O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está em Paris nesta terça-feira, 16, para participar como palestrante durante a conferência sobre o Brasil no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). A conferência “Qual o lugar do Brasil no mundo de amanhã?” marca os dez anos do título de Doutor Honoris Causa que Lula recebeu da Sciences Po. O ex-presidente foi o primeiro líder latino-americano a receber esse título de uma das instituições mais respeitadas do mundo na área de ciência política e social.
Na quarta-feira, 17, pela manhã, Lula receberá o prêmio Coragem Política 2021, concedido pela revista Politique Internationale, por sua gestão na Presidência da República, “marcada pelo desejo de promover a igualdade”. A premiação é concedida apenas em ocasiões extraordinárias e entregue quando o conselho da publicação, uma das principais do mundo na área das relações internacionais, reconhece que alguma personalidade se destaca globalmente por sua coragem de pensamento e ação na política.
Além de premiar sua atuação contra a desigualdade social e racial como presidente do Brasil, a revista aponta a tenacidade do ex-presidente ao enfrentar a perseguição política e judicial, “esforços recompensados com a decisão do Supremo Tribunal Federal de anular as suas condenações”.
Parlamento Europeu
Na segunda-feira, 15, Lula da Silva falou em Bruxelas, na Bélgica, que Jair Bolsonaro “representa uma peça importante da extrema direita mundial”. Acrescentou que as forças progressistas e sociais-democratas do mundo precisam se unir para derrotar a extrema direita. “O mundo precisa de democracia, de paz e não de guerra, precisa de livros e não de armas.”
Líder nas pesquisas para as eleições de 2022, Lula participou no Parlamento Europeu de um evento organizado pela Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), grupo que reúne eurodeputados sociais-democratas e que controla a segunda maior bancada da Casa.
Segundo ele, Bolsonaro é uma cópia malfeita de Trump, representa hoje uma peça importante na extrema direita fascista e nazista mundial. “O Brasil não merecia passar pelo que está passando”, disse Lula durante a coletiva, ao lado da eurodeputada espanhola Iratxe García Pérez, que lidera o grupo S&D no Parlamento Europeu.
“Hoje estou inocente e livre”, continuou Lula. Ele também direcionou críticas ao ex-juiz Sergio Moro, que recentemente também sinalizou que pretende concorrer à Presidência em 2022. Lula afirmou que o ex-magistrado e ex-aliado de Bolsonaro conduziu um “julgamento político” e que Moro já tinha ambições políticas à época dos procedimentos judiciais.
O ex-presidente Lula chegou dia 11 à Europa, com uma série de eventos e manteve diálogos sobre o cenário atual no mundo e na América Latina. Ele começou sua viagem pela Alemanha e em seguida teve agendas na Bélgica. Hoje está na França e depois vai para Espanha.
Além dos eventos, o ex-presidente está tendo uma série de reuniões e encontros. Em Berlim, Lula se reuniu com Martin Schulz, ex-líder do Partido Social Democrata (SPD) da Alemanha e ex-presidente do Parlamento Europeu. Já em Paris, Lula se reunirá com a prefeita Anne Hidalgo.
A Química Amparo, dona da marca Ypê, conseguiu derrubar a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendia a fabricação e comercialização de vários de seus produtos*.
Anvisa acolheu o recurso da empresa mas manteve o alerta de risco sanitário e orienta os consumidores a não usar os 23 itens com lotes de final 1, nos quais a fiscalização detectou a presença de uma bactéria.
O rótulo da embalagem é ilegível e o número do lote gravado na garrafa PET ´é invisível.
Com o recurso administrativo, os produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetantes podem continuar sendo fabricados e comercializados até nova manifestação da Anvisa.
A Anvisa informou que mantém o entendimento técnico sobre os riscos identificados na linha de produção da unidade da Química Amparo, em Amparo, São Paulo.
A agência destacou que o julgamento definitivo do recurso pela Diretoria Colegiada deve ocorrer nos próximos dias.
Enquanto isso, o órgão orienta que os consumidores não utilizem os produtos envolvidos, “por segurança”.
Segundo a Anvisa, cabe à empresa orientar consumidores sobre:
recolhimento;
troca;
devolução;
ressarcimento;
demais medidas necessárias.
As informações devem ser prestadas por meio do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da fabricante.
A Ypê informou que já havia iniciado, em novembro de 2025, um recolhimento voluntário de alguns lotes de lava-roupas líquidos após identificar a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos específicos.
Na ocasião, a empresa divulgou orientações aos consumidores sobre possíveis riscos à saúde e os procedimentos para troca ou devolução dos produtos.
A Anvisa informou que as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais foram orientadas a intensificar a fiscalização para impedir a circulação de lotes considerados irregulares.
O órgão também recomendou que consumidores verifiquem a numeração dos lotes antes do uso dos produtos.
*Os produtos de lotes de final 1 que tiveram a comercialização suspensa na quinta-feira foram os seguintes:
– Lava-louças Ypê Clear Care
– Lava-louças com enzimas ativas Ipê
-Lava-louças Ypê
-Lava-louças Ypê Clear Care
-Lava-louças Toque Suave
-Lava-louças concentrado Ypê Green
-Lava-louças Ypê Clear
-Lava-louças Ypê Green
-Lava Roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor
-Lava-roupas líquido Tixan Ypê Cuida das Roupas
-Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac
-Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha
-Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green
-Lava-roupas líquido Ypê Express
-Lava-roupas líquido Ypê Power ACT
-Lava-roupas líquido Ypê Premium
-Lava-roupas Tixan Maciez
-Lava-roupas Tixan Primavera
-Desinfetante Bak Ypê
-Desinfetante de uso geral Atol
-Desinfetante Perfumado Atol
-Desinfetante Pinho Ypê
-Lava-roupas Tixan Power ACT
A bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em diversos produtos da indústria Ypê, é uma bactéria de grande resistência a antibióticos, segundo o infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, em entrevista à Agência Brasil.
Ele explica que, como se trata de uma bactéria ambiental, esponjas usadas normalmente para lavar louça ou panos de chão podem estar contaminados, já que a bactéria permanece viva na água.
