Naira Hofmeister
Três meses se passaram desde a audiência pública sobre a revitalização do Cais Mauá de Porto Alegre, na noite de 18 de setembro. E apenas no apagar das luzes de 2015, quando uma reunião a portas fechadas entre prefeitura e empreendedor selou o aceite do Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo Relatório (EIA-Rima) e a entrega dos documentos do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU), a cidade soube que o consórcio vencedor da licitação havia respondido as questões formuladas no evento.
Foram quase dois meses para elaborar as respostas: uma primeira versão foi entregue no dia 13 de novembro, entretanto, órgãos da prefeitura fizeram observações e pediram complementações a algumas respostas – o documento final foi entregue apenas no dia 8 de dezembro.
O conteúdo permanecia sem divulgação embora possa ser consultado livremente na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam). O Jornal JÁ leu as 173 páginas e resume em 12 tópicos os principais pontos abordados.
Embora consideradas pela população uma oportunidade de aprofundar a discussão sobre o empreendimento – que tem gerado grande polêmica na cidade por propor a construção de três torres de alturas elevadas e um shopping center – as respostas não trazem grandes novidades.
De um modo geral, repetem argumentos já amplamente divulgados pelo consórcio na defesa de seu projeto, mas em alguns casos, incluem informações novas – como a decisão de não construir um subsolo para o shopping center, que será erguido ao lado da Usina do Gasômetro.
Por outro lado, desdenham da cobrança feita por grupos de cidadãos que pedem maior transparência no processo, afirmando, por exemplo, que “a participação popular (no debate) ocorreu na forma prevista em lei”.
Há, inclusive, uma crítica a esses coletivos na resposta a um questionamento sobre a falta de detalhamento do projeto para a área: além de insistir no fato de que essa etapa é posterior ao EVU (ignorando cobrança do Tribunal de Contas do Estado, que afirma não estar sendo cumprida cláusula do contrato e da licitação que previa a entrega dos projetos executivos 120 dias após o certame), o consórcio conclui da seguinte maneira:
“Durante a audiência pública, a proposta segundo os estudos constantes no EIA-Rima foi desenvolvida em projeções audiovisuais. É possível que a dificuldade relatada tenha decorrido dos tumultos causados pelos grupos contrários ao projeto durante a audiência, já que se manifestaram em alto tom durante as explanações dos responsáveis pelo projeto e seus consultores, tornando muito difícil qualquer explicação”.
1. Shopping não terá subsolo, mas será mais alto que armazéns
Um bom exemplo de detalhamento de informações e dados inéditos são aqueles dirigidos a esclarecer dúvidas sobre a construção do shopping center que ocupará uma área ao lado da Usina do Gasômetro.
O item mais importante é a revelação de que o empreendedor desistiu de construir uma garagem no subsolo do futuro edifício. As 2.386 vagas para automóveis serão criadas no térreo e no segundo pavimento, porém, serão todas internas, reservando as fachadas voltadas para o Guaíba e a avenida João Goulart para lojas.
O consórcio, entretanto, ainda não decidiu qual será a relação entre o muro da Mauá e o novo centro comercial – preocupação expressa em uma carta do engenheiro Henrique Wittler, que ajudou a projetar e construir a estrutura de proteção da cidade contra eventuais cheias do Guaíba.
“Poderá ser a parede interna do pavimento de estacionamento, subdividindo-o, ou constituindo as paredes externas da edificação, mantendo os mesmos padrões de proteção atual”, explicam os empreendedores no documento.
O detalhamento virá “oportunamente, quando for apresentado o projeto executivo”, completam.
O edifício do shopping terá três pavimentos “acima do nível natural do terreno”, e medirá 14 metros, conforme havia sido divulgado anteriormente – “apenas um pavimento mais alto que os armazéns”. O terceiro pavimento será ocupado por lojas “com mezanino”.
Nas respostas, o empreendedor esclarece porque decidiu manter a altura em 14 metros, embora os índices construtivos aprovados pela prefeitura o permitissem construir um pouco mais, 18 metros: temiam que utilizando o índice completo, o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural (Compahc) vetasse a intervenção, como ocorreu com um projeto anterior, o Porto dos Casais, nos anos 90.
2. Falta de detalhamento impede estudos sobre trânsito
Por outro lado, o empreendedor prometeu para mais adiante um estudo aprofundado sobre as chamadas “faixas de aceleração e de desaceleração” para automóveis que cheguem ao empreendimento pela avenida Mauá – item importante para garantir a segurança dos pedestres e a agilidade de acesso aos carros.
“O projeto do shopping não apresenta detalhamento suficiente para avaliação”, admite a empresa Matricial Engenharia Consultiva, contratada pelo consórcio, que se compromete a retomar o tema “quando da aprovação dos projetos arquitetônicos”.
A mesma situação se repete quando é preciso responder sobre o fluxo de veículos “em dias especiais”, que seria quatro vezes maior do que o normal e “exigiria uma operação especial por parte do empreendedor”, segundo a pergunta formulada.
“Para ser apontada uma solução específica, o projeto arquitetônico deveria estar com maior nível de detalhamento”, reitera a empresa.
3. Impactos ambientais também prescindem de projeto
Também é a falta de um detalhamento do projeto o que compromete uma análise aprofundada sobre as “áreas contaminadas” do Cais, indicadas no Relatório de Passivos Ambientais do EIA-Rima – fato que não passou despercebido aos cidadãos. “Serão devidamente analisados e estudos serão apresentados à Smam”, garante o empreendedor.
Ainda no tema ambiental, o consórcio volta a minimizar o corte de 330 árvores, argumentando que não são nativas. “Especialistas consideram que podem influenciar negativamente a flora e a fauna locais”, justifica.
Além das 330 derrubadas e das 20 transplantadas, 239 árvores serão mantidas em seus locais originais – 190 delas na Praça Brigadeiro Sampaio, de onde partirá uma passarela para pedestres acessarem o shopping. Para compensar as perdas ambientais, os empreendedores se comprometem a plantar 769 mudas nativas na cidade.
4. Rebaixamento da João Goulart foi vetado
Outro importante esclarecimento dado é que a decisão de não rebaixar a avenida João Goulart diante da Usina do Gasômetro para construir uma grande esplanada verde que unificaria as praças Julio Mesquita e Brigadeiro Sampaio com o teto verde do shopping center foi da prefeitura de Porto Alegre.
