A antiga fazenda Annoni, localizada no município de Pontão (RS), onde ocorreu em 29 de outubro de 1985 a primeira ocupação brasileira de latifúndio por famílias organizadas no MST, recebeu nesta terça-feira (28) milhares de pessoas de todas as regiões do estado para a 40ª Romaria da Terra.
A edição comemorativa do evento, que acontece sempre na terça-feira de Carnaval por ocasião do aniversário de morte do indígena Sepé Tiaraju, resgatou a luta dos agricultores do assentamento por transformação social, sendo norteada pelo tema “Romaria da Terra: 40 anos de luta e memória das conquistas” e pelo lema “Terra de Deus, terra de irmãos”.
A acolhida aos romeiros começou por volta das 7h30 no Instituto Educar, uma escola de ensino médio, técnico e superior construída há 12 anos pelas famílias assentadas na Annoni, seguida de caminhada até a sede da comunidade Nossa Senhora Aparecida. Durante o trajeto, de cerca de 2 quilômetros, foram carregadas 40 tochas em celebração aos 40 anos da Romaria da Terra e uma cruz de mais de 3 metros de altura com escoras, representando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores e a solidariedade que eles receberam da igreja, universidades, artistas, partidos políticos e sindicatos à época dos acampamentos na Encruzilhada Natalino e na fazenda Annoni. A cruz levava tiras de tecido nas cores branco e vermelho, em memória às crianças e adultos que morreram nos dois acampamentos, vítimas da falta de assistência médica por parte dos governos.

Também foi carregado durante o trajeto um sino, instrumento utilizado pelas famílias na ocupação da Annoni como sinal da alerta para problemas, notícias importantes ou chamamento para celebrações. A caminhada ainda lembrou, por meio de cartazes, seis mártires que tombaram em lutas a favor das causas populares: Sepé Tiaraju, Joceli Corrêa, Elton Brum da Silva, Lari Grosseli, Roseli Nunes e Vitalvino Mori. Os três últimos foram assassinados numa manifestação de agricultores em Sarandi, em 1987, dois anos depois de ocorrer a ocupação da fazenda Annoni.
Todas estas simbologias acompanharam a caminhada em cinco paradas, que resgataram a história da Romaria da Terra e a luta das mais de 400 famílias que hoje vivem nas comunidades do assentamento. Uma tratou das conquistas que os assentados obtiveram nestes últimos anos, entre elas o fortalecimento do trabalho coletivo através das cooperativas e agroindústrias, e da educação por meio da construção de escolas e do método de ensino diferenciado do MST. A romaria ainda destacou o papel fundamental que as mulheres tiveram no desmanche do latifúndio de mais de 9 mil hectares.
Para o padre Arnildo Fritzen, que desde a ocupação sempre esteve ao lado das famílias Sem Terra, a grande lição que fica à sociedade da luta pela Annoni é de que o povo organizado se torna educador. “A luta pela terra nos mostra que o poder popular existe e que é possível transformar um latifúndio em terra produtiva e de boas oportunidades para muitas pessoas”, disse.
O coordenador nacional do MST, João Pedro Stedile foi um dos fundadores do Movimento e ajudou na organização das famílias nas ocupações das fazendas Macali, Brilhante e Encruzilhada Natalino. Na 40ª romaria, ele criticou as medidas de retiradas de direitos adotadas pelo governo Temer e falou dos desafios da classe trabalhadora na atual conjuntura política. “Em tempos de crise, temos que fazer trabalho de base para uma formação política que leve as pessoas a refletir sobre os problemas que estamos enfrentando”, apontou.
Após chegarem ao Assentamento Nossa Senhora Aparecida, os romeiros participaram de uma celebração eucarística, coordenada pela Arquidiocese de Passo Fundo, e de tribuna popular. No local, também foi realizada uma feira com produtos da reforma agrária.
Categoria: Geral
Romaria da Terra celebra 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni
foto MST Aumenta desemprego em setor estratégico
WALMARO PAZ
Embora as autoridades econômicas do governo insistam que terminou a recessão e há uma retomada no processo de crescimento, o desemprego vem aumentando no país conforme dados coletados por todos os institutos de pesquisa. O IBGE divulgou na semana passada que o número real de desempregados é o dobro do estipulado pela sua pesquisa: em vez de 12,6 milhões, as pessoas a procura de emprego no País são estimadas em 24 milhões.
