Categoria: Geral

  • Quatro governadores na despedida a Carlos Araújo, que fazia política sem ódio

    Foram da ex-presidente Dilma Rousseff as últimas palavras de despedida a Carlos Araújo, que morreu na madrugada de sexta-feira e foi velado até o início da noite de sábado na Assembleia Legislativa.
    “O Carlos viveu intensamente e quis que todos tivessem condições de viver intensamente a sua própria vida. Ele via o mundo sempre de uma forma um pouquinho melhor do que o mundo era, o que ajudou muito a sua capacidade de resistir”, afirmou a ex-presidente.
    Ela ressaltou a capacidade do ex-companheiro de avaliar a cena política, enxergando além da aparência dos fatos. Ele previu, por exemplo, que na crise política atual, “o momento de consolidação do golpe seria a implantação do parlamentarismo”, como está sendo pretendido inclusive pelo presidente Temer.
    Dilma ressaltou a destacar a capacidade de Araújo de fazer amigos independente de ideologias. “Cada um de nós aqui acha que é um amigo especial do Carlos Araújo. Essa era a capacidade dele, a capacidade do encantamento”.
    Antes, em declarações à imprensa, a ex-presidente disse que perdeu “um parceiro de toda a vida”. O velório de Araújo na Assembleia terminou às 21h. O corpo foi cremado em cerimônia restrita à família.
    Antes de Dilma, falou, em nome da família, o ex-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi. “O Carlos era uma pessoa sem mágoa e sem ódio. No início, quando eu era jovem e o conheci, eu não o entendia. Depois eu percebi que quando você não dá bola para o passado, quando você pensa no presente e no futuro, você não tem rancor. Porque rancor é uma coisa que fica no passado. Essa era a sabedoria do Carlos Araújo”, assinalou.
    Quatro ex-governadores, muitos parlamentares, quadros históricos do PDT e lideranças de siglas à esquerda e a direita na política gaúcha compareceram ao velório de Araújo. Entre os ex-governadores, o pedetista Alceu Collares foi o primeiro a chegar, no mesmo horário da família, e acompanhado da esposa, Neusa Canabarro. Em seguida, foi a vez de Tarso Genro (PT). Olívio Dutra (PT) chegou no final da tarde, e ficou durante várias horas. E Pedro Simon (PMDB) esteve do final do dia e permaneceu até o término das homenagens. (Com informações do Correio do Povo)

  • Dez UPAS que poderiam atender 2 mil pessoas por dia seguem fechadas

    Dez Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) seguem fechadas no Rio Grande do Sul, segundo denúncia do Sindicato Médico do RS.
    Há um ano o Simers alertou que 12 unidades não haviam sido inauguradas e desde então, segundo nota do sindicato, assinada pelo presidente Paulo de Argollo, apenas duas entraram em funcionamento.
    Juntas, diz o Simers, as unidades têm capacidade de atender aproximadamente 2 mil pacientes por dia.
    As prefeituras alegam que não têm dinheiro para equipar as unidades, ao custo de, em média, R$ 1 milhão, que deveria ser dividido entre os três níveis de governo, e esperam a garantia dos repasses estaduais e federais e reajuste dos valores transferidos pela União.
    As administrações municipais temem inaugurar as unidades e serem obrigadas a arcar com o custo integral de manutenção. Com o passar do tempo, algumas cidades são desabilitadas por ultrapassar o prazo de funcionamento (um ano), como o caso de Uruguaiana.
    Pela portaria que criou as UPAs, 50% dos recursos de custeio seriam federais, 25% estaduais e 25% municipais. Tanto o Governo Estadual quanto o Ministério da Saúde explicam que, de acordo com a legislação, o início da transferência de recursos está condicionado ao funcionamento da UPA.
    Em alguns casos, também há entraves burocráticos. A unidade de Uruguaiana, por exemplo, deve ter o seu porte alterado de 2 (250 pacientes por dia) para 1 (150 pacientes por dia) para reduzir o investimento mensal e, assim, conseguir entrar em funcionamento a partir de setembro.
    Em Alvorada, a gestão municipal propôs abrir a unidade gradativamente, iniciando suas atividades em 2018 como pronto atendimento ampliado e migrando para UPA 24h a partir de 2020. O estudo ainda aguarda parecer do Ministério da Saúde. O órgão afirmou que colocará as unidades em funcionamento até setembro.
    Juntas, as obras destas 10 unidades custaram um total de R$ 26,4 milhões. Com estruturas erguidas e equipamentos novos, a ociosidade e o desperdício de verba pública supera três anos em alguns casos, como em Três Passos e Santo Ângelo.
    Em Alvorada, a solução para não manter o espaço inativo foi transferir e sede do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para o local, de acordo com o diretor geral da Secretaria de Saúde, Guilherme Guterrez.

  • Seguem as buscas por barco desaparecido no litoral de Rio Grande

    Um navio-patrulha, dois helicópteros, duas viaturas terrestres, retomam nesta segunda-feira as buscas para encontrar o Dom Manoel XVI.
    O barco pesqueiro, de 22m de comprimento avistado pela última vez na madrugada de sexta-feira a cerca de 15 quilômetros da costa de Rio Grande, em meio ao mar agitado.
    No domingo, as operações foram prejudicadas pelo mau tempo que atinge a região, com chuva constante.
    A falta de visibilidade impediu o apoio aéreo, ficando as buscas a cargo apenas do navio-patrulha P61, da Marinha, e por duas equipes em terra, que buscam pistas na região costeira.
    O barco desapareceu com sete tripulantes. As buscas são coordenadas pelo comando do 5º Distrito Naval da Marinha do Brasil.
    O pesqueiro sumiu em meio ao aviso de ressaca emitido pelo Serviço Meteorológico Marinho. A Marinha e a proprietária da embarcação até o domingo à noite não haviam divulgado os nomes dos tripulantes do Dom Manoel XVI.
    O barco é propriedade da Lago Pesca, que tem sede em Laguna, Santa Catarina. O Dom Manoel XVI e outros nove barcos da companhia atuam em Rio Grande. A empresa informou que pediu para suas embarcações voltarem para a barra, na quarta-feira (9), quando a Marinha disparou aviso de ressaca para a costa gaúcha.
    A empresa informou que o barco desaparecido estava em boas condições e passou por reforma no fim do ano passado.
    Eram dois barcos pesqueiros, Dom Manoel XV e Dom Manoel XVI, ambos registrados em Laguna,  que navegavam na área do Farol da Solidão, próximo ao município de Mostardas, no Litoral Norte, na quinta-feira (10).
    Por volta das 14h30min de quinta-feira, os comandantes das embarcações decidiram voltar para Rio Grande em razão do mar agitado.
    A intenção deles era de ancorar na barra na cidade da Região Sul por volta das 6h de sexta-feira, mas no retorno, por volta das 4h da madrugada de sexta, a tripulação do Dom Manoel XV perdeu contato visual e todo tipo de comunicação com o Dom Manoel XVI. Desde então, ele segue desaparecido.