Foi com essa proposta que o projeto foi apresentado, em 2010, porém, depois a ideia sumiu das maquetes e o consórcio chegou a voltar atrás inclusive na decisão de cobrir o centro comercial com um gramado.
O consórcio se justifica: “Em razão do alargamento da João Goulart, bem como das intervenções urbanísticas naquela via e no entorno do Cais Mauá, a prefeitura de Porto Alegre decidiu que a ligação da praça com o futuro centro comercial será realizada através de uma passarela com 10 metros de largura e não através do rebaixamento da avenida João Goulart”, escrevem os empreendedores.
Em seguida, há um parágrafo entre aspas no documento, que dá a entender tratar-se do esclarecimento da prefeitura, reproduzido pelo consórcio, que diz: “O rebaixamento da avenida João Goulart seria extremamente dispendioso para os cofres públicos e tampouco poderia ser exigido do empreendedor, sem contar com os grandes transtornos que uma obra de longo prazo como esta acarretaria no trânsito da via, que é o principal acesso metropolitano em direção à zona sul”.
Apesar disso, a Matricial Engenharia Consultiva reconhece que esta seria a melhor opção ao responder outra pergunta, dessa vez sobre o “efeito barreira” que o muro da Mauá provoca sobre o Guaíba.
“O efeito barreira mencionado é causado pelo Trensurb, pelo muro e pelo elevado tráfego de veículos na avenida Mauá. A melhor solução para facilitar o acesso ao cais seria enterrar o Trensurb, substituir o muro por outra obra de proteção às cheias e enterrar a avenida Mauá”.
Mas conclui novamente salientando o alto custo de uma intervenção como esta. “Essas obras são muito caras para serem pagas pela iniciativa privada (e até mesmo pelo poder público, que possivelmente tenha outros gastos prioritários). Diante dessa limitação de ordem prática, foi feito o possível para garantir o acesso de pedestres, ciclistas e automóveis ao cais de forma segura e confortável”.
5. Abertura principal no muro da Mauá triplicará
Outro detalhe importante revelado nas respostas diz respeito ao aumento do número e também do tamanho das aberturas no sistema de proteção às cheias que o empreendimento pretende executar.
A entrada do pórtico central, no eixo da Avenida Sepúlveda, terá 20 metros de largura – quase três vezes o que mede a comporta atual, que tem 7 metros. Será exclusiva para pedestres.
A outra comporta que será ampliada é a que desemboca na rua Padre Thomé, que leva até a Igreja das Dores duas quadras acima. Será para automóveis, em dois sentidos.
Além disso, outras cinco aberturas serão feitas no muro (nas ruas Caldas Júnior, João Manoel e Araújo Ribeiro – continuação da Travessa dos Cataventos -, e duas na área do Gasômetro) –, sendo duas delas exclusivas para pedestres.
A expansão da Ramiro Barcelos até o empreendimento, que será feita através de um túnel, vai impactar no dique de contenção da Zona Norte. Como a rua desembocará em área não concedida, além da rodoviária (o limite da área do cais Mauá é a doca onde está o antigo frigorífico e a praça Edgar Schneider), haverá uma via interna de acesso até o Cais Mauá.
6. Empreendimento ficará inacessível em caso de cheia
Em resposta aos cidadãos que se mostraram preocupados com essa decisão de interferir no sistema de proteção às cheias de Porto Alegre, o consórcio avalia que o risco, embora existente, será minimizado pela manutenção do sistema, que ficará sob sua responsabilidade – é uma das contrapartidas do projeto.
“Efetivamente estudos apontam para um aumento no risco de falha do sistema quando considerado apenas o aumento no número de comportas”, explica o empreendedor. Entretanto, outros elementos como a falta de manutenção atual e a não existência de protocolos a serem seguidos pelas equipes no acionamento são mais preocupantes – serão implementados pelo consórcio e compensariam esse problema.
E se for necessário acionar o sistema de proteção de cheias, todas as comportas serão fechadas – inclusive a do túnel da Ramiro Barcelos – e o empreendimento ficará inacessível “pelo tempo que se fizer necessário” para as águas baixarem.
De qualquer maneira, o empreendedor esclarece que “as novas aberturas no muro serão aprovadas pelo Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) quando da apresentação dos projetos”.
Ainda sobre o tema das cheias, o empreendedor explica que as redes de água e esgotos serão ligadas à rede pública porém não representam risco em caso de enchentes.
Isso porque no caso da água potável e do esgoto sanitário, haverá registros individuais que permitirão cortar a ligação com a rede pública caso as águas comecem a subir – caso contrário, poderia haver um transbordamento pelos canos. Já o esgoto pluvial, que recolhe as águas da chuva, tem um sistema (já utilizado quando o cais operava como porto) de escoamento direto para o Guaíba.
7. Índices construtivos “não perderam validade”
Sobre a validade da Lei Complementar 638/2010, que determina as regras para construção de novas edificações no cais, o documento não é claro. Ao mesmo tempo em que assegura que os índices construtivos estão vigentes, dá uma explicação confusa sobre um parecer da Procuradoria Geral do Município (PGM).
Ocorre que essa lei, aprovada na Câmara Municipal na última sessão plenária de 2009 e sancionada em março do ano seguinte pelo então prefeito José Fogaça, assegurava os índices construtivos acima do padrão em Porto Alegre aos investidores que licenciassem e iniciassem suas obras até 31 de dezembro de 2012 – o que não ocorreu no Cais Mauá, o que, portanto, tornaria os índices nulos e inviabilizaria a construção do shopping e dos espigões.
A resposta ao questionamento foi elaborada pelo Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais (Gades) da prefeitura e diz assim: “A Lei Complementar 638/2010 nunca perdeu a vigência, portanto não ocorreu a nulidade dos índices construtivos. A questão foi examinada e, segundo um parecer da PGM, emitido em 27/07/2013, não há necessidade de revogação do artigo 17 por meio de Lei Complementar, pois o mesmo não prejudica a futura aplicação na medida em que assegura aos empreendedores a possibilidade disposta expressamente em lei”.
Ainda abordando o tema das construções, foram respondidas dúvidas sobre a taxa de ocupação do terreno que a empresa diz que fará. Alguns cidadãos entendiam que os novos edifícios ultrapassariam o limite determinado pela legislação, entretanto, o consórcio esclarece que não.
