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  • 2 de abril de 1964: Presidente acuado chega a Porto Alegre pensando em resistir

    ELMAR BONES
    O presidente João Goulart chegou a Porto Alegre às 3h15 da madrugada naquele dois de abril de 1964.
    Desceu do avião fumando e tenso, mas procurou mostrar-se sorridente ao chegar no saguão do aeroporto, onde o esperava uma pequena multidão de políticos e autoridades.
    Ali estavam o comandante do III Exército, general Ladário Telles, o ex-governador e então deputado Leonel Brizola, o prefeito de Porto Alegre, Sereno Chaise entre muitos outros.
    No carro, a caminho da casa do general Ladário Telles, o presidente quase não falou. Descansou um pouco e às 8h da manhã saiu na porta da casa, onde falou rapidamente com os jornalistas. Disse que ia resistir.
    Em seguida, reuniu-se com os chefes militares de todas as unidades no Rio Grande do Sul para avaliar as chances de resistência.
    Há dois dias o presidente via seu governo desmoronar. Primeiro, teve que deixar o Rio, onde estava quando estourou a rebelião militar em Juiz de Fora.  Depois em Brasilia, onde mal teve tempo de limpar as gavetas. E, finalmente, Porto Alegre, no seu Estado Natal, onde iniciara sua carreira política.
    Em Brasilia, inclusive, àquela hora já tinha outro na sua cadeira, o deputado Rainieri Mazzili, entronizado na madrugada pelos golpistas.
    O general Telles foi o primeiro a falar e se mostrou disposto a seguir instruções do presidente, inclusive partindo para o contra-ataque aos golpistas.
    Jango quis ouvir os outros generais. O primeiro deles, Floriano Machado, disse que “qualquer resistência seria uma aventura”.  Os demais seguiram no mesmo tom. Apenas Leonel Brizola insistia em enfrentar a quartelada.
    Propôs a formação de um novo governo e a formação de corpos de voluntários que seriam armados e apoiados por unidades militares que se mantinham fiéis ao presidente em São Leopoldo, Vacaria, São Borja e Bagé.
    Jango atalhou, com a frase que vários testemunhos guardaram: “Não quero derramamento de sangue em defesa do meu mandato”.
    E ordenou ao general Ladário: “Tome providências para me dirigir ao aeroporto”
    Jango voou para São Borja, onde se deslocou entre suas fazendas enquanto aguardava aconcessão de asilo pelo governo uruguaio.
    Dois dias depois, no dia 4 de abril, desembarcou na base aérea de Pando, próximo a Montevidéo, onde recebeu asilo político. O golpe no Brasil estava vitorioso.
    Em Porto Alegre, a cidade que havia resistido ao golpe dois anos antes, o clima está resumido no depoimento de Olympio Tabajara, ex-secretário do governo estadual: “Eu saí da repartição, no centro, ao meio dia. Quando fui atravessar a Praça da Alfândega, encontrei um amigo que me disse: tudo acabado o Jango fugiu. Fui para minha casa, no Partenon, almoçar “.
     O GENERAL QUE NÃO SABIA DE NADA
    O chefe da Casa Militar da Presidência da República no governo Jango, era o general Argemiro de Assis Brasil, gaúcho.
    Nas primeiras horas da manhã de 31 de março, quando chegou ao Palácio Laranjeiras, no Rio, o general foi informado que havia “um levante na guarnição de Minas Gerais”.
    Ele passou a informação ao presidente João Goulart, que indagou: “Você acha que isso é verdade?”. O general respondeu: “Acho, porque o general Mourão Filho e o general Guedes estão conspirando há muito tempo”.
    Dias antes, o general havia dito ao presidente que Mourão era “um velhinho que não é de nada”.
    Jango ficou fechado em seu gabinete. Saiu pouco depois das nove para visitar o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, que estava hospitalizado. O ministro apontou o telefone na mesinha ao lado e tranquilizou o presidente. Estava acompanhando tudo, situação sob controle.
    Jango mencionou Policia Militar na mão de Lacerda. já em movimentos ostensivos pelas ruas do Rio. O general, impassível: “Deste telefone eu resolvo tudo, presidente”.
    Manoel Leães, o Maneco, que foi piloto de Jango trinta anos assistiu à conversa e em seu livro “Meu Amigo Jango” registra: “Até hoje acredito que o ministro Jair Dantas Ribeiro estava mancomunado com outros generais golpistas, ao menos para facilitar a deposição do presidente.
    A intenção de Jango, segundo diversos testemunhos era substituir o ministro pelo marechal Henrique Teixeira Lott. Por que Jango não trocou o ministro? “Acho que ele não quis desmoralizar o general, talvez em consideração a sua doença”, diz Maneco. “O presidente João Goulart não quis substituir seu ministro para não desgostá-lo”, diz Hélio Silva.
    O outro homem do dispositivo militar de Goulart era o general Assis Brasil. Costumava dizer: “Não tem perigo. Comigo é na ponta da faca. Nosso dispositivo é o melhor já armado neste país”. Assis Brasil disse depois do golpe “que nunca houve tal dispositivo militar”.
    Eram três da tarde, quando Jango chamou o general Ladário Telles, que estava de férias em Friburgo. A mudança do comando no III Exército estava decidida há vários dias, mas só agora o presidente iria efetivá-la.
    Seu plano era colocar o gaúcho Ladário Telles no Rio Grande do Sul, substituindo Benjamin Galhardo, que deveria voltar para o Rio e ocupar o lugar de Castello Branco, na chefia do Estado Maior das Forças Armadas. Castello era um dos líderes ostensivos do movimento contra o governo.
    A caminho do palácio para a reunião com o presidente, o general Telles notou o “movimento desusado” no prédio do Ministério da Guerra: “Dizia-se que, no quinto e sexto andares, 200 oficiais armados preparavam-se para atacar o QG da 1ª Região Militar do I Exército, no terceiro e segundo andares”.
    Hoje se sabe que eram sessenta oficiais da Escola Militar da Praia Vermelha, que tinham ocupado quatro andares no prédio, para impedir a prisão de Castello Branco, o líder dos conspiradores.
    A audiência com o presidente durou poucos minutos. Um avião já estava à disposição para transportar Telles a Porto Alegre. Jango determinou também que, antes de embarcar, ele providenciasse a prisão de Castello Branco. Pela hierarquia, cabia ao comandante do I Exército, general Armando de Moraes Âncora, executar a ordem. Ladário, então, transmitiu a ele a ordem do presidente. “Senti hesitação no general Âncora. Várias vezes fiz-lhe ver que o tempo passava e o general Castello se retiraria do Ministério sem ser preso. Somente às 18 horas Âncora chamou Castello. Me pareceu que a prisão seria efetuada…”
    Àquela hora Castello Branco não estava mais no prédio do ministério. Saíra em companhia de Ernesto Geisel e estava escondido num apartamento na avenida Atlântica.
    Acreditando que a prisão seria efetuada, Ladário Telles foi para casa arrumar as malas. Eram 22h55min quando partiu. A bordo ouviu a declaração de Adhemar de Barros, o governador de São Paulo, aderindo ao golpe. Chegou em Porto Alegre a 1h20min, mas só na madrugada conseguiu assumir o comando. Já era tarde demais.
    Ninguém acreditava no golpe
    No dia 31, uma terça-feira, Porto Alegre amanheceu fria e com chuvisqueiro. O governador despachava no Palácio como se nada estivesse acontecendo. Desde cedo corriam boatos de golpe, mas isso não era novidade. O noticiário morno dos jornais do dia não indicava qualquer anormalidade.

