Autor: Elmar Bones

  • Guedes resiste, mas coronavirus está contaminando seu projeto de arrocho

    Guedes resiste, mas coronavirus está contaminando seu projeto de arrocho

    Tema da polêmica reunião ministerial de 22 de abril, o Programa Pró-Brasil está anunciado para outubro, mas até agora é uma incógnita.

    O Programa é coordenado pelo chefe da Casa Civil, general Braga Netto e foi concebido para enfrentar a crise econômica que vem na esteira do coronavírus.

    Na reunião ministerial em que foi apresentado, o que ficou claro sobre o programa é que há uma disputa entre os seus defensores e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

    Guedes diz que “o governo está quebrado” e que não tem os recursos previstos para destravar a economia. O dinheiro terá que vir de investidores privados, segundo o ministro.

    Os mentores do programa, Braga Neto e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho contam com recursos do Tesouro para retomar as principais obras públicas que estão paralisadas por todo o país.

    Para Guedes, que defende um controle rígido dos gastos públicos, é uma questão de princípio.

    Na reunião ele atacou: “O discurso é conhecido: ‘acabar com as desigualdades regionais’. É bonito, mas isso é o que o Lula, o que a Dilma fizeram. Se a gente quiser acabar igual a Dilma, segue esse caminho”, disse Guedes.

    Marinho, sem citar  Guedes, contra atacou: “O que eu peço é que tenhamos  as mentes abertas. E que os dogmas sejam colocados de lado nesse momento”, afirmou.  Os dogmas a que se refere Marinho estão no ideário neoliberal de redução dos gastos públicos, de que Guedes não abre mão.

    Na reunião, Bolsonaro não se posicionou sobre a disputa, mas uma semana depois começou a agir para dar mais poder a Guedes dentro do programa.

    No dia 27 de abril, ele disse em entrevista coletiva no Palácio da Alvorada que é o ministro “quem manda na economia”.

    No dia 29, Bolsonaro chamou Guedes, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e Braga Netto para alinhar as ações do Pró-Brasil.

    Nessa conversa ficou decidido que todas as ações do programa teriam que ter o aval de Guedes.

    No mesmo dia, para demonstrar que estão alinhados, os ministros da Economia e da Casa Civil deram uma entrevista coletiva juntos para falar sobre o Pró-Brasil.

    O plano do governo ainda está em fase de elaboração e não há muitos detalhes divulgados.

    Em linhas gerais, o programa pretende retomar obras de infraestrutura paradas e gerar empregos. Na reunião ministerial, o ministro Tarcísio Freitas, da Infraestrutura afirmou que vai elaborar uma lista de 70 obras que totalizam R$ 30 bilhões de investimentos até 2022.

    Segundo Marinho serão no total R$ 184,4 bilhões de recursos até 2024 para destravar mais de  20 mil obras.

    Em depoimento no Congresso, o general Braga Neto seguiu a linha de Guedes e disse aos deputados e senadores da comissão de orçamento que a ideia é que predominem os investimentos privados, não públicos.

    “Logicamente deverão ter recursos públicos, mas não será o montante que possa atender a toda recuperação. Vamos ter que fazer um trabalho muito grande de legislação e buscar exatamente esses fundos privados”, declarou o chefe da Casa Civil.

    O ministro da Casa Civil pediu aos congressistas que alterem a legislação para facilitar investimento privado em infraestrutura, acelerando os projetos de privatização.

    Duas matérias sobre esse tema já tramitam no Senado: o novo marco para privatizações no setor elétrico e no saneamento básico.

    “Precisamos do apoio do legislativo  melhoria da nossa legislação para que possa atrair recursos não governamentais”.

    Pelo que disse na reunião, Guedes conta com mais de R$ 400 bilhões, em concessões e privatizações, que podem envolver a Eletrobras e até o Banco do Brasil.

    O problema, como lembrou o ministro da Infraestrutura na reunião, é que as concessões de serviços públicos e privatizações dependerem de mudanças na legislação e procedimentos burocráticos.

    Além disso, esbarrarão na crise econômica que vai retrair os investimentos privados no mundo inteiro por um bom tempo, enquanto a reconstrução da economia é questão urgente.

     

  • “Não há base ideológica para um golpe militar”

    “Não há base ideológica para um golpe militar”

    “A questão militar no Brasil de hoje”, foi o tema do debate on line promovido pelo Comitê de Defesa da Democracia, coordenado pelo cientista político Benedito Tadeu César e a advogada Mari Peruso.

    Aldo Rebelo e Celso Amorim, dois ex-ministros da Defesa, foram os debatedores.

    Amorim  ocupou o cargo no governo Lula e foi também ministro das Relações Exteriores nos governos Itamar Franco, Lula e Dilma.

    Rebelo,  ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara, foi ministro da Defesa do governo Dilma.

    Ambos assinaram, no início de maio,  a nota conjunta divulgada pelos seis civis que ocuparam o Ministério da Defesa desde que ele foi criado em 1999, repelindo os apelos à intervenção militar, que tem sido estimulados durante o governo Bolsonaro.

    Segundo Celso Amorim, “hoje não há propriamente uma Questão Militar”, expressão criada no tempo do Império, quando havia “um confronto entre o Exército e o poder civil”.

    O que se tem no período recente são manifestações pontuais – como a nota emitida pelo então comandante do Exército, general Vilas Boas, na véspera do julgamento do ex-presidente Lula em segunda instância, em janeiro de 2018.

    “A manifestação do comando militar pode ter influenciado a decisão que condenou o ex-presidente e levou, em seguida, à sua prisão. Mas foi um fato isolado, não configurando uma intervenção dos militares no processo político.”

    Hoje, segundo Amorim, as manifestações dos comandos militares são no sentido de garantir a estabilidade e o processo democrático.

    Mesmo a recente nota do general Augusto Heleno, ameaçando  com “consequências imprevisíveis” caso  a Justiça determine a apreensão do telefone celular do presidente da República, não é  mais que “uma bravata”.