  • Nem multa de R$ 5 mil reduz descarte irregular de lixo no Guaiba

    O descarte irregular de lixo em rios ou córregos é infração gravíssima, sujeito à multa de R$ 5.623,48. pelo novo Código Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre.
    Mas nem a ameaça de pesada multa tem sido suficiente para conscientizar os portoalegrenses, principalmente em relação ao Guaiba, o tão decantado cartão postal da cidade.
    O recuo das águas do Guaíba, provocado pelo vento Nordeste no fim de semana, mostrou o tamanho do descaso.
    A baixa do nível das águas, em quase um metro no sábado, deixou à mostra um cenário deprimente: pneus, garrafas de plástico, tampa de vaso sanitário, calçados e até sofás ficaram expostos em diversos pontos da orla.
    Segundo informações da Secretaria de Serviços Urbanos, a limpeza não foi feita no domingo por conta do mau tempo, mas está programada para a segunda-feira, dependendo do tempo.
    As equipes do DMLU, segundo a secretaria, já recolheram nos últimos três anos, mais de 250 toneladas de lixo retido pela Ecobarreira, instalada na embocadura do Arroio Dilúvio. Não fosse esse dispositivo, toda essa quantidade de material poluidor iria para o Guaíba.
    Diariamente, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSurb), por meio das equipes do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), faz o recolhimento dos resíduos içados pela gaiola da Ecobarreira e os encaminha para o aterro sanitário de Minas do Leão.
  • Porto Alegre, 1910: um grenal na Redenção

    Fazia frio naquele domingo do inverno portoalegrense de 1910. As páginas esportivas dos jornais destacavam os páreos do turfe no Hipódromo do Moinhos de Vento.
    No dia 17 de julho, no Campo do Militar, na Várzea, hoje Parque da Redenção, se enfrentavam duas equipes de foot-ball, o esporte que começava a ganhar espaço na cidade.
    Era a segunda edição de um embate que já se anunciava clássico: Grêmio Foot Ball Porto Alegrense e Sport Club Internacional. O primeiro jogo entre as duas equipes havia sido um ano antes.
    O recém surgido Sport Club Internacional, criado pelos irmãos Poppe, jovens comerciantes paulistas que chegaram à Capital em 1908 e montaram uma loja de roupas, ousou desafiar o já experiente Grêmio.
    Criado em 1903, simultaneamente ao Fussball Club Porto Alegrense, o Grêmio era dos precursores do esporte na Capital gaúcha. Para o primeiro confronto, a direção gremista oferecera o segundo time. Os colorados não aceitaram, exigiam o escrete principal. Jogaram. E o grêmio ganhou de 10 a 0.
    O primeiro grenal foi seguido de confraternização com baile e cervejada noite adentro. Ainda assim, no dia 18 de julho de 1909, o Correio do Povo trazia uma advertência aos espectadores. “Afim de evitar factos desagradáveis”, o jornal aconselhava que os espectadores não se pronunciassem “em favor de um ou de outro team”.
    Relatava no domingo anterior ter havido ”lamentável incidente” entre um dos juízes e um grupo de assistentes, onde foram ouvidas “phrases pouco gentis”.
    O jornal pedia que o entusiasmo fosse moderado visto o “grande numero de senhoras e senhoritas, às quaes não se deve dar o desgosto de testemunhar discussões inconvenientes”.
    No segundo grenal já teve confusão
    Nos dias anteriores à revanche, Antenor Lemos, jogador mediano, porém incentivador da equipe colorada, andava garganteando nas rodas de conversa na Choperia Bopp, na Praça da Alfândega. Bradava que era chegada a hora do troco.
    O escrete gremista vinha a campo com Teichmann; Deppermann, Marteu, Bento, Sommer, Mostardeiro, Geyer, Moreira, Booth, Grünewald e Mostardeiro I.
    Do lado colorado jogavam: Lindemayer; Mendonça, Volksmann, Vinholes II, Kluwe, lemos, Poppe I, Galvão, Gafrê, Chaves e Vinholes. O árbitro da partida era Theobaldo Förnges.
    E o Grêmio ganhou por cinco a zero.
    Lá pelas tantas do segundo tempo, o atleta gremista Edgard Booth, que já havia marcado dois gols, recebeu no meio de campo, driblou toda a defesa colorada e foi parado a botinada pelo zagueiro Volksmann. Fechou o tempo e a partida quase foi encerrada a pau.
    O jogo valia pela pela primeira edição do campeonato da cidade de 1910, contando com sete equipes: 7 de setembro, Fussball Club Porto Alegre, Frisch Auf, Militar, Nacional (de Santa Catarina), Grêmio e Internacional.
    No início do esporte, jogos no campo da antiga Várzea
    O futebol começava a crescer em Porto Alegre e a cair na graça do público. Nestes primeiros grenais já se estima um público de cerca de duas mil almas. O esporte ganhava também algum espaço na imprensa.

    Jogo entre Grêmio e o Militar, também pelo citadino de 1910 / Arquivo CMPA

    Muitos dos jogos eram disputados no Campo do Militar, na Várzea. O Militar Foot-Ball Club, campeão daquele ano, era formado por alunos da Escola de Guerra – O “Velho Casarão da Várzea”, atual Colégio Militar.
    O campo ficava em frente ao Casarão, onde hoje passa a avenida José Bonifácio. No ano seguinte, a escola foi transferida para o Rio de janeiro e o clube, extinto.
    A Escola de Guerra, na primeira década do século 20. Atualmente o prédio abriga o Colégio Militar de Porto Alegre / Arquivo CMPA

    Em 1909, época da criação do Sport Club Internacional, surgiam outros clubes dedicados ao “sport inglez” na cidade.
    Em 26 de junho, A Federação anunciava que no dia seguinte, às 3 da tarde, “um grupo de foot-ballers desta capital e que não se acham filiados a nenhuma sociedade, vão tratar da fundação de um club de football e da eleição de sua primeira directoria”.
    No dia 15 de setembro, foi notícia a criação do Foot-ball Club Theresópolis. No dia 30 do mesmo mês, o Correio do Povo noticiava a criação do Centro Sportivo Operário, fundado por “um grupo de obreiros”. “A primeira de suas secções de sport a inaugurar-se, será a do foot-ball visto ser o mais preferido pela sociedade porto-alegrense”.
    Embora se acredite que o grenal número 2 tenha sido jogado na Redenção, há controvérsias em relação ao local.
    O Campo da Redenção é o local apontado no livro “A História dos grenais”, de David Coimbra e Nico Noronha e no levantamento “Todos os grenais da História”, realizado pelo jornal Zero Hora.
    Entretanto, há fontes que apontam que a partida tenha sido jogada no Moinhos de Vento, na Baixada, antigo campo do Grêmio. Em “O FOOT-BALL DE TODOS: Uma história social do futebol em Porto Alegre, 1903 – 1918”, dissertação de mestrado defendida por Ricardo Santos Soares, na PUC-RS em 2014, há uma tabela, elaborada a partir de jornais da época, que traz esta informação.

