participou ativamente dos trabalhos de solidariedade à América Latina em Lund – Suécia, sendo eleito vereador e Juiz do Tribunal de Contas do mesmo município. Escritor de 15 livros, escritor de letras de canções, tradutor de peças teatrais para o Teatro Real de Estocolmo, tradutor de vários filmes do português para o sueco e vice-versa, e tradutor de poemas do francês para o português. Detentor de inúmeros prêmios na Suécia e na França, entre os quais ”Pour l´ensamble de ses oevres poétiques” Université de La Sorbonne e ”Medaille de la Academie des Arts Sciences et Lettres” em Paris, recebeu da Prefeitura de Rio Grande (RS) o título de Comendador da Ordem de Silva Paes.
     
    A jaula
    Hoje é o aniversário da solidão
    Sem alegria nas faces maceradas
    As roupas da prisão rasgadas
    Em seu mundo de doze metros
    De distância por doze de largura
    E um longo corredor ao sol
    Sol que nasce às três horas
    E morre às quatro horas
    Hoje faz aniversário a solidão
    Sem alegria nas faces da tristeza
    Ninguém na Ilha das Flores
    Atreve-se cantar à liberdade
    Inúmeros olhos famintos
    Esperam que o vento sopre
    O vento é livre
    Ninguém pode obrigá-lo a confessar
    Nem pode ser torturado
    Mesmo que sopre da esquerda
    O tétrico alfaiate chega
    O indescritível alfaiate
    Que procura fazer uma veste
    De prisioneiro para o vento…
    (música de Georg Riedel, o compositor vivo
    mais conhecido da Suécia)
     
    Claros sonâmbulos da noite
    Mulher amada, nós os que saímos
    Te queremos mais do que tu pensas
    Na ausência
    Temos seguido de perto
    Tuas tristezas
    Tuas poucas alegrias
    Na distância
    Temos estado presentes
    Dormindo duramente em cama alheia
    Nunca nos acostumamos
    Aos arames farpados das fronteiras
    À falta dos sabiás e das palmeiras
    Saudade é para nós mais que palavra bela
    Contém inverno céu cinzento branca neve
    Olhares esculturados nas janelas
    Somos claros sonâmbulos numa noite longa
    Voltando sempre à tua cama
    Mas ao chegarmos perto
    Quase tocando teu seio
    Manhã estranha nos desperta
    Em leito alheio
    Ainda e sempre em viagem
    Mulher amada
    Nós os que saímos
    Não te amamos menos
    Do que os que ficaram
     
    Com desesperada raiva
    Mudas minhas mãos
    Meus pés dormem inquietos
    Gélido fogo sobe em minhas pernas
    Consumindo meus joelhos
    Procuro pensar nos pássaros
    Acuso-os de terem deixado de cantar
    É fim de agosto
    O verão na Suécia foi miserável
    O fogo continua sua escalada
    É como se eu afundasse
    Nun desses lagos gélidos da Lapônia
    Recordo Veríssimo
    Gato preto em campo de neve
    Meus joelhos não existem mais
    Joelhos surdos insensíveis
    Golpeio meus reflexos
    A culpa é minha
    Ninguém espera quinze anos
    Seria impossível parar
    Esse passar de carros sobre mim?
    Carros de combate
    Carros de passeio
    Barcos de guerra
    Barcos à vela
    Uma vela se acende
    Para quem?
    Para mim?
    Quem morre em Rio Grande?
    Quem morre em Lund?
    E esse malito gelo que sobe
    Eu subi por muitas escadas da vida
    Senti muitas mortes
    Chorei muitas prisões
    AQUI ESTOU MALDITOS!
    PRETENDO ESCULTURAR
    EM GRANITO IMPERECÍVEL
    MINHA RAIVA
    MEU GRITO
    PARA QUE TODO AQUELE QUE PASSAR
    POR ESTAS RUAS DO EXILIO
    POSSA LER SOBRE O CRIME
    COMETIDO EM NOSSAS ALMAS
     
    Sobre o Brasil minha pequena
    (para minha filha Zoyra-Lya, nascida no exílio)
    Sobre o Brasil quero contar-te
    minha pequena
    a terra bem amada
    cheia de paz de sol e de beleza
    onde uma generosa natureza
    desenhou rios vales e montanhas
    No Brasil minha pequena
    São todos felizes
    Ali há justiça trabalho pão e escolas
    A miséria e o analfabetismo
    já não existem pertencem ao passado
    Nenhum estudante desaparece nas cidades
    Não há mais presos políticos
    e reina a liberdade
    As companhias estrangeiras não são mais
    proprietárias
    dos nossos enormes recursos naturais
    já não há mais golpes de estado nem
    torturas
    e em suas casernas e quartéis os nossos
    generais
    esqueceram há muito os atos institucionais
    Para ti minha filhinha que nasceste no exílio
    e brincaste na neve longe de nossa Pátria
    eu escrevo estes versos cheios de esperança
    oxalá quando os leias no entardecer dos meus anos
    não mais sejam quimera nem vã utopia
    mas se eu te minto perdoa
    quero apenas que durmas
    embalada em meus sonhos

    (escrito no duro ano de exílio de 1968)

