Categoria: Geral

  • A intrigante morte de Zalewski dominou o encontro entre Melo e Marchezan

    Os dois candidatos à Prefeitura de Porto Alegre se encontraram nesta quarta-feira (20) pela primeira vez da violência que marcou a disputa nos últimos dias. Nelson Marchezan Junior e Sebastião Melo participaram do evento Tá na Mesa, da Federasul, com o salão lotado.

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    Marchezan e Melo encontraram-se na Federasul / Divulgação

    Após as apresentações de cada um, os candidatos falaram com a imprensa. Os repórteres deixaram de lado as plataformas eleitorais e concentraram-se na chocante morte de Plíno Zalewski, coordenador do plano de governo da candidatura Melo encontrado morto segunda-feira no banheiro da sede municipal do  PMDB, com um corte no pescoço.
    Sebastião Melo afirmou ter clareza de que há questões eleitorais envolvidas com a morte de Zalewski, que vinha sendo “imolado pelo MBL há 30 ou 40 dias”. Melo lembrou que há “fatos notórios”, como o hackeamento de contas de Zalewski em redes sociais, a mudança recente de telefone e o vídeo publicado pelo canal do You Tube Mamaefalei, que acusou Zalewski de ser funcionário fantasma da Assembleia Legislativa.
    “O que nós queremos é esclarecimento. Quem é que ligava pro Plínio? Por que ele mudou de telefone? Por que o email e as redes sociais dele foram hackeadas?”, questionou Melo.
    Já Marchezan descarta que a morte de Zalewski possa ter ligação com a campanha. “Estamos em uma disputa eleitoral, não me parece que possa levar alguém ao suicídio. Provavelmente tem outras questões, que envolvem outras pessoas, outras entidades e até questões pessoais do Plinio”, afirmou.
    Nos últimos dias antes da sequência de acontecimentos que chegou a interromper a campanha, o tom do debate vinha subindo. Na primeira aparição televisiva após a morte de Plínio Zalewski, Marchezan pediu paz. Melo respondeu que “paz se pratica”.
    Para o vice-prefeito, o segundo turno é o momento de mostrar qual projeto cada candidato representa e qual o jeito de fazer, “porque o orçamento é o mesmo”. “Eu levei críticas durante todo o primeiro turno, e fiz críticas também”, afirmou.
    Em relação ao tom que deve tomar a campanha após os acontecimentos dos últimos dias – tiros no comitê do tucano e a morte de Zalewski -, Marchezan afirmou que “vai depender de como os candidatos vão se portar nos programas eleitorais de rádio e televisão, e de como a imprensa vai se portar.” O candidato afirmou que sua campanha sempre foi propositiva e que manterá o tom do primeiro turno e do início do segundo.

  • Uma celebração de rock no Ocidente com a Pata de Elefante

    Higino Barros
    Amanhã  (20) acontece, no bar Ocidente, a primeira das duas apresentações (a outra será na próxima quinta feira, dia 27) que a banda de rock instrumental Pata de Elefante, já extinta, fará na casa noturna do Bom Fim. Mais do que uma oportunidade da imensa legião de admiradores da banda em vê-la tocar, a ocasião é considerada também como uma grande celebração. Afinal, se há uma banda que marcou o cenário de rock dos primeiros anos do século 21 em Porto Alegre, foi a Pata de Elefante.

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    Daniel, Gustavo e Gabriel, o trio da Pata de Elefante / Divulgação

