Naira Hofmeister.
A memória prodigiosa para “lembrar de nomes esquisitos” somada à curiosidade
investigativa permitiu ao cineasta Jorge Furtado criar uma pequena enciclopédia de
casos que exemplificam como a imprensa trai seu compromisso de informar o cidadão
no Brasil.
Ele deu uma amostra disso ao público que assistiu a sua palestra na Assembleia
Legislativa do Rio Grande do Sul, no último sábado, 12 de dezembro. Disse mais: que a
irresponsabilidade da mídia alimenta o espírito golpista da sociedade, na medida em que
não oferece uma correta leitura da realidade brasileira.
“Os jornais estão impregnados de ideologia. A infâmia e a fama são absolutas nessa era
da mídia”, lamentou.
Apesar de sua crítica da imprensa, Furtado tinha uma perspectiva positiva, graças à
novíssima lei que garante o Direito de Resposta àqueles que se sintam prejudicados por
uma matéria distorcida ou mal apurada. “É uma novidade que pode mudar muita coisa”,
exaltou o cineasta, apontando o episódio.
Mal sabia Furtado que dois dias após sua fala, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ)
– que representa os conglomerados de comunicação do país – entraria com uma ação no
Supremo Tribunal Federal (STF) para cassar a recém-editada lei, nesta segunda-feira
(14).
Segundo o portal especializado Jota, a Ação Direta de Inconstitucionalidade tenta anular
cinco dos 12 artigos que regulamentam o Direito de Resposta. A justificativa da ANJ é
que a norma “afronta garantias constitucionais a exemplo do devido processo legal, do
contraditório e da ampla defesa”, entre outros.
“Na prática, o instituto do direito de resposta, ao invés de pluralizar o debate
democrático, converteu-se em instrumento capaz de promover grave e inadmissível
efeito silenciador sobre a imprensa”, defendem os jornalões.
O cineasta não sabia ainda da iniciativa dos empresários da comunicação, mas de sua
palestra pode-se concluir que daria uma gargalhada diante dos argumentos.
“A imprensa publica o que quer, sem checar nenhuma denúncia. Depois, quando elas
não se confirmam, ninguém volta para retificar”, condenou no sábado.
Além da investida contrária da ANJ, a força da medida ficou evidente quando O Globo
publicou uma errata na capa do jornal, desmentindo uma informação que havia sido
manchete em outubro e que vinculava o filho de Lula à corrupção investigada pela
Operação Lava Jato – não por força da Justiça, mas por iniciativa própria do jornal, dado
que a norma estava por ser assinada pela presidenta Dilma Rousseff.
O caso Rubnei Quícoli
Um dos “nomes estranhos” que Jorge Furtado nunca apagou da memória é Rubnei
Quícoli – “já pensou um personagem com nome desses?”, introduziu.
Rubnei Quícoli protagonizou uma ficção em 2010, mas ela saiu no jornal como verdade
e Furtado lembra do episódio com detalhes. “Deram uma foto de meia página dele com
um terno preto em cima de um edifício muito alto. Parecia assim uma campanha da
Hugo Boss”, comparou.
A imagem ilustrava uma reportagem em que Quícoli acusava a ex-ministra da Casa
Civil Erenice Guerra de ter cobrado propina para negociar um empréstimo do BNDES a
um empreendimento seu na área de energia eólica.
Erenice chegou a ser investigada, mas nada sendo provado contra ela, o processo foi
arquivado. A Folha de S.Paulo se limitou a noticiar o fim do inquérito.
A indignação de Furtado, entretanto, recai sobre o inusitado fato de que o denunciante,
Quícoli, era um bandido com extensa ficha criminal. “Ele tinha várias passagens pela
polícia. Chegou a tentar vender um caminhão e sua carga roubados ao antigo dono e
depois tentou matar o motorista que o entregou”, recordou.
“E esse sujeito ocupa a capa da Folha de S.Paulo”, surpreende-se, passados já cinco
anos do episódio.
Furtado coloca no mesmo cesto outros nomes que memórias ordinárias são capazes de
reconhecer: o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) ou os delatores da Lava Jato. “São
bandidos que alimentam diariamente a imprensa, são eles que fazem as capas de jornais
diariamente”, conclui.