  • Prefeitura restaura sobrado do século 19 após ação do MP

    A Prefeitura de Porto Alegre está concluindo a primeira parte da restauração de um imóvel do século 19, no centro da Capital. O sobrado fica na rua Riachuelo, 645, entre as ruas General Canabarro e General Bento Martins. A obra é resultado de uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público em 1999. Foi determinada a limpeza e recuperação estrutural do sobrado. As obras, que estão sendo realizados com recursos do Fundo Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural, devem ser concluídas até o final deste ano.
    Em 1977, por meio da Lei 4317, o prédio foi considerado “de valor histórico e cultural e de expressiva tradição na cidade de Porto Alegre”. Porém, o então proprietário, Júlio Zancani de Azevedo, solicitou sua exclusão da Lei para poder demoli-lo e construir um edifício moderno, o que foi indeferido pela Prefeitura. O tombamento aconteceu em 1980.
    A importância arquitetônica do sobrado é motivada por ser um dos poucos prédios remanescentes da arquitetura colonial luso-brasileira com sua técnica construtiva em Porto Alegre, sendo todas as paredes de tijolos assentados com argamassa de barro e as esquadrias com verga em arco.
    “Acreditamos que a recuperação desse imóvel é mais um fator que contribui para a valorização e preservação do centro histórico de Porto Alegre”, afirma a promotora do Meio Ambiente de Porto Alegre, Ana Maria Moreira Marchesan.
    Conforme informações do Município, já foram feitas a consolidação da estrutura do imóvel, a complementação de paredes que haviam sido demolidas, a recuperação, a pintura da fachada e a limpeza interior.

  • Projetos que mexem nos salários coloca prefeito e servidores em rota de colisão

    Um pacote de medidas enviadas por Marchezan à Câmara esquentou ainda mais a relação entre o prefeito e os municipários. As propostas de alteração da Lei Orgânica do Município e do Estatuto dos Servidores autorizam o parcelamento de salários, retiram a licença-prêmio e mexem com as gratificações dos servidores.
    No dia 1º de agosto, enquanto o prefeito explicava as medidas em entrevistas no gabinete, servidores municipais lotavam a Praça Montevidéu em frente ao Paço Municipal para protestar. Três mil pessoas participaram do ato, segundo o Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa), que organizou a manifestação.
    O Simpa já encaminhou a presidência da Câmara de Vereadores um pedido de audiência pública para discutir os projetos. O Prefeito justificou que as medidas são necessárias porque a Prefeitura está quebrada. A licença prêmio custa R$ 400 milhões a cada cinco anos, alegou Marchezan.
    O diretor do Simpa, Alberto Terres, diz que o discurso de falência é tática. O prefeito quer desviar a pauta enquanto entrega os serviços públicos para a iniciativa privada.
    Para o sindicato, Marchezan elegeu os municipários como inimigos. Para Marchezan, as críticas são de uma oposição partidária de PT e Psol. A relação é conturbada desde o início da gestão.
    Em março, quando prefeito e Simpa se reuniram pela primeira vez, a primeira discórdia. Marchezan queria apresentar o fluxo de caixa da Prefeitura. O sindicato queria apresentar a pauta de reivindicações aprovada em assembleia.
    No fim de maio, servidores lotaram a sessão de votação na Câmara e o prefeito retirou a proposta que acabava com a reposição automática da inflação nos salários.

    Discussão e votação de projeto do Executivo a respeito do aumento da alíquota da previdência dos servidores municipais. Na foto, manifestantes entram no plenário durante a sessão.

    No início de julho, a vitória foi do governo. Em sessão que teve invasão do plenário e votação a portas fechadas, foi aprovado o aumento de 11% para 14% da contribuição dos servidores para o Previmpa, a previdência municipal.

  • Inaugurado primeiro parque eólico da Região Metropolitana

    Com geração de energia suficiente para o consumo de 140 mil residências, abastecendo cerca de 320 mil pessoas, o Complexo Eólico Pontal, localizado no distrito de Águas Claras, em Viamão, na Região Metropolitana, foi inaugurado nesta sexta-feira (11/08).
    O governador José Ivo Sartori e o secretário de Minas e Energia, Artur Lemos Júnior, participaram da cerimônia.
    Para a construção e a implantação de três parques foram investidos R$ 330 milhões.
    O parque, que teve o apoio do governo do Estado, BNDES e Badesul, conta com 25 aerogeradores, totalizando 59,8 megawatts de potência instalada. A expectativa da Enerplan é chegar a cinco parques, atingindo um investimento na ordem de R$ 600 milhões, propiciando geração de emprego e renda e distribuição de energia limpa.
    “O Complexo Eólico do Pontal simboliza uma mudança de realidade para a região e um novo momento na geração de energia no Rio Grande do Sul e no Brasil”, afirmou o governador. Sartori disse que essa é uma grande vitória para o estado e para os empreendedores. Também lembrou que o país ocupa a nona colocação no ranking mundial de capacidade instalada de energia eólica.
    Setor em crescimento
    De acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), nos últimos seis anos o investimento feito pelas empresas da cadeia produtiva de energia eólica somam R$ 48 bilhões. Os recursos são calculados em relação aos megawatts instalados.
    De 2017 a 2020, estima-se um investimento de cerca de R$ 50 bilhões, considerando o que ainda está previsto para ser instalado. Em 2016, a geração de energia eólica cresceu 55% em relação a 2015, de acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

  • Carlos Araújo e a luta armada: "Foi uma rebeldia cega"