    A Pata é formada por Gustavo Telles, 38 anos, Gabriel Guedes, 45 anos, e Daniel Mossmann, 37 anos. Com 11 anos de trajetória, gravou quatro CDs, fez trilha sonora de filmes, tocou em incontáveis bares, teatros e festivais no Brasil, tornando-se uma referência no País pelo rock extremamente melódico que executava. Era uma mistura de The Ventures, com Cream, Jimi Hendrix, Enio Morricone, Burt Bacharach e acima de tudo muito rock e blues.
    Em 2008, o CD da banda, “Um Olho na fagulha, outro no fósforo”, foi escolhido como um dos 25 melhores trabalhos musicais lançados no Brasil, pela revista Rolling Stone. A banda teve também a canção “Hey!” incluída em uma coletânea de bandas independentes brasileiras lançada em 2008, pela revista francesa Brazuca. Em 2009 ganhou o VMB 2009 na categoria Instrumental.
    A Pata terminou em 2013 e nessa conversa, o baterista Gustavo Telles, que sempre atuou como o porta voz da banda, fala do grupo e do atual reencontro para o show no Ocidente:
    O começo, no Bom Fim
    “Em março 2000, eu cheguei numa casa no bairro Bom Fim, na rua Santo Antônio, numa jam session, e o Gabriel estava tocando guitarra e o Bocudo, que foi da Cachorro Grande, estava no baixo. Toquei bateria, foi muito legal e a partir daí a gente às vezes se encontrava e comentava que precisávamos fazer um som junto, mas só fomos nos reunir mesmo um ano depois. Numa data marcada pelo Gabriel, nas Catacumbas do CEUE, o Centro Estudantil da Engenharia da UFRGS, um local onde sempre tinha festa e som rolando.”
    “Marcamos para fazer um show. Eu, o Gabriel, o Bocudo, e o Beto Bruno, vocalista da Cachorro Grande. Eles moravam com o Gabriel e a gente ia tocar Rolling Stones nas Catacumbas. No dia, o Beto e o Bocudo furaram. Aí o Gabriel se lembrou do Dani, que ele já conhecia, da banda Montanha Azul. Como ele não podia ligar pro Daniel do lugar que estava, pediu que eu falasse com o Dani. Mas alertou. Não fala que ele vai tocar baixo. E diz também que não tem cachê, mas a gente paga as passagens dele, tem bebida liberada e tal. A gente se deu bem desde a primeira conversa.”
    Gritos e urros nas Catacumbas
    “Antes da apresentação fomos para o apartamento do Gabriel, que morava na Barros Cassal, e fizemos um ensaio, sem bateria, eu tocando nas pernas, eles com violão. Isso às onze da noite, o show era à uma da madrugada. Deu tanto certo que as pessoas gritavam e urravam de entusiasmo nas Catacumbas durante e depois da apresentação. Desde esse primeiro show ficou estabelecido o que seria uma característica da banda. Eles trocavam de instrumento no meio da apresentação. Quem estava na guitarra ia para o baixo e vice-versa. É uma coisa muito peculiar no som da banda por que cada um tem uma sonoridade. E uma coisa muito forte entre nós aconteceu desde o primeiro encontro.”
    “Lembro que cheguei em casa de manhã, eufórico, convencido. Achei minha banda. Isso foi em março de 2001. Em agosto fizemos outro show, no mesmo lugar. Mas só no começo de 2002 resolvemos encarar a banda como a única atividade, já que eu tinha terminado Jornalismo e estava começando a trabalhar no ramo e os guris faziam outras coisas. E o propósito sempre foi de banda instrumental. Não tinha como ser diferente. Ter um cantor ou alguém para tocar baixo, nunca foi cogitado.”
    Método de composição
    “Desde o início a gente compôs junto. Quando nos juntamos, eu já compunha e me dei conta que eu ia ter como parceiros de composições gente muita talentosa. Combinamos que a gente tinha que ter músicas diferentes. Eles eram excelentes músicos, melhores do que eu, e hoje vejo como eu era meio ingênuo, mas que legal que era assim. Eles eram músicos infinitamente superiores do que eu, tinham mais conhecimento musical. Mas assim sempre me senti desafiado e sempre confiei no meu taco. E fui me especializando na questão da melodia. E a coisa da composição tem outros elementos e isso se deu desde o início. A gente compondo junto. Um aparecia com um tema, os outros sempre acrescentavam algo. Esse processo me levou a tornar compositor com foco na questão melódica, o que eu não fazia antes. Virei um melodista.”
     Na estrada, pelo Brasil
    “A gente queria tocar e onde tivesse um lugar que nos convidasse a gente ia. A cena de música de Porto Alegre na época era diferente, com muitos espaços e mais shows. A gente tocava onde dava. E as coisas aconteceram de uma maneira muito rápida. Viajamos muito para o interior nessa época e em 2003 começamos a viajar pelo Brasil. Íamos a festivais, a bares, aonde nos levassem. Tivemos a ajuda de muita gente generosa nesse início de trajetória, na parte da produção, que eu fazia também. No final de 2004 saiu nosso primeiro disco.”
    “Em 2005 eu tocava, acumulava a função de produtor e trabalhava, para garantir uma grana, como jornalista com a Dedé Ribeiro, no IPA. Ficava lá o dia inteiro. Aí um dia veio uma pauta para eu cobrir um campeonato de badminton do Colégio Americano. Fui ver o que era isso e descobri que era um campeonato de peteca. Eu estava numa banda legal, tinha lançado um disco e cobrindo jogo de peteca de criança de dez anos? Tinha alguma coisa errada comigo, pensei. Pedi minhas contas e resolvi encarar a música como profissão em definitivo. Assim o jornalismo perdeu um soldado…”
    “Nós tínhamos contrato com a gravadora Monstro e uma base em São Paulo que foi muito boa. A partir daí tivemos mais visibilidade, culminando com uma participação no Programa do Jô, quando a gente fez a abertura do programa com o sexteto do Jô e mais duas músicas nossas. Em 2006 começamos a fazer o segundo disco, lançado no Goiânia Nois, um festival grande que acontece lá. Esse trabalho rendeu bastante também. Fizemos o circuito do Itaú Cultural e outros projetos bacanas pelo País até 2008.”
    Premiado pela Rolling Stone
    O primeiro disco tem um sonoridade mais crua, é visível a influência do Cream, de Jimi Hendrix, mais essa coisa de power trio. O segundo já tem mais baladas, mais folk rock, mais blues, que é a fonte dos guris e a minha. A Pata é um somatório de muitas vertentes musicais. O rock dos anos 1960, 1970, da surf music, funk, soul, trilhas sonoras de filmes, principalmente de compositores como Henry Mancini, Enio Morricone e Nino Rota, mais Burt Bacharach. A gente misturou tudo, pegou todas essas influências e trouxe para a nossa sonoridade. Dá para notar de um trabalho para o outro nosso crescimento como músicos, crescemos juntos, desenvolvemos juntos.”
    “O disco de 2008, foi considerado pela revista Rolling Stone brasileira como um dos 25 melhores discos daquele ano, ficou em vigésimo lugar. Um disco instrumental concorrendo com todos os discos com cantores. À frente inclusive de um disco do Roberto Carlos e o Caetano Veloso cantando bossa nova. Foi um trabalho marcante para nós.”
    Quarteto, a última formação
    “Em 2010 fizemos o terceiro disco, que saiu pela Trama. Esse foi o último disco em formato de trio, embora a gente sempre tivesse participação de outros músicos em nossos trabalhos. Eu e o Dani nessa época morávamos em São Paulo e o Gabriel ia e voltava. Ficamos cerca de um ano lá. Aí em 2011, o Edu Meirelles assumiu o baixo, deixando os guris livres para assumirem as guitarras. O quarto e último disco, feito em 2013 e lançado no ano seguinte, foi em forma de sexteto, com o Luciano Leães e o Júlio Rizzo. É um trabalho diferente dentro da discografia da Pata.”
    “A banda terminou em 2013 porque a gente se deu conta que estava cansado do que a gente vinha fazendo. Foram 11 anos de convivência muito legal. Por isso três anos e meio depois quando fomos convidados a tocar de novo, o convite foi aceito com o maior prazer.”
    “A música da Pata transcende a nossa individualidade, ela ficou, apesar de não ser mainstream. Basta ver o carinho que as pessoas falam da banda e mostram interesse nessas apresentações. Mas vão ser somente essas, a banda não vai voltar. Cada um de nós está envolvido com seus projetos e a vida segue para todos nós. Sempre com muita música.
    SERVIÇO:
    Show Pata de Elefante – Projeto Acústico Ocidente
    Dias 20 e 27 de outubro, às 23 horas (a casa abre às 21 horas)
    Ingresso: R$ 50,00.