    Porto Alegre, 1º de abril: quem saiu para saber o que estava acontecendo, viu a repressão
    Porto Alegre, 1º de abril: quem saiu para saber o que estava acontecendo, viu a repressão

    O Correio do Povo trazia na capa um terremoto no Alasca, com manchetes para Camboja, Hungria, Espanha e Rússia. Um destaque local era a crise de atendimento na agência dos Correios, em Santa Rosa.
    Outra notícia importante foi o casamento de dona Vanisa Melo com o senhor Theodoro Medeiros, lá em Santa Maria. O único texto sobre o Brasil era do presidente americano Lyndon Johnson acusando Jango de ter muitos comunistas no governo.
    Os jornais da época desinformavam tanto assim porque ou estavam alinhados com os conspiradores, ou totalmente contra, como no caso do tablóide Última Hora – sendo o único da esquerda, cometia o mesmo pecado dos demais de defender apenas um lado.

    Jornais saúdam o golpe

    As narrativas daqueles dias variam: muita gente viu muita gente nas ruas, mas a maioria viu só algumas escaramuças no centro. A tal massa, que já começava a se sentir órfã, ainda tentou agitar, com protestos no eixo Borges de Medeiros, rua da Praia, Largo da Prefeitura e Praça da Alfândega nos dias primeiro e dois de abril. Houve repressão e correrias. Alguém deu tiros numa das janelas da CEEE, não houve vítimas.

    O Correio do Povo descreveu os protestos do dia primeiro como “atos de desatino de moradores de vilas e estudantes, sentindo-se abandonados à própria sorte”. O jornal saudou o golpe contra “o pólo infeccioso que tem em seu agente o ex-governador Leonel Brizola”.

    Anos depois, Breno Caldas, dono do Correio do Povo, admitiria a parcialidade: “A posição do Correio foi favorável diante dos acontecimentos de 64. Cooperamos para sua eclosão. Aqui havia um foco dinâmico da esquerda manobrado pelo governador Brizola. Nós estávamos contra a situação que ele representava. Desta maneira, a revolução de 64 foi para nós bemvinda, desejada e saudada”.
    O resultado óbvio da parcialidade generalizada é que o povão pouco sabia das coisas. Naquele 31, os jornais traziam apenas algumas dicas da tempestade que desabaria sobre a vida política.
    Na primeira página do Diário de Notícias a manchete era quase uma mensagem em código do golpe: “Em Minas Gerais, Exército e FAB em rigorosa prontidão”, sem nenhum explicação do contexto.
    O mais lido cronista social da época, Ibrahim Sued, deu em sua coluna do Diário apenas uma notinha de política: “O novo ministro da Marinha é um gagá que será joguete nas mãos de Leonel Brizola e sua troupe de comunistas”. Ele fechou a coluna com uma frase romântica, “quem nunca amou, nunca viveu”.
    O mesmo Diário trazia uma mensagem de Páscoa do arcebispo Dom Vicente Scherer. Ela sim vinha carregada de política: “Cabe-nos, diletos fiéis, render graças a Deus haver preservado em nosso país a paz pública e a capacidade de resistir às adversidades econômicas e sociais”.
    Lendo hoje as declarações dos luminares da política gaúcha da época, seria possível perceber que alguma coisa grave iria mesmo acontecer. Por exemplo, o ex-prefeito José Loureiro da Silva, deu uma entrevista na sede da Ação Democrática Feminina (ADF), reproduzida naquele dia pelo Correio, criticando “a ocupação de cargos da administração pública por comunistas”.
    Ainda no fatídico dia 31, os jornais anunciaram uma possível reunião secreta que deveria acontecer no dia 2, no Palácio Piratini, entre os governadores Meneghetti, Carlos Lacerda (RJ) e Adhemar de Barros (SP), três conspiradores da primeira hora.
    O Diário trazia uma nota interessante. Nela até se poderia identificar um dos golpistas – coisa que naquela hora poucos sabiam. Ao pé de uma lista de associados da Caixa de Assistência Social dos Oficiais, constava que “o general Humberto de Alencar Castello Branco vai deixar a chefia do Estado-Maior do Exército” – ele, Castello, deixou sim, mas para assumir, quase duas semanas depois, a cadeira de Jango.
    Como 31 era terça e segunda os jornais não circulavam, eles traziam notícias do domingo anterior, de Páscoa. Alguns foram cordiais com o prefeito Sereno Chaise, que passara aquele dia visitando obras, e à primeira-dama Terezinha, por entregar 25 mil barras de chocolate Neugebauer para crianças carentes nos bairros da periferia.
    Legislativo em parafuso
    A Assembleia Legislativa entrou em parafuso no dia primeiro. Os deputados trabalhistas queriam instalar uma sessão permanente no teatro São Pedro, porque temiam que com o golpe a casa fosse fechada “pelos esbirros do governador Meneghetti”, como diziam.
    No plenário, o deputado Paulo Brossard de Souza Pinto, mais tarde um formidável opositor da ditadura, fez um discurso a favor do golpe: “Felizmente para nós, as Forças Armadas encontraram em seu íntimo a defesa das instituições democráticas e a ordem constitucional que as exprime”.

    Dia 3 de abril: já não havia mais protestos, mas tanques continuavam estacionados nas ruas
    Dia 3 de abril: já não havia mais protestos, mas tanques continuavam estacionados nas ruas

    A resposta veio de Pedro Simon, num duro protesto contra a deposição do presidente. Na Câmara de Vereadores, o presidente Célio Marques Fernandes, mais tarde prefeito nomeado pela ditadura, convocou uma sessão extraordinária – apressava-se para assumir o cargo vago com prisão de Sereno Chaise, horas depois.
    Apesar do feriado bancário e escolar, que esvaziou a cidade, uma massa descrita como “janguista-esquerdista-brizolista-comunista” saiu às ruas, mas não chegou a reunir mais de três mil pessoas. Policiais do Dops e soldados da Brigada e do Exército dissolviam com violência as aglomerações. A Folha da Tarde saiu pouco depois do meio-dia, já trombeteando a vitória e elogiando o rigor das tropas na manutenção da ordem.
    “A noite em que chegaram os tanques”
    A casa que foi cenário do último ato de Jango no governo ainda está lá, intocada, 50 anos depois. Ainda serve à mesma função, ser a residência do general que estiver no comandante do III Exército.
    Foi ali, na esquina da Cristóvão Colombo com a Carlos von Koseritz, que o general Ladário Telles hospedou Jango nas suas últimas nove horas como presidente do Brasil, em 2 de abril.
    A casa já foi mais elegante, na época em que o bairro era mais nobre – hoje ela está numa esquina barulhenta, vizinha de um hotel e de um restaurante japonês. Os vizinhos amam sua presença porque um destacamento 24 horas guarda o pedaço.

    Brizola: “Tomem os quartéis a unha”

    O ponto alto da resistência foi o comício da noite do dia primeiro no Largo da Prefeitura. Brizola falou por volta das oito, para duas mil pessoas.
    Brizola vinha botando fogo na massa todo dia pelo rádio e repetiu no comício seu mantra: “Quero iniciar a derrubada destes chefes militares golpistas e traidores. Atenção, sargentos do III Exército. Atenção, sargentos das unidades chefiadas por esses militares golpistas. Atenção, oficiais nacionalistas… O povo pede que os sargentos se levantem, tomem os quartéis e prendam os gorilas… tomem a iniciativa, a unha mesmo, com o que tiverem na mão, tomem as armas desses gorilas, tomem conta dos quartéis e prendam os traidores…”

    Dali ele foi para o QG do III Exército usar o rádio para falar com Jango. O presidente estava voando para Porto Alegre e os dois teriam concordado que nenhuma reação seria organizada enquanto ele não chegasse. Mas Jango só chegaria na madrugada do dia 2 de abril, quando já era tarde para a resistência.