Isto porque na pesquisa somente são contadas aquelas que perderam o local de trabalho e esquecidas as que estão atrás de emprego há mais tempo. No Rio Grande do Sul, a Federação dos Metalúrgicos divulgou um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), segundo o qual 70.151 trabalhadores do setor foram dispensados em 2016 e apenas 50.192 foram contratados no período restando um saldo de 19.959.
Porém o dado mais alarmante é que depois do setor de construção naval o que mais desempregou foi o de Bens de Capital Mecânico com o número negativo de 4.726 dispensados. Segundo a coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana (PED-RM), Iracema Castelo Branco em 2015 e 2016 foram fechados 26.417 postos de trabalho gerais na Grande Porto Alegre, confirmando a pesquisa dos metalúrgicos.
Iracema explicou que a queda nos postos de trabalho vem crescendo desde 2014 na região: em 2015 foi 8,7 %; em 2016 aumentou para 10,7 %. Isto se deve há vários fatores, mas, sem dúvida indicam que não há retomada de crescimento porque o primeiro setor a crescer e a aumentar postos de trabalho é justamente o de Bens de Capital.
Segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, Jairo Carneiro, somente no setor de máquinas agrícolas se nota uma maior movimentação positiva. “ Isto se deve as excelentes safras dos últimos anos”. Mas segundo ele, os outros setores que produzem basicamente para industrias do centro do País existe uma retração muito grande, “ sem falar no setor da construção naval que está sendo praticamente desmontado pelo governo”, concluiu.Os Comanches, uma tradição da Vila São José
Matheus Chaparini
Nos altos da rua Borborema, vila São José, na Zona Leste de Porto Alegre, fica a sede da Tribo Comanches. Em uma sexta feira de fevereiro a reportagem do Jornal JÁ foi conferir um ensaio na quadra.
Valdir de Souza Ribeiro é o presidente da Sociedade Recreativa Beneficente Carnavalesca Tribo Comanches, fundada em 10 de outubro de 1959.
Dentro da sede, entre as paredes repletas de fantasias, alegorias e pôsteres de títulos do Sport Club Internacional, ou na avenida, Valdir é Itaúna, seu nome de guerra.
Ele era um guri da São José quando um grupo de amigos decidiram criar uma agremiação carnavalesca. A primeira empreitada foi uma escola de samba, o Comando do Morro, que durou apenas dois anos.
Um dia, após o fim da escola, estavam sentados em uma praça da redondeza quando alguém sugeriu: quem sabe a gente faz uma tribo? “Naquele tempo tinha muita tribo. Bah! Escola de samba não tinha muito”, conta Valdir.
As cores escolhidas foram amarelo, vermelho e azul. O nome foi decidido em uma votação apertada, com diferença de apenas um voto. A inspiração veio dos filmes americanos que passavam na televisão.
“A gente via os Comanches, assim, em cima da montanha, à cavalo e a gente era gurizada nova, achava fantástico”, explica.
Tribo Comanches na avenida no carnaval de 2004 / Arquivo Comanches
Valdir é está no cargo há cerca de 25 anos. Antes disso, se orgulha de ter sido o presidente no ano do primeiro título de campeão de carnaval, em 1967, quando a disputa entre as tribos era a principal atração do carnaval porto alegrense.
“Era o tempo da Pepsi Cola, do Vicente Rao, que era Rei Momo, tempo do Heitor Pires, o comendador. Ele botava o dinheiro e a prefeitura botava os ônibus. A gente pedia 3, 4 ônibus e eles davam”, recorda.
Atualmente a disputa se dá apenas entre duas tribos: Comanches e Guaianazes, “o que restou da guerra”. Há uma forte rivalidade entre as duas tribos e a esta disputa é o que mantém vivo o carnaval de índio, como alguns chamam. Os Comanches venceram as últimas quatro disputas.
Este ano, a tribo vai para a avenida com cerca de 300 pessoas. Segundo Valdir, a maioria dos integrantes mora nas redondezas da sede. A bateria conta com 70 percussionistas.
Surdos, maracanãs, repiniques e agês são os instrumentos da pescussão. A harmonia vem com dois cavacos, violão de seis e de sete cordas. O desfile conta ainda com personagens como porta estandarte, feiticeiro e cacique – em outros tempos, eram mais personagens, como deusa, cacique, pajé.