    Morreu neste sábado, 12/08, o ex-deputado Carlos Franklin Paixão Araújo, 79 anos.
    Araújo foi um dos fundadores do PDT, partido no qual foi ligado a Leonel Brizola e pelo qual se elegeu deputado estadual por três vezes. Era advogado trabalhista e tinha escritório em Porto Alegre. Ele deixa uma única filha, com a ex-presidente Dilma, Paula Rousseff de Araújo.
    Durante da ditadura militar, ele foi militante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares), onde conheceu a ex-presidente Dilma Rousseff, com quem foi casado.
    A Santa Casa de Porto Alegre confirmou o falecimento, na madrugada deste sábado. Ele estava internado desde o dia 25, com problemas pulmonares crônicos e uma infecção das vias aéreas, na unidade de terapia intensiva do Pavilhão Pereira Filho.
    O velório será na Assembleia Legislativa, das 15h às 21h deste sábado. Em seguida, o corpo será cremado em cerimônia privada com a família. 
    A ex-presidente Dilma estava no Rio de Janeiro quando soube da notícia, mas já retornou para Porto Alegre. 
    Para lembrar o pensamento e a trajetória de Araújo, o JÁ republica a entrevista para a edição especial da revista sobre os 50 anos da ditadura de 1964
    ELMAR BONES
    A esquerda que pegou em armas contra a ditadura de 1964 acreditou que poderia queimar etapas e pular direto para o socialismo. Sem apoio popular, os guerrilheiros ficaram isolados e foram trucidados.
    Esta é a síntese que se pode extrair de uma conversa com Carlos Araújo sobre esse período de trevas, que a história rotulou de Anos de Chumbo (1969/1975), quando muitas organizações pegaram em armas para derrubar o regime militar.
    Ele tem autoridade para falar. Filho de um advogado comunista, viveu infância e adolescência em meio a reuniões políticas e a conspirações. Em 1964, estava mergulhado até o pescoço nos movimentos sociais que pressionavam o governo Jango por reformas.
    Com Francisco Julião, o líder das Ligas Camponeses, percorreu a América Latina, conheceu Fidel Castro e Che Guevara.
    Foi preso por alguns meses depois do golpe e voltou à ativa, organizando trabalhadores e defendendo sindicatos em Porto Alegre.
    Depois do AI-5, convenceu-se de que o caminho para enfrentar a ditadura era a luta armada. Nesse período conheceu e casou com Dilma Rousseff. Preso e torturado, tentou o suicídio para se livrar dos suplícios.
    Amargou quatro anos de cadeia e, com a redemocratização, retomou a vida política, ajudou a fundar o PDT, foi eleito deputado estadual três vezes e foi candidato a prefeito de Porto Alegre, onde vive e, aos 77 anos, ainda cumpre sua rotina de advogado trabalhista.
    Ele recebeu o repórter duas vezes em sua casa para falar das experiências do guerrilheiro Max. O que segue é um resumo dessas conversas.

    Não está na hora de uma autocrítica sobre a luta armada?