A corrupção na Petrobras
O cineasta – que levou às telas de cinema seu olhar sobre a imprensa brasileira no
documentário O Mercado de Notícias (fragmentos podem ser assistidos aqui;
http://www.omercadodenoticias.com.br/) – condena a partidarização da imprensa no
Brasil, coisa que, aliás, foi assumida pela ex-presidente da ANJ Judith Brito, quando
ainda comandava a entidade: “Os meios de comunicação estão fazendo de fato a
posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”, ela
explicou em 2010.
“Neste caso, a imprensa assume que deixa de fazer jornalismo e passa a fazer política.
Não se dedica mais a buscar a verdade factual e isso é um grave problema para a
democracia”, defendeu.
Furtado exemplificou com o caso da Petrobras, que o senso comum já se acostumou a
relacionar a uma desvalorização e desmonte que seriam consequências diretas da
corrupção ocorrida nestes 13 anos de governo do PT.
“Só que outro dia descobri que a Petrobras se tornou a maior petrolífera do mundo este
ano! Que bateu o recorde de exploração de petróleo, alcançando 1 bilhão de barris. Esse
ano!”, repetiu.
Ele também leu manchetes dos jornais dos anos 60, nas quais eram relatados problemas
de corrupção graves na estatal. Lembrou ainda que as denúncias dos jornalistas Paulo
Francis, na década de 90, e Ricardo Boechat ainda nos anos 80 sobre os desvios de
verba para uso pessoal na Petrobras. Boechat, hoje no grupo Bandeirantes, ganhou o
prêmio mais respeitado do jornalismo brasileiro com sua investigação, O Esso.
Mesmo analisado o atual escândalo, Furtado lembra que em seus depoimentos, os
delatores dizem que “essa quadrilha” operava na Petrobras desde 1997 – antes, portanto,
de o PT assumir o Palácio do Planalto.
Outro elemento que lhe causou estranhamento foi ver uma reportagem sobre o
pagamento de propina na estatal ilustrada com a imagem de uma lista dos receptores de
dinheiro. O jornal borrou um trecho onde aparecia a inscrição “15M para JS”, seguidos
do endereço e do telefone do ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB).
“Puseram uma tarja preta para não mostrar a vinculação com Serra. Mas quando o
Bumlai (José Carlos Bumlai) foi preso, ele era o ‘amigo do Lula’”, comparou.
“A eleição não terminou”
O bate-papo com Jorge Furtado foi uma promoção dos gabinetes dos deputados do
Partido dos Trabalhadores (PT) Stela Farias (estadual) e Henrique Fontana (federal).
Era um momento que vinha sendo acalentado desde o ano passado, ainda quando se
discutia a reforma política que acabou saindo de maneira enviesada. Na ocasião, se
achou melhor deixar “para depois da eleição”.
“Só que a eleição ainda não terminou, ela não termina nunca”, lamentou o cineasta.
Categoria: Geral
"Imprensa alimenta espírito golpista", segundo Jorge Furtado
Primeira turma de Sem Terra se forma em Veterinária
Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST
Depois de cinco anos de trabalhos acadêmicos e pesquisa prática, 45 alunos da 1ª Turma Especial do Curso de Medicina Veterinária para assentados da Reforma Agrária no Brasil colam grau nesta sexta-feira (18), no município de Pelotas, na região Sul do Rio Grande do Sul. Ela terá como patrono o deputado Adão Pretto (in memoriam).
A Turma Especial de Medicina Veterinária é uma parceria entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), onde ocorreram as aulas, através do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). A segunda turma iniciou com 60 alunos, em 2013.
A cerimônia de formatura começa às 17h no Theatro Guarany, no Centro de Pelotas. Depois das 21h será realizada uma festa de confraternização e em comemoração à conquista do curso, no Clube Centro Português 1º de Dezembro.
Os formandos são agricultores assentados, acampados e filhos de beneficiários da Reforma Agrária de seis estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Ceará.
Para o dirigente nacional do MST, Cedenir de Oliveira, cursos superiores como o de Medicina Veterinária, conquistados através de luta do Movimento, “são ferramentas fundamentais para ajudar na implementação da Reforma Agrária Popular no país, que, além de ser uma estratégica política do movimento, é uma forma de gerar desenvolvimento com a produção de alimentos saudáveis para a população brasileira”.
As atividades também integram a 5ª Semana Adão Pretto, que tem como objetivo comemorar a memória do deputado que ajudou a fundar o MST e completaria 70 anos em 2015.
Oito anos depois
O curso começou a ser pensado ainda em 2005 pelo MST, quando foi encaminhado um projeto para a capacitação de jovens em Medicina Veterinária ao Pronera. No ano de 2007 ocorreu a assinatura do convênio e foi realizado vestibular para o ingresso de 60 acadêmicos.