  • Eduardo Cunha é preso pela Polícia Federal e levado para Curitiba

    O deputado cassado Eduardo Cunha foi preso hoje (19) em Brasília. O pedido de prisão preventiva do ex-presidente da Câmara dos Deputados foi emitido pelo juiz federal de primeira instância Sérgio Moro, que conduz as investigações da Lava Jato.
    A Polícia Federal (PF) confirmou a prisão preventiva e informou que Cunha está sendo levado para o hangar da PF no Aeroporto de Brasília para embarcar para Curitiba, onde estão sendo conduzidas as investigações. A previsão é de que Cunha chegue entre 17h e 18h à capital do Paraná.

  • O gol de letra de Luís Augusto Fischer e a canção de Bob Dylan

    Geraldo Hasse
    Por uma cósmica coincidência, rolaram apenas duas semanas entre o lançamento do livro “O Alcance da Canção” no dia 28/9 em Porto Alegre e o anúncio em Estocolmo de que o Nobel de Literatura de 2016 vai para o poeta-músico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos.
    Os dois fatos em duas capitais tão distantes têm algo em comum: reverenciam o poder da canção popular como uma das principais expressões artísticas da vida contemporânea. Estocolmo e Porto Alegre no mesmo diapasão… doce ilusão.
    alcance-da-cancao-capaEnquanto Dylan acrescentou quatro milhões de euros à sua fortuna, os organizadores do livro gaúcho precisaram do apoio da FAPERGS para colocar de pé um produto editorial digno de ser lançado num programa-de-auditório radiofônico com canja de N estrelas da canção. Na real, o lançamento foi na Palavraria, cujo espaço não comporta mais do que um banquinho-e-um-violão.
    Com 354 páginas, organizado por Luís Augusto Fischer e Guto Leite, O “Alcance da Canção” contém 22 ensaios sobre diversos aspectos do trabalho de vários “cancionistas”, termo empregado para designar os autores de letras musicadas. Com tiragem de 2 mil exemplares, o livro foi publicado pela Arquipélago Editorial.
    Ousadia e coragem
    Sem dúvida, dar o polpudo galardão para um cantor pop foi uma rara ousadia da ínclita Academia de Ciências da Suécia, que não costuma confraternizar com gente ligada à contracultura e, mesmo assim, premiou um ícone da rebeldia juvenil dos anos 60. Mas, convenhamos, corajoso mesmo foi o Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ao criar, há 25 anos, por iniciativa do professor LA Fischer, a disciplina Canção Popular, que vem ajudando a formar mestres e doutores em literatura brasileira. O que se estuda na UFRGS é Noel Rosa, João Gilberto, Chico, Gil, Caetano, a milonga, a bossa nova, o samba-enredo e temas de origem estrangeira como Atahualpa Yupanqui e Bob Dylan, cujas canções exercem poderosa influência sobre a cultura popular all over the world.
    A entronização da canção popular como tema de estudo na UFRGS talvez ajude a explicar porque a capital gaúcha, apesar de distante dos centros do poder administrativo e econômico-financeiro do país, mantém características de vanguarda cultural. Aqui viveram alguns trabalhadores intelectuais que bem poderiam ter ganho o Nobel literário – Erico Verissimo, Mario Quintana, Josué Guimarães, Moacyr Scliar. E estão por aí meia dúzia de escritores com bagagem para viajar eventualmente a Estocolmo: LF Veríssimo, LA Assis Brasil, AG Schlee, Al Cheuiche, JC Pozenato e o próprio LA Fischer.
    Sem dúvida, as chances desses obreiros contemporâneos diminuíram agora que os suecos abriram a porteira para a canção popular. Mas nessa nova categoria o Rio Grande do Sul e o Brasil poderiam concorrer com uma baita seleção de cancionistas atuantes em Porto Alegre, Pelotas, Fortaleza, Olinda, Belém, Campo Grande, Salvador, Vitória da Conquista, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras praças musicais.
    Antes tarde do que nunca
    Na realidade, a pergunta emergente é: por que somente agora os membros da academia sueca se deram conta da importância da canção popular como eixo da comunicação social no mundo moderno?
    Ao longo do século XX a poesia popular foi difundida sobretudo pelo disco, o rádio, o cinema e a TV – em muitos casos, com aguda estridência. A partir dos anos 1990, com a internet, a coisa se tornou um dos fenômenos culturais mais intensos da era cibernética, fundindo letras e músicas em discos, filmes, shows de palco e TV.
    Muito antes do Nobel, prêmios como o Oscar e o Grammy reconheceram o peso da canção popular no mix cultural da modernidade. Um quarto de século atrás, o curso de Letras da UFRGS avançou ao admitir que tal forma de expressão constitui um dos eixos formativos da cultura brasileira – e isso vem no mínimo desde Noel Rosa (1910-1937), que se viabilizou via disco+rádio, quando o samba-enredo engatinhava nos bairros do Rio, décadas antes da bossa-nova. Para marcar esse gol, Fischer contou com a ajuda de Homero Araujo e Paulo Seben de Azevedo.