    A tropa se esmera para cuidar do pequeno jardim da frente, com uma burocrática roseira no centro, uma cerca viva de metro e meio de altura e uma discreta guarita.
    Naquele dia 2 de abril, a calma das noites da Cristóvão foi quebrada às 4 horas. O professor Francisco Outeiro, vizinho, lembrou anos mais tarde: “Acordei com aquele barulho enorme, estranho e assustador. Meu pai disse ‘são as lagartas dos tanques nos paralelepípedos’. Abrimos a janela e eram mesmo tanques”.
    A barulheira também incomodou seu Albino Neitcke, dono da padaria Vitória, na esquina oposta da Koseritz. Mais tarde, às 7 da manhã, quando abriu a loja, soldados apareceram ordenando que ele afastasse mulheres e crianças.
    “Eles ocuparam todas as esquinas com seus tanques”, lembrou seu Albino. “Um deles ficou estacionado no meu jardim”. Outra lembrança: “Minha mulher não deu bola para a ordem e ficou trabalhando, aquele foi um dia de muito movimento”.
    A marquise da padaria ficou tomada por fotógrafos. “Deputados e outros políticos entravam toda hora na loja para tomar café, comer sanduíches, foi mesmo uma loucura”.
    Seu Albino contou que os mordomos da casa do general vieram buscar quantidades extras de pão, manteiga, queijo e salame. “De repente, vi o Brizola sair da casa pela porta da frente, entrar num Fusca clarinho que estava estacionado no portão e descer a rua, ele mesmo dirigindo”.
    Os jornalistas e os tanques sumiram para sempre. A padaria Vitória cresceu, continua firme na esquina. Mordomos do general ainda fazem compras ali. No jardim, um pé de cinamomo cresceu onde antes o tanque ficara estacionado.
    Legalidade não se repetiu
    No início da noite de 31 de março, o governador Ildo Meneghetti tentava saber a exata extensão da rebelião militar, quando foram cortadas as linhas telefônicas do Palácio Piratini. O governador convocou seus auxiliares para uma reunião. Havia chegado uma notícia alarmante: os sargentos haviam tomado um quartel em Bagé, obrigando o comandante a se refugiar em outra unidade.
    O governador ficou também sabendo que ia chegar naquela noite um novo comandante para o III Exército, o mais poderoso dos quatro exércitos brasileiros, com jurisdição sobre Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.

    Avenida São João, São Paulo, dia 3: a vida volta ao normal
    Avenida São João, São Paulo, dia 3: a vida volta ao normal

    A lembrança da Legalidade, menos de três anos antes, fazia do Rio Grande do Sul um ponto estratégico, onde certamente os defensores de Jango tentariam resistir. Mas agora a situação era outra. A começar pela vitória da oposição a Jango e Brizola, que conseguira ganhar a eleição de 1962 e colocar o conservador Meneghetti, da UDN, no governo do Estado. Brizola estava em Porto Alegre no dia 31 de março. Só que agora ele era um deputado federal, não podia dar ordens à Brigada Militar nem requisitar emissoras de rádio para mobilizar a população em defesa do governo.
    Além disso, ao contrário dos seus adversários, que há muito se preparavam para impedir que se organizasse uma resistência ao golpe no Rio Grande do Sul, os aliados de Brizola estavam completamente despreparados.
    Mala de dinheiro para pagar a polícia
    No dia 2, depois do meio dia, Jango decidiu partir para o exílio. Não havia mais como resistir.
    Foi aí que começaram as trevas. Os golpistas soltaram as rédeas do Dops para prender seus adversários.
    Houve um pequeno atraso no cronograma das prisões porque a turma estava com os salários atrasados. Os zelosos policiais se recusavam a prender antes de receber.
    “De repente, uma mala de dinheiro apareceu no Palácio da Polícia e todos foram pagos”, lembrou anos mais tarde o então delegado Cláudio Barbedo. Com tal estímulo, um dos primeiros presos foi o prefeito Sereno Chaise – entrou no xadrez vestindo um impecável sobretudo cor de camelo.

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  • Associações vão pedir o impeachment do governador Sartori

    Duas entidades representativas dos servidores de nível médio da Brigada Militar vão pedir o impeachment do governador José ivo Sartori.
    O pedido deve ser encaminhado na próxima semana à presidente da Assembleia Legislativa Silvana Covatti (PP), segundo o secretário-geral da Abamf (Associação Beneficente Antônio Mendes Filho), Ricardo Agra.
    O pedido será assinado pela Abamf,  e pela Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar (ASSTBM). A decisão foi tomada após reunião na manhã desta sexta-feira, na sede da Abamf.
    “O governador descumpriu o artigo 35 da Constituição Estadual, que determina o pagamento do salário do servidor até o primeiro dia útil e que o décimo terceiro salário tem que ser pago até o dia 20 de dezembro.” No final de 2015, o Banrisul abriu a possibilidade de os servidores que não tivessem pendência sacarem o décimo terceiro através de empréstimo. “Mas que não fez empréstimo não recebeu e só vai receber no meio do ano“, afirmou Agra.
    O secretário-geral da Abamf afirmou que as entidades tambem farão “uma juntada de documentos e matérias jornalísticas, que mostram que temos o maior déficit historico no efetivo da Brigada e denunciar os cortes no orçamento da Segurança Pública, que afeta a qualidade do serviço prestado à sociedade.”
    Entidades vão se reunir com diretor do TJ
    Na próxima quarta-feira, 6, as entidades se reunirão com o diretor- geral do Tribunal de Justiça, Ivandre Medeiros. A ideia é comunicar formalmente que o governo do estado está descumprindo determinação deste tribunal. Em março de 2015, o TJ determinou o pagamento em dia do salário dos servidores públicos estaduais.

  • Multidão toma o centro de Porto Alegre em ato contra o impeachment

    Uma multidão tomou o centro de Porto Alegre na noite desta quinta-feira, numa das maiores manifestações populares que a cidade já viu.
    A concentração começou na esquina democrática às 17h, convocada pelas centrais sindicais, movimentos sociais e entidades estudantis..
    A organização falou em 80 mil pessoas, já a Brigada Militar contou 18 mil.
    Com certeza tinha mais gente na rua do que no dia 18 de março. Mais impressionante que o número era a diversidade e a animação dos manifestantes.
    Em torno das 20h,  começou a caminhada até o largo Zumbi dos Palmares. A marcha rapidamente tomou conta da avenida Borges de Medeiros.
    As falas ao microfone defendiam a democracia e condenavam o processo de impeachment como golpe.
    “Atenção povão, impeachment sem crime é golpe na nação”, cantavam.
    Entre uma fala e outra, o coro cantava em uníssono a frase que já é quase um mantra nas manifestações contra o impeachment: “Não vai ter golpe, vai ter luta.”
    Diversos cartazes criticavam o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. “Cunha, pode esperar que a tua hora vai chegar”.
    As manifestações lembravam também o golpe militar, deflagrado há exatos 52 anos, e que deu origem ao “período mais sombrio da história do país”, como definiu um militante.
    A grande imprensa, principalmente a rede Globo foi um dos principais alvos de criticas. A verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura“. “Rede Globo/ vai se fudê/ democracia é maior do que você”
    Leonel Brizola foi um dos nomes lembrados pelos manifestantes. “O homem que desencadeou o maior ato em defesa da legalidade da história do Brasil”, definiu o representante da Famursa. Ele afirmou que “o Brasil seria uma país muito melhor se tivessemos feito as reformas de base,” defendidas por Jango e Brizola.
    O governador José Ivo Sartori também não foi esquecido pelos manifestantes, que em um dado momento organizaram uma grande vaia.
    O presidente do PT, Ary Vanazzi, exaltou o poder da mobilização de rua. “Podemos não ter maioria na Cãmara,a nem no Congresso, mas somos a maiora na rua, na luta.”
    Vanazzi afirmou que o PMDB “já foi tarde” e chamou Temer de “rato que abandonou ao barco”.
    O programa “ponte para o futuro”, do PMDB, foi contestado. Para Vanazzi, o programa acaba com as políticas sociais, como o Prouni e o Minha casa minha vida, e visa privatizar empresas nacionais, como a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa.
    “Essa direita neoliberal vendeu a Vale e quer vender o pré-sal”, cantava um grupo durante a caminhada.
    Os atos contra o impeachment de Dilma e em defesa da democraia reuniram mais de um milhão de pessoas em todas as capitais e outras 60 cidades no país.