     
    Variações sobre um tema brasileiro
    I
    Quem te encontrará entre essas pedras
    Para quem será teu sonho areia úmida
    Passos em tua busca
    Donde ninguém lembra tuas pisadas
    Para ti as balas
    Que te buscaram na morte
    Para ti o medo da noite
    Soturno açoite
    Donde a inenarrável dor se esconde
    Ah! E quando voltares teu olhar
    Morto estará o deus da tua esperança
    Para ti o inverno
    Esperavas algo diferente em tua ânsia?
    II
    Como um fantasma
    As recordações te buscam
    Sorrindo às vezes
    Chorando às vezes
    A luta na fronteira
    As lágrimas na estação
    Eu que nunca vi meu pai chorar
    Eu o recordo
    Entre o milharal frondoso
    Para cada melancia
    Ele tinha um nome
    Para cada arbusto
    As laranjas douravam nossa existência
    Até o dia quando os defensores da Pátria
    Escureceram o sol
    Proibiram a chuva de acariciar o milharal
    Obrigaram-nos à inércia
    E nós
    Pobres seres
    Vimos nosso sorriso ser encarcerado
    III
    Tu que estavas presente
    Quando os uniformes marcharam
    Tu que gritaste teu desespero
    Tu que levantaste tua mão
    Como bandeira
    Foste atingido por cem balas
    Que perfuraram tua alma
    Nesta noite agora e aqui
    Ponho teu nome
    Na praça mais bela
    Da minha terra natal
    De maneira que ninguém
    Esqueça teu sacrifício
    Nem o teu nome
    Tu meu amigo de infância
    Ainda hoje
    Ouve-se o teu riso contagiante
    Nas ruas de Rio Grande
    Eu sou teu poeta assassinado
    Lembras-te de mim em teu céu?
    A morte veio no mês de março
    Pela noite
    Quando ninguém esperava
    Quando as crianças dormiam
    E com angústia mantinham
    A fome em suas mãos
    Nos campos dormia o trigo
    Embalado pela suave brisa
    As estações de rádio
    Estavam povoadas de botas militares
    Tu e eu estávamos despertos
    Lembro-me bem
    Mas quem foi assassinado nessa noite
    Foste tu?
    Fui eu?

  • Glênio Perez

    Jornalista, político, poeta e ator, Glênio Perez destacou-se na oposição legal ao regime militar e na soli­dariedade aos presos políticos. Eleito três vezes vereador em Porto Alegre, teve seu mandato cassado no começo de 1977. Colaborando nos principais jornais do estado e em diversas revistas, foi também executivo de grupo de mídia e organizador de eventos culturais. Fundador do PDT, foi eleito vice-prefeito da cidade, cujo largo central leva hoje seu nome. Mesmo sob severa perseguição, publicou “Caderno de noticias”.

    Glênio Perez

    Interrogatório
    Como fazes
    para exercer teu ofício?
    Beijas também tuas crianças
    quando vais para o trabalho?
    E quando acordas de noite,
    lembras o que foi teu dia?
    Que gosto é que tem a carne
    nos braços de tua mulher?
    Quando a cobres com teu corpo
    e ela geme – te perturbas?
    Tua mãe passando o ferro
    para passar tua roupa
    não te inquieta ante o perigo
    do choque ou da queimadura?
    Quando ficas muito tempo de pé
    num só lugar não te cansas?
    Dormes num quarto sem ar
    ou frio como uma geladeira?
    Apagas todas as lâmpadas
    para descansar teus olhos?
    Comes, sempre, muito bem
    mesmo com tanto trabalho?
    E qual a sensação
    de receber mensalmente
    a paga do teu serviço?
    Tu amas, comes e dormes
    apesar do teu ofício?
    De que barro te fizeram
    – torturador –
    afinal?
     
    Rua Pantaleão
    Permitam que relembre aqui uma rua
    Pantaleão Teles
    – hoje Washington Luiz.
    Havia um bonde amarelo
    que imitava Porto Alegre
    com sua Rua Pantaleão:
    quando chegava na Bento
    (Martins) dava volta
    virava o bancos de costas
    para não ver o putedo…
    E a Pantaleão, ali, firme:
    um bordel ao lado doutro
    prostitutas marinheiros
    soldados e estudantes
    os barcos
    Ponte de Pedra
    carro-motor
    futebol
    sobre um campo de carvão
    da Usina do Gasômetro.
    Um dia a puta chamou:
    – você menino moreno
    compra uma ceva pra mim?
    comprei voltei entrei nela
    – a primeira da minha vida.
    Quando um lençol de cimento
    cobriu a Pantaleão Teles
    pensei que a prostituição acabara em Porto Alegre.
    Para logo descobrir
    que a antiga Pantaleão
    é agora muitas ruas
    da cidade
    e do Brasil.
     
    Tomara que tu morras
    Se grita o meu poema
    a fome dos roubados
    morram ele
    e seu tema
    na hora da comida.
    Podre realidade
    a que esculpe esta poesia
    da qual sou intérprete
    e inimigo.
    – Tomara que tu morras
    Com meus versos.
    Não quero ser poeta
    de torpezas.
     