    “Hoje, disse Amorim,  temos uma situação muito diferente de 1964, quando as Forças Armadas foram o principal instrumento do golpe civil-militar”.

    Naquele período, segundo ele, havia uma ideologia gestada nas escolas militares, principalmente na Escola Superior de Guerra no contexto internacional da Guerra Fria, entre a União Soviética e os Estados Unidos.

    “Talvez hoje exista algum ressentimento, um sentimento de que os militares tenham ficado de lado  no processo de redemocratização ou mesmo uma vontade de voltar ao poder, mas não há uma ideologia a justificar uma intervenção militar”.

    Ideologicamente, explicou Amorim, os militares se identificam com a classe média, com muita sensibilidade para temas como corrupção e o anti-comunismo e que alguns interesses, inclusive estrangeiros, sabem explorar. “Mas não há uma base ideológica que una os militares no sentido de tomarem o poder.”

    Teriam sido esses fatores, na avaliação de Celso Amorim, que levaram muitos militares  a apoiarem  a candidatura e o governo de Jair Bolsonaro.

    “Os militares, ao menos os de alta patente, não eram bolsonaristas mas acabaram se identificando com essas bandeiras de anti-corrupção e de nova política que podem ter alimentado um desejo de voltar ao governo, mas não como uma corporação unida que tem um projeto de poder.”

    O caso mais emblemático nesse ponto seria o do general  Carlos Alberto Santos Cruz, que ocupou a Secretaria de Governo da Presidência e não demorou a se decepcionar, assim como vários outros militares que foram para o governo, mas logo saíram fora.

    “É preciso considerar também que quase todos esses militares que foram para o governo são da reserva”, disse Amorim.

    “Eles se julgam bons administradores e em algumas áreas, como a logística, realmente são bons e já demonstraram isso, como na organização da Copa do Mundo, das Olimpíadas e outros grandes eventos ou mesmo dirigindo setores estratégicos como o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes, que no governo Dilma foi presidido por um general, com bons resultados.”

    Segundo Amorim, é correta a afirmação de que o governo Bolsonaro “não é um governo militar, são militares no governo, embora se deva levar sempre em conta que a quantidade influi na qualidade”

    Para ele, um dos objetivos da presença dos militares  seria “não tutelar, mas moderar o presidente”. Com a crise  do coronavírus, porém,  “ficou claro que o presidente não é controlável”.

    Amorim acredita que “partir daí se tem uma situação diferente”, marcado pela “espantosa nomeação” de um general para o ministério da Saúde, num momento de crise sanitária e epidemiológica.

    A partir daí, segundo ele, vai ficando claro que os militares  se envolveram demais com um governo sem rumo e estão numa “situação difícil” cujo desdobramento ainda não se pode prever.

    Aldo Rebelo, de certa forma, corroborou as colocações  de Celso Amorim na abertura do debate. Ele disse que não se deve  “avaliar  as instituições pela posição de seus representantes momentâneos”, mas por sua história. “Não posso avaliar o Itamarati pelo Ernesto Araújo, nem as Forças Armadas pelo general Heleno”.

    O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, segundo Rebelo, “não é representativo”.

    “As Forças Armadas, segundo ele,  têm um papel maior do que sugerem alguns episódios protagonizados por aqueles que se imaginam seus representantes”

    Para Rebelo, “não se pode olhar a conjuntura e, a partir dela, fazer julgamentos definitivos”.  Embora, diz ele, não se deva passar ao largo da conjuntura, para entender o papel dos militares é recomendável  um olhar mais abrangente.  “É preciso ver a história e o papel da instituição militar  na defesa e na construção do país em momentos difíceis.”

    Rebelo citou o período da Regência, no Regime Imperial, quando o Brasil enfrentou quatro guerras civis – na Bahia, no Maranhão, no Pará e, a maior delas, no Rio Grande do Sul, onde a “Guerra dos Farrapos durou dez anos”.

    “Nem o pulso e autoridade do regente Feijó foi capaz de pacificar o país, dividido pelos conflitos entre as lideranças regionais. Não havia uma ideia de nação, o  país poderia ter se fragmentado em cinco ou seis repúblicas.  Foi a instituição militar que  garantiu a unidade. Mais adiante, na Abolição, os militares tiveram participação decisiva. “Floriano Peixoto era abolicionista e participava de clubes clandestinos, os militares homenageavam os abolicionistas. Sem falar na proclamação da República que se concretizou pela ação militar. Na Revolução de 1930 também tiveram participação importante.  O general Góis Monteiro  governou junto com Getulio Vargas, que tinha um projeto de desenvolvimento para o país”.

    Segundo Rebelo, o que aconteceu em 1964 foi fruto da Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois polos irreconciliáveis  e levou os militares brasileiros a um alinhamento total aos Estados Unidos e uma exacerbação anti-comunista. A situação hoje é outra.

    “Não acho que os militares estão no governo. Estão no governo os amigos de Bolsonaro. Não vejo engajamento dos militares que estão nos quartéis. Heleno, Braga Neto e outros que foram apoiadores de Bolsonaro  desde o início, não representam a instituição.”

    Para Rebelo, a atual crise institucional tem origem em outros fatores, para além da questão militar.

    As raízes da atual instabilidade, segundo o ex-ministro, estão no processo que derrubou a presidente Dilma Rousseff e que teve como principais protagonistas, não os militares, mas o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio STF.

    “Imagino se Dilma tivesse dado posse ao presidente Lula como chefe da Casa Civil, independente da decisão do supremo”, diz Rebelo.

    Ministro da Defesa durante a crise que culminou com a queda da presidente, Aldo Rebelo revelou que mandou para Dilma e seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um parecer jurídico mostrando que o então juiz Sérgio Moro cometeu crime contra a Segurança Nacional quando vazou para a imprensa o telefonema da presidente para Lula, falando da sua nomeação para a Casa Civil.

    “Não tenho dúvida que ele cometeu crime contra a Segurança Nacional ao divulgar  o telefonema entre a presidente da República e o ex-presidente Lula”.