Porém, o Ministério Público de Pelotas entrou com uma ação civil contra a realização do curso e as aulas iniciaram apenas quatro anos depois, no primeiro semestre de 2011, após longa disputa judicial que terminou com o parecer favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao Incra no final de 2010.
As aulas iniciaram em regime de alternância, ou seja, os estudantes passavam de 80 a 120 dias na Universidade e depois mais dois meses nas suas comunidades, realizando trabalhos acadêmicos e de pesquisa prática.Segurança: falta uma política de verdade
Jeferson Fernandes*
O Secretário Estadual da Segurança, Wantuir Jacini divulgou na imprensa resposta às críticas que sua gestão vem sofrendo, devido ao fato de a criminalidade estar cada vez mais em alta no Rio Grande do Sul.
Ele ponderou que “trabalha diuturnamente” para resolver os problemas. Alega que a impunidade é culpa de várias instituições e afirma que a BM executou 100 mil prisões em 2015, com destaque para “600 traficantes”.
Anunciou como medidas salvadoras o investimento de R$ 29,2 milhões em um “laudo eletrônico” e a construção de 1246 vagas no sistema prisional. Encerrou dizendo que sua gestão é eminentemente técnica, a começar com a sua figura.
Não cabe questionar a dedicação integral ou não da equipe do governo Sartori na busca de saídas para a segurança, bem como o trabalho cotidiano dos membros da Brigada Militar, Polícia Civil, IGP e SUSEPE. Todavia, passo a criticar a política equivocada, sob pena de mais vítimas estarem sofrendo a cada dia.
A principal causa não abordada é a briga inconsequente criada pelo governo com o conjunto dos servidores, atrasando salários, cortando verbas de custeio e ameaçando tirar direitos conquistados. Isso desativou várias frentes de policiamento ostensivo e investigativo, inclusive levando um número recorde de profissionais a pedirem aposentadoria, por desestímulo. Ao contrario: as organizações criminosas se estimulam a agir ousadamente em todos os espaços.
Quando ele apresenta um universo de 100 mil prisões e destaca 600 como sendo de traficantes, já evidencia que ao invés de impunidade, temos uma seletividade equivocada nos aprisionamentos. Haja vista que 50% de toda população prisional é formada por presos acusados por tráfico e que mais de 90% dessas prisões são em flagrante, capturando jovens que atuam como “aviõezinhos”.
Prender massivamente sem levar em consideração a superlotação das unidades prisionais e até Delegacias de Polícia é omitir-se no processo de fornecimento de recrutas para as facções criminosas. Essas ocupam o vácuo deixado pelo Estado. Fornecem bens materiais e proteção aos jovens presos, em troca de execução de tarefas dentro e fora do cárcere.
Alguém tem de convencer o principal agente político da segurança estadual de que estamos vivenciando uma das mais graves crises nessa área. Os homicídios crescem, os roubos qualificados, os assaltos, os feminicídios, a violência contra as crianças, etc. Decepciona ver que as saídas apontadas pelo gestor são apenas “laudo eletrônico” e 1246 novas vagas nas penitenciárias.
A continuar assim, infelizmente, seguiremos a sofrer com a insegurança, especialmente as pessoas pobres, que não tem como contratar serviço particular. Apresentei um relatório da situação prisional no RS, pela Subcomissão do Subcomissão do Sistema Prisional do RS, com propostas específicas para a área.
Cabe saber se o atual governo vai querer escutar o parlamento, os profissionais da segurança e a sociedade, que clama por medidas efetivas, ou vai continuar com uma gestão que se considera tecnicamente perfeita.
* deputado estadual do Partido dos TrabalhadoresAssembleia Legislativa adota a pauta do Cais Mauá
Naira Hofmeister
Depois que integrantes do coletivo A Cidade que Queremos provocaram, a Assembleia Legislativa parece ter assumido a pauta da revitalização do Cais Mauá como sua incumbência.
Ao ao menos a Comissão de Saúde e Meio Ambiente, onde os movimentos questionaram o modelo de revitalização proposto pela prefeitura e pelo consórcio vencedor da licitação, há um interesse de esclarecer pontos do projeto.
A pauta da reunião da quarta-feira (16) do colegiado traz como único item do dia – além da apresentação do relatório anual das atividades – a presença do secretário municipal do Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais de Porto Alegre (Gades), Edemar Tutikian, para apresentar seu ponto de vista sobre a revitalização.