Ocorre que áreas de estacionamento não são computadas para fins de cálculo de área construída, portanto é preciso excluir esses volumes da conta. Isso também ocorre com “áreas de apoio”, que, ainda segundo as respostas “podem chegar a até 50% das áreas adensáveis”.
Ou seja, pode haver uma dissonância entre os números do projeto e o que efetivamente se verá construir no Cais Mauá, porque muitas construções não são consideradas como tal pela prefeitura.
8. Sugestão de estímulo a veículos alternativos
Em uma das respostas, a empresa Matricial Engenharia sugere que seja desenvolvido um programa “para estimular meios de transporte diferentes do automóvel” como uma medida compensatória.
Era a assertiva dada a uma indagação sobre a razão para a quantidade de vagas de estacionamento e preocupação com a circulação de automóveis, que segundo os empreendedores foi feita assim porque é o meio de locomoção que causa mais impacto.
“Cinquenta pessoas podem viajar em um único ônibus ou em 25 automóveis, que ocupam bem mais espaço e poluem mais”, comparam.
Já se sabia, mas o consórcio salientou em suas respostas, que a obra vai ter como contrapartidas a construção de 8,7 quilômetros de ciclovia (dos quais 1,2 serão na avenida Mauá, entre o pórtico central e o Gasômetro) e que o empreendimento terá 350 vagas em bicicletários para quem quiser chegar de magrela.
Ainda falando em acessibilidade, o consórcio informa que havia a intenção de reformular e melhorar o acesso ao empreendimento pela entrada do Trensurb/Catamarã, porém ela foi “retirada a pedido do empreendedor e da prefeitura”.
9. Projeto de restauro já está aprovado
Outra informação confirmada pelo consórcio é que efetivamente o projeto de restauro dos armazéns tombados do cais Mauá já está aprovado na prefeitura desde maio de 2013, quando foi emitida a licença de número 21876 daquele ano.
Ela autoriza “reforma sem aumento de área com demolição, restauro e conservação” e graças a isso os empreendedores puderam “limpar” o terreno, derrubando diversas edificações que foram construídas posteriormente ao cais – como o prédio do antigo refeitório dos funcionários da SPH (antes, o Deprec), e outro que abrigava uma divisão administrativa da estatal, além de coberturas que protegiam os vãos entre os conjuntos de armazéns.
10. Guindastes perdidos eram da SPH
Os empreendedores do Cais Mauá admitiram pela primeira vez que 7 dos 11 guindastes históricos do porto desapareceram do local após a concessão da área. Entretanto, se eximem da culpa, afirmando que sua responsabilidade era manter apenas quatro dos equipamentos e que os outros, justo os que sumiram, eram da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), organismo do governo do Estado.
“O Ministério Público Estadual está investigando o que houve”, complementam.
11. Comércio de rua no Centro Histórico
Em uma pergunta a respeito do impacto da construção do novo shopping no comércio de rua de Porto Alegre, o consórcio esclareceu os termos da pesquisa realizada com lojistas do bairro e que foi utilizada para mostrar o apoio da categoria ao empreendimento.
Na verdade, foram apenas 23 entrevistas feitas com proprietários ou responsáveis de estabelecimentos da região – “uma pequena amostra no intuito de destacá-las”, justificou o consórcio.
12. Atraso de um ano nas obras
Outra informação que se depreende da leitura do relatório de respostas é que os empreendedores já trabalham com um atraso no cronograma previsto no EIA-Rima de pelo menos um ano.
Segundo a tabela publicada no Relatório de Impacto Ambiental – apresentado em julho deste ano – a conclusão das obras de restauro nos armazéns era prevista para o primeiro semestre de 2017. Mas nas respostas, o prazo se estende para “meados de 2018”.
Como o shopping será construído apenas na terceira e última etapa do empreendimento, e a previsão que consta no EIA-Rima de que ocorreria entre o 2º semestre de 2018 e o 1º semestre de 2020, levaria um ano mais para começar. A conclusão mesmo, só em 2021, se tudo der certo.
Enquanto o shopping não for erguido, a área do armazém A7, que será demolido, dará lugar a um espaço para atividades ao ar livre, como eventos esportivos, feiras e exposições – e não abrigará estacionamento.
Sete cadernos compõem o documento
As 173 páginas do caderno não são inteiramente dedicadas às respostas, porque nelas estão também reproduzidos os questionamentos. São sete partes: a primeira, de questões formuladas durante a audiência pública. A segunda, as indagações feitas pelo engenheiro Henrique Wittler, a terceira, dúvidas assinadas por Milton Cruz e Izabele Colusso.
Os anexos de número 4, 5 e 6 são análises segmentadas feitas pelo coletivo Cais Mauá de Todos, sobre impactos no patrimônio histórico; de ordem urbanística e de mobilidade e, por fim, os ambientais. Fecham as indagações, no anexo 7, as formuladas pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, seção Rio Grande do Sul (IAB-RS).
As respostas vêm assinadas ou pelo consórcio Cais Mauá do Brasil, ou por empresas por ele contratadas, como a ABG Engenharia e Meio Ambiente – que formulou o EIA-Rima – a Matricial Engenharia Consultiva, a SPM Engenharia e a Simon Engenharia.
Há também esclarecimentos de órgãos da prefeitura municipal, especialmente do Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais, chefiado por Edemar Tutikian, e algumas respostas da Secretaria da Cultura, que abriga a Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre (Epahc).
Categoria: Geral
Exclusivo: as respostas do Cais Mauá aos questionamentos da cidadania
Projeto do centro comercial foi alterado após entrega do EIA-Rima Originalmente, a proposta previa um “tapete verde” ligando as praças ao shopping No Pórtico Central, dos atuais 7 metros de largura, a comporta passará a ter 20 metros Consórcio se exime da responsabilidade pela perda de patrimônio histórico | Tânia Meinerz Vereador cassado assume presidência da Câmara em Porto Alegre
Uma liminar do Tribunal de Justiça mantém no cargo o vereador Cássio Trogildo, eleito pelo PTB em 2012..
Ele teve seu mandato foi cassado em 2013 por decisão unânime do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) por “abuso de poder político e econômico”.
Em setembro de 2015, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmou a decisão e, em outubro, a Mesa Diretora da Câmara Municipal também cassou o mandato do vereador.