    Segundo Rebelo,  Dilma poderia ter mandado prender o juiz Sérgio Moro por esse motivo.  “Não tenho dúvida que ele cometeu crime contra a Segurança Nacional ao vazar uma comunicação pessoal da presidente da República. Eu mandei para a Dilma o parecer do meu Ministério da Defesa, comprovando isso, mandei para o ministro da Justiça o mesmo parecer. Ali, ele cometeu também crime contra a Administração pública.” Seriam dois crimes, portanto, segundo Rebelo.

    “Os defensores da legalidade, aqueles que estão hoje tão melindrados pelo respeito entre os poderes, o que fizeram? Nada, apoiaram o impeachment.”

    Segundo Rebelo, a disputa pelo poder entre as corporações do MP, PF e o próprio STF, que querem usurpá-lo da verdadeira fonte do poder que é o povo, “isso é o que está na origem da instabilidade que o país vive hoje”.

    “O ministro Heleno  julga que o STF extrapolou  suas atribuições ao pedir um parecer da Procuradoria Geral da República sobre um requerimento da oposição para recolher os telefones de Bolsonaro. Veja que o STF não mandou quebrar o sigilo nem recolher os telefones de Bolsonaro. O que o ministro fez foi consultar sobre o pedido de deputados da oposição,com base numa lei”.

    “Fica claro que essa nota ameaçando com “consequências imprevisíveis”  tem por objetivo  calar o parecer da procuradoria . O que o GSI tem a ver com isso?”

    “É bravata, inconsequência, que não faz bem à  biografia dele e vai destruindo o esforço de construção democrática, esse é o governo. Não acredito que os militares profissionais, que tem as responsabilidades, vão se meter numa situação dessas. Se meter para quê? Com que resultado? Patrocinar a defesa de um governo, que patrocina cenas deploráveis como as que foram mostradas no vídeo da reunião ministerial… é esse governo que ameaça as instituições?  O ministro Heleno deve saber que consequências imprevisíveis serão imprevisíveis para todos, inclusive para ele. Na minha terra se diz que cachorro que late não morde. Por isso vou dormir tranquilo, pois apesar do barulho midiático não terá maiores consequências”, disse o ex-ministro.

    Segundo Rebelo, a pior das consequências que já está se fazendo sentir nesse processo é o enfraquecimento do Poder Executivo, “o único poder que tem condições de enfrentar a grave crise econômica e social que estamos vivendo e que vai se agravar ainda mais”.

    O Congresso, segundo ele, “é uma instituição municipalista, o Senado é federalista,  é voltado para os Estados. Só o Executivo  atende à nação como um todo e o Executivo só se faz representar quando é forte, atuante, que tem iniciativa. No Brasil, só quando o executivo foi forte e teve iniciativa foi possível combater as desigualdade sociais e regionais”.

    Segundo Rebelo toda essa agenda de que o atual governo se queixa,  de esvaziamento do poder executivo, foi a agenda apoiada por muita gente,  para enfraquecer a presidente Dilma. “As pautas bombas, as emendas obrigatórias, o controle do orçamento, tudo para fragilizar o Executivo. Foi ali que tudo isso começou. E como diz o poeta: Rei fraco faz fraca a forte gente”

    O irônico, para Rebelo, é que o empoderamento das corporações  como o Ministério Público e a Polícia Federal e do próprio judiciário se deu nos governos do PT. “Hoje o alvo delas  é a política. As corporações acham que a política é corrupta, os votos são comprados, os políticos, incompetentes. Eles estão ungidos pelos seus concursos, sua meritocracia e se aproveitam de um governo ruim e desorientado.”

     

  • “Não há base ideológica para sustentar um golpe militar”

    “Não há base ideológica para sustentar um golpe militar”

    “A questão militar no Brasil de hoje”, foi o tema do debate on line promovido pelo Comitê de Defesa da Democracia, coordenado pelo cientista político Benedito Tadeu César e a advogada Mari Peruso.

    Aldo Rebelo e Celso Amorim, dois ex-ministros da Defesa, foram os debatedores.

    Amorim  ocupou o cargo no governo Lula e foi também ministro das Relações Exteriores nos governos Itamar Franco, Lula e Dilma.

    Rebelo,  ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara, foi ministro da Defesa do governo Dilma.

    Ambos assinaram, no início de maio,  a nota conjunta divulgada pelos seis civis que ocuparam o Ministério da Defesa desde que ele foi criado em 1999, repelindo os apelos à intervenção militar, que tem sido estimulados durante o governo Bolsonaro.

    Segundo Celso Amorim, “hoje não há propriamente uma Questão Militar”, expressão criada no tempo do Império, quando havia “um confronto entre o Exército e o poder civil”.

    O que se tem no período recente são manifestações pontuais – como a nota emitida pelo então comandante do Exército, general Vilas Boas, na véspera do julgamento do ex-presidente Lula em segunda instância, em janeiro de 2018.

    “A manifestação do comando militar pode ter influenciado a decisão que condenou o ex-presidente e levou, em seguida, à sua prisão. Mas foi um fato isolado, não configurando uma intervenção dos militares no processo político.”

    Hoje, segundo Amorim, as manifestações dos comandos militares são no sentido de garantir a estabilidade e o processo democrático.

    Mesmo a recente nota do general Augusto Heleno, ameaçando  com “consequências imprevisíveis” caso  a Justiça determine a apreensão do telefone celular do presidente da República, não é  mais que “uma bravata”.

    “Hoje, disse Amorim,  temos uma situação muito diferente de 1964, quando as Forças Armadas foram o principal instrumento do golpe civil-militar”.

    Naquele período, segundo ele, havia uma ideologia gestada nas escolas militares, principalmente na Escola Superior de Guerra no contexto internacional da Guerra Fria, entre a União Soviética e os Estados Unidos.

    “Talvez hoje exista algum ressentimento, um sentimento de que os militares tenham ficado de lado  no processo de redemocratização ou mesmo uma vontade de voltar ao poder, mas não há uma ideologia a justificar uma intervenção militar”.