  • Balanço da Gerdau não prevê perda na Zelotes

    geraldo hasse
    Aos 115 anos, passa por “um momento desafiador” o grupo Gerdau, o maior complexo siderometalúrgico brasileiro, com vendas de 17 milhões de toneladas de aço no ano passado.
    Hoje com maior faturamento no exterior, o grupo gaúcho publicou há uma semana o balanço referente ao exercício de 2015, depois de adiar por quase um mês sua divulgação.
    Os dados principais são: receitas líquidas de R$ 43,6 bilhões, prejuízo de R$ 5 bi, endividamento líquido de R$ 20,9 bi e patrimônio líquido de R$ 30,4 bilhões – todos maiores do que no exercício anterior.
    Considerando a conjuntura econômica, são resultados “compatíveis” com a gravidade da crise que assola a economia brasileira.
    Aliás, o balanço fala explicitamente no “momento desafiador do mercado do aço”, afetado por “uma grande vulnerabilidade”.
    Mas o que chama a atenção é que, fora a provisão de R$ 2 bilhões para passivos tributários, cíveis, trabalhistas e ambientais, o grupo não fez nenhuma reserva para atender seu outro grande desafio: a Operação Zelotes, que investiga a compra de favores por grandes empresas junto a membros do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) do Ministério da Fazenda.
    Foi por causa da Operação Zelotes que o grupo atrasou a divulgação do balanço (no dia 25 de fevereiro passado a Polícia Federal esteve na sede da empresa em Porto Alegre, ouviu dirigentes e recolheu documentos).
    Numa das notas explicativas que calçam o balanço, o Gerdau explica que não provisionou recursos para atender a eventuais multas decorrentes da Operação Zelotes porque considera impossível prever valores e prazos em caso de um desfecho negativo do caso.
    Além disso, também acha possível ganhar as contendas.  Em seu espaço no final do balanço, a auditora contábil  PricewaterhouseCoopers parece discordar dessa orientação.
    Ao comentá-la, assinala: “Nossa opinião não está modificada em relação a esse tema”. O comentário é assinado pelo contador Adriano Machado.
    Para se defender nesse rumoroso “affair”, além de “colaborar com as autoridades”, o Conselho de Administração do grupo constituiu uma comissão especial que se sobrepôs às assessorias externas contratadas para operar junto ao CARF.
    De qualquer forma, o grupo reduziu em 35% os investimentos previstos para 2016, sinalizando que a saída para o risco Zelotes pode estar num aperto dos cintos que faça sobrar dinheiro no caixa.
    Como empresa de capital aberto, o Gerdau não tem como esconder o que se passa. A marcha dos acontecimentos pode ser acompanhada no site ri.gerdau.com (relações com investidores), onde o grupo publica os chamados “fatos relevantes” que dizem respeito ao seu desempenho ou que afetam sua imagem corporativa.
    Dos três últimos esclarecimentos, dois se referem explicitamente à Operação Zelotes. O outro é um reflexo indireto das tais investigações na cotação de papeis (ADR) do grupo na bolsa de valores de Nova York.
    No esclarecimento mais contundente, publicado em 29 de fevereiro passado, a empresa afirma sobre seu envolvimento na Operação Zelotes: “Ao contrário do que tem sido cogitado no noticiário, não se trata de sonegação – declaração falsa ou omissão com a intenção de eximir-se de tributos eventualmente devidos – e sim do exercício legítimo de direito pelas empresas da Gerdau, respaldado expressamente nas leis e na jurisprudência”.
    Em outro item, a empresa esclarece que não fez pagamentos indevidos a intermediários contratados para atuar no CARF: “Nenhuma importância foi paga ou repassada aos escritórios externos do caso específico e os contratos foram rescindidos quando o nome dos prestadores de serviço investigados foram veiculados na imprensa por suspeitas de ações ilícitas”.
    Finalmente, afirma que não autorizou a prática de ilegalidades: “A empresa jamais concedeu qualquer autorização para que seu nome fosse utilizado em pretensas negociações ilegais, repelindo veementemente qualquer atitude que tenha ocorrido com esse fim”.
     

  • 31 de março de 1964: 25 anos de ditadura começaram nesta noite

    ELMAR BONES
    Juiz de Fora, 31 de março de 1964, uma e meia da madrugada. O general Olympio Mourão Filho desiste de tentar dormir e retoma as anotações em seu diário.
    Há quase uma semana, Mourão se considera pronto para um golpe, mas desconfia que o estão traindo.
    Esperava um manifesto do governador de Minas, que seria a senha para colocar as tropas na rua.

    Mourão já tinha morrido quando foi publicada a sua versão do golpe, em 1978
    Mourão já tinha morrido quando foi publicada a sua versão do golpe, em 1978

    Em vez de mandar o texto antes, para ele, o governador entregou o manifesto à imprensa. E o conteúdo não era o que haviam combinado!
    “Eu estava uma verdadeira fúria”, anotou depois. “Meu peito doía de rachar. Tive que pôr uma pílula de trinitrina embaixo da língua”
    Mourão Filho, general de três estrelas, comandante da 4ª Região Militar, uma das principais forças terrestres do Exército brasileiro, estava mesmo descontrolado naquela noite.
    -“Idiotas. O Chefe Militar sou eu. Magalhães não terá desculpa perante a história… E o Guedes, um falastrão vaidoso que aceitou o papel triste… Fizeram isto, bancando os heróis, porque sabiam que eu era a própria revolução. Do contrário não se atreveriam a dar um passo. Irresponsáveis! Arriscando uma revolução tão bem planejada num momento de vaidade!”
    Depois da explosão, acalma-se: “Acendi o cachimbo e pensei: não estou sentindo nada e, no entanto, em poucas horas deflagrarei um movimento que poderá ser vencido porque sai pela madrugada e terá que parar no caminho. Não faz mal…”
    Em seu plano original, Mourão previa sair de Juiz de Fora, no início da noite, com 2.300  homens. Cobriria os 200 quilômetros até o Rio de Janeiro em cinco ou seis horas.
    Antes de clarear o dia, tomaria de surpresa o prédio do Ministério da Guerra e o Palácio das Laranjeiras, onde estaria ainda dormindo o presidente João Goulart. Depois começava a caçar os comunistas.
    Há uma semana “estava pronto”, mas vinha sendo retardado por artimanhas do governador Magalhães Pinto que, mineiramente, temia “se envolver numa aventura”.
    Agora está decidido: “Vou partir para a luta às cinco da manhã… Ninguém me deterá. Morrerei lutando. Nosso sangue impedirá a escravização do Brasil”.
    Depois se acalma novamente: “E o mais curioso de tudo isto é que, passada a raiva (já estou normal, bebi água e café) não sinto nada, nem medo, nem coragem, nem entusiasmo, nem tristeza, nem alegria. Estou neutro.”
    Ilustração de Enio Squeff em acrílico sobre papel
    Ilustração de Enio Squeff
    em acrílico sobre papel