Em 2012, durante a campanha eleitoral, Cássio Trogildo foi acusado pelo Ministério Público Estadual de ter se aproveitado da estrutura da Secretaria de Obras, da qual foi o titular até março daquele ano, para obter votos em troca de serviços de asfaltamento e iluminação.
O MP encontrou atas do Orçamento Participativo com adendos em grafia diferente, para justificar obras feitas durante a campanha.
Uma destas obras levou asfalto até uma propriedade no bairro Ponta Grossa. Segundo investigou o MP, Trogildo era dono de parte da área.
Outra prova apresentada era uma gravação de áudio de um encontro, realizado no bairro Rubem Berta, na Zona Norte da capital, em que um representante da prefeitura e um Conselheiro do Orçamento Participativo – na época apoiadores da campanha de Trogildo – estiveram reunidos com moradores para anunciar o início do asfaltamento de uma rua do bairro.
O TRE acatou a denúncia do Ministério Público Estadual, revertendo a sentença da Justiça Eleitoral de primeiro grau, que inocentava Trogildo.
Ele recorreu da decisão e, em setembro de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a cassação, através de decisão do ministro Luis Fux.
Um mês depois, a Mesa Diretora da casa cassou o mandato do vereador, cumprindo determinação da juíza Deborah Coleto Assumpção de Moraes, da 161ª Zona Eleitoral da Capital.
No dia seguinte, com a posse do suplente já marcada, a defesa de Trogildo recorreu e obteve uma liminar, que o mantém no cargo até que o agravo de instrumento seja julgado pelo órgão colegiado do TSE.
Apesar destes fatos, em dezembro, Trogildo foi eleito presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre , por 23 votos a 3.
O novo presidente da casa e a nova Mesa Diretora tomam posse nesta segunda-feira, 4, em sessão especial, às 15h, no Plenário Otávio Rocha.
Além de Trogildo, compõem a Mesa Diretora 2016 os vereadores: Guilherme Socias Villela (PP), 1º vice-presidente; Delegado Cleiton (PDT), 2º vice-presidente; Paulo Brum (PTB), 1º secretário; Engenheiro Comassetto (PT), 2º secretário; e Mario Manfro (Rede), 3º secretário.O ano em que a estatística foi manchete
Até os bagres cegos do Arroio Dilúvio sabem que as estatísticas são instrumentos limitados, como tudo, quando se trata de “medir a realidade”.
As estatísticas que resultam das pesquisasde opinião, por exemplo, podem ser úteis para retratar um dado momento.
Mas são voláteis e, para que se possa avaliar devidamente o que elas mostram, é preciso considerar muitas variáveis.
coAté a forma como as perguntas são feitas podem influir no resultado.
As estatísticas econômicas, então, nem se fala.
Geralmente, buscam sintetizar uma situação complexa, reduzir a um índice uma teia de fatos e resultados que nem sempre convergem para uma conclusão simples.
Claro, a estatística é uma ciência consagrada, de alta importância, e não se trata de questioná-la como tal.
O que se pode e deve questionar é a sua utilização acrítica e sua apresentação como verdade, como faz usual e levianamente o nosso jornalismo.
Neste sentido, o ano de 2015 foi emblemático.
Seria um bom exercício acadêmico levantar e analisar todas as manchetes produzidas pela nossa tão autodecantada imprensa com base em dados estatísticos.
Principalmente as que comprovavam as teses que dominam as grandes redações, de que o país, desgovernado, está mergulhando “na pior crise econômica de nossa história”.
Por exemplo: uma pesquisa do Ibope apontou que “86% dos brasileiros” querem a cassação de Eduardo Cunha e que “67% dos brasileiros” querem o impeachment de Dilma.
O resultado a respeito de Cunha, não mereceu maior atenção. “Não vem ao caso”.
Afinal, Cunha, apesar do seu currículo (que ainda não apareceu por inteiro), é uma das encarnações do antigoverno.
Já em relação a Dilma, as manchetes se repetiram à exaustão, como prova de que “ninguém aguenta mais esse governo que está aí.”
Outro exemplo: foi manchete em todos os jornalões, quase em uníssono, que os shopping centers este ano tiveram “o pior Natal dos últimos 10 anos”.
Houve queda de 1% (sim, um por cento, depois de uma longa curva ascendente no consumo) nas vendas, conforme o levantamento da associação nacional dos shoppings.
O aumento de 26% das vendas pela internet, apesar de todo o fascínio pelas “novas tecnologias”, foi considerado desprezível, porque desmentia a tese da “pior crise”.
Quero dizer: apesar de todo o discurso, o “jornalismo nativo” não consegue ver a realidade sem os óculos da ideologia e sem o obsequioso auxílio dos números generalizantes.
Feliz Ano Novo!Zona Sul de Porto Alegre tem quatro pontos próprios para banho
Os portoalegrenses que permanecerem na capital no feriadão de ano novo poderão se refrescar nas praias da Zona Sul. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) divulgou nesta quarta-feira, 30, os dados do relatório de balneabilidade para as praias do Lami e de Belém Novo, válidos para este feriadão de Ano Novo. Os resultados são baseados nas últimas cinco análises realizadas pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae). Dos seis pontos analisados, quatro são considerado balneáveis, outros dois permanecem impróprios para banho, ambos no Belém Novo.
Por questões de saúde e segurança, a Smam desaconselha o banho em outros locais da orla de Porto Alegre.
A análise da balneabilidade segue o disposto pela Resolução nº 274/2000, do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), e estabelece que 80% das análises, de um conjunto das cinco últimas amostras, devem apresentar um número de Escherichia coli não superior a 800 NMP/100mL. Na última amostragem, esse valor não pode ultrapassar 2000 NMP/100mL. Além disso, o valor do PH deve manter-se na faixa de 6,0 a 9,0.
Confira os pontos:
Belém Novo:
– Posto 1 (Praça Comunal, em frente à garagem da empresa de ônibus) – Águas IMPRÓPRIAS para banho
– Posto 2 (Praia do Leblon, avenida Beira Rio, em frente à rua Antônio da Silva Só) – Águas IMPRÓPRIAS para banho
– Posto 3 (Praia do Veludo, em frente à interseção das avenidas Beira Rio, Pinheiro Machado e rua Antônio da Silva Só) – Águas PRÓPRIAS para banho
Lami:
– Posto 1 (acesso pela rua Luiz Vieira Bernardes, em frente à segunda guarita de salva-vidas) – Águas PRÓPRIAS para banho.