Presidente Valdir em ação na quadra: “eu não sei fazer nada, mas eu sou curioso” / Arquivo Comanches
O tema para o carnaval 2017 é Um tema para Lino e Jacira. Segundo o presidente, as fantasias e alegorias estão praticamente prontas. “É só colocar no carro.”
“Isso aqui é uma família, meu!”
Apesar de ter vivido os melhores dias das tribos, o momento em que Valdir mais se emociona não é ao lembrar glórias de carnavais passados, mas ao defender a união do grupo em momentos de dificuldade. Valdir se considera “um cara glorioso” por ter o seu pessoal ao lado. “Isso aqui é uma família, meu!”
Mesmo com o repasse da prefeitura à Liga, que era dividido entre as agremiações, colocar a tribo na avenida não era uma tarefa fácil. Para Valdir, este feito só é possível, ano após ano, graças à união dos integrantes da tribo, na maioria moradores da região. O trabalho é o ano todo.
As cabeças das fantasias são feitas em papelão reciclado. Um funcionário do supermercado que hoje ocupa o terreno onde já foi a quadra dos Comanches separa caixas de papelão que sobram e encaminha para a tribo.
“Eu tenho minha comunidade muito forte aqui. Talvez saia alguma coisa, mas a gente não tá contando com isso aí. Eu já falei com a minha harmonia: ‘esse ano não tem nada, quem quiser ir, vai, quem não quiser, pode parar agora’. Eles deram o grito de guerra.”
Este ano, o prefeito Nelson Marchezan Júnior decidiu cortar o repasse que todos anos a prefeitura fazia para o carnaval. Dos R$ 7 milhões previstos, cerca de R$ 5 milhões seriam usados na estrutura do desfile e o restante, dividido entre as agremiações.
Uma equipe montada pela prefeitura e Liespa está visitando diversas empresas que são potenciais patrocinadoras. Mas até o momento, não se fala em confirmações ou valores.
O projeto da prefeitura é que a partir deste ano, o carnaval se sustente sem verba pública. A forma de captação ainda não está definida. Se a captação for feita de forma individual, por cada entidade, as menores terão mais dificuldade, correndo o risco de extinção nos próximos anos.
Quando perdeu sua esposa, Valdir quis parar com os Comanches. Dona Georgina era costureira da tribo e braço direito do presidente, que hoje é auxiliado pela filha Karen. Ele propôs o fim da entidade, mas a comunidade não aceitou.
Hoje, mesmo com todas dificuldades e com a incerteza da situação financeira futura, o fim dos Comanches é algo que Itaúna nem cogita: “Nós vamos abraçar e não vamos deixar morrer.”
Dona Georgina e Valdir dando entrevista após o titulo de 2002 no carnaval / Arquivo Comanches “Nossa alegoria a gente fazia no meio da rua”
Matheus Chaparini
Panelão de cola de farinha, oficina na rua, um ensopado no fogo ou uma carne na brasa e cachaça noite adentro. Era assim que se fazia alegoria para o carnaval na calçada da rua Borborema, bairro São José, ou em frente a qualquer quadra de tribo, bloco ou escola de samba de Porto Alegre. Pelo menos é como Marlene Silva Machado se lembra dos preparativos de carnaval.
Dona Marlene sai no carnaval de Porto Alegre desde a adolescência. Desfila pelos Comanches desde o primeiro ano da tribo. Já saiu também pela extinta tribo Tapuias, apesar do ciúme dos colegas de Comanches, e por escolas de samba como Imperadores do Samba e Bambas da Orgia. Além de desfilar, já teve ala nos Bambas e até alguns anos atrás costurava.
Dona Marlene, em um ensaio dos Comanches, em 2017 / Matheus Chaparini
Este ano, está impedida de desfilar porque está se recuperando de uma cirurgia. O fato de saber que não vai estar na avenida no final de março, interfere pouco ou nada na rotina carnavalesca de Dona Marlene. Mora a poucos quarteirões da sede dos Comanches e não perde um ensaio. “Não se perde o vínculo com os carnavalescos. A gente faz almoço, jantar, roda de samba… aqui é o ano todo.”