    Eis aí um bom pretexto para uma saudável manifestação de bairrismo: enquanto os caçadores de nobeis de literatura passavam os anos procurando e descartando talentos condensados em formato de livro, alguém do Terceiro Mundo saltou na frente, plasmando o novo em pleno bairro Bom Fim, o bom e velho Bonfa onde circulou anônimo o próprio Bob Dylan, ciceroneado por Eduardo Bueno, o Peninha, seu tradutor. Um achado & um perdido nas noites fumacentas do portinho.
    Depois do curso de Canção Popular, vem agora o livro aprofundar a leitura do fenômeno letra-e-música. Em “O Alcance da Canção”, um dos textos mais instigantes focaliza as versões brasileiras das letras de Bob Dylan. Nas primeiras duas páginas de seu longo ensaio (24 páginas), a mestra em literatura brasileira Demirse Merilva Rufatto traça um retrato profundo do artista que diluiu o folk americano no showbiz mundial — o que já bastaria para justificar sua nobelização. Mas Dylan foi mais do que isso. Ele se colocou e permaneceu no centro da música popular enquanto os Estados Unidos faziam das suas no Vietname, em Cuba e no Brasll, entre outros quintais, no afã insano de conter o avanço do comunismo, que acabou ruindo sozinho, sob o peso da dialética da História.
    O jornalista-escritor Lourenço Cazarré, autor de uma carrada de livros, distribuiu aos seus amigos internéticos um desabafo dizendo que a escolha de Bob Dylan como Nobel de Literatura foi um lance de marketing da Academia de Ciências da Suécia, cujo objetivo seria afagar corações e mentes de centenas de milhões de fãs do cancionista americano.
    Segundo o escritor-jornalista, que se criou em Pelotas e vive em Brasília, os acadêmicos suecos devem ter pensado assim: “Por que conceder o Nobel a um poeta qualquer, que deve ter 1.300 leitores em seu país e mais 859 espalhados pelo mundo, se podemos concedê-lo a um astro da música pop, tocado no mundo inteiro?” Faz sentido, mas estaria o Nobel precisando de publicidade?
    O anúncio do prêmio a Dylan bateu recordes em todas as mídias. “A entrega do Nobel a um poeta qualquer, da Tailândia ou da Rússia, nem seria percebida”, argumenta Cazarré, para concluir: “O prêmio Nobel, cuja atribuição sempre foi política, passou a girar agora — como tudo mais — em função do marketing.”
    A hipótese é bastante plausível, do ponto de vista da academia sueca, mas fica a dúvida: os curadores do Nobel correriam o risco de indicar alguém capaz de recusar a honraria? Seria Dylan capaz de chutar o balde? Nem pensar: no mundo capitalista (e até no que resta do comunismo), ninguém em sã consciência desprezaria tantos milhões de euros.
    Sendo o marketing uma via de mão dupla e Bob Dylan um cara bastante ligado no vil metal (como bem lembrou um ácido Belchior numa letra de 1976), podemos concluir que rolou aí um bom negócio para ambos os lados, mas não só isso. Nesse aspecto, aliás, vale a pena ler em “O Alcance da Canção” o ensaio da jornalista Katia Suman sobre a influência do jabá (propina) na difusão da música no rádio e na TV.
    A nobelização de Dylan está rendendo pano pra muita manga. Se era isso que pretendia com o Nobel de Literatura de 2016 – bajular os fãs de um monstro sagrado da canção popular com objetivos político-mercadológicos–, a Academia de Ciências da Suécia marcou um gol de placa. Com alguma controvérsia, naturalmente.
    Por exemplo, logo de cara se acreditou que a escolha foi atribuída aos livros de depoimentos e memórias lançados recentemente pelo artista. Nesse caso, teria sido uma bola fora da academia sueca. Se fosse o caso de premiar o livro de um cantor-compositor, por que os suecos não consideraram a densa “Verdade Tropical” de Caetano Velloso?
    Nesse livro de 1997, com 524 páginas editadas pela Companhia das Letras, o vate baiano escreveu sobre Dylan (página 272): “Ele é uma figura a um tempo central e à parte no panorama dos anos 60 – e um traço forte do século. Um dos mais impressionantes exemplos da pujança criativa da cultura popular americana, da cultura popular americano tout court. No momento em que os ingleses dominavam o jogo com sua versão do rock’n’roll do lado de lá do Atlântico, do lado de cá Dylan já apresentava o espessamento desse caldo em que Beatles e Rolling Stones beberam, mostrando onde está a nascente e de onde jorra a energia”.
    Diante de uma síntese tão generosa sobre o alcance da obra de Bob Dylan, cabe indagar se o próprio astro pop americano seria capaz de escrever algo equivalente sobre Caetano ou sobre Chico Buarque ou Gilberto Gil, três caras que ficaram aqui ralando na contracultura do subdesenvolvimento latino-americano enquanto o imperialismo ianque sobrevoava o planeta, fazendo espionagem aqui e lançando bombas ali, com apoio de uma parafernália tecnológica.

  • Feira do Livro deste ano homenageia a cultura açoriana

    A programação completa da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre será apresentada nesta quinta-feira, 20, em café da manhã para imprensa e convidados na Sala Larisa do Master Premium Grande Hotel (Rua Riachuelo, 1.070 .
     