– Posto 2 (acesso pela rua Luiz Vieira Bernardes, em frente à primeira guarita de salva-vidas) – Águas PRÓPRIAS para banho.
– Posto 3 (avenida Beira Rio, em frente ao nº 510) – Águas PRÓPRIAS para banho.Ano novo no Parque Marinha em razão das obras do Gasômetro
A festa da virada de ano será realizada na avenida Edvaldo Pereira Paiva, junto à pista de skate do Parque Marinha do Brasil, a partir das 20h desta quinta-feira, 31 de dezembro. Tradicionalmente, a festa acontece na Usina do Gasômetro, mas este ano o local teve de ser mudado, em função das obras de revitalização da orla do Guaíba nas imediações.
A festa começa com a apresentação do Grupo Show da Imperadores do Samba, atual bicampeã do carnaval de Porto Alegre. Em seguida, o gaiteiro Renato Borghetti se apresenta pela primeira vez no Réveillon de Porto Alegre. Antes da meia-noite, é a vez da banda banda Chimarruts. A queima de fogos deve durar 12 minutos.
A madrugada será de baile, com apresentação da Banda Vanera. O DJ Claudinho Pereira toma conta do som nos intervalos das apresentações e o comunicador Gerson Pont será o apresentador da festa. O encerramento está previsto para as 2h30 desta sexta-feira, 1º de janeiro.Repórteres sem Fronteiras: 67 jornalistas morreram trabalhando em 2015
Sessenta e sete jornalistas foram mortos em todo o mundo em 2015 no exercício da profissão, de uma lista de 110 profissionais que perderam a vida em circunstâncias pouco claras, segundo balanço divulgado hoje (29) pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Os dados mostram que, além desses, também morreram 27 blogueiros e outros sete colaboradores de meios de comunicação social, elevando para 787 o número de profissionais de comunicação mortos na última década.
O Iraque teve o maior número de jornalistas mortos em 2015 (nove confirmados de 11 possíveis), seguido da Síria (nove confirmados de dez possíveis), ambos palco de conflitos armados e com a presença do grupo extremista Estado Islâmico (EI). A França subiu ao terceiro lugar (oito vítimas), após o atentado terrorista contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em 7 de janeiro. A lista negra segue com o Iémen, o Sudão do Sul, a Índia e o México.
Ao contrário do que aconteceu em 2014, a maioria das vítimas neste ano era jornalista local (97%) que trabalhava fora de zonas de conflito (64%). No ano passado, a maior parte dos 66 jornalistas mortos foi assassinada em áreas de guerra.
“É fundamental adotar um mecanismo concreto para a aplicação do direito internacional sobre a proteção dos jornalistas”, declarou o secretário-geral da organização, Christophe Deloire. Neste sentido, considera fundamental que as Nações Unidas designem um “representante especial” para a proteção dos jornalistas.
A Repórteres Sem Fronteiras também recordou que dois dos jornalistas assassinados este ano são mulheres: a francesa Elsa Cayat (que morreu no ataque jihadista contra o Charlie Hebdo), e a somali Hindia Mohamed, vítima da explosão de um carro bomba pela milícia Shebab, no dia 3 de dezembro.
Dados da RSF divulgados há duas semanas indicam ainda que neste ano 54 jornalistas foram sequestrados – alta de 34% na comparação com 2014; e 153 presos – queda de 14% na comparação com o ano anterior.
Os reféns encontram-se na Síria (26), Iémen (13), Iraque (10) e Líbia (5); enquanto os presos estão sobretudo na China (23), no Egito (22), Irã (18) e na Turquia (9). Os 66 restantes estão presos pelo resto do mundo.
Da Agência Lusa/Brasil"Aos trancos e barrancos, Dilma vai até o fim"
PINHEIRO DO VALE.
Nem tudo que reluz é ouro; nem tudo que balança cai.
Nada como uma máxima acaciana para ser o lead de uma descrição do que acontecendo hoje no Planalto Central do Brasil.
O que aparece como “fatos dominantes” são manobras secundárias, muitas delas para tapar sol com a peneira, o que é possível porque a mídia não mostra e a credulidade de nossos formadores de opinião é sequipedal, como dizia o Marechal Mourão Filho.
Nem tudo o que balança cai: a começar pelo governo da presidente Dilma Rousseff, que irá assim cambaleante, errático, agônico, parecendo um magrelo do cinema mudo no ringue enfrentando ao mesmo tempo um grupo de brutamontes ferozes, dando a impressão que a cada momento, a cada pirueta depois de levar um sopapo no nariz vai cair em nocaute.
Nada disso, rodopia, levanta-se, volta pateticamente para a luta, apanhando cada vez mais.
Fraco, sangrando e desnorteado com tanta bordoada acaba por se esquivar ao cair e assim os agressores muitas vezes acertam nos companheiros de massacre (ou sangramento, como hoje se diz). Sua fragilidade é sua força.
Chega de metáforas, vamos aos fatos:
Impeachment: Eduardo Cunha pela segunda vez melou o emparedamento de Dilma.
Na primeira, em agosto, quando perdeu as estribeiras com seu nome na lista do Janot, anunciou o rompimento do PMDB com o governo, provocando um racha no partido muito antes da hora.
O PMDB vinha articulando com as demais lideranças políticas a desidratação do governo Dilma com a nomeação de um superministério da economia, Henrique Meirelles, com apoio de Lula e a concordância velada de Aécio Neves.
O xeque ao rei se daria numa convenção do PMDB marcada para novembro.
Cunha adiantou as peças e abriu o jogo, deixando o PT numa saia justa e o PSDB sem alternativa a não ser entrar na corrente do impeachment.
Falhou o golpe, pois Meirelles não foi para o governo e Dilma, que nem o magrela do ringue, deu mais uma pirueta fortalecendo Joaquim Levy. Ganhou tempo.
A segunda bola fora chutada por Eduardo Cunha foi no final de novembro, quando usando seus poderes de presidente da Câmara abriu a contenda do impeachment, meses antes do momento adequado para os brutamontes do ringue.
Esta nova etapa deveria se dar depois das eleições municipais, depois que os partidos como um todo, mas principalmente PMDB, PSDB e PT, passassem por um teste de urnas para reconhecimento das forças efetivas de cada um.
Secundariamente, em alguns estados, os demais partidos também reavaliariam seus cacifes para o segundo round.