    É importante fazer essa revisão. É o momento de mexer nisso, mas com muito cuidado, tem muita gente viva e são pessoas corretas, embora equivocadas politicamente.
    Foi equívoco de quem?
    É preciso ver um pouco da formação da esquerda brasileira e latino-americana. Até 1956, por aí, rigorosamente a esquerda era só o partido comunista, em vários países. Tinha uma esquerda trotskista, pouco expressiva. O “Partidão” era tão respeitado socialmente nessa época que o cara que saía ou “era saído” ficava malvisto, ficava “queimado”. Eu pude acompanhar isso tudo, entrei para o partido comunista com 14 anos. Meu pai era comunista e veio para Porto Alegre para ser advogado dos sindicatos. Foi o primeiro advogado no Brasil a defender só trabalhadores.
    Nessa época, os comunistas faziam forte oposição a Vargas…
    Totalmente contra. Lembro que fizeram uma reunião do partido na minha casa, de manhã… eu estava curando uma pneumonia… De repente nós ouvimos tiros, saímos para ver. Era uma multidão nas ruas quebrando tudo e partindo pra cima do Exército. O Getúlio havia se matado… e nós preparando um manifesto contra ele.
    Era o 24 de agosto de 1954…
    A multidão, sem ninguém que orientasse, foi de jornal em jornal quebrando tudo… Rádio Farroupilha, Diário de Notícias, a imprensa que atacava o Getúlio. Eu fui junto, de repente a massa se dirige para a sede da Tribuna Gaúcha, o jornal do Partidão… A multidão foi lá e quebrou tudo. Fiquei chocado, louco com aquilo… algo estava errado! O povo está de um lado e nós estamos de outro!
    O povo estava com Vargas…
    Aí veio o relatório do (Nikita) Kruschev, O Estado de S. Paulo publicou na íntegra, num caderno especial. Fomos questionar a direção do Partidão, na época: o Luiz Carlos Prestes, o Giocondo Dias (que era quem mandava mesmo), o Mário Alves, o Jacob Gorender, o João Amazonas, o Carlos Marighella, os caciques. O Partidão respondeu dizendo que era tudo falso.
    Coisa da imprensa burguesa…
    Exato. Aí, em 1957, no 5º Festival da Juventude, em Moscou, quase 40 mil pessoas de vários países, a delegação brasileira foi com 500 pessoas. Lá, vimos que o povão estava com o Stalin. Custamos a entender esse processo, mas, quando voltamos, fomos questionar a direção do partido. Aquilo não era coisa da imprensa burguesa, nós vimos lá dentro do Kremlin. Houve um debate, acabamos saindo do Partidão.
    Foi a primeira dissidência…
    Formamos a Associação de Estudos e Debates Castro Alves, que reuniu uma gurizada, quase mil jovens. Alugamos uma sala grande na Galeria do Rosário, que estava em construção. Foi um período de grande agitação e iniciativas precursoras. Mas o problema era o seguinte: não tinha pra onde ir, não tinha mais esquerda. Não ia aderir aos trotskistas, não ia voltar para o Partidão. Então caiu do céu a Revolução Cubana. Ficamos fidelistas, debraystas. Então vamos estudar Debray (Regis Debray), a teoria do foco, a guerrilha. “Somos cubanos”. Quando começamos a ativar os focos, em Goiás e Mato Grosso, o Jango assumiu o governo e com isso desviamos o nosso foco. Como iríamos fazer guerrilha com o Jango no poder?
    Como era a esquerda nesse momento?
    Havia o Partidão, com muitas dissidências, os trotskistas, o PCdoB e nós, os debraystas, os foquistas. Quer dizer, chegamos em 1964 com as esquerdas fragilizadas, divididas, sem base teórica, ninguém tinha conhecimento, nunca estudaram a história dos países. Nós fomos ser foquistas porque não tínhamos preparo político. Se tivéssemos maior preparo teórico, conhecêssemos mais o marxismo, não teríamos seguido esse caminho. A nossa ignorância, o exemplo de Fidel…
    Cuba era o grande exemplo…
    A Revolução Cubana era uma coisa maravilhosa, que emocionava a todos nós, na nossa cegueira, parecia o único caminho. A luta armada no Brasil é produto da rebeldia contra a ditadura, mas uma rebeldia cega, mal direcionada. Hoje eu posso dizer que tenho orgulho de ter feito isso, era jovem, desprendido, fomos para o pau, porque achávamos que tínhamos que ir, embora estivesse errado em tudo.
    Não tinham base popular.
    O MDB veio nos mostrar que estavam certos, a realidade mostra isso. Em 1974, com a vitória nas urnas, foi o começo da libertação, da queda da ditadura. Nós, da esquerda despreparada, não tínhamos outro caminho a não ser o esquerdismo, o espontaneísmo. Tinha Cuba, o discurso de Fidel… a ideia de que se ele fosse brasileiro, a ditadura não duraria um dia a mais no Brasil… Ora, aquilo para Cuba estava bem, até para a Nicarágua foi bom; pro Brasil, não.
    O que seria bom para o Brasil?
    A realidade brasileira era uma ditadura violenta e, tentando confrontá-la, uma esquerda muito frágil. Aquilo que o Lênin chamava de a doença infantil do comunismo. Se olhar a história da esquerda brasileira, é um fracasso completo. O Prestes era uma nulidade política. Quando ele acertou foi por oportunismo, mas tão fugaz que não teve significado nenhum. Foi um cara dedicado, um excepcional estrategista militar, um companheiro brilhante, tudo bem, mas essa é outra história. A trajetória política real é um desastre. Em 1934, Getúlio escreveu um bilhete para o Osvaldo Aranha dizendo assim: “Osvaldo, esses comunistas aí são os nossos principais aliados, pena que eles não sabem, porque são muito ignorantes.” E, realmente, um ano depois tentaram derrubar o Getúlio com uma quartelada imbecil.
    Também um grave erro de avaliação.
    Então, a luta armada no Brasil é fruto da violência da ditadura e do confronto com a esquerda espontaneísta. Só podia dar no que deu, fomos destruídos. Quando a ditadura brasileira apertou, em dois anos liquidou com a luta armada. O problema é que não reconhecíamos nossa fragilidade. Dá para contar detalhadamente sobre essa fragilidade, onde ela se revelava. Não agora, talvez…
    Se revelava nos rachas…
    E na cadeia… aí a coisa se revelou da forma mais grotesca, violenta possível, nada ético, nada moral. Porque tu tá fechado numa sala e vem todo o ódio pra cima de ti, 24 horas por dia. Eu estive num cadeião, com 700, 800 presos. O pau quebrava, violência total.
    Qual é a conclusão?
    Nós temos que nos orgulhar por termos ido à luta, desprendidos, alguns perderam suas vidas, mas isso é insuficiente para a vitória. Isso pode ensinar um comportamento, a viver no perigo, mas não ilumina ninguém teoricamente e não faz que entenda a realidade. Claro, discutir isso mais detalhadamente é importante, mas vai atingir pessoas que estão aí, algumas influentes na sociedade, pessoas honestas… E alguns não irão admitir essas coisas, seus comportamentos na cadeia, é compreensível…
    Foste preso em São Paulo?
    Fiquei dois anos preso em São Paulo e fui transferido para Porto Alegre, na Ilha do Presídio. Aquilo era antiga Casa da Pólvora, paredes de pedra bruta, quase um metro, e só tinha uma entrada. Lá dentro botaram um assoalho, e dividiram em celas, abertas, tinha uns 50 presos ali. Aí instituímos uma rotina de estudos, criamos a Associação de Presos da Ilha do Presídio, tiramos CNPJ, e até ganhamos uma licitação da Brigada Militar para fazer cinturão, coldre e outras coisas de couro. Produzíamos muita bolsa de couro, era moda, e os familiares vendiam pra nós no Centro. De manhã nós estudávamos. Ali na ilha eu fiquei pouco tempo, seis meses, depois fomos levados para o Presídio Central. Na verdade eu e um companheiro, o Elói Martins, estávamos marcados para morrer, mas consegui avisar meu pai na noite em que iam nos levar… ele botou a boca no trombone e o plano furou.
    Houve tortura no início?
    No início, lá em São Paulo, me bateram muito, apanhava até desmaiar. Tanto que decidi me matar, inventei que tinha um ponto com o Lamarca (o que eles mais queriam) e quando cheguei na rua me atirei embaixo de uma Kombi. Fui pro hospital todo quebrado, fiquei nove dias, quiseram me torturar no hospital, mas uma freira impediu.
    Por que não houve, até hoje, uma autocrítica sobre a luta armada?
    Porque nós não somos uma esquerda evoluída, embora tenhamos melhorado bastante em alguns aspectos. E também porque uma autocrítica mais profunda envolve referência a pessoas e muitas estão aí vivas. Não querem se envolver mais com isso. Há um infantilismo político também, mas falta distanciamento histórico.
    Por que havia tantos rachas?
    Todos tinham como metas a revolução socialista, a divergência era na tática. Os grupos tinham muitos militares, que não viam motivo para se fazer um trabalho urbano, de organização dos trabalhadores. Eles nos viam como bundas-moles, que queriam ficar na cidade, em vez de ir pra Serra. “Em vez de comprar arma tu quer editar jornalzinho”. Aí começavam os rolos intermináveis.
    Outra fragilidade era a falta de apoio da população.
    Sim. As ações nas cidades eram complicadas por isso. Por exemplo: a gente pegava um caminhão de carne e levava lá pro morro e distribuía com panfletos… ninguém queria saber, só queriam pegar a carne. Abríamos um supermercado pra quem quisesse pegar qualquer coisa, ninguém parava para nos ouvir, pegavam qualquer produto e saíam correndo. Nós fomos assaltar um banco e fizemos discurso em frente ao banco… ninguém parava para nos ouvir. Tinham medo, queriam que aquele assalto acabasse logo. Uma ação desastrosa podia ferir, matar alguém.
    Faltou a base popular, da qual a esquerda tanto fala…
    A gente não fala muito disso porque é hilário, o esquerdismo é hilário. Então a gente tem que ter essa compreensão. O povo desconhecia a nossa existência e, quando conhecia, ficava contra. Porque nós estávamos fora da realidade.
    Qual era a dimensão desses grupos no início?
    Aqui nós tínhamos um grupo com muita gente, uns 200 caras organizados, discutindo e fazendo trabalho de base. Aí começamos ver ações em quartéis, em bancos. E marcamos uma reunião com a turma do Colina, no Rio. Fui à reunião,  conheci a Dilma lá. ​Depois fizemos uma reunião com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e decidimos que o nome seria Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Aí fomos para outra reunião em São Paulo e depois um encontro, grande e demorado, em Teresópolis. Todo mundo com uma metralhadora na mão. As divergências eram muitas e houve momentos de grande tensão. Aí rachou, alguns dos nossos apoiaram a VPR, militarista, e alguns dos deles ficaram ao nosso lado, os “massistas”. E nós ficamos só como VAR Palmares. Não chegamos a fundir com a VPR, cada um foi para um lado.
    O cofre do Ademar de Barros foi depois disso?
    A ação no cofre do Ademar foi da VAR Palmares e tinha dois caras da VPR, convidados por nós a participar. A VPR tinha as armas, e nós tínhamos o dinheiro. A tentativa de fusão fracassou, mas VAR continuou, a VPR também, até matarem todos. Lamarca foi o último, era um socialista espontâneo.
    Havia romantismo?
    Havia. A Beth Mendes era da VAR. Tinha 18 anos, queria coordenar uma ação. Fez todo o planejamento de uma ação na casa de um colecionador de armas e foi. Ela fez todo o levantamento. Ela era a artista mais famosa daquela época. O principal assessor dela nessa ação foi o Pérsio Arida… e o Pedro Farkas.
     