    Retrato de pintor
    Permiti
    senhoras e senhores
    que vos apresente
    a mais amável
    a mais terna
    compreensiva
    E sofrida pessoa que conheço
    já está morta
    (pior para a cidade
    que vai morrendo
    sem memória de Edgar Koetz
    seu amante e pintor)
    tão delicado de gestos
    tão desligado na terra
    do que não fosse a beleza do perene
    no coração do homem libertado.
    Por exemplo: foi a última pessoa que deu festa
    para saudar o nascimento de uma flor
    no vaso de lata de azeite no seu pátio
    e que certa vez no Jockey passou fome
    recusando-se à disputa do buffet.
    Ele achava
    – era artista o meu amigo –
    que a todo homem corresponde
    naturalmente
    o direito de comer.
    Edgar amava com suas cores
    mulheres de ateliê
    casas nas ruas
    o rio
    as praças as crianças
    mas o traço principal de sua grandeza
    era a suprema delicadeza em cada gesto
    tanto que um dia
    chegando de repente
    Vi Edgar a conversar com as tintas.
    Ele dizia:
    – Desculpai que vos misture
    Senhoras
    Ocorre que já está amanhecendo
    E eu tenho de pintar
    A Aurora.
     
    Uma canção para a noite do exilado
    É preciso mais:
    é absolutamente necessária
    alguma experiência de saudade
    acrescentada à possível sensação
    de uma planta arrancada pelo caule
    E não seria demais
    a lembrança dos seios que perdemos
    da mãe e das amadas para o tempo
    Para entender-se o exílio
    há que um dia ter-se dormido
    sob um lençol de céu
    que não é nosso
    e sobre uma terra-
    colchão que não é ventre
    Ave submarina
    um ser fora do cosmos
    árvore no ar
    barco no chão
    ou feto na proveta
    assim morrem na vida
    os exilados.
    Muitos há suspirando pelo fim
    – tarifa que lhes cobram para a volta –
    outros contam o tempo em grãos de angústia
    chorados na ampulheta da saudade
    Mas sabemos:
    estão todos acordados
    enquanto nós
    os exilados que ficamos
    fazemos para eles
    a cama do regresso.
     
    Aquarela do Brasil
    Honório Nardin
    esse teu quadro
    me faz um mal
    ao coração
    que nem te conto.
    Ou conto, sim:
    — Na moldura, entardece
    (há quanto tempo o sol não amanhece?)
    na praça o dia morre
    uma menina corre
    rodando um aro
    na areia do jardim.
    Que mal me faz agora
    Honório
    o teu poema em cores
    que foi sempre
    paraíso de amostra na parede.
    Porque essa praça
    de teu quadro, Honório
    me lembra outras
    longe, neste mundo
    onde, na hora morna
    em que a luz reflui,
    brincam crianças que não têm país.
    Pequeninos brasileiros exilados
    pelas praças do mundo em debandada
    que existem
    correm
    brincam
    — como as nossas –
    mas são filhos e netos de exilados
    não conhecem o céu que lhes pertence
    nem as praças e a terra que são suas.
     
    Brava Gente
    Mulheres
    sois perigosas
    guerrilheiras desarmadas
    De noite agitais o sono
    pesadelo dos tiranos
    de dia agitais o lenço
    da paz pelos torturados
    — De onde tirais a força
    para lutar com palavras
    e fé contra as ditaduras?
    Por certo do vosso ventre
    onde se gera a criança
    livre que o mundo terá
    Quando não houver exílios
    nem prisioneiros de ideias
    algozes espancadores
    espiões da violência
    exploradores de homens
    – que fareis, bravas mulheres?
    Descansareis da guerrilha
    pela Anistia no mundo
    embalando em vossos braços
    os filhos da Liberdade.
     
    História para cordel
    Senhor Doutor Sobral Pinto
    que gosta de escrever cartas
    aos poderosos do dia
    defendendo os inocentes
    fique sabendo
    por estas mal traçadas linhas
    que não creio em suas fotos
    nem na certidão de idade.
    — Por favor, não se apoquente
    (Epa, isso é palavra de antanho
    e antanho também já era…)
    não se põe aqui em dúvida
    a certeza do que diz
    e a beleza do que faz.
    Ocorre que há muito é noite
    no Brasil: quatorze anos
    (nem na Antártida é tão longo
    o sono do amigo Sol)
    e o senhor sempre na sua
    gritando pela Justiça
    mostrando os torturadores
    criticando as ditaduras.
    Por isso não acredito
    nessa idade que lhe dão.
    É uma pena que eu não seja
    um poeta de cordel
    para contar num livreto
    essa história nunca vista
    de quem – por ser justo e bom –
    vai ficando cada dia
    por condão de sua madrinha
    a Senhora Liberdade
    em vez de velho –
    mais moço.
     
    Memória
    o escuro
    da sala
    teu nome
    na tela.
    Tua lembrança
    nas palmas
    das mãos
    que se encontram.
    Teu martírio lembrado:
    teu nome no filme.
    Teu nome
    na tela
    ilumina
    a memória
    do teu sofrimento.
    A censura não pode
    cortar a lembrança
    de um tempo de horror
    que se pode escrever
    com muitas palavras
    ou com teu nome
    Vladimir Herzog
     
    Nem favela
    Um dia
    Velha Restinga
    visitei o teu colégio
    — Tu sabes o que achei?
    piolho e sarna
    Restinga
    nos cabelos das crianças.
    Elas não passam na escola
    como os meninos que comem.
    Já nascem com a cabecinha
    lesionada pela fome.
    Velha Restinga
    ainda doem
    teu barro nos meus sapatos
    e a memória dos casebres
    residência da miséria.
    Te falta tudo
    Restinga
    porque nem favela és
    te falta um morro de pobres
    para ter ricos aos pés.
    Mas não te falta um dancing
    com meninas de dez anos
    nem cachaça nos balcões
    das tendas e armazéns.
    Tens demais algumas coisas
    brigas facadas pobreza
    tristeza e merda nas ruas.
    Mas tu e eu bem sabemos
    quanto te sobra Restinga:
    indiferença e injustiça
    bem mais velhas do que tu.
     