    Ideologicamente, explicou Amorim, os militares se identificam com a classe média, com muita sensibilidade para temas como corrupção e o anti-comunismo e que alguns interesses, inclusive estrangeiros, sabem explorar. “Mas não há uma base ideológica que una os militares no sentido de tomarem o poder.”

    Teriam sido esses fatores, na avaliação de Celso Amorim, que levaram muitos militares  a apoiarem  a candidatura e o governo de Jair Bolsonaro.

    “Os militares, ao menos os de alta patente, não eram bolsonaristas mas acabaram se identificando com essas bandeiras de anti-corrupção e de nova política que podem ter alimentado um desejo de voltar ao governo, mas não como uma corporação unida que tem um projeto de poder.”

    O caso mais emblemático nesse ponto seria o do general  Carlos Alberto Santos Cruz, que ocupou a Secretaria de Governo da Presidência e não demorou a se decepcionar, assim como vários outros militares que foram para o governo, mas logo saíram fora.

    “É preciso considerar também que quase todos esses militares que foram para o governo são da reserva”, disse Amorim.

    “Eles se julgam bons administradores e em algumas áreas, como a logística, realmente são bons e já demonstraram isso, como na organização da Copa do Mundo, das Olimpíadas e outros grandes eventos ou mesmo dirigindo setores estratégicos como o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes, que no governo Dilma foi presidido por um general, com bons resultados.”

    Segundo Amorim, é correta a afirmação de que o governo Bolsonaro “não é um governo militar, são militares no governo, embora se deva levar sempre em conta que a quantidade influi na qualidade”

    Para ele, um dos objetivos da presença dos militares  seria “não tutelar, mas moderar o presidente”. Com a crise  do coronavírus, porém,  “ficou claro que o presidente não é controlável”.

    Amorim acredita que “partir daí se tem uma situação diferente”, marcado pela “espantosa nomeação” de um general para o ministério da Saúde, num momento de crise sanitária e epidemiológica.

    A partir daí, segundo ele, vai ficando claro que os militares  se envolveram demais com um governo sem rumo e estão numa “situação difícil” cujo desdobramento ainda não se pode prever.

    Aldo Rebelo, de certa forma, corroborou as colocações  de Celso Amorim na abertura do debate. Ele disse que não se deve  “avaliar  as instituições pela posição de seus representantes momentâneos”, mas por sua história. “Não posso avaliar o Itamarati pelo Ernesto Araújo, nem as Forças Armadas pelo general Heleno”.

    O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, segundo Rebelo, “não é representativo”.

    “As Forças Armadas, segundo ele,  têm um papel maior do que sugerem alguns episódios protagonizados por aqueles que se imaginam seus representantes”

    Para Rebelo, “não se pode olhar a conjuntura e, a partir dela, fazer julgamentos definitivos”.  Embora, diz ele, não se deva passar ao largo da conjuntura, para entender o papel dos militares é recomendável  um olhar mais abrangente.  “É preciso ver a história e o papel da instituição militar  na defesa e na construção do país em momentos difíceis.”

    Rebelo citou o período da Regência, no Regime Imperial, quando o Brasil enfrentou quatro guerras civis – na Bahia, no Maranhão, no Pará e, a maior delas, no Rio Grande do Sul, onde a “Guerra dos Farrapos durou dez anos”.

    “Nem o pulso e autoridade do regente Feijó foi capaz de pacificar o país, dividido pelos conflitos entre as lideranças regionais. Não havia uma ideia de nação, o  país poderia ter se fragmentado em cinco ou seis repúblicas.  Foi a instituição militar que  garantiu a unidade. Mais adiante, na Abolição, os militares tiveram participação decisiva. “Floriano Peixoto era abolicionista e participava de clubes clandestinos, os militares homenageavam os abolicionistas. Sem falar na proclamação da República que se concretizou pela ação militar. Na Revolução de 1930 também tiveram participação importante.  O general Góis Monteiro  governou junto com Getulio Vargas, que tinha um projeto de desenvolvimento para o país”.

    Segundo Rebelo, o que aconteceu em 1964 foi fruto da Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois polos irreconciliáveis  e levou os militares brasileiros a um alinhamento total aos Estados Unidos e uma exacerbação anti-comunista. A situação hoje é outra.

    “Não acho que os militares estão no governo. Estão no governo os amigos de Bolsonaro. Não vejo engajamento dos militares que estão nos quartéis. Heleno, Braga Neto e outros que foram apoiadores de Bolsonaro  desde o início, não representam a instituição.”

    Para Rebelo, a atual crise institucional tem origem em outros fatores, para além da questão militar.

    As raízes da atual instabilidade, segundo o ex-ministro, estão no processo que derrubou a presidente Dilma Rousseff e que teve como principais protagonistas, não os militares, mas o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio STF.

    “Imagino se Dilma tivesse dado posse ao presidente Lula como chefe da Casa Civil, independente da decisão do supremo”, diz Rebelo.

    Ministro da Defesa durante a crise que culminou com a queda da presidente, Aldo Rebelo revelou que mandou para Dilma e seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um parecer jurídico mostrando que o então juiz Sérgio Moro cometeu crime contra a Segurança Nacional quando vazou para a imprensa o telefonema da presidente para Lula, falando da sua nomeação para a Casa Civil.

    “Não tenho dúvida que ele cometeu crime contra a Segurança Nacional ao divulgar  o telefonema entre a presidente da República e o ex-presidente Lula”.

    Segundo Rebelo,  Dilma poderia ter mandado prender o juiz Sérgio Moro por esse motivo.  “Não tenho dúvida que ele cometeu crime contra a Segurança Nacional ao vazar uma comunicação pessoal da presidente da República. Eu mandei para a Dilma o parecer do meu Ministério da Defesa, comprovando isso, mandei para o ministro da Justiça o mesmo parecer. Ali, ele cometeu também crime contra a Administração pública.” Seriam dois crimes, portanto, segundo Rebelo.

    “Os defensores da legalidade, aqueles que estão hoje tão melindrados pelo respeito entre os poderes, o que fizeram? Nada, apoiaram o impeachment.”