Marlene é saudosa de um tempo em que o carnaval era construído de forma mais colaborativa. “Nossa alegoria a gente fazia no meio da rua. Fazia uma panelão deste tamanho de cola de farinha de trigo. A gente passava a noite inteira ali, tomando cachaça e fazendo carro alegórico. Saía sopão, churrasco. Agora, terminou tudo aquilo, não tem mais.”
Marlene é critica ferrenha da remoção do carnaval da região central da cidade, com a construção do Porto Seco. Segundo ela, muita gente deixou de participar dos desfiles depois da mudança. “Os governantes querem acabar com o carnaval. Colocar o carnaval lá no Porto Seco? Aquilo é um horror. Os barracões são muito bons, mas é muito longe, a condução é ruim. Se tem carro, não pode levar porque roubam.”
Ela reclama da dificuldade de acesso ao local, com poucos ônibus, muitas filas, paradas de distantes e estacionamentos inseguros. Além disso, há restrições à entrada de alimentos e bebidas de fora. “Lá é tudo uma careza. Quer dizer, uma mãe que vai levar três ou quatro filhos tem que levar um lanche de casa.”
Aos 74 anos, com boa parte deles dedicados ao carnaval de Porto Alegre, Marlene é pessimista em relação ao futuro das agremiações carnavalescas. “Tá muito devastado. O carnaval maior está concentrado na Cidade Baixa. Eu acho que no futuro vai ter só bloco de rua. Escola, essas coisas não vai ter mais.”40 anos da realidade da periferia sob as lentes de Jorge Aguiar
HIGINO BARROS
O lugar é emblemático em Porto Alegre. O Viaduto da Borges de Medeiros, no centro da cidade. Um lugar que nos últimos anos tem sido degradado pelas transformação que o centro da capital gaúcha vem sofrendo e do qual a classe média e alta fogem, abrigadas nos shopping centers da vida.
Pois é nele que está localizado o atelier do músico Luciano Riquez, reinaugurado no sábado de Carnaval, dia 25 e onde o fotógrafo Jorge Aguiar faz uma espécie de balanço de 40 anos de trajetória de fotojornalismo, toda dedicada a retratar, em última estância, em todas suas possibilidades, a vida.
Jorge Aguiar tem um trabalho voltado para as populações marginalizadas, periféricas e
desglamourizadas da capital gaúcha e arredores, através de um registro com características jornalísticas, antropológicas e documental. Trabalho reconhecido pela Unesco, pelo Instituto Cultural Marc Chagall e outras instituições nacionais e internacionais ligadas à temática dos Direitos Humanos.
Luz reveladoraParalelo à atividade de fotojornalista, há 20 anos ele desenvolve o projeto “Luz Reveladora Photo da Lata” em periferias ministrando oficinas pinhole a jovens e adultos em áreas de vulnerabilidades sociais.
As fotos em exposição no Viaduto da Borges são registro de 21 vídeos que ele produziu e realizou. “Eu me realizo nas periferias, documento as minhas guerras urbanas, eu sou de alto risco, sem lenço, sem documento, somente uma câmera nas mãos, assim o fotógrafo se define. A exposição fica no local até o dia 18 de março.

O Atelier Luciano Riquez é um atelier de arte gráfica e espaço cultural para exposições de arte e performances teatrais, musicais, entre outros, localizado no Viaduto Borges de Medeiros, 740,sala 8. O espaço para exposição é totalmente gratuito e funciona com agendamentos solicitando do artista apenas um portfólio da obra de arte, peça, ou show, para que seja feito a escolha da data disponível.
FICHA TÉCNICA:
Exposição Fotográfica “Por Onde Andei”
Edição de Imagens: Otávio Teixeira
Diagramação Visual: Zezé Carneiro
Produção: Luiz Ávila.
Eclipse solar visto em Porto Alegre
WALMARO PAZ
Neste domingo, ao acordar depois de uma noite de carnaval, os moradores da Cidade Baixa, puderam assistir ao espetáculo que foi o eclipse parcial do sol, as 11horas. Aliás o eclipse pode ser visto neste horário em toda a Região Metropolitana, mas a foto foi tirada na Rua da República. Para conseguir a melhor nitidez o fotógrafo teve que apanhar o sol entre nuvens, com o formato de uma lua crescente.
Eclipse anular fotografado no Texas em 2012.
Foi um Eclipse Solar do tipo Anular, que acontece quando a Lua está mais distante da Terra. Nesse caso, ela não consegue bloquear todo o disco solar, e a borda do Sol fica exposta. Já no Eclipse Solar Total, a Lua está mais próxima da Terra, e com isso ela é capaz de bloquear todo o disco solar.