    Getúlio deu o rumo [da aglutinação das forças sociais]. Ele foi um fenômeno. Eu, que pretendo ser marxista, tenho que admirar Getúlio
     
    Havia também um ambiente…
    Nesse período havia a mística das revoluções. Havia um ambiente internacional, as esquerdas todas queriam saber o que fazer. Cuba, Nicarágua, Vietnã, na França, em 68. Uma conjuntura internacional em ebulição. ​​O movimento social que havia no Brasil era trabalhismo, onde estavam os operários, os sindicatos. A direita dizia que eram pelegos, porque apoiavam o governo getulista, e a esquerda entrou nesse papo, mas como fazer o Prestes entender isso? O Getúlio ofereceu ao Prestes o comando militar na Revolução de 30. Se o cara fosse um marxista ele tinha que aceitar na hora. Os dois eram amigos e o Prestes não quis papo. Em 32, o Getúlio mandou chamar o Prestes, ele recusou… Há pouco, fui convidado para uma palestra na USP. Estou pensando em falar sobre o Getúlio Vargas. Era Vargas um marxista?
    Era?
    Talvez. As provas dele na Faculdade de direito estão aí, todas, inteirinhas. Na prova de Economia Política, de 1903, Getúlio, com 21 anos, escreveu: “Minhas referências filosóficas e políticas são Saint Simon, Herbert Spencer e Karl Marx”. Ainda estou pesquisando, mas acho que ele conhecia bem o Marx. No primeiro discurso dele à nação, após a Revolução de 30, ele diz o seguinte: “Meu governo terá por fundamento uma democracia social, uma democracia econômica e uma democracia política. O Estado será o indutor do desenvolvimento. Agora, as rédeas do processo estarão nas mãos firmes das forças sociais”. Ele disse isso, e omitiu a palavra “proletariado”, mas depois ele falava direto a palavra “proletariado”. O governo Lula tinha isso intuitivo. O Lula começou a ler Getúlio, os livros do Lira Neto, e ficou louco, se apaixonou.
    O golpe de 64 dizia-se contra o comunismo. Na verdade, era contra os avanços do trabalhismo.
    Claro. O Getúlio era um homem muito consciente. Quando tomou o poder em 30, ele tinha em mente uma pergunta: como vai se construir o capitalismo brasileiro? E ele respondeu no primeiro pronunciamento à nação: “No meu governo, haverá por fundamento uma democracia social, uma democracia política e uma democracia econômica. O Estado será indutor do desenvolvimento e as rédeas do processo estarão nas mãos firmes das forças sociais”.
    Não há um certo ‘comtismo’ nessa postulação?
    Pode ser, mas nessa época, o Getúlio já havia superado o comtismo. Acho que têm outras coisas no meio disso.
    O Estado como o “conciliador das classes”…
    Ele apostava nisso. Mas o Getúlio rompeu com o comtismo em 1925, 1926. Quando ele criou o Banrisul, em 1928, ele rompeu por completo, porque os comtistas jamais imaginaram que o Estado tivesse um banco. As elites paulistas e mineiras diziam que as tais “forças sociais” não teriam, de forma alguma, condições de conduzir, o processo. Só o capital internacional, que tem experiência e grana. O embate é o mesmo até hoje, só o nível um pouco diferente. Isso foi o que derrubou o Getúlio, em 45. Depois, o levaram à morte em 54, e depois derrubaram o Jango. E levaram o Lula a enfrentar quatro eleições até ser presidente. Porque, de certa forma, o governo Lula deu continuidade àquilo lá.
     
    O Brizola já dizia que, na América Latina, a social-democracia é uma revolução. É isso mesmo
     