Mais uma vez Cunha antecipou o jogo, deixando todos com a guarda aberta e a cara exposta.
Nos três principais estados em que os três grandes disputam hegemonias – São Paulo, Minas e Paraná – os partidos disputam palmo a palmo, eleitor por eleitor. (Veja-se a belicosidade da entrevista de Aécio Neves à Folha de S. Paulo nesta segunda, dia 21).
É verdade que o problema não é eleitoral, mas político. Entretanto os resultados das eleições municipais vão influir diretamente nas composições das convenções partidárias, aí sim terreno da política, com influência nas correlações de forças no Congresso.
Nestes três colégios, o PT é adversário nos grandes municípios. PMDB e PSDB disputam a massa interiorana. Isto é importante: se nas regiões metropolitanas as siglas partidárias pouco influem, nas cidades médias e pequenas os partidos são verdadeiros divisores de águas entre as forças políticas locais.
E são as pequenas e médias cidades que formam a massa de convencionais que votam nos correligionários que formarão as chapas para 2018.
Neste caso, por enquanto não conta a posição do PMDB carioca, que nos últimos tempos vem tentando tirar de São Paulo a hegemonia do partido (vide o posicionamento em campo de seus líderes: Cunha, Picciani e outros menores).
O governador Pezão e Eduardo Paes, prefeito do Rio, ainda não precisam se posicionar abertamente com as desculpas de que têm de apoiar-se no governo.
Com as olimpíadas a pouco mais de 100 dias seria uma sandice romper com o governo federal num momento de penúria econômica, principalmente das finanças públicas.
Por outro lado a Olimpíada pode ser uma grande vitrine, tanto para eles quanto para Dilma.
Se houver briga, ela está adiada, pois o biombo serve aos dois lados. Como diria o carioca Cazuza, o Rio só vai mostrar sua cara depois dos jogos.
Nos demais estados essa luta entre os três grandes se fragmenta, aqui com nanicos da esquerda (por exemplo, PSOL no Amapá), ou da direita (DEM na Bahia e outros pequenos estados nordestinos) ou outras forças mais consistentes, como PDT e PP no Rio Grande do Sul, PSB em Pernambuco e assim por diante.
Por fim o maquiavelismo geral: ninguém quer aparecer apoiando Dilma Rousseff, dizendo que ela é o maior espanta votos nunca antes visto na História deste país.
Isso quer dizer que toda essa briga pelo rito do impeachment é balela para inglês ver.
De um lado, ninguém está pensando em impeachment antes das eleições, pois isto mudaria o quadro eleitoral francamente favorável às oposições.
De outro, e por isto mesmo, o voto secreto na Câmara pode ter encoberto mais votos favoráveis ao governo do que seria numa eleição aberta de viva voz.
O importante, neste caso, tanto para os partidos governistas quanto para os opositores, é manter o quadro até depois do pleito do primeiro domingo de outubro.
E a situação econômica? Bem, aí também todos os lados (fora do governo, claro) estão jogando no quanto pior melhor, menos os desempregados, que são as verdadeiras vítimas da crise.
Trocar Levy por Barbosa foi o bom movimento tático. Levy era o algoz. Barbosa, com seu guarda chuva de simpatizante petista poderá se apresentar como mentor de uma nova política e com isto justificar as mudanças de posições no parlamento e aprovar as três medidas fracassadas: ajuste fiscal (incluindo CPMF), reforma da previdência (e de outros segmentos do estado) e manter a rigidez monetária para segurar a inflação.
Barbosa fala em desenvolvimentismo. O que isto quer dizer? Seria só uma expressão de propaganda, pois para retomar os investimentos e crescer a economia para combater o desemprego e garantir a solvibilidade do governo é preciso dinheiro.
O governo está quebrado. Não só o federal, mas pior ainda os estados e desesperadoramente os municípios. Quanto menor pior.
O setor privado está segurando o bolso, pois suas reservas de caixa estão ali para assegurar as despesas trabalhistas com as demissões inevitáveis neste quadro. Ou seja, os empresários não vão arriscar a sobrevivência de suas empresas ameaçadas de liquidação por débitos trabalhistas impagáveis.
Com isto, ainda este ano estarão jogando mais de 100 mil trabalhadores por mês no olho da rua.
Com essa situação, muita gente do PT está dizendo que o melhor seria transformar Dilma em vítima e assim conseguir um discurso palatável para 2018.
Para a oposição o melhor quadro é o contrário disso, deixando o governo sem ar, respirando por uma só narina, mas não afundando completamente.
Portanto, a opção Michel Temer é temerária, com o perdão do trocadilho.
Seja como for, aos trancos e barrancos Dilma vai até o fim. O que para ela não é uma opção ruim, pois não é candidata e poderá passar para a História como a presidente que varreu a corrupção, um projeto iniciado com as vassouras do passado e concluído com o lava jato, aumentando o poder do rodo, lavando a sujeira que estava debaixo do tapete.Cinco fatos da revitalização do Cais Mauá que ocorreram em dezembro
Naira Hofmeister
Na última quarta-feira, 23 de dezembro, véspera do feriado prolongado de Natal e Ano Novo, uma reunião entre a prefeitura municipal de Porto Alegre e o consórcio responsável pela revitalização do Cais Mauá selou a entrega dos documentos do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) das intervenções propostas para a área.
O projeto inclui a restauração dos armazéns tombados, a derrubada do conjunto A7, que não é protegido pelo patrimônio histórico, a construção de três torres comerciais na área próxima à rodoviária e um shopping center ao lado da Usina do Gasômetro, além da abertura de 4 mil vagas para automóveis dentro do complexo.
A reunião ocorreu a portas fechadas e não foi divulgada à imprensa para evitar que movimentos contrários ao modelo se manifestassem, constrangendo autoridades e empresários.
Além de terem sido surpreendidos pelo caráter sigiloso do encontro, os grupos que pedem mais debate social sobre o futuro da área condenaram a realização do ato no apagar das luzes de 2015, quando a maior parte da população está preocupada com as festas de final de ano e a cidade se esvazia.
Mas não foi a primeira vez que fatos importantes envolvendo a polêmica concessão da área pública para exploração da iniciativa privada ocorrem no finalzinho do ano.
Houve pelo menos outras quatro ocasiões em que isso aconteceu.