    Neste ano, o evento conta com área total de 10 mil m², sendo 6 mil m² de área coberta.
    São 93 bancas de venda de livros na Área Geral, 12 na Área Infantil e 6 na Área Internacional – movida para o interior do primeiro andar do Memorial do Rio Grande do Sul, a fim de aproveitar as estruturas permanentes existentes na Praça da Alfândega.
    O prédio histórico acolhe também alguns espaços da Área Infantil, como a Biblioteca Moacyr Scliar e a Bebeteca, além da Estação da Acessibilidade – que oferece, entre outros serviços, passeios guiados para cegos e surdocegos, tradução em libras, programação da Feira em braille e empréstimo de cadeiras de rodas.
    Na programação para adultos, os destaques são os autores estrangeiros vindos de países como Noruega, França, Peru, Espanha, Martinica, México e África do Sul, entre outros, além de uma comitiva de nove escritores açorianos, que representam a Região Autônoma dos Açores, homenageada deste ano.
    As atividades acontecem no Santander Cultural, Memorial do Rio Grande do Sul, Teatro Carlos Urbim, Tenda de Pasárgada, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, Armazém Literário da Corag, Theatro São Pedro e Teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande Sul.
    Entre os nomes de destaque, estão Leandro Karnal, Adriana Calcanhotto, Jeremías Gamboa, Antonio Iturbe, Jorge Volpi, Teresa Cárdenas, Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Daniel Galera, Jean-Paul Delfino, Juan Gómez Bárcena, Regina Zilberman, Leonardo Sakamoto, Patrick Chamoiseau e David Grossman, que integra a programação da Feira através de uma parceria com o Fronteiras do Pensamento, além da patrona Cintia Moscovich.
    A literatura e a cultura dos Açores é representada por autores dedicados a diferentes gêneros literários, como poesia, narrativa, crítica, roteiro e literatura para crianças, além de pesquisadores e linguistas.
    São eles: Eduíno de Jesus, Francisco Cota Fagundes, Joel Neto, Jorge Forjaz, Madalena San-Bento, Nuno Costa Santos, Paula de Sousa Lima, Urbano Bettencourt e Vasco Pereira Costa.
    A programação infantil e juvenil acontece no Teatro Carlos Urbim, no QG dos Pitocos, na Tenda de Pasárgada, na Biblioteca Moacyr Scliar, no Auditório e na Sala de Vídeo do Memorial do Rio Grande do Sul.
    Entre os destaques da programação, estão Otávio Jr., Thalita Rebouças, Katia Canton, Georgina Martins, Rogério Andrade Barbosa, além dos autores que encontram alunos de escolas pelos programas de leitura Adote um Escritor (parceria entre Câmara
    Rio-Grandense do Livro e Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre que completa 15 anos de existência) e Lendo pra Valer, parceria com a Secretaria de Estado da Educação.
    Estão previstas mais de 700 sessões de autógrafos que acontecem na Praça de Autógrafos, na Praça da Alfândega. As sessões de obras coletivas, com mais de quatro autores, acontecem no primeiro andar do Memorial do Rio Grande do Sul. Mais de dois mil escritores autografam neste ano.
    A 62ª Feira do Livro de Porto Alegre ocorre de 28 de outubro a 15 de novembro e é uma realização da Câmara Rio-Grandense do Livro em parceria com Ministério da Cultura e
    Secretaria de Estado da Cultura, e conta com os Patrocinadores máster: Braskem, Celulose Riograndense, Grupo Zaffari e BNDES.
    Patrocínio da Área Infantil e Juvenil: Petrobras. Banco Oficial da Feira: Banrisul, Seja Vero. Financiamento: Pró-cultura RS, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
     

  • Simões Lopes Neto é homenageado com exposição no Santander Cultural

    O homem, além dos seus escritos, está na exposição “Simões Lopes Neto – onde não chega o olhar prossegue o pensamento”, mostra visual que será aberta ao público a partir desta quarta-feira (19), no Santander Cultural.
    Com curadoria da arquiteta e museóloga Ceres Storchi, o projeto traz uma ampla visão da trajetória do escritor com registros de seu legado cívico, jornalístico, dramatúrgico, literário e pedagógico.
    Acompanha a exposição um programa inédito de ação educativa com teatro, circo, cinema e seminário.
    A exposição compreende ainda a família, o universo mítico das Lendas do Sul por onde a obra de Simões transita e o regionalismo dos Contos Gauchescos.
    A exposição ultrapassa tradições gaúchas com personagens densos, completos em suas peculiaridades, facilmente identificáveis em pessoas do cotidiano atual de diferentes regiões, o autor mundialmente reconhecido é fiel a uma cultura enraizada no povo do Rio Grande do Sul.
    Para Marcos Madureira, vice-presidente executivo de Comunicação, Marketing, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Santander, “a obra e a vida do escritor remetem a valores e características que o banco busca transmitir aos visitantes em todas as mostras: inovação, pluralidade e contemporaneidade”.
    Para Walter Lídio Nunes, presidente da Celulose Riograndense, que apoia o projeto, “promover a vida e a obra de Simões Lopes Neto é muito mais do que exaltar as tradições e a cultura gaúchas, embora estes já fossem motivo suficiente para prestar-lhe uma homenagem. Simões Lopes Neto desperta nosso sentimento de pertencimento, nossa identidade, e a convicção de que a nossa terra e a nossa gente ainda têm muito para encantar o mundo”.
     
    “Simões Lopes Neto – onde não chega o olhar prossegue o pensamento” é uma realização do Santander Cultural, Instituto Simões Lopes Neto e Sistema Fecomércio-RS/Sesc, com patrocínio do Santander e CMPC (Celulose Riograndense) por meio da Lei Rouanet, e parceria institucional do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e das prefeituras de Porto Alegre e Pelotas, dentro das comemorações do Biênio Simoneano e Ano Simões Lopes Neto.
     