A assessoria de Tutikian, entretanto, informa que ele não comparecerá porque tem outro compromisso. “O convite foi feito de última hora”, justifica a secretaria, acrescentando que será enviado um ofício à comissão com alguns argumentos.
Visita reforça simpatia ao projeto
Na segunda-feira (14), o deputado estadual João Reinelli (PV) foi pessoalmente até o Cais Mauá para saber detalhes do projeto. “Já que a discussão chegou à Assembleia, achei importante conhecer melhor o que está previsto”, justificou.
Ele foi recebido pelo diretor de operações do consórcio Cais Mauá do Brasil, Sérgio Lima, que o guiou por uma breve visita em alguns armazéns e mostrou a ele a maquete do projeto.
Reinelli já tinha uma opinião positiva sobre a proposta. O encontro serviu para reforçar sua opinião. “Eu fiquei muito impressionado. Não tive acesso a plantas e detalhamentos técnicos, mas me convenci de que vai ficar super bacana. Será uma valorização para Porto Alegre”, acredita.
E deputado não chegou a comentar com o representante das empresas sobre as irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) que, segundo o órgão, seriam motivo para a rescisão do contrato de concessão.
Explicou que já havia conversado “com fontes na prefeitura” que o esclareceram sobre alguns aspectos: a não apresentação do projeto executivo dentro do prazo acertado, por exemplo. “Os prazos não foram cumpridos por deficiências do município e do Estado e não pelo empreendedor”, assegura.
A experiência foi tão proveitosa que ele irá propor, na reunião de quarta, que seus colegas de comissão façam uma visita conjunta ao local. “Acho importante porque não há outra forma de conhecer o projeto sem visitar a área”, argumenta.
movimento fez intensivo na casa
A reunião desta semana será a quarta consecutiva na qual o Cais Mauá é pautado.
O ponto de partida foi uma audiência pública sobre a Corsan em novembro, onde dois integrantes do coletivo – o ex-secretário de Meio Ambiente de Porto Alegre Caio Lustosa e o sociólogo e organizador do Cais Mauá de Todos João Volino Corrêa – se manifestaram pedindo que o Legislativo interferisse para ampliar o debate.
Na ocasião, eles lembraram que cabe à Casa fiscalizar o poder Executivo, que coordenou a licitação e arrendou a área para o consórcio vencedor. E mencionaram a inspeção do TCE-RS que apontou irregularidades no cumprimento do contrato.
A intervenção deu frutos e o grupo foi convidado para apresentar o conjunto de questionamentos em uma reunião da comissão – o que foi feito na semana seguinte.
Sete dias semana depois, os deputados aprovavam por unanimidade a realização de uma audiência pública sobre o tema, que já agendada para o dia 16 de março de 2016.Fator Eduardo Cunha contamina o impeachment
Já foi dito aqui: o maior erro da oposição foi acreditar que poderia tirar proveito da falta de escrúpulos de Eduardo Cunha para seu projeto de impeachment da presidente Dilma.
Elegeu Cunha e não percebeu, nem mesmo depois que ele foi denunciado publicamente, o risco de deixar nas mãos de Cunha a iniciativa sobre o processo de impeachment na Câmara.
O fracasso das manifestações de domingo tem muito a ver com isto. Aquela cidadania consciente, que é maior do que se imagina, é que faz a diferença quando se trata de ir às ruas. Ela sabe intuitivamente que com Cunha não se vai a lugar algum.
A operação policial na casa de Eduardo Cunha na manhã desta segunda-feira é a outra face da moeda. O Judiciário não tinha como deixar Cunha escarnecendo da cidadania por muito tempo, mesmo com o silencio obsequioso da mídia.
Derrubado Cunha, descobriram Catilina. Mas a pergunta é: como fica o impeachment deflagrado por Cunha?.
Tudo indica o caminho da cova…mas, sabe como é, um fantasma sempre pode voltar.Grupo RBS muda comando sem afastar Duda Melzer
A RBS anunciou mudanças relevantes na sua estrutura organizacional nesta segunda-feira (14). Há tempos especulava-se sobre a substituição do presidente do grupo de comunicação, Eduardo Sirotski Melzer, o Duda.
No mercado, circulavam informações de que uma empresa caça-talentos já estava buscando um nome para o seu lugar.
As alterações mantém Duda no cargo. O presidente, porém, vai precisar dividir com outro executivo a gerência da área noticiosa da empresa a partir da criação do posto de CEO de operações de mídia, que será ocupado pelo atual vice-presidente de Finanças, Claudio Toigo Filho.