2009
Em uma das últimas sessões plenárias do ano, a Câmara Municipal aprovou projeto de lei que autorizava a construção de torres de até 100 metros de altura na área do Cais Mauá – é quase o dobro do máximo permitido pelo Plano Diretor de Porto Alegre (52 metros). O texto permitia ainda a construção de um shopping center ao lado da Usina do Gasômetro.
2010
Assim como o ocorrido em 2015 com a entrega do EVU, foi também em um 23 de dezembro, só que de 2010, que o consórcio Porto Cais Mauá e o Governo do Estado assinaram o contrato de arrendamento da área. O fato só veio a público em fevereiro do ano seguinte, com a publicação dos termos do acordo no Diário Oficial do Estado.
2012
Em dezembro de 2012, o consórcio vencedor da licitação modificou a sua constituição original com o ingresso da NSG Capital, empresa do ramo de investimentos com sede no Rio de Janeiro. O grupo que assinou o contrato com o Estado era formado pela Contern, do Grupo Bertin, e quatro empresas espanholas.
2012
No dia 31 de dezembro de 2012 caducaram os regimes urbanísticos aprovados em 2009 na Câmara, que permitiam a construção de três torres e de um shopping center na antiga área portuária. Segundo a Lei Complementar 638, sancionada pelo então prefeito José Fogaça em março de 2010, a utilização dos índices estava assegurada “aos investidores que licenciarem e iniciarem suas obras” antes da data.
2015
Os empreendedores entregaram, no dia 23 de dezembro, documentos referentes ao EVU da revitalização do Cais Mauá, requisito necessário para obter as licenças para o início das obras, que estimam começar em março.Imprensa ainda não mostrou quem é Cunha
Elmar Bones.
Uma pesquisa do Ibope, feita no inicio de dezembro, aponta que 86% dos brasileiros querem a cassação de Eduardo Cunha, o presidente da Câmara acusado de corrupção.
Os jornalões não deram importância ao fato e, em todos os casos, compararam esse resultado com os 67% que manifestaram-se pelo impeachment de Dilma Rousseff, em outra pesquisa do mesmo Ibope.
A diferença, além dos quase 20 pontos percentuais entre um e outro, é que o impeachment de Dilma é o mote de uma campanha implacável que dura o ano inteiro e tem como pano de fundo uma crise política e econômica sem precedentes.
O caso de Cunha é outro. Ele foi apresentado pela mídia quase como um herói quando se elegeu presidente da Câmara, em fevereiro. Seu passado tenebroso foi escamoteado.
Nem mesmo quando apareceram as graves denúncias sobre suas contas na Suiça (obra de promotores suiços, diga-se) e, posteriormente, seu envolvimento nas propinas da Operação Lava Jato, nem quando mentiu na Comissão de Ética…nem quando a polícia federal com ordem judicial fez buscas em suas casas…
Em nenhum momento apareceu em qualquer dos veículos da grande imprensa uma reportagem que mostrasse de corpo inteiro esse triste personagem que alcançou o terceiro posto mais alto na hierarquia do poder nacional.
O único perfil de Eduardo Cunha publicado por um veículo de grande alcance foi uma reportagem de capa da revista Veja, em março de 2015, logo depois de sua eleição para a presidência da Câmara.
Esse perfil, na verdade, revela mais sobre a Veja do que sobre Cunha.
A revista apresenta-o como “o político mais poderoso do momento”, capaz de “resgatar a independência do parlamento frente ao executivo”.
Destaca “sua capacidade de trabalho, disciplina e o conhecimento das regras do jogo”.
Diz, claro, que ele começou como presidente da Telerj, em 1991, por indicação de Paulo Cesar Farias, o PC, chefe do esquema montado no governo Collor.
Mas essa ligação com PC aparece como um detalhe sem importância.
Assim como os recursos que arrecadava junto a “empresários amigos” para ajudar seus aliados, “agindo sempre em estrita obediência à Constituição”.
Depois de dois anos na Telerj, Cunha foi presidente da Companhia Estadual de Habitação, no governo de Anthony Garotinho. “Em seis meses teve que renunciar acusado de beneficiar a empresa de um ex-aliado”, mas “continuou com grande influência no governo, dando as cartas e trazendo para as obras do Estado a Delta Engenharia, então uma empresa pernambucana que tentava contratos com o governo do Rio”.
Diz o texto, assinado por cinco repórteres, que por sua eficiência e conhecimento, Cunha sempre foi lembrado por empresários para atender suas “demandas complexas” e “como só relógio trabalha de graça, Cunha, conta-se, cobra caro dos empresários por sua dedicação aos temas de interesse deles”.
“É pouco ético? É discutivel”, diz o texto que, em seguida, invoca uma fonte em off para justificar: “As vitórias atribuidas ao trabalho dele na Câmara com a tramitação de interesses legítimos de grupos econômicos são obtidas com toda a transparência. Foi assim conosco, diz um empresário do ramo da mineração”.
O fecho é primoroso: “Cunha pode não ser, como parece mostrar seu passado, um monumento a ética. Mas, desde que seus pecados pertençam ao passado e seu compromisso seja com a saúde institucional, a constituição e a democracia, há esperança…”
2015 foi um ano caótico para a segurança pública do RS
MATHEUS CHAPARINI
O ano de 2015 foi péssimo para a segurança pública do Rio Grande do Sul e a tendência é piorar em 2016. Essa é a análise que fazem as entidades representativas dos profissionais de segurança. A população assistiu a episódios raros ou inéditos no Estado como parcelamento de salários, aquartelamento de brigadianos e queima de ônibus em represália a mortes em operações policiais.
“Incendiaram seis ônibus em Porto Alegre e o governador não veio a público para dizer o que ia fazer. O governador só diz que não tem dinheiro, isso qualquer um pode dizer, nós elegemos um governador para apresentar soluções”, critica Isaac Ortiz, presidente do Ugeirm (Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia-RS)
Os assaltos a banco dispararam no Estado. Em agosto um posto bancário localizado dentro da Secretaria de Segurança Pública foi assaltado. Segundo levantamento do Sindbancários, foram 208 ataques de janeiro a novembro. Algumas datas chegam a registrar até cinco ocorrências. No dia 6 de novembro, por exemplo, foram registrados dois assaltos a postos bancários, um assalto a agência com sequestro de dois vigilantes, um arrombamento de agência e um roubo de caixa eletrônico.