    Curiosidades sobre a mostra
    Composição narrativa apresentada no grande hall e galerias térreas do Santander Cultural está dividida em dois eixos que convergem nas cartografias do próprio Simões e na cartografia do Blau Nunes. Blau é a forte herança deixada pelo escritor, o registro do tipo humano que desaparecia em um mundo em transformação, na paisagem do pampa e do mundo sulino.
    O projeto cenográfico insere o público nos odores e sons combinados com projeções que dominam os primeiros momentos da visita, na cidade de origem de Simões, a Pelotas da transição do século XIX ao XX, palco de sua existência. Ao longo desse percurso, aparece o mundo do escritor e suas traquinagens na Estância da Graça, além de sua vivência do urbano e seu mundo de inúmeras atividades culturais e diversificados empreendimentos.
    A rica documentação de diferentes acervos testemunha as diversas atividades do escritor no âmbito da sociabilidade, do jornalismo, da visão cívica, do conhecimento da ciência, para além do seu talento literário. Sua produção teve, no efeito e ressonância póstuma, o reconhecimento do seu caráter inventivo e humanista.
    Ilustrações de Edgar Vasques, baseadas em personagens dos Contos e Lendas, foram especialmente desenhadas para a mostra, que traz documentos originais que atestam o reconhecimento e apropriação da produção do escritor pelo mercado editorial, universidades e outras instituições culturais. Já as cartografias, genealogias e interações em videowall, são recursos gráficos construídos para entender o espaço e as relações da produção e vida do escritor.
    “Poucas vezes um homem foi tão forte expressão de seu tempo e lugar. Simões viveu um momento complexo da nossa história. A atividade pecuária, então estabelecida e já com a atividade industrial do charque, em decadência, acontecia a distância de poucos anos de uma condição em que o território se caracterizara por um ethos compartilhado entre os grupos humanos residentes e invasores. O tipo humano que construiu o mundo sociocultural do escritor passava pelo homem gaúcho que ali se configurou. Por outro lado, a mesma bravura e obstinação, que molda este homem o faz senhor da sua própria fragilidade, quando o situamos no panorama e imensidão do pampa”, escreveu a curadora Ceres Storchi.
    Desta forma, estão em exibição não apenas livros e manuscritos do autor, mas fotografias de seu período de infância assim como objetos de uso pessoal. O material foi reunido em diferentes fontes, como o Acervo Clécio Santos e Instituto Simões Lopes Neto.
    Da Biblioteca Pública Pelotense veio o “Álbum Simoniano”, com material coletado pela filha do escritor, Firmina Oliveira Lopes. O colecionador Fausto J. L. Domingues também emprestou peças para a mostra, desde objetos de época, como uma mala em que guardava manuscritos (foto), até peças mais recentes, como a edição em miniatura de “A Quinta do Romualdo” com ilustrações assinadas pela artista plástica Maria Tomaselli (2006).
    Os desenhos de  Edgar Vasques  para a exposição ocupam a extensão de 32 metros. Ilustrações de Nelson Faedrich, impressas em livros históricos do escritor, também tiveram espaço.
    “Acreditamos que esta exposição será um sucesso, porque vai coincidir com a Feira do Livro”, destacou o coordenador do Santander Cultural, Carlos Trevi.
    Com entrada gratuita, a mostra pode ser visitada até o dia 18 de dezembro, de terças a sábados, das 10 às 19h, e aos domingos, das 13h às 19h.
    No próximo dia 30, no Cine Santander Cultural, sempre às 19h, terá início o projeto paralelo, “Simões Lopes Neto nas Telas, que abre com o filme “Contos Gauchescos”, dirigido e roteirizado por Henrique de Freitas Lima e Pedro Zimmermann, com Roberto Birindelli, Ida Celina e Renata de Lélis no elenco. Segue em cartaz nos dias 3, 5, 8, 10 e 12 de novembro, sempre com entrada franca.

  • Livro de crônicas de Moisés Mendes marca estreia da editora Diadorim

    “Todos querem ser Mujica”, do jornalista Moisés Mendes, é o livro de estreia da editora Diadorim, formada pelos também jornalistas Denise Nunes e Flávio Ilha. O texto de apresentação é do colega e amigo Luis Fernando Verissimo.
    O livro reúne 60 crônicas escritas entre 2014 e 2016, que falam de personagens latino-americanos. O lançamento será às 19 horas de hoje, no bar Ocidente (Osvaldo Aranha, 960), em Porto Alegre.
    Na sequência, às 21h, o autor participará do Sarau Elétrico junto a Diego Grando, Kátia Suman e Luis Augusto Fischer, além do músico Raul Ellwanger.
    Moisés Mendes trabalhou no jornal Zero Hora durante 27 anos. Demitido, foi convidado pela editora Valéria Ochôa a escrever no jornal mensal Extra Classe e mantém o blog www.blogdomoisesmendes.com.br.
    Parte do custo da edição foi bancada por uma campanha de financiamento coletivo.
    Nos últimos anos, Moisés Mendes defendeu, em suas crônicas e reportagens para Zero Hora, ideias de conteúdo marcadamente social num cenário de radicalização das opiniões. O que o transformou numa espécie de porta-voz de uma corrente crítica em relação ao papel dos meios de comunicação.

    Os textos reunidos no livro abarcam os momentos decisivos da mais recente crise política do país – sem deixar de se posicionar claramente sobre suas razões e, principalmente, consequências. Aborda também outros temas, como a literatura de Mário Vargas Llosa e de Eduardo Galeano, a América Latina de Pepe Mujica e de Cristina Kirchner e “polêmicas” bem gaúchas, como os gays e o tradicionalismo e a vida nem tão pacata do interior do Rio Grande.
     