No entanto o “anel de fogo” só pode ser observado de navios em pontos específicos do Oceano Atlântico. Em Porto Alegre o fenômeno adquiriu as características de um eclipse parcial.
"Sou de uma tribo guerreira"
Matheus Chaparini
Na década de 1940, um grupo de homens negros criou o que viria a ser a maior atração do carnaval de Porto Alegre durante décadas. Ao longo do tempo, as tribos indígenas tomaram maior importância chegando a principal atração da festa.
Com fantasias que imitavam tribos indígenas, os grupos desfilavam pelas ruas do centro. Esta manifestação é uma peculiaridade do carnaval de Porto Alegre, que têm parentes semelhantes em cidades como Salvador e João Pessoa.
Porto Alegre chegou a ter 14 tribos desfilando. Hoje, restam apenas duas: Guaianazes e Comanches. É comum haver rivalidade entre agremiações carnavalescas, mas este é um caso ainda mais emblemático.
Só há um adversário. Ganhando ou perdendo, a guerra é sempre com o mesmo grupo. Esta disputa que se repete ano a ano é um dos principais combustíveis que mantém vivo o carnaval de tribo em Porto Alegre.
Quando foram criadas as primeiras tribos, na década de 1940, os desfiles aconteciam na Rua da Praia – que na época fazia jus ao nome. Os blocos entravam pela Caldas Júnior, passavam pelo coreto oficial, que concentrava os jurados, na Praça da Alfândega e a dispersão era na rua General Câmara.
Desfiles de tribo na década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo
Hoje, as tribos saem no Porto Seco, junto aos desfiles das escolas de samba. Mas a diferença é visível, sob vários aspectos.
As tribos não cantam sambas enredo, cantam hinos, com temática indígenas.
Os instrumentos também se diferem, a bateria da Tribo Comanches, por exemplo, é formada por surdo, maracanã, repinique e agê. A harmonia tem dois cavacos e violões de seis e sete cordas.
O passo da dança é diferente e as personagens presentes nos desfiles são outras. Não há mestre sala, porta bandeira e rainha, mas cacique, pajé, deusa, feiticeira.
O ponto alto do desfile é a macumba, uma encenação teatral do tema do ano, que é feita quando a tribo passa pelos jurados.
Os tradicionais agês, bateria da tribo Comanches, carnaval de 2015 / Luiza Flores
Caetés e Iracemas, o início de tudo
“O carnaval de índio foi criado pelo Seu Hemetério, um negrão que era amigo do meu pai. Ele criou a primeira tribo de índio: Os Caetés, em 43”, explica Eugenio Alencar da Silva.
Aos 11 anos, Mestre Paraquedas, como Eugenio é conhecido, ajudou a fazer a primeira alegoria dos Caetés. “O tema era a primeira missa no Brasil. Então era uma oca e uma cruz, que ia deitada durante o desfile. Daí na hora a gente levantava a cruz com uma corda, o padre rezava a primeira missa, vinha o Pedro Alvares Cabral e dizia ‘não tem terra como essa, em que plantando tudo dá!’ e coisa tal…”
O primeiro desfile de uma tribo foi um sucesso. Entretanto, nem todo mundo podia desfilar: nos Caetés só saía homem.
Assim, no ano seguinte, surgiam as Iracemas. Uma tribo formada só por mulheres. Sem poder brincar o carnaval na tribo e se dedicando apenas às atividades de bastidores, como a de costureira, elas decidiram assumir todas as funções e criar uma agremiação.
“Tinha uma senhora chamada Dona Angelina. O marido dela, Seu Adão, trabalhava no Diário de Notícias e saía nos Caetés. Aí a Dona Angelina, a minha mãe, a Dona Constança se uniram e fizeram as Iracemas.”
Já no primeiro desfile, as Iracemas venceram dos Caetés.
Mais um ano, mais um carnaval, nova vitória da tribo da mulherada. “No segundo ano, elas vieram afu mesmo. Bom, deixaram os Caetés lá embaixo”, conta.
Com os dois resultados seguidos, as mulheres forjaram uma mudança na tribo dos Caetés, que deixou essa história de ser tribo só de homem.