De acordo com ele, a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria de “vida livre”, ou seja, diferente de outras bactérias como a Escherichia coli, que vive dentro do intestino, ou o meningococo, que vive nas fossas nasais das pessoas.
“Nós não vivemos em um ambiente que não tem micro-organismos. Existem outras bactérias de vida livre, como a Burkholderia que, eventualmente, podem causar doenças no homem”.
Segundo ele, a bactéria pode causar uma série de problemas em pessoas imunocomprometidas, desde infecção urinária a infecção respiratória em pessoas que têm problemas de pulmão crônicos, como enfisema, ou em pessoas submetidas a tratamento com cateter na veia.
“Colocam um tubo na traqueia e a bactéria pode entrar por ali. Também pode ocorrer em pessoas que estejam fazendo quimioterapia, o que faz com que haja um comprometimento maior e prévio da saúde da pessoa”, explicou Celso Ferreira.
A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou à Agência Brasil que o maior problema dessa bactéria ocorre quando pessoas imunocomprometidas, que têm o sistema imunológico enfraquecido, entram em contato com ela.
“Ela consegue causar infecções em pessoas que têm o sistema imune debilitado”.
Em pacientes que têm fibrose cística, por exemplo, ela é causa comum de pneumonia. E o tratamento é muito difícil. Advertiu, por outro lado, que ela pode causar também problemas em pessoas saudáveis.
“Dependendo da cepa da Pseudomonas, mesmo a pessoa saudável pode desenvolver uma infecção, como a otite de nadador, em pessoas que nadam em águas recreativas, como piscinas, rios, praias”, ressaltou Chamon.
Para a profissional de saúde, o maior problema é quando a bactéria chega ao ambiente hospitalar, e a porta de entrada, geralmente, são as pessoas que trabalham ali ou entram no hospital, explicou a profissional de saúde.
A médica relatou ainda que, dentro do ambiente hospitalar, onde uma pressão seletiva de antibióticos é muito grande, a bactéria carrega dentro dela uma série de resistências.
Segundo Chamon, isso pode provocar infecções mais graves, associadas a pessoas que usam sonda urinária, têm infecção de corrente sanguínea, estão com pneumonia, pessoas com ventilação mecânica, E o tratamento, por conta da gravidade da infecção, é mais difícil, além da questão de a bactéria aumentar o poder de resistência.
“Esse é o pior cenário de todos”, afirmou.
Contaminação
Como a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria que vive muito bem no solo, na água e em ambientes úmidos, Raiane acredita que a contaminação pode ter ocorrido no momento de produção.
“Não houve um controle microbiológico adequado. Provavelmente, algum reagente na hora de fabricação desses produtos estava contaminado pela Pseudomonas, e acaba que ela consegue se multiplicar nesses ambientes úmidos também”, explicou.
“Na falta do controle microbiológico nas etapas necessárias de fabricação, pode ter havido um crescimento descontrolado de uma cepa específica, que vive melhor em ambientes com detergentes, por exemplo, e a gente acaba detectando-a nesses materiais”.
Segundo a médica, existem níveis aceitáveis de contaminação microbiana em todos os produtos. O que não pode é ultrapassar esse nível para não oferecer risco à saúde, principalmente nos indivíduos que estão mais comprometidos em seu sistema imune.
Comunicado
Em comunicado divulgado na quinta-feira (7), a Ypê esclareceu que está colaborando integralmente com a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) “e conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.
A empresa informou ainda que vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que estão sendo apresentados à Anvisa, “reforçando o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos”.
A indústria se compromete ainda a incorporar de forma imediata eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido em conjunto com a própria Anvisa desde dezembro de 2025.
Nesta quinta-feira, 7 de maio, quatro ministros*, liderados por Miriam Belchior, chefe da Casa Civil, estavam na mesa do evento na Casa da Reconstrução, em Porto Alegre, em que o Governo Federal apresentou um balanço das obras de reconstrução no Rio Grande do Sul, dois anos depois da grande enchente de 2024.
O total já liberado pela União para obras e auxílios emergenciais chega perto dos R$ 90 bilhões. Somados os incentivos fiscais e desonerações, vai a mais de R$ 110 bilhões o montante de verbas federais destinadas a mitigar os estragos da maior enchente já registrada no Estado.
Segundo a ministra, 94% desses recursos “já foram executados”, o que significa que estão liberados, embora apenas uma parte tenha sido efetivamente aplicada até agora. No cronograma da reconstrução, há obras que só estarão concluídas em 2031.
Governo libera R$ 5,4 bilhões para obras contra cheias
No encontro foram assinadas novas ordens de serviços contra enchentes. Foto: Ramiro Sanchez/@outroangulofoto/JÁ
Além do balanço das ações de reconstrução, foi anunciada a liberação de R$ 5,4 bilhões para obras de prevenção a enchentes no Estado. Os recursos fazem parte do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece), que reserva R$ 6,5 bilhões para oito grandes intervenções estruturantes. “O que estamos assinando aqui hoje prepara o Rio Grande do Sul para o futuro. São ações estruturais que marcam um novo ciclo neste estado: um ciclo de planejamento, prevenção e segurança”, disse a ministra Miriam Belchior.
Entre as obras anunciadas estão intervenções nos sistemas de prevenção de cheias do Arroio Feijó, da Bacia do Rio Gravataí, de Eldorado do Sul e da Bacia do Rio dos Sinos, beneficiando 16 municípios gaúchos, incluindo Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo.
Quinze prefeitos da Região Metropolitana de Porto Alegre, incluindo o prefeito da capital, Sebastião Melo, estiveram presentes para a formalização dos repasses.
Na área habitacional, foram autorizadas mais de mil unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, sendo 540 moradias em 22 municípios e outras 632 casas voltadas a famílias atingidas pelas enchentes.
O governador Eduardo Leite também solicitou à União a ampliação de recursos para o dique de Eldorado do Sul, cujo custo subiu após revisão do projeto, além da prorrogação da suspensão da dívida do Estado com a União para financiar ações de segurança hídrica e irrigação.
O tom político na reunião foi dado pelo deputado federal Paulo Pimenta, líder do governo na Câmara em Brasília e ex-ministro da Reconstrução, que destacou as características do governo Lula e a vontade pessoal do presidente em atender com presteza as populações atingidas.