    Segundo Rebelo, a disputa pelo poder entre as corporações do MP, PF e o próprio STF, que querem usurpá-lo da verdadeira fonte do poder que é o povo, “isso é o que está na origem da instabilidade que o país vive hoje”.

    “O ministro Heleno  julga que o STF extrapolou  suas atribuições ao pedir um parecer da Procuradoria Geral da República sobre um requerimento da oposição para recolher os telefones de Bolsonaro. Veja que o STF não mandou quebrar o sigilo nem recolher os telefones de Bolsonaro. O que o ministro fez foi consultar sobre o pedido de deputados da oposição,com base numa lei”.

    “Fica claro que essa nota ameaçando com “consequências imprevisíveis”  tem por objetivo  calar o parecer da procuradoria . O que o GSI tem a ver com isso?”

    “É bravata, inconsequência, que não faz bem à  biografia dele e vai destruindo o esforço de construção democrática, esse é o governo. Não acredito que os militares profissionais, que tem as responsabilidades, vão se meter numa situação dessas. Se meter para quê? Com que resultado? Patrocinar a defesa de um governo, que patrocina cenas deploráveis como as que foram mostradas no vídeo da reunião ministerial… é esse governo que ameaça as instituições?  O ministro Heleno deve saber que consequências imprevisíveis serão imprevisíveis para todos, inclusive para ele. Na minha terra se diz que cachorro que late não morde. Por isso vou dormir tranquilo, pois apesar do barulho midiático não terá maiores consequências”, disse o ex-ministro.

    Segundo Rebelo, a pior das consequências que já está se fazendo sentir nesse processo é o enfraquecimento do Poder Executivo, “o único poder que tem condições de enfrentar a grave crise econômica e social que estamos vivendo e que vai se agravar ainda mais”.

    O Congresso, segundo ele, “é uma instituição municipalista, o Senado é federalista,  é voltado para os Estados. Só o Executivo  atende à nação como um todo e o Executivo só se faz representar quando é forte, atuante, que tem iniciativa. No Brasil, só quando o executivo foi forte e teve iniciativa foi possível combater as desigualdade sociais e regionais”.

    Segundo Rebelo toda essa agenda de que o atual governo se queixa,  de esvaziamento do poder executivo, foi a agenda apoiada por muita gente,  para enfraquecer a presidente Dilma. “As pautas bombas, as emendas obrigatórias, o controle do orçamento, tudo para fragilizar o Executivo. Foi ali que tudo isso começou. E como diz o poeta: Rei fraco faz fraca a forte gente”

    O irônico, para Rebelo, é que o empoderamento das corporações  como o Ministério Público e a Polícia Federal e do próprio judiciário se deu nos governos do PT. “Hoje o alvo delas  é a política. As corporações acham que a política é corrupta, os votos são comprados, os políticos, incompetentes. Eles estão ungidos pelos seus concursos, sua meritocracia e se aproveitam de um governo ruim e desorientado.”

    Confira: http://www.youtube.com/watch?v=UgjcHJjc6Jk

  • Ex-ministros da defesa divulgam nota contra golpe militar

    José Antônio Severo

    Os seis ex-ministros civis da Defesa soltaram, neste domingo, uma nota conjunta reafirmando o compromisso legalista das forças armadas, enfatizando que elas  são instituições de Estado que têm como “missão indeclinável a defesa da Pátria e a garantia da soberania”.

    O documento foi assinado, em ordem alfabética, pelos ex-ministros Aldo Rebelo, Celso Amorim, Jaques Wagner, José Viegas filho, Nelson Jobim, todos de governos de coalisão liderados pelo PT, e Raul Jungmann, do MDB.

    Na nota, os ex-ministros advertem que “assim, qualquer apelo e estímulo às instituições armadas para a quebra da legalidade democrática, oriundas de grupos desorientados, merecem a mais veemente condenação. Constituem afronta inaceitável ao papel constitucional da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, sob a coordenação do Ministério da Defesa”, dizem os ex-titulares.

    Veja a integra da nota:

    “As Forças Armadas são instituições de Estado com importante papel na fundação da nacionalidade e no desenvolvimento do País. Sua missão indeclinável é a defesa da Pátria e a garantia da nossa soberania. Merecidamente desfrutam de amplo apoio e reconhecimento   da sociedade brasileira.

    Diante das imensas dificuldades decorrentes da crise imposta pela pandemia do coronavirus, cujos efeitos se alastram, de forma trágica, pelo Brasil, as Forças Armadas cumprem o importante papel no enfrentamento das adversidades e na manutenção da unidade e do ânimo da população.

    A democracia no Brasil, mais que uma escolha, conforma-se como um destino incontornável, que necessita da contribuição de todos para seu aperfeiçoamento.

    A Constituição estabelece no seu artigo 142 que as Forças Armadas se destinam à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constituídos e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

    Não pairam dúvidas acerca dos compromissos das FAs com os princípios democráticos ordenados na Carta de 1988. A defesa deles tem sido e continuará sendo fundamento da atuação das Forças.

    Assim, qualquer apelo e estímulo às instituições armadas para q quebra da legalidade democrática, oriundos de grupos desorientados, merecem a mais veemente condenação. Constituem afronta inaceitável ao papel constitucional da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, sob a coordenação do <Ministério da Defesa.

    É o que pensamos na condição de ex-ministros de Estado da Defesa que abaixo subscrevemos” – conclui a nota conjunta. Seguem-se as assinaturas dos seis, por ordem alfabética.

     

     

  • “Possibilidade de impeachment deve desestabilizar o Brasil pelos próximos meses”

    “Possibilidade de impeachment deve desestabilizar o Brasil pelos próximos meses”

    Esse é o título de uma nota distribuída pela Solomon’s Brain, que reúne um grupo de experts dedicados a analisar e  projetar cenários político-econômicos.

    A nota resume o cenário projetado para os próximos meses no Brasil, a partir da queda do ex-ministro Sérgio Moro, em análise feita por Luiz Augusto Ferreira, o Guto Ferreira, que integrou a equipe do Ministério da Economia do governo Bolsonaro.