    Anotou alguns nomes num papel e, quando o relógio marcou cinco horas, chamou a única telefonista de plantão na central de Juiz da Fora: “Quero prioridade absoluta e rápida para as ligações que vou pedir. Estou mandando a PM ocupar a Estação e a senhorita não diga palavra a ninguém”.
    Considerou-se em ação: “Eu já havia desencadeado a Operação Silêncio”, anotou.
    No primeiro telefonema, tentou alcançar o tenente coronel Everaldo Silva, que estava de prontidão no QG, “o telefone estava enguiçado”. Tocou, então, para o major Curcio e mandou desencadear a “Operação Popeye”, o plano militar que ele, Mourão, havia traçado e ao qual batizara com o apelido que lhe haviam dado no quartel pelo uso constante do cachimbo.
    Em seguida, convocou os coronéis Jaime Portela e Ramiro Gonçalves para que se apresentassem imediatamente no quartel (nenhum dos dois apareceu). A seguir, ligou para o almirante Silvio Heck, comandante da Marinha, golpista de primeira hora: disse que estava partindo em direção ao Rio, para depor Goulart.
    O próximo foi o deputado Armando Falcão, para que avisasse Carlos Lacerda, governador da Guanabara, o mais notório inimigo do presidente.
    Falcão, assustado, ligou para o general Castello Branco, que era o líder militar de uma outra conspiração e que evitara sempre se envolver com Mourão.
    Castello, que não tinha tropas, tentou falar com Amaury Kruel, o comandante do II Exército, a maior força militar do país. “Isso não passa de uma quartelada do Mourão, não entro nessa”, disse Kruel, quando foi alcançado por emissários. Kruel ainda era amigo de João Goulart.
    Nesse meio tempo, Castello recebeu uma ligação do general Antonio Carlos Muricy, outro conspirador sem comando.
    Muricy diz que fora chamado a Minas por Mourão, “que está rebelado”. Castello aconselha que vá “para prevenir qualquer bobagem”.
    Enquanto isso, Mourão segue anunciando o golpe por telefone. Ao final de sua rajada de chamadas, fez questão de registrar que “estava de pijama e roupão de seda vermelho”. E não esconde o “orgulho pela originalidade”: “Creio ter sido o único homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencadeou uma revolução de pijama”.
    Subiu um lance de escada até o quarto onde estava seu hóspede e cúmplice, o desembargador Antonio Neder, “que dormia como um santo”. Gritou: “Acabo de revoltar a 4ª Divisão de Infantaria e a 4ª Região Militar”. O amigo, “entre espantado e incrédulo”, perguntou: “Você agiu certo? Tem elementos seguros?”.
    Mourão desdenha : “Vocês, paisanos, não entendem disso”. Eu estou certo, pode crer”. Na verdade, não tinha certeza de nada, nem mesmo se conseguiria tirar suas tropas do quartel.
    Mourão em março de 1965, no Superior Tribunal Militar: o general linha de frente acabou na burocracia
    Mourão em março de 1965, no Superior Tribunal Militar: o general linha de frente acabou na burocracia

    Entrou no banheiro, fez a barba e leu alguns salmos da Bíblia, como fazia todos os dias. “Eu era um homem realizado e feliz. Não pude deixar de ajoelhar-me no banheiro e agradeci a Deus a minha felicidade, havia chegado a hora de jogar a carreira e a vida pelo Brasil!”
    Abriu o chuveiro, banhou-se calmamente. Só então vestiu o uniforme de campanha e foi tomar café com Maria, sua mulher (“Não consigo me lembrar se o Neder tomou café conosco”, diz ele nos registros que fez dias depois).
    A notícia de um golpe militar se espalhava rapidamente pelo país, mas o comandante do levante ainda não saíra de casa.
    “A insurreição estava envolta numa nuvem que se parecia ora com uma quartelada sem futuro ora com uma tempestade de boatos”, registra Elio Gaspari.
    Por volta das dez horas, ainda sem saber direito o que realmente estava acontecendo, o general Castello Branco saiu de seu apartamento, em Ipanema. Foi para o Ministério da Guerra, no centro, onde tinha seu gabinete de trabalho, no sexto andar. De lá ainda insistiu com o general Luiz Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria em Belo Horizonte, e o governador Magalhães Pinto para que detivessem Mourão. “Senão voltarem agora serão esmagados”.
    Guedes, em suas memórias, tentou associar-se à ousadia de Mourão, dizendo que àquela hora também já estava rebelado, mas a verdade é que até aquele momento Mourão estava sozinho.
    Mourão registra, desde o primeiro encontro entre ambos, a frase que Guedes repetia: “Quem levantar a cabeça primeiro, leva pau”.
    Mourão Filho (E), ao lado de Magalhães Pinto: já articulava o golpe
    Mourão Filho (E), ao lado de Magalhães Pinto: já articulava o golpe

    O governador Magalhães Pinto, a quem Guedes seguia, desenvolvia um plano que permitisse recuos. Sua intenção era declarar Minas Gerais em “estado de beligerância”, contra o governo federal.
    Esperava obter o reconhecimento dos Estados Unidos e, então, forçar João Goulart a renunciar. Seria instalado um mandato tampão até as eleições de 1965 , quando ele, Magalhães, seria o candidato imbatível – o libertador que afastara o perigo comunista.
    O manifesto que lançou no dia 30 de março, escrito pelo mineiríssimo Milton Campos, defendia reformas de base e era tão cauteloso que o deputado federal Wilson Modesto, do PTB de Minas, leu a íntegra por telefone para Jango e o presidente respondeu: “Diga a Magalhães que está muito bom estou de acordo com ele”.
    As ações do general Guedes, àquelas alturas, se limitavam à Prontidão da Polícia Militar, força estadual, e a consultas ao cônsul dos Estados Unidos em Belo Horizonte, para saber se os americanos estavam dispostos a ajudar com “blindados, armamentos leves e pesados, munições, combustíveis, aparelhagens de comunicações…”. Para “mais tarde”, precisaria de “equipamento para 50 mil homens”.
    ***
    Enquanto isso, Mourão enfrentava dificuldades para levar as tropas à rua. O comandante do 10º Regimento de Infantaria, coronel Clóvis Calvão, não apoiava o levante. Mourão contornou o impasse dando férias ao coronel.
    Dois outros coronéis e o comandante da Escola de Sargento de Três Corações, também rechaçaram a ordem de botar a tropa na rua e foram para casa.
    Os recrutas de Mourão começam a se deslocar em direção ao Rio de Janeiro
    Os recrutas de Mourão começam a se deslocar em direção ao Rio de Janeiro