A ministra Miriam Belchior e o deputado Paulo Pimenta, representantes do governo Lula. Foto: Ramiro Sanchez/@outroangulofoto/JÁ
Pimenta se declarou “inconformado” com a “burocracia que emperra obras urgentes”. O governador Eduardo Leite, a seu lado, percebeu a indireta e disse que também se angustia, mas que as obras mais complexas nem sempre podem ser aceleradas.
Visto por seu aspecto político, o evento foi um lançamento no Rio Grande do Sul da campanha pela reeleição do presidente Lula.
(*) Ministros presentes:
Miriam Belchior: Ministra da Casa Civil, que comandou a apresentação do balanço.
Vladimir Lima: Ministro das Cidades.
Leonardo Barchini: Ministro da Educação.
André de Paula: Ministro da Agricultura e Pecuária.
No coração do Centro Histórico de Porto Alegre, a poucos quarteirões do viaduto restaurado, está a pracinha que também homenageia o prefeito Otávio Rocha. A construção é do início dos anos 30 e segue estilo semelhante do viaduto.
A praça em 1930, na época do término das obras de ligação da Otávio Rocha com a então Rua São Rafael.
A praça foi projetada pelo arquiteto Christiano de la Paix Gelbert (1899-1985), o mesmo que projetou o Pronto Socorro e a Prefeitura da capital gaúcha. O local da praça é um terreno triangular, em declive, sobra de desapropriações feitas para alargar as ruas naquela área, por volta de 1930.
É das poucas praças na cidade que mantém sua forma original. Na parte baixa, destaca-se um busto de Otávio Rocha, esculpido por André Arjonas: está com as mãos decepadas, sinalizando o abandono da bela pracinha, o que se confirma nas instalações depredadas. O lugar onde funcionou um café serve de abrigo para mendigos.
Pequeno chalé, onde funcionou uma cafeteria, abandonado. Foto EB/JÁ
Em 2024, a prefeitura chegou a firmar uma parceria com uma empresa privada (Infinita Town), que adotou a praça e chegou a iniciar uma reforma em abril daquele ano, mas desistiu do projeto no início de 2025.
Com isso, as obras pararam e o espaço voltou a sofrer com a falta de manutenção e ocupações.
Construção é dos anos 30. Foto Elmar Bones/JÁAntigo chalé precisa de reforma completa. Foto Elmar Bones/JÁ
Novo grupo assume revitalização
Em janeiro de 2026, a Prefeitura de Porto Alegre reabriu um edital buscando parceiros da iniciativa privada para revitalizar e manter o local, incluindo a reativação da tradicional cafeteria. Nove empresas se inscreveram.
Novo grupo será responsável pela limpeza e manutenção da praça. Foto Elmar Bones/JÁ
O grupo de gastronomia MuleBule foi o escolhido e será responsável pela reabertura do café no chalé. O modelo proposto pela prefeitura foca na manutenção e conservação do espaço em troca da exploração comercial da cafeteria. O adotante assume a responsabilidade pela revitalização, manutenção constante, limpeza e paisagismo da praça.
A expectativa é de que o termo de adoção seja assinado neste mês de maio.
O maior desafio da reforma do viaduto Otávio Rocha, recém concluída, foi o revestimento, degradado por décadas de poluição e pichações. Foi preciso remover a crosta de sujeira sem agredir os cristais de mica da cobertura original. O revestimento do viaduto não é pintura, mas uma massa conhecida como Cirex, nome da empresa que fabricava o produto e que não existe mais. Trata-se de uma mistura de cimento branco, cal, mica e pó de mármore ou granito.
Restauração do cirex
Nos locais onde o reboco havia caído, os técnicos da Concrejato precisaram criar uma mistura idêntica à de 1928. Isso envolveu testes de laboratório para acertar a mistura e garantir que as partes novas não ficassem com cor diferente das antigas.
A mica presente no pó de granito é o que dá aquele brilho discreto quando o sol bate na estrutura. Diferente da tinta, o cirex não descasca, é uma camada de “pedra artificial” que adere profundamente ao concreto.
Sobre o revestimento, foi aplicada uma camada de hidrofugante (produto químico que repele a água), que permite a remoção rápida de pichações, com o uso de lavadoras de alta pressão (lava-jato).
Houve adaptações para atender as exigências de segurança e mobilidade. Nos arcos e no piso da avenida Borges de Medeiros, por exemplo, foram instaladas 342 lâmpadas de LED, controladas por fotocélulas com economia de 50% no consumo de energia, segundo a prefeitura.
Foram instaladas quatro estruturas de vidro no topo do viaduto, para abrigar áreas de serviço e infraestrutura.
As adaptações para atender às normas de acessibilidade incluíram piso tátil nas calçadas e corrimões de metal nas escadarias. O plano de prevenção de incêndio foi refeito.
Há novas adaptações nas calçadas da Avenida Borges de Medeiros e da Rua Duque de Caxias para facilitar o acesso de cadeirantes aos pontos de ônibus e às lojas, deixando o trajeto no entorno nivelado.
Elevadores foram descartados
Um dos pontos mais debatidos do projeto de revitalização foi a instalação de elevadores, ligando o térreo às escadarias. A ideia foi descartada, em nome das características originais do viaduto, tombado pelo município desde 1988. Ao final, a instalação de elevadores externos ou internos “perfurando” a estrutura original foi considerada uma intervenção muito agressiva pelo EPAHC (Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural).
Pela primeira vez, quase aos cem anos, o Viaduto Otávio Rocha terá uma “inauguração festiva”. Pelo menos é o que está previsto para marcar a restauração recém concluída. Quando foi construído, ele não teve inauguração formal.
O viaduto foi construído entre 1928 e 1932 para ligar o centro com os novos bairros que se expandiam em direção à Zona Sul.
Foi preciso rasgar o “morrinho da Rua da Igreja”, um corte no rochedo de 30 metros de altura para abrir a avenida – que se chamaria Borges de Medeiros, em homenagem ao governador que recém deixara o cargo, depois de cinco mandatos consecutivos.
Depois de aberta a passagem, a primeira etapa foi restabelecer o tráfego na Rua da Igreja, hoje Duque de Caxias.