Por outro lado, o herdeiro da família proprietária de quatro canais e 18 retransmissoras de TV, oito jornais impressos e sete rádios no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina acumulará também a função de presidente do Conselho de Administração do grupo, substituindo o tio, Nelson.
As relações entre os dois Sirotsky que se revezaram no poder estavam azedadas desde que Duda implementou um impopular plano de corte de gastos na empresa, que teve péssima repercussão – inclusive entre leitores, ouvintes e telespectadores da empresa.
“O atual presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, após uma vida dedicada à empresa, decidiu continuar contribuindo com a RBS como membro do conselho e em questões editoriais e institucionais, mas sem funções executivas”, justificou um comunicado publicado na página da corporação de mídia.
O herdeiro, entretanto, prometeu dar sequência à gestão do tio antecessor. “Serei um garantidor do nosso propósito e dos valores da nossa família”, prometeu Duda.
Marcelo Rech volta ao círculo de poder
Um dos homens de confiança de Nelson Sirotsky que haviam perdido influência com as novas regras implementadas por Duda era o diretor de jornalismo, Marcelo Rech — o que, segundo Luiz Cláudio Cunha provocou “uma cisão irreparável nas relações entre tio e sobrinho”.
A empresa não tardou a remediar e anunciou, no mesmo comunicado a criação da Vice-Presidência Editorial para Rech, que também assume a liderança do Comitê Editorial da RBS.
As mudanças passam a valer a partir de janeiro de 2016.
Demissão ou desapego?
A figura de Duda Melzer ganhou fama além dos círculos da comunicação em agosto do ano passado quando anunciou a demissão de 130 funcionários por e-mail, o que ele considerava uma demonstração de “coragem e desapego”.
“Temos apoio dos acionistas nas nossas decisões e temos também (…) coragem, energia e desapego para deixar de fazer coisas que não agregam e investir no que pode nos fazer crescer”, escreveu, na ocasião.
Duda também saudou as novas operações da empresa, vinculadas à indústria da bebida. “Muitos de vocês que já são sócios da Wine agora poderão também ser da Have a Nice Beer, o maior clube online de cervejas da América Latina, que está vindo para o Grupo”, destacou em seu comunicado.
Era tudo parte de um plano orientado pelo consultor Cláudio Galeazzi, que segundo Luiz Cláudio é conhecido como Galeazzi Mãos de Tesoura porque atua nas empresas para promover cortes em nome dos resultados positivos para acionistas.
Com a repercussão ruim, as demissões ocorrem a conta-gotas no grupo.
PDT busca unidade em defesa de Dilma
Naira Hofmeister, para a CARTA MAIOR
Herdeiro de um legado que inclui a sistematização dos direitos do trabalhador, a criação da Petrobras e a resistência ao golpe, protagonizados em momentos distintos por Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) tenta manter, neste final de 2015, a unidade em torno da defesa do mandato presidencial de Dilma Rousseff.
Não está fácil, o que ficou comprovado na convenção estadual da sigla, ocorrida no último sábado (12), em Porto Alegre.
Nacionalmente, a executiva do PDT fechou posição em apoio ao governo, porém há dissidências e a decisão final sairá de uma reunião do diretório nacional nos dias 21 e 22 de dezembro, no Rio de Janeiro.
O encontro em Porto Alegre foi sintomático porque reuniu as principais lideranças estaduais, o presidente nacional do partido, Carlos Lupi, e o pré-candidato à presidência da República Ciro Gomes.
Os dois últimos sustentaram a posição atual da executiva nacional, enquanto o senador pelo Rio Grande do Sul, Lasier Martins, defendeu o desembarque imediato do governo Dilma e o “direito ao prosseguimento das investigações’, rechaçando os gritos da plateia que o acusavam de incentivar o golpe.
Teve também outro elemento especial, pois a convenção ocorreu apenas um dia depois do ato de adesão multipartidária à nova Campanha da Legalidade, que havia sido lançada uma semana antes pelo próprio Ciro e pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), em São Luís.
“O voto dá legitimidade para o político defender uma posição, porém a história sobre a qual está fundado este partido nos impele para a luta. Não vamos admitir que se rasgue a Constituição do Brasil”, conclamou Lupi.