  • Chuva persiste até quinta-feira e causa estragos em todo o Estado

    Todas as regiões do RS foram atingidas e registraram pelo menos algum tipo de dano em decorrência da chuva forte, ventos ou queda de granizo.

    Segundo a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Rio Grande do Sul,  já são mais de 1.300 casas atingidas em 44 localidades. Conta-se 85 famílias em abrigos distribuídos por São Sebastião do Caí, Nova Petrópolis, Cachoeira do Sul e Parobé.

    Com a previsão de que a chuva continue até quinta-feira (20), a expectativa é que estes números aumentem. Os níveis dos rios, conforme informações dos meteorologistas da Sala de Situação, devem continuar a subir pelo menos até o próximo sábado.

    Abaixo, a relação das estradas bloqueadas pelos efeitos da chuva:

    RS 124, km 07, em Pareci Novo. Totalmente bloqueada.

    BR 116, km180, em Nova Petrópolis. Totalmente bloqueada.

    BR 290, km 180, em Pantano Grande. Totalmente bloqueada.

    ERS 446, km 13, em Carlos Barbosa. Parcialmente bloqueada.

    ERS 448, km 32 ao 48, entre a ponte Rio das Antas e Farroupilha. Parcialmente bloqueada.

    ERS 502, km 9, em Paraíso do Sul, bloqueada

    ERS 129, km89/90, em Muçum, bloqueada

    ERS 419, km 4, em Teutônia, bloqueada

    ERS 115, km 27, em Gramado, bloqueada

  • Melo pede que Polícia Federal investigue morte de Plínio Zalewski

    Com a campanha eleitoral suspensa hoje, o vice-prefeito e candidato Sebastião Melo chegou por volta das 10h30 ao velório de Plínio Zalewski, um dos coordenadores de sua campanha à Prefeitura, encontrado morto na sede do PMDB.
    Em entrevista improvisada no cemitério João XVIII, onde ocorre o velório, Melo pediu que o caso passe a ser investigado pela Polícia Federal, já que o corpo foi encontrado dentro de um comitê eleitoral.
    O candidato permaneceu no cemitério por pouco mais de meia hora, depois de ter comentado que percebera alteração no comportamento de Zalewski nos últimos dias: andava abatido e faltou a uma reunião de campanha no sábado.
    Campana
    Melo relatou que tem sido acompanhado de maneira suspeita durante a campanha para prefeito de Porto Alegre. “Tem havido campana na minha casa, na casa do partido e por onde eu ando. Isso é uma coisa fascista. Campanha política não é para isso”, resumiu.