Entregue ao tráfego aos poucos (em 1931 já podiam transitar os bondes, mas só em 1933 foi liberada a última rampa), o “Viaduto da Borges” entrou em uso sem batismo e sem inauguração formal.
Só em 1954, recebeu um nome oficial em homenagem ao “Intendente” que autorizou a obra e não a viu sequer iniciada: Otávio Rocha morreu em fevereiro de 1928, pouco antes do início das obras.
Primeiro Plano Diretor já previa o viaduto
A abertura de uma saída em direção ao Sul já estava no Plano de Melhoramentos, o primeiro de Porto Alegre, de 1914, que, em grande parte, ficou no papel, devido a suas propostas arrojadas. Uma delas era desafogar o centro, furando o morro, sem interromper a rua que passava em cima, a rua da Igreja, rua da elite e do poder – um viaduto.
Só dez anos depois, o prefeito Otávio Rocha, eleito com o respaldo do governo estadual, assumiu decidido a tirar do papel as melhorias propostas no Plano de 1914. A obra do viaduto era a principal.
Dois projetos foram feitos pela Comissão de Novas Obras, mas o escolhido foi um terceiro, do arquiteto Manoel Itaqui. Consta que “depois de uma conversa informal com o prefeito, seu amigo”, ele fez um esboço a lápis num pedaço de papel.
Primeiro esboço de Manoel Itaqui para o viaduto.
Esse esboço foi a origem do projeto. A elaboração e o detalhamento da obra contaram com a participação do também engenheiro e arquiteto Duílio Bernardi, colega de Itaqui na então renomada Escola de Engenharia de Porto Alegre. Bernardi era autor de um dos projetos preteridos.
Itaqui, arquiteto muito influente, teve seu projeto escolhido, principalmente, graças à solução que ele deu para a ligação das avenidas: a da Borges, embaixo, e a Duque de Caxias, no alto. Os concorrentes projetaram lances de escada, ele propôs rampas escalonadas, como passeios para estimular o trânsito de pedestres. Além do Viaduto, Manoel Itaqui projetou dois prédios hoje tombados no Centro Histórico: o Observatório Astronômico da Universidade Federal, preservado, e a Confeitaria Rocco, em estado de abandono.
Uma Obra de Arte Especial
Retrato de uma época, além da função de trânsito, o viaduto Otávio Rocha é um monumento artístico. Na nomenclatura do patrimônio cultural urbano é uma Obra de Arte Especial (OAE).
Possui elementos artísticos-decorativos do escultor alemão Alfredo Adloff – dois grandes nichos com estátuas e o famoso Passeio das Quatro Estações, nas escadarias; além dos detalhes das balaustradas e outros ornamentos que dão o estilo característico da obra.
Adloff moldou as estátuas numa mistura de cimento e areia para que tivessem a mesma textura granulada das paredes. Imigrante alemão, radicado em Porto Alegre, ele é também o autor das esculturas da fachada do Museu de Arte do RS e da Igreja das Dores.
Pioneira do concretoarmado executou a obra
Em licitação internacional, foi selecionada a construtora alemã Dyckenthoff & Widmann para executar a obra.
Fundada em 1865, a D&W era pioneira no uso do concreto armado no mundo.
Para romper o maciço granítico (o “morrinho” do Centro) a empresa teve que usar dinamite, com muitos transtornos para os moradores, o que atrasou em um ano o início efetivo da obra.
No início das obras, em 1928, explosões de dinamite para abrir passagem no ‘morrinho da Rua da Igreja”.
A empresa Dyckerhoff & Widmann ainda existe e hoje é conhecida globalmente como DYWIDAG.
É uma multinacional de tecnologia de construção e engenharia de infraestrutura, com sedes em diversos países e atuação em grandes projetos de pontes, túneis e reparos estruturais. No Brasil, ela tem participação em outras duas obras icônicas: a ponte pênsil de Florianópolis e a ponte Rio-Niterói.
Doze anos, doprojeto à conclusão
A reforma atual começou em novembro de 2022, na gestão de Sebastião Melo, com prazo para conclusão em 18 meses, conforme a placa colocada no canteiro de obras. Terminou em meados de abril de 2026 – 40 meses. Quase quatro anos, praticamente o mesmo tempo gasto na construção. O orçamento também estourou, dos R$ 13,7 milhões iniciais para mais de R$ 20 milhões.
A Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia, de São Paulo, executou a reforma a partir de um projeto dos arquitetos Alan Furlan e Cristiane Gross, entregue à prefeitura em 2014.
A pressão por uma reforma, na verdade, começara antes, com um movimento dos permissionários das lojas do Viaduto. Em 2006 a ARCOV, associação dos comerciantes do viaduto, foi à Câmara levar uma proposta. Eles denunciavam o abandono e a falta de manutenção, que corroíam a estrutura do viaduto.
Câmara Municipal, 2006: permissionários dos pontos comerciais denunciam abandono e cobram reformas/Div. ARCOV
Restaurar não só a infraestrutura, mas as características originais, que fazem do viaduto um monumento, foi a orientação da reforma agora concluída.
Desde 1º de abril, está oficialmente concluída a mais completa restauração do Viaduto Otávio Rocha, uma das maiores obras viárias e, ao mesmo tempo, o principal monumento de Porto Alegre.
Retirados os tapumes e aberto ao público e ao trânsito, o viaduto está, desde então, sob a vigilância permanente da Guarda Municipal para evitar as pichações antes da inauguração. “Nossa presença aqui afugenta eles”, disse um dos guardas, explicando porque os pichadores ainda não apareceram.
Apesar das câmeras de segurança, que monitoram toda a extensão do Viaduto – mais as do totem no canteiro central da avenida, que registram imagens em 360 graus -, as características do local, com muitas colunas e arcos, permitem a aproximação sem registro das câmeras. Por isso, um furgão e um carro da Guarda Municipal ficam estacionados, e agentes vigiam em ambos os lados do Viaduto.
Além das câmeras do totem, um furgão estacionado para afugentar pichadores. Foto EB/JÁ
A inauguração ainda não tem uma data marcada. Depois de restaurado, o viaduto está sendo repassado à gestão de um consórcio (“Confia no Centro”) que ganhou a concessão e está fazendo a seleção dos empreendimentos que vão ocupar 29 das 36 pequenas lojas embutidas na lateral do Viaduto, sob as escadarias. Estima-se que até julho esse processo estará concluído. Só então será realizada a inauguração festiva do viaduto restaurado.