Ele se referia à posição de Lasier Martins, que dividiu os convencionais. Enquanto uma parte da plateia gritava “saiam”, uma referência ao rompimento com o governo Dilma Rousseff, outros gritavam “não vai ter golpe”. A juventude do PDT, megafone na mão atacou de “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” – uma referência à extensa carreira que Lasier Martins teve como apresentador e comentarista nas rádios e TVs do grupo RBS, a afiliada da Vênus Platinada no Rio Grande do Sul.
Como a empresa de comunicação gaúcha está sendo relacionada entre as que teriam comprado pareceres de conselheiros do Carf para anular dívidas fiscais com o governo federal, não faltaram também menções à Operação Zelotes.
Alerta para o arrependimento
Diante do quadro de divisão, Lupi tentou mostrar aos militantes que discordavam de sua defesa do mandato de Dilma que o arrependimento poderia vir depois.
“Em 1954 havia multidões nas ruas pedindo a saída do Getúlio, incentivados pelas manchetes dos jornais. Mas quando ele deu um tiro no coração todos choraram sua morte e foram se despedir daquele líder”, recordou.
Ele apelou também para a imagem de valentia do caudilho trabalhista. “Getúlio deu a vida por este país sem consultar a ninguém. Foi um ato solitário, no qual ele deixou claro que a sua voz era a sua vida”, ilustrou.
Também foi um elogio à hombridade sua analogia com 1961. “O (palácio) Piratini foi palco de um chamado radical do Brizola que escreveu a página de ouro da política brasileira como o único civil que liderou um movimento para impedir um golpe militar”, assinalou.
Sobre 1964, quando Jango não conseguiu reeditar a resistência e acabou exilado no Uruguai pelo golpe, Lupi recordou que houve um grande contingente de apoiadores repetindo o discurso de que seria uma mudança institucional temporária. “Eles achavam que iam impedir as forças comunistas de governar e que dali a três meses haveria eleição. Só que durou 21 anos”, apontou.
“Esta não é uma discussão sobre se somos a favor ou contra o PT. É sobre de que lado da história estamos. O PDT não pode engrossar a direita”, concluiu.
Ciro ovacionado
Último a falar no evento, Ciro foi conciliador como cumpre a um pré-candidato à presidência da República e deixou a convenção debaixo de gritos: “Ciro, guerreiro, do povo brasileiro” e “Brasil, Urgente, Ciro presidente” – os mesmos versos que a militância se habituou a dirigir à Leonel Brizola, quando ainda vivo.
Começou tranquilizando o senador Lasier Martins, que lhe parecia tenso na reunião: “Qualquer patriota que aponte as mazelas do governo Dilma está coberto de razão. Mas a justa zanga não é boa conselheira”, alertou.
Abonou a tese de que o impeachment traria instabilidade econômica ao Brasil, mas foi além, mostrando que o debate “politiqueiro’, como classificou, concentra as atenções do país enquanto temas de fundamental relevância ficam em segundo plano.
“Este ano os bancos contabilizaram o maior lucro da história, superando em 40% o recorde de 2014. São os mesmos bancos que fizeram um ataque especulativo ao Real, a nossa moeda”, condenou.
“E nós, distraídos com essa conflagração politiqueira”, completou.
Defendeu o legado dos governos do Partido dos Trabalhadores: o poder de compra do salário mínimo, que saltou de 76 dólares para 320, entre janeiro de 2003 e janeiro de 2015; a expansão do crédito que era de 13% e passou a 50% do PIB brasileiro e o Bolsa Família.
“São muitas famílias que antes viviam com fome e é isso que está ameaçado com este debate sobre o impeachment”, observou.
Políticas que ele ficaria satisfeito em dar continuidade como presidente. E diante de uma plateia que, neste caso, parecia unânime sobre a necessidade de sua candidatura (a exceção talvez fosse Lasier Martins, que defende o nome de seu colega de senado Cristóvam Buarque), Ciro disse que não se lançaria à aventura “para ser poeta” – uma alfinetada, aliás, no concorrente interno.
Defendeu o pragmatismo. “Se elegemos o presidente da República e 100 deputados federais. Fazemos o quê? Dispensamos as outras forças políticas como se fôssemos um anjo vingador que não perdoa as falhas alheias?”, indagou.Professora relata furto e racismo na feira ecológica
No último sábado, como faz todas as semanas, a professora Sandra saiu de sua casa para ir à feira ecológica do Bom Fim. “A feira é como se fosse a minha horta.” Em torno das 10h, vestindo uma roupa comum, calçou um par de chinelos e foi a pé até a Redenção. Mas o passeio, que costuma ser tranquilo e despreocupado, dessa vez foi diferente.