    A linha trabalhista, nesse sentido de aglutinar as forças sociais, é a mesma?
    Sem dúvida nenhuma. Getúlio deu o rumo. Ele foi um fenômeno. Veja o seguinte: em 1866, veio a primeira eleição na Inglaterra, o inglês não sabia o que era voto. Sabiam o que era rei. Dois candidatos: um representante do capitalismo que estava nascendo e, o outro, do feudalismo que estava morrendo. O Marx era presidente da 1ª Internacional dos Trabalhadores. Os jornais fizeram a pergunta: em quem os trabalhadores devem votar? O capitalismo na época era aquele negócio terrível das pessoas trabalhando horas e horas sem descanso semanal, crianças trabalhando durante horas, morrendo. O Marx reponde: os trabalhadores devem votar no capitalista, porque é a nova sociedade, que vai trazer progresso, um passo adiante daquela que está morrendo, vai criar uma classe operária forte, aí depois essa classe saberá conduzir uma nova sociedade.
    Os marxistas, de modo geral, sempre foram hostis a Vargas…
    Sim, porque eles não eram marxistas, achavam que eram. Achavam…
    Voltando à ditadura de 1964, o País ainda se ressente daqueles 21 anos, não?
    Um dos piores legados da ditadura foi acabar com a vida política estudantil. Uma geração inteira não fez política. Há uma retomada agora, mas é muito difícil. Eu dou palestras em colégios, e noto que querem aprender a fazer política. Eu digo que, com a idade deles, eu já participava de grêmio estudantil, a escola nos obrigava a ter um pensamento político. Uma menina de 17 anos me perguntou o que meus pais diziam de tudo aquilo que nós fazíamos.Isso mostra certa ingenuidade.
    O decreto 477 foi para acabar com o movimento estudantil.
    Aquilo foi um atraso significativo para o Brasil. E está ligado ao atraso tecnológico, porque nossos principais cientistas foram estudar fora do País. É um milagre que a Embrapa tenha sobrevivido. O descaso com o conhecimento e a tecnologia foi um crime do regime militar quase tão grave como o que aconteceu no campo político. Ficamos para trás. Ainda hoje estamos longe de recuperar o terreno.
    Queria retomar… às primeiras tentativas de resistência…
    Eu comecei a participar de 1966 pra frente. Eu fazia movimento operário, clandestino. Sem partido. Só organizando o movimento operário. Fizemos a primeira greve na ditadura. E nós tínhamos um grupo forte em Porto Alegre, com pessoal das fábricas, tinha operários, estudantes e muitos seminaristas de Viamão. Tínhamos jornal e tudo, e daqui a pouco começamos a ver pelo Brasil muitas organizações armadas, em Minas, São Paulo.
    Vocês tinham contato com eles?
    Fizemos contato com o pessoal da organização Colina, de Belo Horizonte, e fomos num encontro em janeiro de 69, teve um encontro no Rio, nos identificamos com eles, mas já estavam muito fragilizados, muitos presos, até mortos, mas tinha muita gente de várias partes do País, Pernambuco, Bahia, São Paulo, Rio. Fizemos uma reunião e decidimos juntar todo mundo. Num encontro lá na serra no Rio de Janeiro.
    E a aproximação com a VPR?
    Nessa mesma época, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) do Lamarca nos contatou para ver se contava com a gente. Marcamos um encontro em São Paulo e fomos, sete companheiros nossos e sete deles. Parte deles se identificavam com a posição minha e da Dilma, de dar ênfase ao trabalho de base, de organização. Parte do nosso grupo se identificava com os outros da VPR, militaristas. E aí decidimos uma fusão. E, marcamos uma reunião em Teresópolis, reunimos, numa casa, 50 pessoas, era democrático, cada estado vinha com uma representação. Havia muitas divergências e ninguém queria abrir mão de nada. Uns eram militaristas, queriam fazer foco, enquanto outros queriam ficar no trabalho político, nos sindicatos, nos bairros. Metade de um grupo apoiava a metade do outro, era uma confusão geral.
    João Goulart?
    Acho que o Jango foi prisioneiro do Partido Comunista, que teve muita influência. Porque o Jango era um progressista, era preparado para aquilo lá, mas quem o apoiava? Ele coloca ao seu lado o Partidão, não tinha outro, e o Partidão, muito equivocado sempre, começou a cometer mais equívocos.
     
    O Jango era um líder preparado, mas ele ficou isolado. Tentou se apoiar no Partido Comunista, mas o partido sempre equivocado só piorou as coisas
     
    Quais os equívocos?
    O principal deles: não ter organizado uma resistência ao golpe. Não houve reação ao golpe. Por exemplo, o Darcy Ribeiro, um homem preparado, um homem excepcional, mas não para fazer política. O general Assis Brasil, comandante, mas política zero. Então, quem restava ali?
    O Almino Afonso?
    Eu convivi com o Almino, nós somos muito amigos, ele acabava se consumindo, era indispensável. Um grande orador, um grande articulador, mas era uma batalha dia a dia ali no Congresso.
    O Jango estava sozinho.
    O Jango era um gênio. A precocidade do Jango era inacreditável. Mas, era solitário. O Getúlio também, só teve o Osvaldo Aranha para falar. Faltou um Osvaldo Aranha para o Jango. Em 34, o Getúlio diz para o Osvaldo Aranha: “Osvaldo, esses comunistas aí são nossos principais aliados, pena que nem sabem porque, são muito ignorantes”. O que é o PT hoje, o Lula, a Dilma, a hegemonia das forças sociais, está óbvio. Nós estamos discutindo o desenvolvimento capitalista, não outra coisa. Até porque o socialismo vem depois do capitalismo, nós temos que entender isso, que o socialismo vem para dividir fartura, não miséria.
    A revolução é outra?
    Só vontade de fazer não basta. Hoje está colocado na ordem do dia desenvolver o capitalismo. O Brizola dizia: a social democracia na América Latina é uma revolução, vamos tirar milhões de companheiros nossos da miséria. Isso vai criar outra coisa e não sabemos o que vai vir atrás disso aí. É verdade. Aqui a social democracia é uma revolução. Como não? Como tiramos 30 milhões da miséria? Isso não é uma revolução? Claro que é. Só aqui no Brasil que a mídia diz que não é. Em qualquer parte do mundo consideram uma revolução.
     
    Cadeia não é bom para ninguém, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos lá e foi onde pude estudar
     
    A revolução armada…
    Era um voluntarismo. Mas há um aspecto interessante: nós fomos derrotados, dizimados, nos deram um tapa e nos derrubaram, mas sentimos orgulho daquilo que fizemos. Mesmo porque foi um baita equívoco nosso, a luta militarizada. Mas nós tomamos uma atitude, errada, mas… Pra mim, quem estava certo era o MDB que foi para a eleição em 74 e com voto e voto deu aquela vitória esplendorosa. Eles mostraram que estavam certos e nós errados. Pra nós, que sobrevivemos, foi uma lição muito forte.
    A um custo alto…
    Tem outros aspectos que a gente não fala, porque não dá clima, cadeia não é bom para ninguém, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos lá e foi onde pude estudar e ler pra valer, estudava 10, 12 horas por dia, um negócio sistemático. Claro que tirando a fase da tortura, mas depois que você vai para o presídio e fica ali estudando, aí a gente não fala isso porque pode ser mal compreendido. Sei que hoje está meio cedo para falar isso tudo. É que você tem que tirar coisas boas das situações ruins e entender que nada é tão bom assim, sempre tem um lado ruim também.