O plano é resgatar também o viaduto como polo comercial-cultural, seguindo a proposta do projeto original, que previu as galerias com espaços para lojas, que estimulem o movimento de pessoas, “evitando que as calçadas da avenida se tornem espaços vazios e perigosos”.
O consórcio “Confia no Centro” reúne dois empreendimentos já vinculados ao viaduto: o Justo Bar e o projeto Porto Alegre Mal Assombrada.
O Justo Bar é um empreendimento multiuso localizado junto a uma das escadarias do Viaduto Otávio Rocha. Funciona como bar, restaurante, mercearia e espaço cultural.
O Justo Bar integra o consórcio que vai selecionar os ocupantes dos espaços sob as escadarias. Foto EB/JÁ
A Porto Alegre Mal Assombrada oferece roteiros culturais que exploram o lado misterioso e as lendas urbanas do Centro Histórico, partindo do próprio viaduto.
Faz parte do contrato de concessão a promoção de pelo menos quatro eventos culturais por ano, com funcionamento das lojas estendido até as 22h.
A seguir: Viaduto restaurado (2): foram 20 anos entre a decisão e a conclusão da reforma
Um ato simbólico marcou, neste domingo, 26/04, os dois anos do incêndio na Pousada Garoa, albergue conveniado com a prefeitura de Porto Alegre, na avenida Farrapos. Na tragédia, 11 pessoas morreram queimadas e, ao menos, outras 15 sofreram ferimentos.
“O que houve aqui, há dois anos, independentemente da origem do fogo, é um absurdo no que tange à falta de fiscalização, falta de cuidados e consideração do Poder Público, responsável pela contratação e terceirização do serviço de assistência social”, destacou o vereador Pedro Ruas (PSOL), um dos organizadores do ato.
Na sua avaliação, “as obrigações de prover toda a atenção em termos de cuidados de segurança é do município, mesmo quando os serviços, como no presente caso, são terceirizados”. Segundo ele, “esses dois anos marcam uma tragédia que tem culpados e continuam impunes”.
Acompanhado por lideranças da Pastoral dos Povos de Ruas da Cúria Metropolitana, o vereador pediu um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. Junto a uma faixa com o nome das onze vítimas foram depositadas rosas brancas.
“Fazemos esse ato como forma de chamar a atenção da sociedade para a falta de justiça, nesse caso. Mas também para deixar claro que os problemas da falta de moradia digna e segura, para muitas pessoas, ainda é um problema da maior seriedade o que exige muito planejamento e atenção das autoridades responsáveis”, disse Ruas.
Os nomes dos mortos no incêndio, bordados em um quadro de tecido verde, pela jornalista Iara Maurente, foram lidos. Onze rosas brancas foram depositadas junto aos nomes.
Presidente da CPI sobre o incêndio, realizada de fevereiro a julho de 2025 na Câmara Municipal, Pedro Ruas destacou sua inconformidade com a demora em decisões sobre a aplicação de penas aos responsáveis. “O fato de termos feito nossa parte, indicando agentes responsáveis pela tragédia, é mais um fator que me obriga a aguardar que a justiça seja feita”.
Já o coordenador da Pastoral dos Povos de Rua da Cúria Metropolitana, Elton Bozzetto, destacou que além de se esperar justiça é muito importante que o ocorrido ali sirva de lição para a evolução em termos humanitários, em relação ao atendimento das camadas sociais mais carentes. “Precisamos evoluir e, apesar da tragédia, temos que buscar forças, coragem e ousadia para sermos melhores”, enfatizou.
O incêndio ocorreu na madrugada de 26 de abril de 2024, por volta das 2h, no albergue conveniado com a prefeitura para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. À época, foi constatado que o estabelecimento operava sem alvará de funcionamento e sem o Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI).
As investigações apontaram uma série de irregularidades, incluindo falhas estruturais e negligência na manutenção. O relatório final da CPI, concluído em junho de 2025, indicou responsabilidade do proprietário da rede, André Kologeski, destacando problemas como extintores vencidos, fiação exposta e ausência de rotas de fuga adequadas.
Por outro lado, o documento não indiciou agentes públicos municipais, sob a justificativa de falta de elementos suficientes.
Na esfera judicial, o caso segue em andamento em duas frentes: criminal e cível. A Polícia Civil indiciou três pessoas por incêndio culposo — o proprietário da pousada, o ex-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Cristiano Roratto, e uma fiscal do contrato. O Ministério Público entendeu que os responsáveis podem responder por dolo eventual, o processo ainda tramita na Justiça.
Paralelamente, a Defensoria Pública do Estado ajuizou, em agosto de 2025, uma ação civil pública que pede mais de R$ 10 milhões em indenizações por danos morais coletivos contra o município e o proprietário.
Decisões liminares já determinaram que a prefeitura apresente um plano de moradia digna para os sobreviventes, além de garantir atendimento psicológico e psiquiátrico especializado.
Nesta sexta feira (24), às 14h, o Governo Federal realiza a emissão de ordem de serviço para início da construção de 28 unidades de saúde no Rio Grande do Sul, sendo quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e 24 Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A iniciativa marca a maior liberação imediata de recursos do Novo PAC Saúde de uma só vez. A ação ocorre simultaneamente em 24 estados, ampliando a capacidade de atendimento em mais de 500 municípios, com a construção de 541 novas unidades de saúde em todo o país.
No Rio Grande do Sul, o investimento total é de cerca de R$ 64 milhões, com recursos federais já assegurados pelo Ministério da Saúde, que serão transferidos diretamente a 28 municípios gaúchos, garantindo o início imediato e integral da obra.
A iniciativa integra o programa Agora Tem Especialistas, que reúne ações voltadas à ampliação da oferta de consultas, exames e cirurgias no SUS, com o objetivo de reduzir o tempo de espera por atendimento.
A cerimônia será realizada no auditório da sede do COSEMS/RS, em Porto Alegre (RS), e contará com presença da superintendente do Ministério da Saúde no estado, Maria Celeste de Souza da Silva.