  • Delegados do planejamento querem consulta pública sobre Cais Mauá

    Naira Hofmeister
    Delegados eleitos para representar os moradores da Região de Planejamento 1 de Porto Alegre (RP1), que compreende 19 bairros da área central da cidade, querem ampliar o debate sobre a revitalização do Cais Mauá através de uma consulta pública à população.
    A ideia foi lançada pelo delegado Ibirá Lucas na noite desta segunda-feira (17/10) durante reunião dos representantes da RP1 que analisou o Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) do projeto para Cais Mauá, que tramita no Conselho do Plano Diretor (CMDUA) onde a grupo tem assento.
    Vários delegados presentes no evento – que teve também participação de grande público, o que elevou o tom do debate em diversos momentos – se mostraram favoráveis à sugestão. A proposta, entretanto, terá que ser validada pelo conjunto dos 26 delegados em uma próxima reunião, ainda sem data definida. “Acredito que é possível aprovarmos por maioria”, observa Lucas.
    O titular da RP1 no CMDUA, Daniel Nichelle, garante que seguirá a determinação tomada pelos representantes. Caso o encaminhamento seja aprovado dentro da RP1, ele ainda precisará ser validado pelo pleno do Conselho do Plano Diretor para que se torne uma diretriz à prefeitura.
    Presente na reunião, o titular do Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais, Edemar Tutikian, acha “desnecessário” consultar a população sobre a obra, que gera polêmica entre grupos favoráveis e contrários à intervenção e está sendo alvo de uma inspeção especial do Tribunal de Contas do Estado, que levantou irregularidades no cumprimento de cláusulas contratuais.
    “Tudo foi feito dentro dos princípios legais e validado pelo próprio Conselho do Plano Diretor, que lá no início do processo aprovou as diretrizes para o empreendedor”, justificou Tutikian.
    O EVU recebeu parecer favorável do conselheiro representante do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado (Sinduscon-RS), na terça-feira passada (10/10), porém houve um pedido de vistas ao processo para que seja possível esclarecer com mais detalhe os impactos da obra na cidade.
    Para que o empreendedor receba as licenças para iniciar as obras é preciso que o CMDUA ratifique o posicionamento da prefeitura, que aprovou o EVU no final de setembro após a análise de todas as secretarias interessadas no empreendimento. Nenhuma das pastas encontrou motivos para barrar a iniciativa, embora tenham redigido diversas condicionantes para efetivar o licenciamento na forma de contrapartidas para a cidade e obras complementares que garantam a infraestrutura necessária sem ônus para o poder público.
    Críticas à falta de detalhamento
    Os delegados da RP1, entretanto, expuseram dúvidas sobre a viabilidade da obra e criticaram a falta de detalhamento da proposta, que prejudica a análise. “Serão entre 20 e 30 mil pessoas circulando diariamente por esta área, mas não sabemos qual o impacto preciso desse volume de gente e de automóveis”, questionou Fernando Barth, o primeiro a falar.
    Sua colega Ana Lucia Lucas foi taxativa: “Essa reunião não é legítima porque não temos um projeto na nossa frente para avaliarmos. Não sabemos quanto vai custar, como vai ser feito, como será o tratamento de esgoto e o acesso dos bombeiros”, exemplificou.
    Antes da manifestação dos delegados na reunião, a arquiteta Marina Manfro e o diretor de Operações do consórcio Cais Mauá do Brasil, Sérgio Lima, fizeram uma breve apresentação sobre o empreendimento – a mesma que havia sido feita diante do Conselho do Plano Diretor 15 dias atrás e que detalha partes do projeto, como o restauro dos armazéns e as mudanças no setor Gasômetro, mas não esclarece na totalidade questionamentos que vem sendo feitos há anos por um setor da sociedade contrário ao modelo proposto para a área, que prevê espigões com 100 metros de altura, shopping center e estacionamentos.
    “Não temos a documentação técnica necessária, as plantas, os memoriais descritivos. Por exemplo, precisamos fazer uma comparação entre a altura legalmente prevista e o que foi permitido a mais para o empreendedor”, postulou Ibirá Lucas, referindo-se aos limites do Plano Diretor da cidade, que determina 52 metros como a altura máxima para edifícios na cidade.
    O público geral presente levantou ainda a preocupação com a construção em área inundável, que não está protegida pelo muro da Mauá. “Se houver uma cheia e afetar o trabalho e os negócios desenvolvidos ali, quem terá que indenizar pessoas ou comerciantes? O município, que é quem autoriza as obras. O conselho tem um papel muito importante para evitar distorções como essa”, provocou Anadir Alba, integrante do CMDUA nas últimas três gestões, que falou como convidada.
    A delegada Tania Jamardo Faillace chamou atenção para as 11 praças anunciadas pelo empreendedor como um benefício à cidade. O maior desses espaços terá 3 mil m² e homenageará o poeta Mario Quintana; segundo a arquiteta Marina Manfro, “algumas praças são mais permeáveis, tem mais árvores, outras tem uma linguagem mais seca”.
    Mas se é para construir praças, que seja no lugar certo, nas comunidades. Não tem sentido as pessoas pegarem ônibus de longe, onde não há áreas verdes, para vir para cá”, defendeu a delegada.
    Já Valéria Falcão gostaria de saber mais sobre as ciclovias previstas no empreendimento. “Serão no perímetro do Cais, nos acessos? Essa é apenas uma das lacunas que há para serem esclarecidas”, observou.
    Concorrência desleal
    Vice-presidente da Associação Comunitária do Centro Histórico e delegado do planejamento da RP1, Paulo Guarnieri lembrou que o projeto não foi objeto de Estudo de Impacto de Vizinhança, instrumento previsto no Estatuto das Cidades mas ainda não implementado em Porto Alegre. “Precisaríamos avaliar aspectos como o aumento do trânsito na região e a concorrência com o comércio de rua, que é a característica do bairro”, provocou.
    Guarnieri mencionou ainda a existência “de inúmeros prédios desocupados” no Centro Histórico – “edifícios inteiros, todos de escritórios” e recordou que esse é um dos negócios pretendidos pelo empreendedor no local. “Nossa hotelaria tem, nos seus melhores momentos, 50% de ocupação e querem construir hotéis. Vemos muitos restaurantes tradicionais da região fechando as portas e vão implantar ali um polo gastronômico. Não estaria sendo previsto ali uma concorrência desleal ao nosso já combalido mercado de comércio e serviços do Centro Histórico”, questionou.
    Presente na reunião, o vice-presidente da Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA) se manifestou em defesa da iniciativa, que segundo revelou, tem o apoio de comerciantes, varejistas e prestadores de serviço da cidade. “A grande e total maioria é a favor. Quanto mais mato mais coelho”, ilustrou.
    Alguns delegados mencionaram preocupação com a descaracterização da área portuária histórica, que é tombada pelo patrimônio nacional e municipal. “Há anos nosso porto vem perdendo a característica de ser alegre porque nossos monumentos e referenciais estão sendo perdidos, a paisagem urbana que está no imaginário popular está deixando de existir, alegou Felisberto Luisi.
    Houve também apontamentos sobre a saúde financeira do consórcio responsável pela revitalização, que sofre cobranças judiciais de dívidas não pagas e chegou a suspender durante um período o contrato com a empresa que faz a segurança da área porque não tinha dinheiro em caixa para pagar pelo serviço.
    O titular da RP1, Daniel Nichelle se comprometeu a encaminhar as respostas do empreendedor aos questionamentos feitos pelos delegados. “Espero ter esse material disponível até o final da semana”, anunciou.
    Validade dos índices construtivos preocupa
    O representante da RP1 no Conselho do Plano Diretor também confirmou que usará a prerrogativa que lhe compete para pedir diligências à prefeitura que esclareçam pontos mencionados na reunião.
    Um deles é o questionamento sobre a validade dos índices construtivos que permitem a construção de edifícios com o dobro da altura máxima prevista para Porto Alegre. A Lei Complementar 638/2010 determina que a autorização para erguer espigões com 100 metros estava assegurada aos investidores que licenciassem e iniciassem suas obras até 31 de dezembro de 2012 – o que não ocorreu no Cais Mauá.
    “Isso é muito grave pois os conselheiros serão levados a votar um EVU fora da lei, e, se aprovarem, estarão sendo coniventes com essa ilegalidade”, alertou o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), Tiago Holzmann.
    Apesar dos questionamentos, houve também manifestações favoráveis ao empreendimento e também pessoas que participaram da reunião para formar uma opinião a respeito da iniciativa.
    Fotos de Thaís Ratier/JÁ
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