    No exílio, em Berlim
    O metrô
    de Berlim Ocidental
    há muito tempo
    serve aos alemães
    leva crianças aos colégios
    empregados às fábricas
    funcionários para os escritórios
    e certamente
    amantes e amadas
    para a hora do amor.
    Numa tarde
    de maio de 1976
    o metrô de Berlim
    passou por cima
    do corpo de Maria Auxiliadora
    estudante
    exilada
    no Chile
    e na Alemanha.
    Dora Dorinha ou Doralice
    mineirinha
    agora no exílio
    para sempre.
     
    Para Sônia Prisioneira
    Sônia: dez anos!
    Quase quatro mil dias na prisão.
    tu estavas livre
    presa à enfermaria
    dos hospitais
    onde trocavas
    teu amor aos outros
    pela escassa ração
    de pão aos teus.
    Bendito pão
    – pois ganho em liberdade –
    dividindo o que tinhas
    para dar.
    Cada noite
    te pagava a faina
    com beijos
    da tua filha
    E da tua mãe.
    Não do marido
    que teu homem fora
    também jogado
    às lajes da prisão.
     
    Quando o rio mudar de rumo
    Um dia esse rio que passa
    o braço das suas águas
    na cintura da cidade
    e depois vai ser lagoa
    e dormir enfim no mar
    por artes de seu destino
    de ser caminho no tempo
    vai navegar para trás.
    As suas águas que levam
    barcos e homens aos peixes
    também são de retornar:
    foram rio-lagoa-mar
    serão mar-lagoa-rio
    E esse rio vai ser mais
    do que foi desde que é rio:
    uma avenida de águas
    para a volta dos banidos
    regresso dos exilados.
    E a Senhora dos Navegantes
    vai bendizer o Guaíba
    como o faz em fevereiro
    enquanto o povo fará
    – por então ser soberano –
    a festa de Iemanjá
    estender-se o ano inteiro.
     
    Raul Sendic
    Uma grossa parede
    de vidro entre nós dois
    no Presídio Central del Uruguay
    Era um tempo de respeito
    aos prisioneiros
    e parecias cansado
    não ferido
    Estava contigo
    a Topolanski
    Uma feia campeã
    de pontaria
    e outros mais
    tupamaros
    na prisão.
    Te vi, Sendic
    com esse jeito
    de tímido colono
    dos que preferem
    por dentro ser leão.
    Quanto tempo, Sendic,
    desde aquilo?
    Houve a libertação
    Do cônsul brasileiro
    um túnel em Punta Carretas
    para a liberdade
    a morte de Mitrioni
    e esse pesado véu
    da ditadura
    que desceu também sobre vocês
    no Uruguai.
    Caíste com um tiro
    na boca em Ciudad Vieja
    e nunca mais se ouviu
    falar de ti.
    Em que tumba
    ou masmorra
    te enterraram?

  • Flávio Koutzii

    Flávio Koutzii

    Natural de Porto Alegre, dedicou-se desde adolescente ao ativismo político nas frentes estudantis, passando desde cedo a militar no PCB e sucessivas cisões. Persegui­do, buscou refúgio em países europeus e da América Latina, militando finalmente na Argentina. Sequestrado e conde­nado, cumpriu vários anos de pena naquele país. Após cam­panha internacional por sua liberdade e a redemocratização argentina, retornou ao Brasil, onde militou no PT e exerceu diversos cargos parlamentares e executivos.
     
    Te deixo hoje…
    Te deixo hoje,
    com um abraço,
    com todo o carinho,
    Com a presença da memória,
    Com a saudade de ti,
    Com a saudade do “Flaco”
    Pensando nesses imensos territórios
    da vida e do amor,
    pensando nas possibilidades, potencialidades,
    e nas continuações,
    pensando no que não pôde ser,
    pensando no que deveria ser,
    pensando no que será…

  • Emanuel Medeiros Vieira

    Emanuel Medeiros Vieira

    Natural de Florianópolis (SC, 1945), formado na UFRGS em Direito, 1969, participou ativamente da militân­cia estudantil. Escritor de romances, poesias e memórias, com vinte e três livros publicados, participou de mais de cinquenta coletâneas no Brasil e no exterior. Membro da AP (Ação Popular), esteve preso durante meses na OBAN (Operação Bandeirantes) e no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), em São Paulo, seguindo posteriormente ao exílio. Foi vendedor de livros, editor, professor e redator de discursos. Seu romance “Olhos Azuis – Ao Sul do Efême­ro” (2009) -, foi contemplado com o Prêmio Internacional de Literatura, concedido pela UBE (União Brasileira de Es­critores).
     
    Desterro
    Desterro cumpriu-me
    e cumpriu-se.
    O rio começava atrás de casa
    (como eu),
    e foi embora – afluentes.
    Vento sul, Campo do Manejo, Rita
    Maria, Rio da Avenida, Miramar,
    bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
    procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
    gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
    Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
    da Rua de Cima – ela nunca soube.)
    Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.
    O rio foi embora.
    Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
    quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
    Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
    fogão de lenha, beliches, pé de amora.
    Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
    Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
    A rua pequena, era a maior do mundo – coração.
    Desterro inunda-me:
    outrora/agora.
     