Desfile de tribo no carnaval, década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo
Uma relação entre povos historicamente oprimidos
O discurso do senso comum basicamente define as tribos como um carnaval feito por negros que se vestem de índio.
A antropóloga Luiza Flores contesta esta abordagem. “Não posso simplesmente dizer: são negros, não são índios.”
Para a pesquisadora, o que tem de mais importante é pensar como esses carnavalescos estão se relacionando com o conceito de negro e com o conceito de índio.
Ainda que muitos integrantes não se digam indígenas, há uma relação identitária que é mais profunda que uma brincadeira de carnaval. Entra em questão o conceito de índio.
Crianças fantasiadas para o desfile de carnaval, década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo
“Tem pessoas da tribo que tem descendência indígena, poderiam se declarar indígena, mas não fazem por ‘n’ motivos. Mas encontram nas tribos, um contato com essa historia indígena familiar apagada. E é um vínculo identitário que não necessariamente passa pelo sangue.”
O carnaval de tribos foi o assunto do mestrado da antropóloga, defendido em 2013, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de janeiro), com o tema Os Comanches e o prenúncio da guerra: Um estudo etnográfico com uma tribo carnavalesca de Porto Alegre/RS.
“Ali tem uma relação entre dois povos historicamente oprimidos, que sempre se encontraram em um processo de resistência. O que fazem as tribos hoje é um processo de resistência”, conclui.
Sete milhões de trabalhadores não poderão sacar o FGTS
Cerca de 7 milhões de trabalhadores não tiveram depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), incluindo contas ativas e inativas, feitos corretamente por seus empregadores. São 198,7 mil empresas devedoras de depósitos de FGTS, segundo informações da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda.
Com isso, muitos trabalhadores que quiserem sacar o saldo do FGTS de uma conta inativa podem ter problemas. Só em São Paulo, são 52,8 mil empresas devendo depósitos no FGTS de seus empregados e ex-empregados, em um total de R$ 8,69 bilhões em débitos. No Rio de Janeiro, as dívidas chegam a R$ 4,1 bilhões, distribuídos entre 27,7 mil empresas inadimplentes.
De acordo com a procuradoria, só em inscrições de empresas na dívida ativa, existe um débito de R$ 24,5 bilhões. Contudo, nem todas as empresas listadas entre as devedoras estão inscritas na dívida ativa, ou seja, o valor desse débito é maior. Uma empresa só é inscrita na dívida ativa quando não faz acordo com o Ministério do Trabalho, ou fazer o acordo, mas não o cumpre.
O rombo nas contas dos trabalhadores poderia ser ainda maior. Entre 2013 e 2016, a Procuradoria da Fazenda conseguiu recuperar R$ 466,9 milhões, efetuando a cobrança junto às empresas.
Caso o trabalhador verifique que a empresa para a qual trabalha ou trabalhou não fez os depósitos corretamente, ele deve procurar a própria empresa. Outra dica é ir a uma Superintendência Regional do Trabalho, vinculada ao Ministério do Trabalho. O ministério é o órgão responsável pela fiscalização dos depósitos nas contas do FGTS dos trabalhadores.
Fonte: Agência BrasilPaim já tem 29 assinaturas para CPI da Previdência
O Senado instalará uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a real situação financeira da Previdência. Uma lista organizada pelo senador Paulo Paim (PT-RS) já conta com 29 assinaturas.
O número é maior que o mínimo exigido pelo regimento da Casa para instauração de colegiado dessa natureza, que é de 27 parlamentares, correspondente a um terço do número de senadores.
Paim quer fazer um “raio X” da situação previdenciária, verificando sobretudo o fluxo de caixa do sistema. “Eles [o governo] dizem que a Previdência é deficitária, mas nós dizemos que é superavitária. Queremos, então, tirar a prova e saber quem são os maiores devedores, além de entender como é a história das fraudes, sonegações e anistias”, explicou o senador.
A articulação surge no contexto de tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287, que reforma a Previdência Social e impõe regras mais rígidas para que o trabalhador acesse os benefícios previdenciários.
A medida tem recebido fortes críticas de segmentos populares, parlamentares da oposição e até membros da base aliada do governo, que se queixam do caráter austero da proposta.