Felisberto Seabra Luisi nasceu em Porto Alegre, mas viveu infância e adolescência em Cruz Alta, para onde se mudaram seus pais.
Tinha 15 anos quando voltou à cidade natal. Estudou no Rosário, formou-se em Direito na Ufrgs, especializou-se em Direito Agrário na Itália. Tinha 40 anos quando começou a realmente conhecer sua cidade. Não descansou mais.
Em 2026, aos 75, aposentado, ele comemora 35 anos de dedicação quase exclusiva aos movimentos comunitários de Porto Alegre. É com essa autoridade que ele fala ao JÁ e faz um balanço de mais de três décadas de atuação nos movimentos comunitários de Porto Alegre, critica a falta de participação popular e alerta: “O Plano Diretor avança (em votação na Câmara Municipal) sem debate e favorece interesses privados”.
JÁ – Tem uma data que marque o início dessa tua militância nos movimentos comunitários?
Felisberto – Em 1991 eu fui contratado por uma “invasão” na Zona Sul. Eles tinham ocupado uma área e precisavam de um advogado para a defesa. Cheguei nessa comunidade num domingo, onze horas da manhã, nos reunimos embaixo de uma árvore e eles perguntaram: “Doutor, você vai resolver o nosso problema?” Eu disse: “Não, nós vamos resolver o problema”.
JÁ –Eles entenderam?
Felisberto – Sim, começamos a criar uma estrutura na própria comunidade para respaldar a defesa jurídica e também reunir dinheiro para a eventualidade de comprar a área. E foi o que aconteceu.
JÁ – E eles compraram a área?
Felisberto – Em quatro anos conseguimos comprar a área. Primeio, foi arrecadado R$ 50 mil e, aí, sentamos para negociar com o proprietário. Ele pediu 100 mil, a gente disse: “Damos 50 mil de entrada e queremos negociar os outros 50 mil”.
JÁ – O dono topou…
Felisberto – Topou. Eu queria 24 meses. A comunidade disse: “Não, nós vamos pagar em 12 meses”. E pagaram em 12 meses.
JÁ – Que comunidade é essa?
Felisberto – Jardim das Estrelas. Fica na Cristiano Kleber quase esquina com a Juca Batista. Hoje está urbaniza, com calçamento, água, luz, esgoto… Só ainda não está regularizada a área, não estão individualizados os terrenos. É um processo, eles seguem tratando disso.
JÁ –Essa foi tua iniciação no movimento comunitário?
Felisberto – Foi a partir daí que conheci o Orçamento Participativo (OP), entrei como delegado dessa comunidade… e não saí mais. Fiquei fora dois anos, de 2007 a 2009, pela doença da minha filha, mas isso é outra história.
JÁ – Como funcionava o OP na época?
Felisberto – Estava começando, com o Olívio Dutra na prefeitura. Nas reuniões, na mesa, sentavam os representantes do governo, só. Na primeira reunião, eu disse: “Tem uma coisa errada nesse processo aqui”. Os caras me olharam: “Como?”. “Só tem governo aí, vocês trazem a pauta, decidem os assuntos, nós temos que democratizar essa relação. Tem que ter alguém da comunidade aí na mesa”. Aí foi criada a comissão paritária.
JÁ – O que que é essa comissão paritária?
Felisberto – Ela coordenava o processo. Eram oito, quatro do governo e quatro da comunidade. Se reuniam, faziam a pauta e coordenavam as reuniões.
Mas isso era uma primeira parte de todo o processo. Porque não basta demandar, tem que estabelecer uma relação, para acompanhar a execução orçamentária, determinar o início da obra, não só a critério do governo.
Na sequência, em 2002, foi criada a comissão de receita e despesa. Foi o avanço possível na época. A minha proposta era mais ousada, era ter um membro do OP na junta financeira, acompanhando as decisões. Não conseguimos, nem lá e muito menos agora?
JÁ – E as discussões sobre o Plano Diretor?
Felisberto – Pois, é… Nesse período, começaram as discussões sobre o Plano Diretor e eu comecei a participar. O secretário era o Newton Burmeister, foi constituída uma coordenação e começamos a fazer o Plano Diretor que foi aprovado em 99, já no governo do Raul Pont.
Como eu era muito envolvido nas ocupações, e questões de regularização fundiária, fui eleito vice-presidente do Conselho Municipal.
Além de estar no OP, eu também participava do PMDUA, eu era delegado pela região 1 de planejamento, que abrange o Centro. Hoje eu sou conselheiro.
JÁ – Estás no conselho desde quando?
Felisberto – Eu fui eleito em 2018 e reeleito naquela votação maravilhosa lá em janeiro de 2024, com mais de 1.500 pessoas lá na Câmara, com 941 votos.
JÁ – Foi surpreendente aquela eleição, não?
Felisberto – Até hoje é uma coisa que não tenho ainda bem elaborada. Imagina as pessoas ficarem num sol, num verão, nas férias, até meia-noite, para votar numa eleição que não era obrigatória. Foi uma vitória contra a especulação imobiliária.
JÁ – Mas o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara… .
Felisberto – Claro, o plano é deles, eles têm maioria. Nós vencemos numa região. Em outras regiões a gente não conseguiu vencer.
JÁ – Esse projeto que está na Câmara vai ser aprovado?
Felisberto – A tendência é aprovar. Infelizmente… Não sem luta, né?
JÁ – Qual é o ponto mais crítico nesse plano?
Felisberto – A falta de participação e transparência do plano, para que as comunidades tenham noção do impacto que as mudanças propostas no plano vão ter na região onde elas moram.
JÁ – A comunidade não tem noção do impacto na vida dela?
Felisberto – Não, não tem mesmo a noção. A gente nota isso nos bairros, nas reuniões. Hoje há um poder de sedução do capital, fazem as grandes obras e oferecem alguma contrapartida. E as pessoas se deixam seduzir pela contrapartida. Por exemplo: precisa melhorar uma creche. A prefeitura diz que não tem como fazer e aí usa o recurso da contrapartida para fazer. Então, é uma obrigação do governo que o governo não faz, vai buscar o dinheiro do empresário, e dá em troca uma vantagem. O projeto é viabilizado com essa lógica.