    Ex-presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial,  Ferreira se envolveu com importantes programas do governo até ser demitido por  Bolsonaro em setembro de 2019. Saiu dizendo que “Bolsonaro nunca priorizou o combate à corrupção”.

    Hoje, Ferreira atua como Analista Político-Econômico e Diretor de Inteligência e Inovação na Solomon’s Brain, um grupo de “análise de cenário”, uma ferramenta ainda pouco conhecida no país, “para auxiliar empresários e investidores na tomada de decisões através do uso de probabilidades e algoritmos”.

    Sua avaliação do cenário que se desdobra a partir da demissão de Sérgio Moro aponta na direção do impeachment.

    O ex-ministro insinuou que o presidente Jair Bolsonaro fez a troca na diretoria-geral da Polícia Federal por não poder ter acesso aos relatórios confidenciais da Polícia Federal.

    “Essa é uma interferência que sem sombra de dúvida, se for comprovada, é um crime de responsabilidade e crime de responsabilidade pode ser um impeachment a caminho,” conclui.

    Segundo Ferreora “o governo está em colapso” e estima que o dólar deve atingir os R$ 6. “O governo já está em colapso, na entrevista anterior comentei que se tudo desse errado, o dólar bateria R$ 6. Tudo está dando errado”.

    Para o Analista, os últimos acontecimentos são sinais de alerta para a credibilidade do Brasil.

    “A popularidade do presidente vai desabar, a credibilidade do Brasil vai cair cada vez mais, inclusive no exterior e no mercado financeiro internamente também, certamente o impeachment dele pode ser uma pauta”, afirma.

    Ferreira recorda sua entrevista após a demissão da ABDI, onde afirmou que haviam três governos no Brasil. “A questão é que quando dei a entrevista lá trás, falei que havia três governos: o do Guedes, do Moro e, por fim, governo do Bolsonaro. Por que que falei aquilo? Porque naquela época o Moro e o Guedes só aceitaram ser ministros com o comprometimento do presidente de que teriam carta branca para fazer aquilo que eles achassem correto. Exatamente o que o Moro citou na coletiva”.

    Guto Ferreira ressalta a interferência de Bolsonaro nas decisões dos ministros, quebrando a condição que deu aos mesmos.

    “A partir daí o presidente passa a tentar interferir na Polícia Federal porque os seus filhos estariam sendo investigados. Um por questão de fake news, milícia digital e até a questão do assassinato da Marielle Franco, o outro por conta da “rachadinha”. Enfim, tudo relacionado ao Rio de Janeiro”.

    Para Ferreira esta interferência pode ser caracterizada como crime de responsabilidade. “Essa é uma interferência que sem sombra de dúvida, se for comprovada, é um crime de responsabilidade e crime de responsabilidade pode ser um impeachment a caminho”.

    Ferreira pontua que a possibilidade de um impeachment agora deixa o país mais instável e quebra a credibilidade do governo atual.

    “Isso traz uma instabilidade enorme para o Brasil, mais do que a instabilidade, tira a credibilidade de todo o governo do Bolsonaro que foi pautada em cima de ‘eu dou liberdade para os meus ministros fazerem aquilo que eles acham correto’, isso acabou de ser demonstrado que não é verdade”, conclui.

     

  • Bolsonaro: o golpe em doses diárias

    Bolsonaro: o golpe em doses diárias

    Jair Bolsonaro começou a semana revigorado em seus propósitos de ampliar os limites do poder autocrático do presidente.

    Enfrentou uma tempestade com a demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, que deixou o governo acusando-o de tentar interferir em investigações da Polícia Federal.

    As acusações de Moro trouxeram o impeachment à ordem do dia e  levaram o STF a anular a nomeação do novo diretor da PF, Alexandre Ramagem, amigo dos filhos do presidente, assinada por Bolsonaro.  Uma das insinuações de Moro é que Bolsonaro quer livrar os filhos investigados pela PF do Rio a serviço da Justiça .

    No sábado, Moro depôs na sede da PF, em Curitiba, em inquérito que investiga se as tentativas de Bolsonaro de influir na Polícia Federal poderiam caracterizar “obstrução à Justiça”.

    O depoimento gerou grande expectativa, teve enfrentamento no local, entre bolsonaristas e moristas,  durou mais de cinco horas, mas não produziu o efeito esperado. A íntegra divulgada nesta terça-feira não acrescenta dados que possam alterar o quadro. O “efeito Moro” se dissipou.

    Bolsonaro contra atacou no domingo. Uma carreata, pela Esplanada dos Ministérios, seguida de uma manifestação com as clássicas bandeiras e camisetas com as cores do Brasil e as faixas pedindo intervenção militar, fechamento do STF e do Congresso. Uma minoria ruidosa e bem organizada.

    Na frente do Planalto, o presidente foi ao encontro dos manifestantes para dizer aquilo que já fora plantado nas suas redes sociais: não  foi ele  que tentou interferir em investigações,  como acusa Moro; foi o STF, ao suspender a nomeação de Ramagem, que interferiu nas atribuições do presidente.

    Fez um discurso irado, dizendo que chegara ao limite, não ia tolerar mais interferência e rematou dizendo que tem o povo e as forças armadas ao seu lado, dando a entender que não vai hesitar  em lançar mão desse poder se tentarem cerceá-lo. Tudo devidamente filmado e imediatamente difundido pelas redes e imprensa.

    Os jornalistas que tentavam cobrir a manifestação foram espancados e escorraçados pelos seguidores do presidente que não deu maior importância aos fatos, atribuindo-os a “infiltrados” .

    A invocação das forças armadas num ato antidemocrático soou como ameaça e ganhou repercussão em todos os meios. No mesmo dia, altos oficiais não identificados ouvidos pelo Estadão falavam do desconforto que a alusão do presidente provocara no meio militar.

    Na segunda-feira cedo, a repórter Andrea Sadi, do G1, publicou em seu blog que “a cúpula das três Forças Armadas se irritou com a fala do presidente na manifestação, quando ele disse que as Forças estão com ele”.