    Masmorras
    Clandestinidades, fugas na boca da noite
    Dormir cada dia num lugar
    Pensões, pulgas, esconderijos, dinheiro contado, pratos
    [feitos, uma pinga para o consolo provisório.
    Palavras apenas – e foi na carne que doeu.
    Tudo já foi ditado, mastigado, expelido.
    Foi?
    O Primeiro Interrogatório.
    O Segundo Interrogatório.
    O Quarto Interrogatório.
    O Décimo-Quinto Interrogatório
    (De manhã, de tarde, à meia-noite, às quatro da
    [madrugada).
    Choques elétricos, pau de arara, “cadeira do dragão”,
    [“telefones”, palmatórias.
    O verso de T.S.Eliot na cabeça:
    “As palavras se movem, a música se move
    Apenas no tempo: mas aquilo que apenas vive
    Pode apenas morrer. As palavras após a fala, alcançam
    [o repouso. (…)
    O corpo: não.
    Um bafo de morte na soleira da porta.
    (O processo, a burocracia, togas pretas, auditorias, fardas.)
    E um dia ir embora para plagas não conhecidas
    Um dia, voltamos.
    (Só restará o oblívio Alguém se lembrará?)
     
    Exílio
    Um Atlântico nesta separação:
    batido coração segue as ondas de maio.
    Desterros além da anistia,
    para lá dos poderes.
    Velas ao vento,
    não bastam os selos,
    a escrita crispada.
    Queria os sinais da tua pele,
    vacinas, umidades, penugens,
    pêlos perdidos no mapa do corpo,
    o olhar suplicante, soluços.
    Jornadas:
    missas de sétimo-dia,
    retratos arcaicos.
    Outro exílio:
    sem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,
    clandestinidades.
    Sol neste retorno:
    casa, guarda-chuva no porão, caneca de barro,
    álbuns, abraço agregador,
    cheiro de pão, gosto de café,
    o amanhã junta os o dois nós da memória,
    um menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.
    Pai
    Meu pai cavalgava
    abraçado à sua dor oculta.
    No crepúsculo: só – na soleira da porta,
    cadeira de balanço, boina, olhar azul.
    Antes do assobio da Inelutável
    foi para a montanha.
    Como um elefante em despedida
    quis morrer sozinho.
    Quando chegar a hora
    farei como meu pai:
    subirei a montanha,
     
    Madona
    Senhora das horas inconclusas
    Senhora do torto parto
    do porto inalcançável
    Madona da ânsia infinita
    vã peregrinação
    Senhora do desassossego
    Conceda-me o bálsamo do olvido
    passagem silenciosa
    travessia sem medo
    Senhora do inútil tempo – que continua queimando
    Senhora da veloz juventude
    Madona de todas as velhices
    Outorga-me o estatuto da ausência
     
    Planalto
    O Planalto é sempre –
    nós é que passamos.
    Ulisses, oráculo, reaparece
    (num tempo que não quer profetas),
    Penelópe só tece dúvidas, eclipsado o sagrado:
    mercantis propósitos – só.
    O Planalto é sempre
    – nós é que passamos.
    A memória: nossa matéria
    – como lidar com tanto esquecimento?
    Carece preparar os rituais de retorno:
    suado feixe de
    carnes/emoções?
    (Qual a sua forma?)
    Aqui irrompeu o pranto,
    não a redenção.
    Expulsos do paraíso: vagamos.
    Rebanhos eletrônicos, restos de pompa,
    retóricas cartorárias, tecnocratas com dentes de ouro
    [– e celulares de última geração.
    O Planalto é sempre
    – nós é que passamos.
    Mas cansou-me o pranto:
    O sol inunda esta manhã
    pão quente, cheiro de café torrado,
    o poema arranca algo do efêmero,
    fundo-me no esquecimento
    (Também somos feitos daquilo que perdemos.)
    Deus faz que me esquece:
    depois reaparece.
     
    Hiroshima
    Na manhã dominical,
    a bomba de Hiroshima,
    a bomba,
    tão clara,
    exata,
    cirúrgica.
    Bomba geométrica,
    certeira.
    A bomba vem do céu,
    mas não é ave.
    A bomba vem de cima,
    mas não é Deus.
    Desce fumegante,
    a bomba não negocia,
    a bomba não conversa,
    célere, impositiva,
    acerta o alvo, cai,
    a bomba queima, a bomba dissolve,
    a bomba dilacera.
    Alguém nasce no ano em que ela cai,
    e pensa naquele 1945:
    a surpresa daqueles milhares de olhos,
    à espera do lúdico no matinal domingo,
    parques, igrejas, passeios, visitas familiares,
    percebendo – sem tempo para a reflexão –
    a chegada da não-ave,
    emissária de Tanatos,
    que cai, cai,
    na paisagem limpa (cogumelos atômicos).
     
    Homem diante do mar
    Homem diante do mar
    (instância interrogativa).
    Precária caravela.
    E finita: a vida
    Trapiche:
    o homem só contempla
    (desembarcado).
    No estatuto da memória:
    ele se interroga, nunca mais a ação.
    No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço.
    Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço.
    (Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)
    Desterro: instante convertido em sempre.
    O homem desembarcado só pode viver de memória:
    [diante do mar.