Para as entidades, o ano começou mal já no dia 2 de janeiro, quando o governador José Ivo Sartori (PMDB) editou o decreto 52.230, que congelou os investimentos e barrou contratações e promoções. Os profissionais temem que o próximo ano seja ainda mais difícil, caso o PLC 206/2015, que cria Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual, seja aprovado na Assembleia Legislativa. “Esse projeto é o decreto do começo do ano em forma de lei”, avalia Ortiz.
Para o presidente do Sindiperícias, Henrique Bueno Machado, trata-se de uma questão de visão de Estado. “Não dá pra ficar só com esse discurso de superávit e não prestar os serviços básicos. Muitos países ricos têm segurança pública e educação de qualidade e não tem superávit.”
“Falta de planejamento é o problema mais grave”
Isaac Ortiz, presidente do Ugeirm
Um dos problemas compartilhados pelas polícias é o déficit de pessoal. O último concurso para a área foi em 2013, mas os aprovados não foram chamados, pois as nomeações estão congeladas desde o começo do ano. Somente na Polícia Civil, seriam 650 agentes a mais trabalhando. Atualmente, a Civil conta com cerca de 5 mil agentes, a Ugeirm estima o déficit em 6 mil vagas.
“Há 30 anos tínhamos mais policias que hoje. Fui trabalhar em Ronda Alta, em 1985, e éramos cinco policiais na cidade. Hoje, Ronda Alta tem um policial só. Em cidade que tem só um policial, ele não consegue fazer nada, vira um burocrata registrador de ocorrência”, afirma Ortiz.
Mas a falta de efetivo não é o principal problema apontado. Para Ortiz, a questão mais grave é a falta de planejamento, ele defende que a área da segurança pública precisa de um programa bem estruturado e que possa ser visualizado pela população, para trazer maior sensação de segurança.
“Houve uma explosão de homicídios no Estado. Crimes que a gente não via, estão se tornando rotineiros: execuções em qualquer lugar, inclusive de crianças, chacina, linchamento. Estamos perdendo um espaço terrível para a criminalidade e vamos levar um bom tempo para recuperar.”
“Não tem como combater o crime desse jeito”
Leonel Lucas, presidente da Abamf
“Pra nós foi um ano péssimo. O governo trancou qualquer verba para a segurança pública, estamos trabalhando com o mínimo do mínimo”, analisa Leonel Lucas, presidente da ABAMF (Associação Beneficente Antônio Mendes Filho – Brigada Militar). “Os marginais estão mais organizados que a segurança pública, eles têm um planejamento, nós não temos.”
Lucas aponta que este foi o pior dos últimos cinco anos para os brigadianos, em relação a casos de policiais feridos ou mortos no cumprimento do dever. Ao todo já são 12 mortes em confronto. O mais recente aponta para falha do equipamento.
Além disso, o número de suicídios assusta: 8 brigadianos se mataram desde o começo deste ano. Por ser um trabalho que envolve risco e submete o profissional a situações de estresse, é comum que aconteçam alguns casos, mas, segundo Leonel Lucas, o comum são 2 ou 3 em um ano.
A tropa está desanimada. “Nunca teve aquartelamento, nunca teve ônibus incendiado, nunca teve a comunidade violenta contra os agentes da segurança pública como agora.” A suspensão das promoções, que ocorrem rotineiramente em abril e novembro, se somou aos motivos de desânimo. “A gente fica preocupado, porque a expectativa pro ano que vem é piorar.”
Além disso, a Brigada enfrenta também os problemas apontados pelos policiais civis. Falta efetivo e as nomeações dos 2.500 aprovados no concurso de 2013 estão congeladas pelo governo do Estado. Ainda assim, não seria suficiente para substituir os 3.800 policias que devem pedir afastamento ou aposentadoria até o final do ano, segundo levantamento da associação. “Pela lei, nós temos que ter 35 mil brigadianos, hoje são 17 mil.” O número é insuficiente para cobrir os 497 municípios gaúchos. Há cidades com apenas um policial ou até mesmo sem policiamento. Além disso, os brigadianos enfrentam graves problemas com equipamentos.
“Tem brigadiano trabalhando com 38 na cintura no interior, que é onde acontecem os maiores assaltos. Os caras têm metralhadora e pistola, como o Brigadiano vai combater? O brigadiano com um Corsa 1.0 e os caras com carro 2.0. Não tem como combater o crime desse jeito.”
“O colega que morreu é o simbolo do sucateamento que está a Brigada Militar”
Na última segunda, dia 21, foi confirmada a morte do soldado Marlon da Silva Corrêa, baleado uma semana antes em um tiroteio com assaltantes na Zona Norte de Porto Alegre. Foi o décimo segundo brigadiano morto em confronto em 2015. Relatos de colegas de Marlon dão conta de que sua pistola teria falhado no meio da troca de tiros, o radiocomunicador da viatura também teria apresentado defeito quando o soldado tentou chamar reforço e até mesmo o colete à prova de balas está sob suspeita. O equipamento foi enviado para a perícia.
Leonel Lucas critica o sucateamento da Brigada Militar. “Vários estados compram colete que protege todo o dorso, aqui eles compram o mais barato. A brigadiana mulher, por exemplo, usa o mesmo colete que eu uso, não pode, existe um colete feminino.”
Em reunião da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa, no dia 1º de dezembro, um representante dos cabos e soldados da Brigada denunciou que três das mortes de brigadianos teriam sido causadas por deficiência dos coletes à prova de balas.
“O governador nunca foi receptivo”
Manifestação dos servidores em agosto
Para o presidente do Sindiperícias, Henrique Bueno Machado, a pauta mais definitiva em relação ao cenário de 2016 é mesmo o PLC 206. “Se este projeto for aprovado, em 4 anos nosso salário vai ser reduzido pela metade”, avalia.
O Instituto Geral de Perícias enfrenta também problemas com a falta de reposição de pessoal. Dez postos do Instituto Médico Legal correm risco de fechamento no início de 2016, por falta de servidores. O sindicato estima o déficit entre 200 e 300 vagas. A falta de mão de obra gera também demora no resultado dos exames.
Machado critica a falta de diálogo por parte do governo do Estado. “Nunca tivemos uma audiência e não foi por falta de procura, o governador nunca foi receptivo. Fica difícil construir um planejamento de segurança pública sem ouvir as entidades que trabalham com isso há anos.”