    Nada disso influiu no apetite do general. À uma da tarde, ele foi para casa almoçar e não dispensou sequer a sesta. Nessa hora, já se movimentavam forças para atacá-lo a meio caminho do Rio.
    “Na avenida Brasil, principal saída do Rio e caminho para Juiz de Fora, marchavam duas colunas de caminhões. Numa iam 25 carros cheios de soldados, rebocando canhões de 120 mm… Noutra, em 22 carros, ia o Regimento Sampaio, o melhor contingente de infantaria da Vila Militar. De Petrópolis, a meio caminho entre o Rio e Mourão, partira o 1º Batalhão de Caçadores” (Gaspari).
    “Tinham-se passado oito horas desde o momento em que se considerara insurreto. Salvo os disparos telefônicos e a movimentação de um pequeno esquadrão de reconhecimento que avançara algumas dezenas de quilômetros, sua tropa continuava onde sempre estivera: em Juiz de Fora.” (Gaspari)
    Fardado, de capacete, Mourão, auto-intitulado Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias, foi fotografado no meio da tarde, no QG da 4ª DI. Mas aos jornalistas ainda negava que estivesse rebelado.
    O general Antonio Carlos Muricy, que Mourão chamou para chefiar a vanguarda da tropa que desceria em direção ao Rio, só foi chegar à Juiz de Fora às 18 horas.
    Ao inspecionar as forças de que dispunha, Muricy comprovou que mais da metade eram recrutas mal preparados e a munição dava para poucas horas.
    ***
    “Ele não é bem visto no Exército e provavelmente não liderará uma conspiração contra o governo, em parte porque não tem muitos seguidores. É visto como uma pessoa que fala mais do que pode fazer”, dizia um informe da embaixada americana.
    A maioria dos 60 generais em atividade naquele momento, achava que Mourão não conseguiria tirar os soldados do quartel. Lacerda lhe disse isso diretamente. O general Murici, que ele convidou para comandar a vanguarda de suas forças em direção ao Rio, disse-lhe: “Você está louco? Acha que pode fazer uma operação dessas com soldados meninos com um mês de treinamento!”
    Quando ele chegou a Minas, em setembro de 1963 para assumir o comando da 4ª.Região Militar, o governador Magalhães Pinto declarou depois da primeira conversa que tiveram, comentou: “Este general que veio comandar a Região ou é agente provocador do governo ou é louco, quer fazer uma revolução logo!” O general Costa e Silva a quem procurou várias vezes, sempre esquivou-se. “Não temos nada”. Para o historiador Hélio Silva, Mourão era um “homem bom, sofredor, pitoresco, capaz de assomos de cólera”.
    ***
    O embaixador americano soube da rebelião por volta do meio dia do dia 31 de março. Imediatamente avisou Dean Rusk, chefe do Departamento de Estado. Ele não tinha Mourão em boa conta, mas ponderou: “(…) pode ser a última boa oportunidade para apoiar uma ação contra Goulart”.
    Tanques e jipes do II Exército descem para o Vale do Paraíba. O golpe venceu
    Tanques e jipes do II Exército descem para o Vale do Paraíba. O golpe venceu

    A segunda vitória de Mourão aconteceu já na madrugada do dia primeiro de abril, quando o Regimento Sampaio, a mais bem treinada e equipada força militar do Rio, que saiu para atacá-lo. Ao alcançar a dianteira das tropas rebeladas, em vez de atirar, os oficiais simplesmente aderiram ao golpe. Os calejados “tarimbeiros” do Regimento Sampaio abraçaram os “soldadinhos meninos” de Mourão. “Eles passaram-se quando tudo parecia indicar nossa derrota”, anotou o general em seu diário.
    Pouco depois, quando se deslocava para assumir a vanguarda das tropas que se dirigiam ao Rio soube pelo rádio do carro que não havia mais resistência. O golpe vencera e o general Costa e Silva havia assumido o Comando Supremo da Revolução, por ser o general mais velho em atividade. Não lhe restou mais que ir ao QG e apresentar-se ao novo comandante. Costa e Silva dormia e atendeu-o de cuecas. Ele quis reclamar, Costa colocou a mão em seu ombro: “Mourão foi tudo resolvido na base da hierarquia ( …) Não se preocupe velho, isso vai dar certo”. E recomendou-lhe ficar mais uns dias no Rio antes de regressar com as tropas. “Achei razoável , de vez que Costa e Silva não contava com quase nada, não dispunha de tropa. Minha obrigação era ficar e garanti-lo”. Ele  já era carta  fora do baralho.

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  • "Derrubar Dilma por pedaladas é molecagem", diz Ciro Gomes

    – O que eu falo é para gravar! Assim começou a rápida entrevista que o político Ciro Gomes (PDT) deu antes de participar, como palestrante, do seminário Dívida Pública, desenvolvimento e Soberania Nacional realizado nesta quarta-feira no Prédio 40 da PUCRS, em Porto Alegre.
    Questionado sobre o rompimento do PMDB com o governo, anunciado ontem pelo Senador Romero Jucá, ao lado de Eduardo Cunha e Eliseu Padilha em reunião aberta do Partido, Ciro foi enfático: “Era a crônica de uma morte anunciada”. Lembrou das diversas vezes em que alertou ao ex-presidente Lula e a presidente Dilma o quão era “estúpido e equivocado” se aliar ao PMDB que chamou de quadrilha da política brasileira.
    Temer: “Um assalto ao poder”
    Ainda na primeira pergunta, continuou falando de um possível mandato de Michel Temer, sucessor de Dilma em caso de Impeachment. Ciro destacou que Temer foi o candidato a Deputado Federal menos votado pelo Estado de São Paulo e afirmou ainda que o vice-presidente está “vinculado a tudo que está de errado sob ponto de vista constitucional e de corrupção no Brasil”, que está vinculado a Eduardo Cunha e que o próximo passo depois “de assaltar o poder” é “acabar com a Lava Jato”
    Segundo Ciro, a operação está saindo do controle dos politiqueiros de Brasília.
    Sobre Temer na presidência, Ciro Gomes disse se tratar de um governo ilegítimo que irá se constituir. Para ele, se trata de voltar para um governo de interesses internacionais. Com o PMDB no poder, junto ao PSDB, Ciro acredita que o Brasil terá uma “agenda entreguista”, e cita o exemplo do petróleo e do gás.
    Também ressaltou que esse novo governo arrebentaria com os avanços e políticas sociais que atualmente ocorrem no País. “Seria uma tragédia completa”, ressaltou.
    Se Temer assumir, Ciro pedirá Impeachment
    Para Ciro Gomes não há legitimidade no atual processo de Impeachment que corre no Congresso. Segundo ele não há crime de responsabilidade, motivo de um Impeachment, por parte do Governo Dilma. “Se trata de um truque, que eu não aprovo, mas não é crime” ressaltou. Se a presidente cair, Ciro será o primeiro a mandar o mesmo pedido de afastamento do atual Vice. “ Vou estar baseado no fato que ele (Temer) assinou diversos decretos de pedaladas”, afirmou.
    “Impeachment não é inevitável”
    Em sua conclusões, Ciro duvidou que um governo formado por Temer e novos aliados fosse livrar o Brasil da atual situação e citou três tipos de crises que estão interligadas: a crise que o Brasil vive junto ao comércio exterior, “temos um rombo de 110 bilhões”; a desvalorização da moeda que colabora para a alta da inflação e por último a crise politica. “Nem o PT, nem a CUT, nem o MST e nem eu vamos deixar vender o Brasil para o estrangeiro”
    Por fim terminou dizendo que irá lutar de todas as formas para que o que considera golpe não se abata no Brasil.
    Escute na íntegra a entrevista de Ciro Gomes:

  • Oráculo da Globo manda dizer que Dilma já caiu

    ELMAR BONES
    O jornalista Merval Pereira é uma espécie de oráculo para a Rede Globo e seus repetidores pelo Brasil afora.
    Membro do Conselho Editorial do Grupo Globo, ele atua como editorialista, colunista, comentarista nos principais veículos da rede.
    O que ele diz e escreve unifica o discurso em torno dos fatos mais importantes, principalmente nas questões de poder.
    É só ler a coluna dele no Globo para saber como vão se posicionar os repórteres, comentaristas, animadores de programa, comunicadores em geral que atuam dentro ou alinhados ao sistema Globo pelo país afora.
    O caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff é um exemplo.
    Ele é o mentor da interpretação dominante na rede, de que o impeachment contra Dilma Rousseff nada tem de golpe e que está praticamente consumado.
    Em sua coluna de hoje, com o título “Não vai ter golpe”, ele diz que essa idéia de golpe é “uma construção do lulopetismo” e que “não há mais dúvidas de que existem motivos de sobra para o impedimento da presidente”.
    Ele não enumera nenhum dos “motivos de sobra” e diz que “além das pedaladas, há no pedido da Ordem dos Advogados, outras razões: as tentativas de obstrução da Justiça e a denúncia de Delcídio Amaral de que Dilma “fez pressão no judiciário para soltar empreiteiros presos”.
    Merval não ignora que o pedido protocolado pela Ordem dos Advogados foi desdenhado por Eduardo Cunha, não entrou em pauta e, portanto, não está em julgamento.
    E que o pedido tramitando na Câmara tem como base da acusação as ditas “pedaladas fiscais”, que muitos juristas e até ministros do Supremo não consideram suficientes para tipificar o crime de responsabilidade, indispensável para o impeachment.
    Merval não ignora também que uma delação de réu confesso, como a de Delcídio Amaral, que não foi sequer investigada, não pode ser base para afastamento de um presidente da República.
    Ele não ignora nada disso. Mas, embora seja da Academia Brasileira de Letras, o papel de Merval Pereira na Rede Globo não é o de um jornalista ou intelectual. É o de um ideólogo, a serviço de um projeto ideológico, onde importam os fins, não os meios. Por isso ele já vislumbra um “Temer empossado”.
     

  • Ilustrações de Magliani sobre a ditadura militar no Brasil

    O Museu de Arte do Rio Grande do Sul abre na próxima quinta, 31, a exposição “Em tempo: Magliani e eu”. É às 19h, na Galeria Aldo Locatelli do MARGS.
    A mostra apresenta 25 desenhos da artista gráfica Maria Lídia Magliani ( 1946-2012) e dois exemplares encadernados  do Jornal Versus, pertencentes à coleção de Omar de Barros L. Filho.
    As técnicas usadas são: desenho a nanquim sobre papel vegetal; colagem sobre papel vegetal; e técnica mista sobre papel vegetal.
    Trata-se de uma exposição inédita que reúne ilustrações contestadoras da artista, guardadas por 40 anos pelo colega de redação e amigo Omar L. de Barros Filho.
    A exposição pode ser visitada de 31 de março a 15 de maio, de terças a domingos, das 10h às 19h, com entrada franca. Visitas mediadas a grupos podem ser agendadas pelo e-maileducativo@margs.rs .gov.br.

  • Apoio ao impeachment provocou um racha na OAB

    P.C.DE LESTER
    A Ordem dos Advogados do Brasil apoiou o golpe contra o presidente João Goulart, em 1964. Amargou mais de uma década de vergonha por ter contribuido para a ditadura.
    Teve sua estima resgatada quando grandes nomes como Raimundo Faoro a engajaram na luta pela redemocratização,
    A OAB também pediu o impeachment de Fernando Collor em 1991. Surfou na onda cívica que culminou com a queda do primeiro presidente eleito pelo voto direto, depois do fim da ditadura. Voltou plenamente ao status de uma das grandes instituições democráticas do pais
    Agora, a OAB tomou de novo posição a favor do impeachment da presidente Dilma. O mentor da idéia, o atual presidente recém empossado, já pagou um mico ao entregar o seu pedido de impeachment ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
    “A OAB quer novamente o protagonismo mas chegou atrasada”, ironizou Cunha que já conduz a todo vapor um processo da impeachment na Câmara.
    O pedido que Claudio Lamacchia protocolou na Câmara ficará numa gaveta, mas se o impeachment foi consumado, a OAB estará entre os que o patrocinaram.
    As primeiras consequências desse posicionamento já apareceram no momento mesmo em que Lamacchia chegou à Câmara, quando dois grupos, um contra outro a favor, provocaram um tumulto no local.
    Ficou claro que embora com a assinatura dos 26 presidentes de regionais a posição da entidade está longe de ser um consenso entre seus associados.
    Quase ao mesmo tempo em Porto Alegre , na frente da sede da OAB regional, cerca de uma centena de advogados e advogadas num ato de repúdio à atitude do presidente da entidade naquele momento. .
    O advogado Mário Madureira, um dos oradores, disse que a OAB deu uma facada nas costas da categoria ao se aliar a um movimento golpista, que pretende derrubar a presidente sem fundamento legal. “Qualquer estudante de direito sabe que esse pedido de impeachment não fica em pé sob o ponto de vista jurídico. É um processo político, comandado por um partido, ao qual a OAB se filia.”
    Nesse ponto os manifestantes começaram a gritar: “A verdade é dura, a OAB apoiou a ditadura”, em alusão à posição que a ordem adotou em 1964. “Estamos numa mediocridade, num baratilho doutrinário”, finalizou Madureira.
    A advogada Bernadete Kurtis falou a seguir, declarando sua “perplexidade ante o oportunismo político revelado pelo presidente da OAB”. Disse também que “o sr. Lamacchia” estava vinculando a Ordem dos Advogados a um movimento partidarizando. “Este gaúcho não nos representa”, gritou.
    Valmir Batista, ex-presidente da OAB/RS, também mencionou o oportunismo político e vinculou a iniciativa de Claudio Lamacchia a “um projeto pessoal”.
    No final, Antonio Castro leu o manifesto que seria em seguida protocolado na secretaria da OAB, como repúdio à posição a favor do impeachment. “A Constituição está ameaçada, arma-se um golpe para derrubar um governo legitimamente eleito”, diz o documento.
    Também foi anunciada a criação de um movimento de “advogados e advogadas pela legalidade democrática”.
    A extensão do racha na OAB vai se revelar nos próximos dias, mas é certo: o estrago não é pequeno.
     
     
     

