A avalanche antidemocrática

Passado um mês das eleições presidenciais, o eleito ignora a oferta de medalhões da política e, fora os notórios Paulo Guedes na Economia e Sergio Moro para a Justiça, escolhe figuras obscuras e afinadas com um ideário retrógrado.
Preso a uma camisa-de-força ideológica, ele está sendo coerente com o que pregou na campanha eleitoral, desdenhando dos direitos humanos e ignorando o conceito elementar de cidadania.
Há quem diga que o Brasil está voltando a 1964, mas não precisamos ir tão longe: basta que fiquemos em 1979, quando imperava o arbítrio ditatorial, e o casuísmo político era moeda de troca na vida nacional.
A maioria do eleitorado, com os 55% dados à Direita, colocou o país à mercê de uma avalanche conservadora que, a pretexto de combater a corrupção, encaminha-se para a destruição de programas sociais criados nos governos petistas.
Seja lá que nome se dê a isso — harakiri ou tiro-no-pé –, o eleitorado deu carta branca para a privatização de estatais, todas estigmatizadas como antros de empreguismo e focos de corrupção, tendo como referência o que se descobriu na Petrobras.
Assim, também por “culpa do PT”, empresas tradicionais como Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Correios, Eletrobrás e outras foram colocadas no mesmo patamar da ineficiência e vulnerabilidade.
A esta altura do desenvolvimento brasileiro,  privatizar estatais eficientes é rasgar páginas da história nacional. Retrocesso!
Custa crer que compactuem com isso as Forças Armadas, que estão passando a exercer a tutela do governo do seu ex-pupilo desgarrado.
Se por um lado ele foi treinado para respeitar a hierarquia militar e seguir os regulamentos – dos quais se afastou, sendo por isso “reformado” para não ser banido –, por outro passou tanto tempo na Câmara a desfrutar da imunidade parlamentar que pode se achar no direito de ultrapassar os limites, como fez ao enaltecer a tortura e o estupro.
Quem vai com muita sede ao pote, corre o risco de quebrá-lo. Por enquanto, o eleito desfruta da leniência que protege os neófitos, mas em algum momento alguém precisará lhe ensinar bons modos. Quanto tempo levará para descobrir que o mundo não é binário e que o Brasil tem uma bem-sucedida tradição de altivez e pluralidade no concerto das nações?
A pressa em agradar os donos do Mercado alimenta a desesperança e a frustração da maioria sem recursos.
Quando diz que os médicos cubanos eram agentes secretos infiltrados, ele está admitindo implicitamente que o novo governo renunciou a qualquer veleidade de soberania diante da potência hegemônica.
Esse primarismo político, ideológico e diplomático é do tempo da Guerra Fria.
Voltamos, portanto, à doutrina de segurança nacional formulada em 1949 pelos intelectuais da Escola Superior de Guerra liderados por Golbery do Couto e Silva.
Essa doutrina de alinhamento automático aos EUA foi reformulada no governo Geisel (1974-1979), que ousou dar uma guinada para a Europa, a Africa e a Asia por meio de uma série de acordos técnicos e econômicos.
Acordo nuclear com a Alemanha; acordo tecnológico e comercial com o Japão para colonização do cerrado e exportação de soja; abertura com a Africa para obras de empreiteiras que abriram caminho para a exportação de serviços e equipamentos.
Pragmatismo responsável, esse o nome do jogo.
Pelo que tem deixado escapar em declarações e desabafos, o futuro presidente não conhece esses detalhes da História ou, com a cabeça feita não se sabe por quem, nutre por isso tudo um profundo desprezo.
O que o Brasil tem de melhor, do ponto de vista econômico, será mesmo concedido aos investidores internacionais? A parca experiência adquirida na gestão das riquezas nacionais vai para a cucuia? Qual o papel das Forças Armadas na atual conjuntura: serão agora pilares da nacionalidade ou correias da globalização financeira?
Quem poderá resistir a essa avalanche conservadora?
A Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal, as instituições nacionais: universidades, sindicatos, os movimentos sociais, a sociedade civil representada pela OAB, ABI e, no fundo, a população.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Às favas os escrúpulos de consciência, senhor Presidente!”
Coronel Jarbas Passarinho ao apoiar a edição do Ato Institucional Nº 5 em 13/12/1968

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