  • Transporte em colapso: menos isenções, mais aumento

    Os ônibus em Porto Alegre perderam 22 milhões de passageiros no ano passado. Para este ano, a estimativa é de que o sistema perca mais 11,5% de passageiros. São pessoas que perderam o emprego ou que simplesmente não conseguem mais pagar os R$ 4,05 da passagem.
    Para as empresas que operam o sistema, segundo elas informam, é um prejuízo que supera os R$ 100 milhões desde o ano passado. É a conta da crise e do desemprego, que chega para todos.
    A situação dos usuários que perderam o ônibus não motivou até agora nenhuma iniciativa importante da prefeitura. Mas a perspectiva de um “colapso financeiro” nas concessionárias do transporte público deu origem a medidas emergenciais.
    Seis projetos chegaram à Câmara Municipal no final de julho, antes mesmo que terminasse o recesso dos vereadores. Eles cortam benefícios dos usuários e aliviam custos das empresas, como o aumento da vida útil dos ônibus e o fim da obrigatoriedade do cobrador.
    Com um decreto, o prefeito retirou a gratuidade da segunda passagem, que vigorava desde 2011. O trabalhador que precisa tomar dois ônibus para chegar ao serviço terá um aumento de 50% na segunda passagem. Segundo a EPTC, eles representam 13% dos usuários. O transporte público em Porto Alegre é um serviço caro e ruim.
    Este ano, a EPTC já aplicou nas concessionárias mais de cinco mil multas por descumprimento de requisitos contratuais, como atrasos nos ônibus e realização de menos viagens que o previsto. As propostas da prefeitura para “evitar o colapso” reduzem as isenções para idosos, estudantes, professores e portadores de necessidades especiais e de doenças crônicas.
    O fim da obrigatoriedade dos cobradores e o aumento do tempo de uso dos veículos também estão entre as propostas.
    Mesmo com os cortes, passagem vai subir acima da inflação
    Mesmo que todas as propostas sejam aprovadas, a empresa pública afirma que a passagem deve subir para R$ 4,40 no próximo ano. Se não forem aprovadas, a estimativa é de ônibus a R$ 4,61 em 2018.
    Inicialmente, a EPTC justificou que os projetos representariam uma economia de R$ 0,78 anuais e que, no melhor dos cenários, a passagem não iria subir. Uma semana depois, a Administração recuou e mudou os cálculos: a economia é de apenas R$ 0,39. Atualmente Porto Alegre é a segunda Capital com passagem mais cara – atrás de Curitiba, com R$ 4,25 – e também a segunda com maior percentual de isenções – 35%, atrás apenas de São Paulo, com 51%.
    O diretor-presidente da EPTC, Marcelo Soletti, não garante que o corte das isenções reflita em redução da passagem. “O que podemos garantir é que se tirar, o impacto será menor”. Soletti faz um paralelo entre o advento da gratuidade da segunda passagem, em 2011, com os prejuízos acumulados pela Carris, que remetem ao mesmo ano.
    Para seu antecessor, Vanderlei Cappellari, o argumento não é válido. “Isso não existe! A segunda passagem está prevista no valor da tarifa”. A gratuidade da segunda passagem foi uma bandeira defendida por Cappellari na EPTC. Em relação ao corte de isenções, sua posição coincide com a atual gestão. “Tem muita injustiça no sistema, temos que corrigi-las.”
    Já o economista André Augustin, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), tem uma leitura mais crítica sobre as medidas. Para Augustin, “a Prefeitura está se esforçando para falir o sistema”. O economista afirma que o corte de isenções vai fazer cair ainda mais o número de passageiros pagantes. As empresas, segundo ele, poderiam contribuir para o equilíbrio do sistema. “Além disso, a prefeitura poderia, por exemplo, fazer auditoria nas empresas e não aceitar que elas apresentem nota fiscal de combustível acima do valor de mercado”.
    Marchezan recua: 4 meses para o debate
    Os projetos enviados pela Prefeitura serão debatidos ao longo dos próximos quatro meses. O prefeito concordou pela suspensão da tramitação após um pedido do líder do governo, o vereador Claudio Janta (SDD), que havia criticado as medidas e a falta de diálogo prévio. Uma comissão especial com doze vereadores irá debater as mudanças nas isenções.
    O recuo do governo também é uma jogada estratégica para evitar uma debandada da base de governo e a perda de apoio para outros projetos. No primeiro semestre, o prefeito só foi derrotado uma vez no legislativo, o que significa, na prática, a maioria a seu favor.
    Vereadores pedem inspeção especial ao MPC
    Um grupo de 16 vereadores pediu inspeção especial do transporte público de Porto Alegre, em função do decreto da segunda passagem. O pedido foi encaminhado ao promotor do Ministério Público de Contas, Geraldo Da Camino. Os vereadores argumentam que a medida fere a isonomia do sistema, não garantindo direitos iguais ao usuários e penalizando aqueles que não tem um linha linha direta para seu trajeto normal.
    Outro argumento é que o decreto fere a concorrência pública do transporte público que prevê que “a criação ou extinção de isenções, gratuidades ou outros benefícios dados aos USUÁRIOS deveria ser remetido a recalculo tarifário”. A iniciativa partiu da líder da oposição, vereadora Fernanda Melchionna (PSOL). Além dos sete vereadores da bancada de oposição, assinaram o pedido vereadores do PDT, PSB, PMDB, PSD, DEM e até do PP, partido do vice-prefeito.
    EPTC previa queda de R$ 1,40 sem isenções
    No site da empresa, está disponível um parecer técnico com a estimativa de redução da passagem em até R$ 1,40, em caso de extinção de todas as gratuidades. Neste caso a passagem chegaria a R$ 2,65, uma redução de 34,5%. O documento assinado pelo coordenador de Regulação de Transportes, Márcio Saueressig, foi divulgado em março, após o pedido de reajuste feito pela Sindicato das Empresas de Ônibus. Somente com o corte de isenções proposta pelo governo, a tabela aponta uma redução de mais de R$ 0,50. Entretanto, a empresa pública prevê que, mesmo aprovados os projetos, a passagem vai subir.
    Passagem sobe mais que a inflação há duas décadas
    Estamos em agosto e a EPTC já prevê passagens a R$ 4,61 em 2018, caso o sistema se mantenha como está, sem a retiradas das isenções. O valor representa um aumento de 56 centavos ou 13,8%. O reajuste acima da inflação não é novidade.
    Desde a criação do Plano Real, em 1994, ano após ano, a tarifa do transporte público é reajustada acima da inflação. No período de 23 anos, superou em quase o dobro o índice da inflação. Os dados são do economista da FEE, André Augustin. Neste período, o IPCA foi de 421,40% enquanto os reajustes da passagem foram de 913,51%.