    Os generais não foram surpreendidos. No sábado, enquanto as atenções se voltavam para o depoimento de Moro, Bolsonaro havia reunido a cúpula militar e os ministros militares do seu governo, para expor sua inconformidade com as últimas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), questionando atos do presidente.

    Mencionou três casos:

    A liminar do ministro  Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem; a decisão de Luís Roberto Barroso no caso dos diplomatas venezuelanos; e Celso de Mello na abreviação de prazo para  o depoimento de Sérgio Moro.

    Se houve desconforto na cúpula militar, ele não transparece na nota divulgada segunda à tarde, com assinatura do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. A nota diz que as Forças Armadas “cumprem sua missão constitucional” e que estarão “sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”.

    O comunicado afirma que Marinha, Exército e Força Aérea são “organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do País”.

    Essa frase indica o acolhimento da  tese de Bolsonaro, de que está sofrendo interferência de outros poderes em suas atribuições.

    Na manhã de terça, Bolsonaro se manteve no ataque. Desceu para falar com apoiadores e a imprensa no Palácio do Planalto. Ouviu discursos fanatizados e se dirigiu aos jornalistas exibindo um fac-símile da capa da Folha de S.  Paulo com a manchete: “Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro”.

    Começou a gritar: “Mentira”. “Mentira deslavada”, “Jornalismo canalha”, bradava.

    Depois de derrubar seu ministro mais popular, para confessadamente ter mais “interlocução” com a Polícia Federal, o presidente faz as mudanças que quer e não aceita que a imprensa registre: “Eu estou tendo influência sobre a Polícia Federal? Isso é uma patifaria, é uma patifaria”.

    Quando perguntado pelos repórteres, ele gritava: “Cala a boca, Cala a boca”.

    Encolhido o Parlamento, ante o avanço da tropa de choque do Centrão; reticente o STF, ante a manifestação das forças armadas; controlada a polícia federal e a imprensa agredida e colocada sob suspeita…  Jair Bolsonaro vai dando seu golpe em doses diárias.

    Bolsonaro: 'Peço a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, chegamos no limite'

  • O BRASIL À BEIRA DO ABISMO

    O BRASIL À BEIRA DO ABISMO

    Atolado na crise de saúde provocada pela pandemia do coronavíus, que atinge o país no momento mais agudo de uma crise econômica que já dura cinco anos, o Brasil agora enfrenta uma das mais graves crises políticas da sua história recente.

    O pronunciamento do ministro da Justiça, Sérgio Moro, na manhã desta sexta-feira, lançou uma bomba sobre as instituições que garantem a democracia brasileira – o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o próprio Poder Executivo.

    Moro disse que seu pedido de demissão foi motivado pelas pressões do presidente Jair Bolsonaro para trocar a direção da Polícia Federal e colocar pessoas de sua confiança, às quais tivesse acesso para interferir em investigações da Polícia Federal. Seria uma tentativa de obstrução de Justiça.

    Moro disse também que não assinou o ato de exoneração do diretor geral da PF, Maurício Valeixo, publicado no Diário Oficial com seu nome (veja abaixo), e que não houve pedido do delegado Valeixo para deixar o cargo, conforme consta na publicação oficial. Seria crime de falsidade documental.

    Decreto com assinatura de Moro pode configurar crime de falsidade documental

    A disparada da cotação do dólar e a queda recorde das bolsas de valores sinalizam o tamanho do impacto econômico que a crise política terá na combalida economia nacional.

    Mesmo a imprensa que apoiou a eleição de Jair Bolsonaro e inclusive apoiadores do governo já admitem que as chances do presidente da República permanecer no cargo são ínfimas.

    A deputada Joyce Hasselmann, ex-aliada do presidente, disse em entrevistas que Bolsonaro tenta proteger seus filhos, acusados de montar um esquema de fake news financiado com recursos privados e usando estrutura pública.

    O impeachment de Jair Bolsonaro é aventado por opositores do presidente desde o início de seu mandato.

    Nas últimas semanas, durante a crise da pandemia do novo coronavírus, a possibilidade ganhou força nos discursos públicos de políticos.

    Em sua edição de domingo (22), o jornal Folha de S.Paulo listou ao menos 14 crimes de responsabilidade que teriam sido cometidos pelo presidente. As atitudes envolvem ofensas a jornalistas, abuso de poder e quebra de decoro.

    Segundo analistas políticos, a “base jurídica” para o impeachment existe. O que faltava até agora era a decisão política de derrubar o presidente.

    “Um presidente sabidamente criminoso pode ser poupado do impeachment se um cálculo prudencial de lideranças políticas achar que o ônus de mantê-lo no cargo é menor do que o bônus de removê-lo”, disse o professor Rafael Mafei, da Faculdade de Direito da USP, em entrevista ao Nexo publicada em 29 de fevereiro.

    Apesar de haver pedidos protocolados na Câmara Federal, poucos líderes relevantes do Congresso apoiavam a abertura de processo contra Bolsonaro.

    A decisão de arquivar ou dar sequência a um pedido do gênero cabe ao presidente da Câmara, cujo cargo é ocupado hoje pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

    Responsável por aceitar ou não o pedido de impeachment, Maia disse ao Valor, em entrevista publicada no dia 16 de março, que os processos dificilmente vão prosperar. “Nós já temos muitos problemas no Brasil para a Câmara ou o Senado serem responsáveis pelo aprofundamento da crise. Nós não seremos responsáveis por isso. Às vezes, me dá a impressão que o governo quer isso. Todos nós fomos eleitos. O presidente teve 57 milhões de votos, os deputados tiveram 100 milhões de votos”.

    Para alguns analistas, Jair Bolsonaro vê no impeachment a possibilidade de um acirramento de sua base eleitoral mais fiel. Ele aposta na retomada de uma polarização nas ruas que poderia lhe resgatar o apoio da opinião pública.

    Com o agravamento da crise a partir do pronunciamento do agora ex-ministro Sérgio Moro,  parece existir uma única chance para que Jair Bolsonaro se mantenha na presidência: um golpe militar para fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

    As reiteradas manifestações dos chefes militares, em favor da constitucionalidade, indicam que ele não dispõe de base para isso. Mas o cenário político, com a crise de saúde e a crise econômica como pano de fundo, torna-se imprevisível.