Sandra de Deus conta que foi vítima de um furto na feira. Quando a professora de jornalismo e pró-reitora de extensão da UFRGS foi relatar o ocorrido a um dos seguranças, veio a pior parte da história. O homem questionou a veracidade do relato de Sandra e insinuou que ela não fosse uma vítima em potencial: “Com tanta gente aqui na feira porque eles iriam assaltar a senhora?”
Para Sandra, ficou muito clara a diferença entre ela e outros clientes da feira: “Uma mulher negra, vestida como eu estava, na visão dele, poderia ser a assaltante, mas não a assaltada.”
“Meu incômodo maior foi o comportamento do segurança”
Sandra de Deus diz ser comum sofrer casos de discriminação / Foto Matheus Chaparini
A professora recorda o momento em que o furto aconteceu. Enquanto escolhia um pé de manjericão em uma das bancas da FAE (Feira dos Agricultores Ecologistas), uma mulher e um homem começaram a empurrá-la contra a banca. Sandra virou para reclamar com a mulher e foi provavelmente neste momento que o homem colocou a mão em sua sacola e pegou sua carteira. Quando se deu conta do furto, o casal já havia desaparecido, levando pouco mais de cem reais, um cartão de banco e outro de passagens de ônibus.
“Eu coloquei isso na conta do descuido. É horrível tu pensar que em um lugar onde tu circula livre, leve e solta tu precisa ter atenção com a segurança, mas é a realidade.”
Sandra procurou o segurança para relatar o roubo. A primeira reação do homem foi dizer que ela estava calma demais para quem tinha sido assaltada. Em seguida, questionou se ela tinha certeza de que tinha dinheiro e se haveria alguém com ela, que pudesse comprovar a história. A professora então narrou o ocorrido em detalhes ao segurança que não fez nada a respeito. “Fiquei muito chateada na hora, fiquei indignada! É uma situação que te desarma.”
Após o diálogo, Sandra procurou a banca de achados e perdidos da feira, para relatar o furto. A professora optou por preservar a identidade do segurança, temendo que ele pudesse ser demitido.
“Na verdade, ele é só a ponta de um sistema todo que enxerga as pessoas de uma forma diferente pela cor. Vou esperar passar um pouco e vou lá e vou dizer pra ele: moço, hoje eu não fui assaltada, mas eu preciso ter uma conversa séria contigo.”
Sandra diz ser comum passar por casos de discriminação racial e que o problema não é mais grave devido à sua posição de professora de jornalismo. “Quantas vezes um segurança faz alguma coisa com alguma mulher negra e ninguém dá bola?
Organização da feira vê oportunidade de ampliar o debate
A organização da feira lamentou os incidentes. Assim que tomou conhecimento do ocorrido, a responsável pela comunicação da FAE, Laura Neis, pediu o contato da professora Sandra de Deus. “Temos que tratar essa situação como uma possibilidade de ampliar o debate, jogar luz sobre esse tema que a gente vive de maneira velada”, afirmou Laura.
Com relação aos furtos, ela afirmou que eventualmente ocorrem casos semelhantes. Para inibir estas ações foram contratados os seguranças. “Como a feira é um ambiente de confiança, construído pela comunidade, às vezes a gente esquece que está em um local público onde circulam 5 mil pessoas.”Sugestões de presentes de Natal
Se o prezado leitor ainda não decidiu que presente vai enviar para aquele(a) amigo(a) distante, eis aqui algumas sugestões de livros produzidos em 2015 no RS.
O primeiro é uma barbada de JÁ Editora: História Ilustrada do Rio Grande do Sul, reedição atualizada de uma série de fascículos lançada em 1997. Um livro de peso, com 350 páginas.

A segunda sugestão (por ordem de lançamento) é Esse Tal de Borghettinho, de Marcio Pinheiro (Belas Letras, 240 páginas).
Jornalista (filhos de jornalistas) que conhece música, Márcio Pinheiro foi bastante além da biografia do gaiteiro Renato Borghetti, o cinquentão que está nos palcos há mais de 30 anos: traçou um amplo panorama da música regional gaúcha.
Preenchendo uma lacuna na historiografia da música do RS, fala de todo mundo, do Radamés Gnatalli a Vitor Ramil, passando por Barbosa Lessa, Teixeirinha, Pedro Raimundo, Irmãos Bertussi, Luiz Carlos Borges e os modernos que têm como habitat a Cidade Baixa.