  • Eloy Martins

    Eloy Martins

    Catarinense de Laguna, já na década de 1930 Eloy Martins integrava o movimento sindical metalúrgico e os quadros do PCB em Porto Alegre. Reiteradas prisões obri­gam-no a buscar trabalho em várias cidades, onde se man­tém na luta pela democracia, pelo petróleo e pela inclusão do Brasil nas tropas anti-nazistas. Consegue, após a rede­mocratização do país, eleger-se vereador em Porto Alegre. Dirigente operário em nível nacional e internacional, após o golpe de 1964 viveu vários anos na clandestinidade, sendo sequestrado e passando vários anos no cárcere a partir de 1971. Escreveu suas memórias políticas, onde descreve as sevícias sofridas na mão dos algozes.
     
    Boa noite
    Boa noite companheiro,
    Diga ao menos boa-noite,
    Quero ouvir você cantar.
    Lá lá lá Lá lá lá lá
    Boa noite companheiros,
    Mais um dia que passamos,
    Sustentando a nossa luta, para o homem libertar.
    Lá lá lá Lá lá lá lá
    Boa noite companheiros,
    Confiança no futuro,
    Pois estamos construindo,
    Um amanhã cheio de sol.
    Lá lá lá lá lá lá lá

  • Athanásio Orth

    Nasceu em Tapera, RS, onde realizou seus estudos básicos. Na convivência do Seminário da Cidade de Viamão, conheceu e adotou a Teologia da Libertação, forte movimento religioso dos anos 1960. Por suas convicções democráticas, passou a integrar grupos secretos de resistência ao regime autoritário vigente no Brasil, sendo perseguido, sequestrado, torturado e condenado. Na prisão, este filósofo e professor escreveu e publicou seu livro de poemas “A companheira e Duas Três Coisas Vistas da Ilha das Pedras”, vindo a falecer em acidente rodoviário em 1978. Na região de origem, dá nome a escolas, praças e bibliotecas.
    Encantamento
    Nos olhos do teu olhar
    enxergo minhas feições
    impregnadas de você.
    Manso e suavemente
    triste – o olhar.
    Estes olhos ocupados
    na descoberta de você,
    ainda se multiplicarão
    em pesquisa e admiração
    do ser e do acontecer.
    Depois nós dois miramos o longe:
    construções e chaminés,
    a urbe estrangulada
    vetada a meus pés.
    Expectativa: fundir
    ilha e cais da estiva
    dirigir o movimento…
    Lento, porém contramão,
    domingar uma barca
    carregada de rosas.
    Perdela jamas
    ternura, y cosas
    que vivan su muerte.
    Entonces está prohibido
    matar/matar
    a un hombre nuevo.
     
    Domingo, se não chover
    verei a ave de olhos inesgotáveis
    pousar seu corpo no meu.
    Vezes incontáveis configurei
    as partes e o conjunto. A boca
    ávidos trançamos em beijos.
    Quando recordo, a noite
    se faz imensa com o rio
    me invadindo de nostalgia.
    Então ouço companheiros
    em sonhos de lamentação.
    Domingo, salvo imprevisto,
    enlaçarei em lábios vertentes
    meu recado mudo e concreto
    com os cinco sentidos sentirei
    a presença lasciva da primavera
    ao entrelaçarmos os braços
    no toque libente
    de pólos que se atraem.
    Tudo quieto por aqui
    só a melancolia da paciência
    ao contemplar os clarões
    que da fábrica se espalham na água
    e umedecem meus olhos de tristeza.
    Domingo se você quiser
    seremos dois e um e mais
    como somos muitos agora.
     
    A balada pungente da ausente
    trinca e tranca o pranto
    no tristonho-risonho dos olhos.
    No sinistro da cela, ao pé
    da cama., Neruda sempre redito
    (puedo escribir los versos
    más tristes esa noche)
    me desespera em intenções de antes.
    Tenho pensado, careço dizer,
    um réquiem por Chael
    que dure exato o silêncio
    e um baião baiano, tributo
    a cantigar em novembro
    quatro de cada ano.
    Imaginei monumentos estilizados
    aos tombados no risco de esculpir
    a manhã plena de dia.
    Compus em madeira fragmentos
    à militante, mas Vera Lígia
    ainda não os leu e já
    se extraviaram e são outros
    e são desejos de talvez
    virem a ser inventos
    de mais encanto, porquanto
    o envolvimento em novas malhas
    da formosura cresce o labor.
     
    De Longe e de Perto
    Chispas se levantam do levante de Ática
    e atiçam ódio contra a Amérika.
    Da contextura brutal do presídio
    brota uma alvorada de ternura e dureza.
    Sob os cassetetes se volatizam
    sonhos remotos, mas dos mortos
    sangram gritos de pantera.
    Sovados na teimosia de negar as grades
    os punhos deflagram a ousadia de ser.
    A coragem de carecer “o riso de um amigo
    e a voz macia de uma mulher”
    e de tombar sob escombros de gás
    madruga grávida de primavera.
    Corpo crivado à bala, Sam Melville
    se dissipa em fulgência de saber:
    “Há sutis surpresas à minha frente
    mas eu me sinto seguro e forte”.
     