    O ministro do STF Marco Aurélio Mello em entrevistas nesta sexta-feira sintetizou a perplexidade nacional: “Aonde vamos parar? Quem viver verá”.

     

  • Morre, aos 70 anos, o jornalista Renan Antunes de Oliveira

    Morre, aos 70 anos, o jornalista Renan Antunes de Oliveira

    O Brasil perdeu um de seus grandes repórteres com a morte de Renan Antunes de Oliveira, aos 70 anos, na manhã deste domingo.

    Ele havia passado por um transplante de rim em fevereiro no Hospital de Caridade em Florianópolis, onde morava.

    Estava em casa, no Rio Vermelho, em recuperação, quando, no início desta semana, apresentou sintomas de uma infecção pulmonar.  Voltou ao hospital e testou positivo para o novo coronavírus, mas como os sintomas eram moderados ele foi liberado e voltou para casa.

    Segundo familiares foi medicado com cloroquina.

    Estava no pátio tomando sol, em companhia da mulher, Blanca Rojas, e da filha Angelina, quando foi fulminado por uma parada cardíaca, pouco antes do meio-dia.

    Vencedor do Prêmio Esso de Reportagem com a matéria ‘A Tragédia de Felipe Klein’, publicada no Jornal JÁ, em 2004, Renan Antunes também venceu como Jornalista do Ano, no Prêmio Press, em 2005.

    Foi repórter da Revista Veja, do jornal Gazeta do Povo, da RBS, da IstoÉ e do Estado de São Paulo, do qual foi correspondente em Nova Iorque.

    Nos últimos anos, atuava como freelancer produzindo matérias para diversos veículos, como o The Intercept, DCM e o jornal JÁ.

    Na última Feira do Livro de Porto Alegre, lançou pela JÁ Editora,  uma coletânea de suas melhores reportagens com o título  ‘Em carne viva com calda de chocolate’, que resumia seu estilo de relatos contundentes, embalados em textos meticulosamente elaborados.

    Natural de Nova Prata, cresceu em Porto Alegre. Iniciou o curso  de Jornalismo na Famecos/PUC e fez estágio nos Diários Associados.

    Trabalhou em jornais de Porto Alegre,  SP, Brasília, Curitiba, Florianópolis e foi correspondente em Pequim, Hong Kong, Paris, Londres, Marrocos, México, Estados Unidos.

     

  • Governo alemão diz que pior passou e pandemia “está sob controle”

    O ministro da Saúde da Alemanha, Jens Spahn, afirmou na sexta-feira (17) que a pandemia da covid-19 está atualmente “sob controle” no país e que o número de contágios diminuiu significativamente.

    “Podemos dizer que conseguimos passar do crescimento dinâmico [do número de contágios] para o linear, já que a taxa de infecção caiu”, explicou. Ele adiantou que a Alemanha já testou 1,7 milhão de pessoas até o momento.

    Em nível global, a doença provocou mais de 145 mil mortes e infectou mais de 2,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Mais de 465 mil doentes foram considerados curados.

    A doença é transmitida por um novo coronavírus detectado em dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

    Face a uma diminuição de novos doentes em cuidados intensivos e de contágios, alguns países começaram a desenvolver planos de redução do confinamento e em alguns casos, como Dinamarca, Áustria e Espanha, a reduzir algumas dessas medidas.

    (Com informações da Agência Brasil)

  • Dois meses do “Estado de Emergência”: os mais pobres ainda não receberam nada

    Dois meses do “Estado de Emergência”: os mais pobres ainda não receberam nada

    Completou dois meses o “estado de emergência em saúde pública” decretado pelo governo brasileiro, no dia 6 de fevereiro, seguindo orientação da Organização Mundial da Saúde, para enfrentar a pandemia do novo corona virus.

    Dez dias depois, 17 de  fevereiro, foi registrado o primeiro caso, em São Paulo. Nos 21 dias transcorridos desde então, o Brasil viu chegar a mais de 12 mil pessoas infectadas, com mais de 550 mortes.

    Ainda não há um balanço das consequências sociais e econômicas das medidas para conter o contágio – isolamento social, suspensão de atividades e movimentação de pessoas.

    A  providência já tomada nesta área foi o abono emergencial de R$ 600 reais para trabalhadores informais, aprovado na Câmara Federal no dia 26 de março, mais de um mês depois que o primeiro caso da Covid 19 foi registrado no país.

    Destina-se a socorrer os trabalhadores mais vulneráveis – aqueles que trabalham sem vínculo e  não tem renda fixa, os primeiros atingidos pelo isolamento social.

    A dificuldade em atendê-los começa na burocracia e termina na invisibilidade do universo informal – eles e suas familias formam um contingente em grande parte desconhecido da nação. Não se encaixam inteiramente em nenhum dos cadastros oficiais – Caixa, Serpro, Dataprev, Bolsa Familia

    Nesta terça-feira, 07 de abril, foi lançado um aplicativo que permitirá cadastrar os candidatos ao benefício.

    O  governo estima “entre 15 e 20 milhões”, o numero de pessoas que atenderão os requisitos básicos para fazer o cadastro. Na primeira manhã já havia 600 mil inscritos.

    O governo anunciou que a partir de quinta-feira o dinheiro estará disponível. É pouco provável que o processamento do cadastro seja concluído em dois dias. Os dados ainda terão que ser cruzados com outros cadastros.

    Além da complexidade, há o despreparo dentro do governo para lidar com o problema inesperado (o governo estava voltado para cortar os gastos sociais)  . Há queixas na área técnica pela “falta de clareza e concretude dos anúncios do governo”, como disse o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Felipe Salto.

    Por enquanto, a ação de grupos voluntários, de comunidades, ongs e empresários que levam doações de alimentos a essas populações em todo o Brasil, supre precariamente a omissão do poder público perante esses “quinze ou vinte milhões” no limite da sobrevivência.