  • Oito horas no acampamento Moro: impeachment e liberalismo em tempo integral

    FELIPE UHR
    De longe já se vê as diversas faixas. Lula, Dilma e o PT são os principais alvos. “Fora Dilma” e “Lula na Cadeia” são as mais comuns. Mas cartazes contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, também são encontrados.
    Na esquina junto ao Parque Moinhos de Vento, o Parcão, é possível ver melhor. A faixa “Acampamento Sergio Moro” dá nome ao local que é, em Porto Alegre, o ponto de vigília daqueles que querem o Impeachment da presidente Dilma.
    Dentro do Parque, entre as árvores, cerca de 25 barracas de diversas cores e tamanhos ocupam um canto do espaço.
    Uma divisão com fitas plásticas delimita o território. Entre as primeiras árvores, mais duas faixas, os rostos de dois conhecidos liberais, Ronald Reagan e Milton Friedman e suas célebres frases respectivamente: “Nós o Povo, dizemos ao governo o que fazer, não o contrário” e “Não existe almoço grátis”.
    Entre as tendas e “gazebos”,o pomar de “pixulecos”(o boneco de Lula preso) é abundante naquele espaço do parque. “Plantamos moedas e nasceram esses pixulecos” brinca um dos integrantes do movimento.
    Do lado das barracas, cadeiras, uma mesa e uma churrasqueira de latão. Ao lado tijolos apoiam uma grelha: é o fogão à lenha improvisado.
    Chego ao local pouco mais de uma da tarde. Sou recebido por um homem de camisa branca com os seguintes dizeres estampados: Partido Militar do Brasil. Um pouco desconfiado, ele pergunta da onde sou e porque estou tirando fotos.
    Me apresento como jornalista, pergunto o seu nome e explico a minha aproximação. Poucos instantes depois mais dois indivíduos se aproximam. Um deles é Jorge Colares, o prefeito do acampamento. “Sou o prefeito porque sou o mais velho” brinca ele.
    O outro, mais jovem, é o estudante de direito Alberto Flores. Nas primeiras horas é com ele e com o carioca Rafael Albani, que chega logo em seguida, que converso mais.
    Os dois são integrantes da Banda Loka Liberal, um dos movimentos idealizadores do acampamento.  Sentamos embaixo da lona e por algum tempo trocamos palavras sobre o atual cenário político e sobre a banda o qual fazem parte.
    Sob o nosso olhar, o senhor de camisa branca senta conosco e durante algum tempo filma nossa conversa.
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    BANDA LOKA LIBERAL: UM FENÔMENO POLÍTICO DA DIREITA
    Eles existem oficialmente há um ano, logo após os protestos do dia 15 de março de 2015. Seus integrantes tem entre média  28 anos. O nome veio ao natural, explica Alberto, inspirado nas “barras” (torcidas organizadas de futebol da Argentina) e na ideologia do Liberalismo, defendido pelos fundadores e maioria do grupo.
    A banda Loka Liberal que atualmente tem mais 40 mil seguidores de todo o Brasil no facebook, embala os manifestos pró Impeachment, com cantos que pedem a saída de Dilma e a prisão de Lula. Já são mais de 30 músicas.
    “A esquerda dá milhões de motivos para escrever tantas músicas” argumenta Rafael quando se refere a quantidade notável de composições. A mais conhecida e mais cantada “Chora Petista” que nasceu já no primeiro manifesto, pegou fácil e colaborou para a ascensão do grupo que já esteve em Brasília protestando contra o governo.
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    Quando pergunto sobre porque Dilma e Lula são os principais alvos nas músicas a resposta é imediata: “Eles são o topo da pirâmide”.
    A conversa é interrompida. Colares anuncia o almoço: um arroz, com molho e galinha. Água e refrigerante são as opções de bebida. A falta de talheres atrasa um pouco o inicio da refeição que começou em torno das quatro da tarde.
    ACAMPAMENTO ORGANIZADO e POLITIZADO
    Durante as horas que fiquei no acampamento, mas principalmente durante o almoço, a pergunta que mais ouvi foi: “Mas qual a tua posição política?”
    No acampamento Moro, todos aparentam ter argumentos suficientes para a saída de Dilma. A insatisfação com o governo e as atuais denúncias de corrupção colaboram. O liberalismo e o conservadorismo são uma convicção.
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    Todos são de direita, mas há diversos tipos: desde os que são a favor de uma possível intervenção militar aos que apenas querem o fim do atual governo. Quando pergunto se Temer é a solução, ouço a resposta: “Talvez não seja a melhor opção , mas precisamos derrubar todos corruptos” argumenta um .
    Enquanto desfruto do delicioso arroz com galinha, simpatizantes se aproximam do acampamento. Uns queriam assinar o papel com as dez medidas de combate à corrupção formulada pelo Ministério Publico Federal recentemente.
    Outros queriam a camisa da Banda Loka Liberal vendida por vinte e cinco reais.
    É o caso da dentista Daniela Meira que trabalha perto do local. Apreciadora do movimento ela diz que é a favor do Impeachment mesmo admitindo ter “um medo por não saber o que pode acontecer”.
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    Sob o regimento de Colares, tudo funciona muito bem no acampamento. Na cozinha improvisada, isopores e coolers separam carnes, águas, refrigerantes e demais mantimentos devidamente etiquetados. Térmicas e cuias também não faltam para o chimarrão matutino ou final de tarde.
    Durante o dia os integrantes vão se revezando. Alguns vêm no inicio da manhã, almoçam e vão trabalhar à tarde. Sempre há alguém que passa para saber se falta alguma coisa. Outros chegam depois da aula e do trabalho já no começo da noite e passam a noite lá. O acampamento se sustenta através de doações. Vinte reais aqui, outros cinquenta ali ajudam na manutenção.
    DEZ DIAS ACAMPADOS, MAS AINDA SEM AUTORIZAÇÃO
    Instalado há dez dias no Parque Moinhos de Ventos, o Acampamento Sergio Moro não tem autorização da prefeitura.
    Segundo Colares, o pedido foi feito ao prefeito já no primeiro dia de ocupação e ainda não se obteve resposta.
    Outro problema são os banheiros: não há sanitários químicos e o do parque fica disponível até as 18h apenas. “Sorte temos os empresários e donos dos restaurantes e bares ao redor que nos deixam usar” salienta o “prefeito”.
    Iluminação, apenas dos postes do parque e do fogo das churrasqueiras.
    O almoço termina e continuamos com a roda de política. Chegam mais dois integrantes da Banda Loka: um deles, Tiago Silveira.
    Para ele o liberalismo ainda não tem a mesma força da esquerda. “Faltam partidos que nos representem” argumenta. Quando cito PSDB ou PP os presentes na roda rechaçam: “Um é governo e o outro leva a sigla de uma Social Democracia, se dizem de direita mas são de esquerda” rebatem.
    Para eles partidos de direita ainda não existem no Brasil. O mais perto é o Democratas “casado há anos com o PSDB”.
    Tiago também lembra que durante as décadas de 60 e 70, quando não tinham dinheiro nem poder político, a esquerda utilizou do poder intelectual e cultural para se disseminar. “a direita não usou disso e os reflexos a gente está vendo”.
    Para alguns integrantes da banda Loka grande parte da esquerda possui muito poder econômico e é fortemente sustentada pelo governo.
    O tempo vai passando, e as ideias de liberalismo e de Estado mínimo, são recorrentes. Citações de filósofos, economistas e políticos liberais sustentam a discussão. Mas eles não se iludem com as mudanças a curto prazo: “Vai demorar, mas a população está dando a respostas na ruas”.
    De políticos como opção para um possível governo ouve-se Bolsonaro, Onyx e até mesmo Aécio, desde que não esteja envolvido na lava-jato. “Vamos ter que ir no menos pior” afirma um.
    Ao repórter são sugeridos, durante a conversa documentários e livros como o “Caminho da Servidão” do economista e filósofo austríaco Friederich Hayek, todos de teor liberal.
    A noite chega e com ela mais pessoas se juntam ao acampamento. Muitos vindos do trabalho.
    Um grupo de mulheres traz um presente ao acampamento: uma nova faixa com o nome do Acampamento, esta com a foto do Juiz que leva o nome de batismo do lugar.
    Mais integrantes vão se juntando. Jovens da Banda Loka também vão chegando. O chimarrão dá lugar ao fardinho de Brahma, estrategicamente colocado em um dos isopores. O fogão de tijolos dá lugar à churrasqueira de latão. É a hora do “choripan”(pão com linguiça).
    De um lado a banda Loka já com vários integrantes, presentes. Do outro, alguns e o “prefeito” Jorge Colares que prepara o salsichão. Na mesa, pronta para receber o calor do fogo uma porção de coxinhas. Assim como no almoço, o repórter é convidado novamente para a refeição. Dessa vez recuso o convite e após oito horas no acampamento Moro me retiro.
    Os integrantes do acampamento prometem a vigília até o Impeachment acontecer. Durante as várias horas de conversa sempre perguntava o que representava de fato o acampamento. A mais interessante resposta que recebi foi uma citação a Saul Alinski “que disse que todo movimento deve ter território e simbolismo e isso que estamos fazendo aqui”

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    Pomar de “Pixulecos” faz parte da composição do acampamento

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