    Nas palavras suprimidas
    A alegria de debate com o ódio.
    Dos quadrantes da terra informam:
    requinto central do capital
    e camaradas torturados
    metralhados na nota oficial
    segundo voz de prisão.
    Sem mediação a condição inumana
    se mistura com fome e fama
    de bem-aventuranças e proteínas
    e de gingas e danças com meninas,
    luzes roxas sobre as coxas
    pó e cisco na tigela.
    Ninguém vela a criança
    achada morta na favela.
    A burguesia exporta
    cresce a renda bruta,
    cada vez mais enxuta
    a marmita do servente.
     
    77 vezes 7 vezes
    Contra grandes estandartes
    setenta e sete vezes
    sete vezes se desejou
    enfarte dos patrões…
    benedictus
    pecata mundi
    Contra as chaves da opressão
    setenta e sete vezes
    sete vezes danados
    clamamos antes de trancados…
    miserere
    fructis ventri
    Contra os horizontes abertos
    setenta e sete vezes
    sete vezes usaram em vão
    ferrolhos e tramelas…
    ora amem
    hora morti nostri
    pérfidos e fétidos
    eles vão apodrecendo em feliz ilusão.
     
    Do continente sul
    Una noche envejece
    El destino de la América:
    Huevos de arañas
    Pájaros muertos
    E insetos tontos
    Em la calle central.
    Las tripas llenas de hambre
    La toza llena de torpezas
    Aunque parezca mentira,
    Proezas de la misma hazaña,
    Contra las cuales se assoma
    La artimanha de fuziles
    Discursos y canciones miles.
    No panorama soturno
    O triste pindorama
    Que ficou para submundo,
    Com o auri-verde perdão
    Da pujança, que cansa os olhos
    Que sabem sobre as contradições.
    Esta é a véspera
    Pro proleta proletária
     
    A fome fomenta a morte…
    A fome fomenta a morte
    mordendo mansamente
    a dor da vida desprovida.
    A dor dormida mais se rebela
    em cada nova ferida.
    nada será como antes:
    um dia a rebeldia eclodindo,
    aves de rapina alçando vôo
    derradeiro em mergulho fatal
    ao orgulho nas águas estagnadas
    de peixes podres emersos
    e escombros submersos
    carcomidos-fedidos idos,
    contra a granada arremessada
    o tiro repentino assassinando,
    contra a surpresa um quartel
    perdendo a defesa, ao estalido
    o sentinela esquecendo a ressaca
    babaca da própria sina…
    Mas a morte morde
    a fome fomenta
    a dorme até
    um dia a rebeldia.
     
    A burguesia velejando
    A burguesia velejando
    à tarde mansa
    não se cansa de usufruirfluir líquido do lucro.
    Navios que entram lentos pelo canal
    já se agitaram contra outros ventos
    e as ondas que convulsionam contra as pedras
    voltam e se amainam no rio
    como os marinheiros se acostumam
    aos ares de muitos mares.
    Braços proletários cujo trabalho
    vai incorporado neste frete
    alaram-se aos que aqui sofrem algemas
    exercendo protesto noutras terras.
    Já aconteceu saudar-nos
    um navio de bandeira vermelha
    emitindo acentos sonoros.
    Já aconteceu em manhã de sol
    as gaivotas espantadas em bando
    lembrarem poetas de cantares
    cantados e sofridos em portos
    sem portas, em minas e cantinas.
     
    Apesar de esbordoarem o rosto…
    Apesar de esbordoarem o rosto
    posto em algemas no pó da rua
    apesar de provar aos berros que o corpo
    é ótimo condutor de eletricidade
    apesar dos vergões no dorso
    e dos dentes que se esmigalham
    apesar da coronha na cabeça
    e a sanga de sangue entre os cabelos
    apesar de trancado entre paredes
    ferros e chaves ou cercado
    de águas e guardas
    apesar da dor que mais dói,
    o pior de tudo: pôr mudo
    a quem cabe pontear.
     
    Braço erguido em punho…
    Braço erguido em punho
    como se rompesse grilhões
    a alegria nos contagia, ele
    deslancha rumo ao nascente.
    Pega a voga companheiro,
    Segue antes. Já viste
    que o cativeiro não resiste
    à chispa em riste madrugando
    Conosco no bojo da liberdade.
    Mais que nunca sorve agora
    a bebida amarga dos operários,
    prova a taça até o fundo
    e do gosto a suor faze
    o nosso momento.
    Pelo descampado adestra a mira
    e o dedo no gatilho,
    guarda a pólvora e o sarilho
    para a hora propícia.
    Lembra de empunhar malhos
    Para derrubar os deuses.
    Não coleciones cântaros cristalizados
    cultiva as promessas que vicejam
    e que se vejam no acontecer diário.
    Prevê as provisões de volta.
    E considera que o amor
    aviva a visão das coisas.
    (para o Calino)
     
    Talhado para as coisas da vida
    Talhado para as coisas da vida
    zurziram tua carne barbaramente,
    mas teu corpo se esculpiu em bravo.
    Apodrecerá viva a boca
    que insultou de canalha a solidariedade
    e os algozes terão seu dilúvio
    misturados a excremento e lixo.
    Podemos ouvir George Jakson
    não entendendo tudo que Dylan diz,
    lixar o verniz de cada um,
    buscar dimensões não abraçadas,
    retomar as lições calhadas na lida.
    lançar a linha e aguardar o peixe,
    comer o pão dormido e não perder
    a firmeza, saber do acontecido
    conhecendo para onde indicam
    as luzes e percalços dos pioneiros da terra,
    não estamos num beco sem saída.
    Mas o reduto é de trevas
    E a prova palpável da luz
    Pode ser o ósculo dos camaradas
    Que compartilham a estrada.
    (num aniversário do Minhoca)