É tanta gente que faz falta um índice remissivo, mas a leitura é fácil porque o livro apresenta uma boa arquitetura narrativa. Se o livro for para uma segunda edição, o autor promete aprofundar o capítulo final sobre a Fábrica de Gaiteiros, o genial projeto do Borghettinho estabelecido em Barra do Ribeiro e difundido em escolas do Estado.
A outra opção musical é ELIS – Uma Biografia Musical, de Arthur de Faria (Arquipélago, 272 páginas). Músico que não perdeu o fio como jornalista, Arthur de Faria disseca a vigorosa veia musical de Elis ao mesmo tempo em que esmiuça as contradições de sua vida e sua carreira, encerradas aos 36 anos, em 1982, com uma overdose de cocaína.
Arthur de Faria escreve leve e vai costurando histórias intercaladas aqui e ali por detalhes que somente um músico poderia sacar. Revela os bastidores de shows e discos não com o viés de fofoqueiro, mas com curiosidade de colega da música. Como daquela vez em que Elis demitiu em cena um músico mineiro que insistia em improvisar durante os espetáculos. Segundo Faria, foi assim: “Eu gostaria agora de apresentar esses músicos maravilhosos. Na guitarra, tocando comigo pela última vez…Toninho Horta!”

Aqui e aqui Faria breca a narrativa com parágrafos de uma ou duas palavras. Vai revelando assim o gênio desconcertante da cantora que nasceu na Vila IAPI e cresceu fazendo programa de auditório no rádio de Porto Alegre. Acaba compondo uma biografia mais rica e interessante do que as anteriores — Furacão Elis, de Regina Echeverria, escrita poucos anos depois da morte da artista; e o recente livro de Julio Maria, jornalista de São Paulo que se debruça sobre detalhes da morte e da vida da cantora.Impeachment: começou o embate nas ruas
A 20ª Marcha dos Sem saiu com o mote “Não vai ter golpe”. Em Porto Alegre foi hoje à tarde. Foram de duas mil pessoas, segundo a polícia militar, a oito mil manifestantes, segundo a organização da marcha.
A temperatura superava os 30ºC, a sensação térmica sob o sol forte era mais. A caminhada partiu por voltas das 15 horas da Rótula das Cuias, junto ao Parque Harmonia, em direção ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, no centro da cidade. Ali, sucederam-se discursos de líderes sindicais e políticos contrários ao impeachment da presidente Dilma.
“É um momento de luta de classes. Não é só pela defesa de Dilma. É uma luta contra o retrocesso” disse Vagner Freitas, presidente da CUT Nacional, convocando para ato na quarta feira (16), marcado no calendário como o Dia Nacional da Luta contra o impeachment.
“A sociedade não sabe por onde ir”, disse João Pedro Stédile, um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para quem “ser contra o impeachment é uma necessidade democrática”.
O que mais se ouvia na multidão era “fora Cunha” e “não vai ter golpe”. Não faltaram críticas ao governo do Estado. Ainda fazia calor quando o ato terminou, por volta das 17 horas, com a execução do hino nacional.
“Vem pra rua” recua
No mesmo horário, a assessoria de imprensa do movimento “Vem pra Rua”, a ala pró-impeachment da sociedade, emitia um comunicado curto: “Os atos de apoio à operação Lava Jato organizados pelo Vem Pra Rua para o dia 12 estão cancelados”.
A abertura do leque de envolvidos identificados pela Polícia Federal baixou o moral do movimento, que optou por poupar munição e tentar fortalecer a manifestação agendada para domingo, gritando “fora Dilma” para “pressionar o STF”.
STF mantém decisão
No Supremo Tribunal Federal (STF), a tarde acabou com o ministro Edson Fachin negou pedido do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para que o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff volte a tramitar. Fachin reafirmou que a Corte vai julgar na próxima quarta-feira (16) a legalidade da Lei 1079/50, que define as regras do procedimento de impeachment.
Na decisão, Fachin explicou que a suspensão de sua liminar é desnecessária, pois o plenário vai julgar se referenda a decisão na próxima semana. Ele também admitiu o PT, o PSDB e o DEM no processo. Assim, esses partidos também poderão se manifestar sobre a legalidade da norma.
Na última quarta-feira (9), o ministro suspendeu a tramitação do pedido de impeachment de Dilma até o próximo dia 16, quando a Corte deve julgar, a pedido do PCdoB, partido da base aliada do governo, a validade da Lei 1.079/50.