Para Paim, uma eventual CPI faria com que os diversos pontos do debate sobre a PEC 287 fossem devidamente esclarecidos para a sociedade. “É importante colocar tudo em pratos limpos, com total transparência. Com isso, vamos mostrar que não é preciso fazer essa reforma draconiana, cruel, mais que perversa, que vai atingir principalmente as pessoas de classe média pra baixo”, declarou o petista.Coalizão
A adesão à lista veio de expoentes de nove legendas, que são PT, PMDB, PCdoB, Rede, PSB, PSD, PR, PPS, PP. O destaque é para a assinatura de quatro membros do PMDB, mesmo partido do presidente não eleito Michel Temer.
Além do senador Paulo Paim, assinam a lista os seguintes parlamentares: José Pimentel (PT-CE), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Regina Sousa (PT-PI), Paulo Rocha (PT-PA), Fátima Bezerra (PT-RN), Humberto Costa (PT-PE), Lindbergh Farias (PT-RJ), Roberto Requião (PMDB-PR), Vanessa Graziotin (PCdoB-AM), Reguffe (Sem partido-DF), Angela Portela (PT-RR), João Capiberibe (PSB-AP), Jorge Viana (PT-AC), Lídice da Mata (PSB-BA), Lasier Martins (PSD-RS), Romário (PSB-RJ), José Maranhão (PMDB-PB), Álvaro Dias (PV-PR), Magno Malta (PR-ES), Cristóvão Buarque (PPS-DF), Elmano Férrer (PMDB-PI), Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), Dário Berger (PMDB-SC), Ivo Cassol (PP-RO), José Medeiros (PSD-MT), Sérgio Petecão (PSD-AC) e Roberto Muniz (PP-BA).
Com a adesão de membros da base aliada, o jogo de forças entre governo e oposição em torno da PEC 287 tende a se intensificar nas próximas semanas.
“O governo está fazendo um terrorismo, inclusive ameaçando senadores para que eles retirem o nome, mas quem não deve não teme. Quem é que tem medo de uma investigação?”, questionou Paim.
Ele informou que pretende continuar a articulação para angariar um número maior de assinaturas, na tentativa de chegar a 35 ou 40 nomes, e evitar que uma eventual desistência de alguns parlamentares frustre a proposta da CPI. O pedido oficial de instalação da comissão deve ser feito logo após o carnaval.
Com informações de Agência Brasil e Brasil de FatoFetag faz manifestações contra reforma da Previdencia
A chuva não impediu que mais de 12 mil pessoas saíssem às ruas em Santa Rosa, na quinta-feira(23) para participar da manifestação contra a reforma previdenciária.
O ato promovido pela FETAG e Macrorregional Santa Rosa ocorreu durante o 7° Grito de Alerta Missões Fronteira Noroeste.
Há dois dias, na manifestação em Santa Cruz do Sul, outras dez mil pessoas mostraram sua indignação e revolta com a proposta de reforma da Previdência Social apresentada pelo governo federal.
O presidente da FETAG, Carlos Joel da Silva, destacou que nos últimos dias o Movimento Sindical dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (MSTTR) mostrou à sociedade gaúcha e brasileira que não aceitará a reforma da previdência da forma como o governo está pretendendo fazer, isto é, retirando direitos dos trabalhadores, conquistados lá em 1988 com a Constituição Federal.
O governo quer elevar a idade da aposentadoria para 65 anos do homem e da mulher (hoje é 60 anos para o homem e 55 para a mulher) e aumentar o tempo de contribuição da atividade rural em dez anos, passando de 15 anos para 25 anos.
Além disso, continua Joel, a forma de contribuição igualmente seria modificada. Em vez de pagar 2,1% sobre a comercialização da produção do grupo familiar, passaria a ser mensal e individual, com valor determinado por lei.
Várias lideranças e parlamentares se manifestaram, entre eles os deputados federais Heitor Schuch, Elvino Bohn Gass, Dionilso Marcon, Pompeu de Mattos, o presidente da Assembleia Legislativa, Edgar Preto, e seus colegas Elton Weber, Jeferson Fernandes, e representantes de Marco Maia e Adroaldo Loureiro, o presidente da FETAR, Nelson Wild, além de prefeitos da região e representações da CTB-RS, CUT, OAB, CPERS, Federação dos Municípios do RS, Comitê Sindical e Popular Contra a Reforma, Sindicato dos Metalúrgicos, Câmaras de Vereadores, entre outras.
Com informações da Fetag