  • Antonio Pinheiro Salles

    Antonio Pinheiro Salles

    Nascido em Estrela, Minas Gerais, Antonio Pinheiro Salles já na adolescência militou no movimento estudantil. Iniciando como jornalista, foi vereador e líder universitário, sofrendo reiteradas prisões. Procurando preservar-se, pas­sou à vida clandestina na Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. Como membro do POC, foi sequestrado neste estado, sofrendo inomináveis torturas. Anistiado, retomou a ação política, publicou vários livros de memória e é ativista de Direitos Humanos por Memória, Verdade e Justiça.
    O Adeus a Porto Alegre
    Não mais serei levado para o país do sul
    Onde, apesar dos pesares, pude sobreviver
    E te ver, te conhecer, te amar, te desejar
    Como se não fossem tantas as turbulências
    Como se o adeus ao porto de Porto Alegre
    Não estivesse na posse das possibilidades.
    É incrivel, mas sempre eu sabia da beleza,
    Até se a tristeza e a dor não adormeciam.
    Tu decidiste ser a minha serenidade
    Em cada visita me apresentando a vida
    Plena de nuanças novas, de esperanças
    Ressuscitadas e graças sem agradecimentos.
    Coisas que não te disse, macias pétalas
    Guardadas para te oferecer no amanhecer
    Talvez nunca possam mesmo ultrapassar
    Sustos, soluços e solidões da minha cela.
    Mas o amor não tem data nem concordata,
    Ainda que o terror não reconheça o amor.
    Não mais serei levado para o país do sul,
    Não nos veremos após a espera desesperada
    Havia névoa no voo da velha aeronave
    E uma nívea revolta na volta das algemas.
    O perfil de Porto Alegre foi fenecendo
    Enquanto tu sonhavas sem saber de mim.
    Tudo ficou distante… Teus olhos verdes
    Eu não vou conseguir mais ver de perto
    Em teus pagos peleamos; desafiamos o fogo,
    O frio, o minuano, a imensidão do mundo.
    Hoje, o Guaíba nasce e desce em minha face
    Quando penso em ti, tua força, tua cidade.

  • Antônio Alberi Malfi

    Natural de Passo Fundo (RS), militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso em 1970, foi condenado pela 3ª Auditoria Militar de Santa Maria. Cumprida a pena, continuou sendo perseguido, tendo que exilar-se nos seguintes países: Chile, México, Bélgica e Argentina. Casado com Ieda Maria Andreatta Maffi. Após retornar do exílio, foi professor universitário, na Universidade de Ijuí, de Cultura Brasileira, Literatura Brasileira, Literatura Latino Americana, Literatura Portuguesa e Literatura Africana de Língua Portuguesa. Ativista político e dos Direitos Humanos, elegeu-se prefeito municipal de Braga (RS), por dois mandatos (1983/88 e 1993/96). Autor de um livro de poesias, escrito durante a prisão, que foi confiscado pelos militares.
    Dos Motivos
    Escrevemos porque nos falta o tempo
    de purgar a grande dor coletiva
    e na poesia que fazemos
    trazemos nossa esperança rediviva.
    Fazer versos é mais que manifesto:
    hoje, é luta e testemunhos.
    É um cerrar de punhos
    e um grito de protesto.
    Cantemos, pois, com a certa convicção
    de que calar é mais trágico e atroz.
    Infeliz o que sabe a canção
    e, no entanto, emudece a voz.
    Cicatrizes
    Crava-se na memória
    o espinho
    e a dor escorre
    como sangue.
    Na desesperança desencarnada
    de uma terra seca de searas
    pedras sobre pedras
    O suor é o sonho.
    As manhãs e as claras madrugadas
    foram apenas festas que a noite castrou.
    O espinho encravado no miolo da esperança
    na sutura dos ossos
    no pêndulo do nervo
    na paz do sangue
    na sagração dos dias
    na origem do pasmo
    na confluência da dor
    nas raízes da terra
    e na carnadura da pedra
    agride nossas cicatrizes.
    No eixo do tempo,
    a memória.
    Mas não serei eu
    agreste e perdido
    que há de lavar o sangue
    das mãos que mataram nos porões
    do tempo.
    Da dor vertida no peito
    feito lágrima e fel
    sabem o fio da faca
    e prumo da História.
    Da noite, sabemos nós
    que viemos do mundo dos abismos
    carregando almas naufragadas
    salitre nas feridas
    mágoas no peito
    e engasgo na garganta.
    Nós, que de muito plantar
    no escuro da noite
    as palavras que nos marcavam
    os sonhos que nos embalavam
    e os mitos que nos mantinham
    restamo-nos, sobreviventes,
    amanhecendo cicatrizes.
     
    Precariedade
    As precárias palavras
    no papel
    concentram a vontade do canto.
    Mas nada se revela
    nesta noite de mudez
    que não sejam inúteis, velhos
    e cansados gestos.
    O nó na garganta.
    A espinha do peixe
    não fere mais que o silêncio.
    Tudo é provisório
    nesta noite.
    Eu. Você. O ditador.
    E o nó.