JÁ – Falta discussão sobre essas questões, é isso?
Felisberto – A coisa mais crítica que eu vejo no processo é a falta de discussão das estratégias da cidade. Não há uma discussão com a sociedade. Que cidade a gente quer? Nós temos 700 comunidades vivendo em áreas irregulares, ocupações, invasões, loteamentos clandestinos… Se fizéssemos uma operação urbana consorciada, como foi feito em Fortaleza, seria uma revolução.
JÁ – O que que significa essa regularização? Qual é o tamanho do problema?
Felisberto – Um exemplo é o Jardim das Estrelas, essa comunidade na Estrada Cristiano Fischer. Até hoje ela não tem a regularização. Tem a infraestrutura conquistada pelo OP, porque tinha liderança que brigava e conseguiu levar as melhorias. Mas a regularização da área eles não têm, ninguém tem matrícula individualizada.
Na maioria das comunidades não há sequer o mínimo de urbanização. Se estimular essa regularização e serviços urbanos, isso vai gerar trabalho e renda na própria comunidade, pois com o título do terreno, o morador consegue financiamento para construir uma casa ou reformar a que já tem. Em muitos casos, já tem a mão de obra ali mesmo na comunidade…
JÁ – Estimularia uma economia local…
Felisberto – Sim, hoje a construção civil da cidade traz mão de obra de fora. Se fizer uma pesquisa hoje, grande parte da mão de obra nos grandes projetos vem de fora, do Norte e do Nordeste. Tem muito baiano, carioca. Essa reforma do viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros… a empresa é de São Paulo, trouxe toda a mão de obra de lá, nordestinos que vivem lá. Noutras obras é a mesma coisa. Então, há uma falsa ideia de que a construção civil emprega as pessoas da cidade.
JÁ – A cidade sabe disso?
Felisberto – O que determina é o interesse do capital, não o interesse da cidade… Sempre, infelizmente, o interesse privado em detrimento do público. A prefeitura governa para o privado. Ou melhor, com o privado. Porque a maioria das pessoas que ocupam cargos na prefeitura são ligadas a empresas. O ex-secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, saiu da prefeitura e foi trabalhar no Golden Lake, da Multiplan. Agora, voltou para o poder público como diretor do Dmae, com a “missão de fazer a concessão à iniciativa privada”. Pode?
JÁ – É uma privatização do serviço público?
Felisberto – Não se valoriza mais o servidor, aquele de carreira, que teria a memória dos processos. Veja a concessão da usina do Gasômetro: não visa o interesse público, mas o interesse privado. Essa lógica tomou conta da cidade.
Há 35 anos na luta comunitária, Felisberto Luisi aponta que um terço da população da cidade vive em áreas irregulares.
JÁ – Um dos maiores projetos da prefeitura é essa “Operação Urbana Consorciada Regenera Dilúvio”, ao longo da avenida Ipiranga… como ele se insere aí?
Felisberto – Eles gostam dessa palavra regenerar… revitalizar… para quem? Essa operação grandiosa da Ipiranga, começa com dinheiro público. Mais de R$ 200 milhões, empréstimo do BNDES, para limpar o riacho. Aí, aqueles que já compraram os melhores terrenos ganham incentivos para construir condomínios e grandes torres sem restrições ou limites. Ao longo da avenida plantam-se algumas árvores e faz-se uma ciclovia, como contrapartida. É isso, hoje a gerência dos grandes espaços públicos está sob controle privado.
JÁ – O prefeito Sebastião Melo tem uma sólida maioria que aprova todos os seus projetos…
Felisberto – Essa maioria esmagadora que ele tem na Câmara, foi construída através de emendas e de indicação de CCs…
JÁ –A questão central do Plano Diretor que está na Câmara é o adensamento – mais gente no mesmo espaço?
Felisberto – Há questões essenciais aí. Primeiro, é a falta de infraestrutura. Segundo, é a descaracterização dos bairros e da paisagem urbana. Daqui a dez anos não veremos mais os morros que contornam Porto Alegre. Há uma descaracterização da cidade, como algo diferente das outras.
JÁ –O adensamento é justificado como possibilidade para o trabalhador morar no Centro…
Felisberto – Os pobres vão vir morar no Centro? Isso é uma mentira, uma conversa. As pessoas já moram na periferia em situações que precisam ser regularizadas. Por isso digo que seria revolucionário se tivéssemos um prefeito que tivesse a capacidade de ter essa visão. Vamos melhorar o que já tem.
JÁ –Se você fosse prefeito, tivesse a caneta, faria o quê?
Felisberto – Primeiro ia regularizar as 700 comunidades que precisam ser regularizadas. Isso geraria trabalho, renda e melhorias para mais de 500 mil pessoas.
JÁ – É tanta gente assim?
Felisberto – É, quase meio milhão de pessoas, mais de um terço da população de Porto Alegre, quase 40%, que vivem em situação irregular, ilegal na verdade.
JÁ – Que universo é esse?
Felisberto – Envolve desde situações relativamente sustentáveis até as situações dramáticas, como comunidades que esperam há mais de 30 anos pela regularização.
JÁ – Mas a prefeitura anuncia entrega de títulos…
Felisberto – Não adianta dar título se não urbaniza. É simplesmente a garantia para a pessoa. E a maioria vai vender. As pessoas estão de tal maneira espremidas pela necessidade que aceitam qualquer coisa.
Por exemplo, tem uma série de estudos sobre as mudanças climáticas, dizendo que a cidade está sujeita a ilhas de calor, enchentes… E o que se faz na cidade é o oposto do que deveria ser feito levando em conta essa realidade. O centro de Porto Alegre, por exemplo, foi todo lajotado. A temperatura deve chegar a 50 graus ali, nos dias mais quentes. O Paulo Brack mediu ali no Harmonia onde retiraram as árvores, deu mais de 45 graus.
O prefeito captou quase 7 bilhões de financiamento para aplicar em obras de reconstrução, melhorias e revitalização da cidade. Vai ver as obras, são aquelas em que os empresários têm interesse. Vi o representante do Sinduscon dentro do plenário da Câmara, negociando com vereadores. Muitos vereadores não sabem nem o que é o plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo. Separaram o plano diretor da lei de uso e parcelamento do solo. Por que separaram?
Agora, onde é o Teatro do Pôr-do-Sol, querem fazer um centro de eventos, uma marina – agora se diz Orla 2.. É tudo mega ideias, tudo com dinheiro público. Financiado pelo BNDES, pelo BRDE… Aí é maravilhoso. Além disso, o Estado se endivida para privilegiar os interesses privados, não o interesse público. Não há melhoria das vilas, como eu disse. Hoje é um débito da prefeitura com as emendas do OP de mais de R$ 1 bilhão.
JÁ – O que acontece que essas informações não chegam à população?
Felisberto – São muitos fatores. Um deles é que a população está tão premida pela necessidade que se preocupa em sobreviver, certo? Ela não vai se preocupar. Plano de emergência não é uma coisa que afeta ela, vamos dizer, diretamente, mas afeta, mas ela não percebe. Se percebe, não é um problema imediato na vida dela. Então acabam deixando de lado.
A população, ela não consegue perceber com a linguagem técnica, não é acessível para ela entender. Então, eu acho que isso é um grande problema.
E os meios de comunicação também, não é?
JÁ – Qual é a situação do OP hoje?
Felisberto – Hoje o recurso direcionado para o OP é de R$ 20 milhões. Desse total, 16 ou 17 milhões vão para as regiões do orçamento participativo, que são 17. Vai um milhão para cada uma, mais ou menos. E o restante vai para as temáticas que são seis, em torno de 500 ou 600 mil para cada. Parece que neste ano serão R$ 25 milhões. Eu sou de uma época em que o OP tinha R$ 500 milhões nos valores de hoje.
JÁ – O OP perdeu as suas características e representatividade…
Felisberto – É o que já falei: os conselheiros estão tão premidos que se contentam com qualquer coisa.
JÁ – Quando conheceste o prefeito Sebastião Melo?
Felisberto – Melo chegou em Porto Alegre, em 1977 ou 78, foi trabalhar numa lancheria, ali na avenida Borges de Medeiros, como chapista, e morava em cima. Ele diz também que foi carregador de caixas no Ceasa… Claro, ele tem mérito, tornou-se advogado, fez nome, entrou na política, era da esquerda do MDB. O que lamento é um cara que condecorou o Che Guevara, quando era presidente da Câmara, trabalhar hoje para a direita, para dizer o mínimo.
Ele subia numa caixa, na Esquina Democrática, junto com o José Fogaça, em atos contra a ditadura, sabe? E outros defendendo, sabe? Hoje é um cara aliado com a extrema direita. Essa transformação, ou essa adaptação, me decepciona, porque eu era amigo dele. Ainda tenho amizade com ele, mas me afastei dele.
JÁ –Ele é o grande defensor do tal adensamento, quer dobrar o número de moradores no Centro Histórico, para aproveitar a infraestrutura.
Felisberto –Eu bato de frente contra isso. Porque não existe um estudo sobre isso, não há mínima avaliação do que a infraestrutura da região central pode suportar. Quero que me provem. Eu acompanho isso há muito tempo, nunca vi um estudo que diga: “Tem infraestrutura ociosa, rede de esgoto, água, telefonia”. Nessa reforma do Viaduto Otávio Rocha, tiveram que refazer todas as canalizações, estava tudo entupido, sucateado. E mais: vai ter posto de saúde, vai ter escola, creche, transporte para essa população?
O prefeito se gaba de conhecer a cidade melhor que muito porto-alegrense. Ele não conhece o centro, não conhece a história da cidade, não entende a alma da cidade.
JÁ – As vilas, ele conhece?
Felisberto – Não, nem as vilas ele conhece. Ele é um personagem, cumpre um papel. Ele vai lá porque o levam. Ele não conhece a história da cidade, nem do bairro que ele morou.
JÁ –Qual é o bairro?
Felisberto – Morava lá na zona sul. O mais grave de tudo não é a ousadia dele, é a omissão geral. Eu não sou técnico, não sou engenheiro, não sou urbanista. Sou um cidadão que tem uma visão de cidade e não se conforma com o que estão fazendo com ela.
Dois anos após o incêndio que deixou 11 mortos e cerca de 15 feridos na Pousada Garoa, no Centro da capital gaúcha, um ato público será realizado neste domingo (26), às 15h, em frente ao antigo prédio, na Avenida Farrapos, 305. A mobilização busca lembrar as vítimas e cobrar responsabilizações pelo caso, que ainda tramita na Justiça.
A iniciativa é organizada pelo vereador Pedro Ruas (PSOL), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Câmara Municipal para apurar as causas da tragédia. “Até hoje ninguém foi formalmente punido”, afirma o parlamentar, que deve apresentar durante o ato um relato das conclusões da investigação legislativa.
O incêndio ocorreu na madrugada de 26 de abril de 2024, por volta das 2h, no albergue conveniado com a prefeitura para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. À época, foi constatado que o estabelecimento operava sem alvará de funcionamento e sem o Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI).
As investigações apontaram uma série de irregularidades, incluindo falhas estruturais e negligência na manutenção. O relatório final da CPI, concluído em junho de 2025, indicou responsabilidade do proprietário da rede, André Kologeski, destacando problemas como extintores vencidos, fiação exposta e ausência de rotas de fuga adequadas.
Por outro lado, o documento não indiciou agentes públicos municipais, sob a justificativa de falta de elementos suficientes.
Na esfera judicial, o caso segue em andamento em duas frentes: criminal e cível. A Polícia Civil indiciou três pessoas por incêndio culposo — o proprietário da pousada, o ex-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Cristiano Roratto, e uma fiscal do contrato. O Ministério Público entendeu que os responsáveis podem responder por dolo eventual, o processo ainda tramita na Justiça.
Paralelamente, a Defensoria Pública do Estado ajuizou, em agosto de 2025, uma ação civil pública que pede mais de R$ 10 milhões em indenizações por danos morais coletivos contra o município e o proprietário.
Decisões liminares já determinaram que a prefeitura apresente um plano de moradia digna para os sobreviventes, além de garantir atendimento psicológico e psiquiátrico especializado.
Enquanto os processos avançam, familiares das vítimas e sobreviventes seguem cobrando justiça.