A doença da intolerância

GERALDO HASSE
Um senhor com ar cansado e barba por fazer não para de falar enquanto assiste a um jogo de futebol na TV do bar da esquina. Sem que ninguém lhe perguntasse, bate as palmas da mão na mesa e proclama: “Eu só odeio duas coisas na vida: o Grêmio e o PT”.
Depois, numa confidência claudicante, admite que os dois ódios – o futebolístico e o político-partidário – lhe foram inculcados pelo pai, dirigente empresarial já falecido que lhe deixou por herança um negócio sem futuro – motivo aparente de seu recurso visceral ao álcool.
Estava exposta ali, sem disfarces, na cara sinistra de um velho rancoroso, a intolerância gerada pela ignorância, a falta de cultura e o ódio de classe. O que fazer se a burrice é um mal endêmico contra o qual, aparentemente, não há remédio ou vacina?
Não se discute com um bêbado porque é perda de tempo; não se contesta um velho porque é arriscado ponderar algo diante de alguém contaminado por uma raiva sem razão.
A intolerância é uma espécie de doença psíquica que leva o paciente ao recurso degradante dos maus instintos.
O consumo de drogas triviais como a cerveja mascara a doença, que pode até ficar hilária ou virar motivo de chacota, mas agrava seu aspecto moral.
Os intolerantes contaminam os ambientes com suas feições distorcidas pelo sofrimento a que se submetem na ilusão de que têm mais direitos do que os outros.
A cara assustadora da intolerância está estampada no rosto dos que temem perder vantagens e privilégios.
A intolerância está presente nas manifestações de políticos que se julgam representantes do lado certo da história e não sabem dialogar com os outros lados.
A intolerância se manifesta também na arrogância dos representantes da cúpula do Agro que não admitem ceder direitos aos índios, aos sem terra e a todos que combatem a revanche escravista.
A intolerância está no exibicionismo de torcedores de futebol que saem às ruas e vão aos estádios com bandeiras para proclamar o não-direito dos adversários.
A intolerância está explícita nas manifestações dos militares que não se conformam com a exibição da prepotência dos políticos no exercício de suas prerrogativas e dos empresários na manipulação escandalosa dos recursos econômicos.
A intolerância está nos que legislam contra os pobres e a favor dos ricos.
A intolerância está na pregação dos pastores-ladrões que se aproveitam da fé dos humildes para transformá-los em rebanhos dóceis e facilmente exploráveis.
A intolerância está no racismo.
A intolerância está no machismo renitente.
A intolerância está no feminismo rancoroso.
A intolerância está em não reconhecer o outro, sua existência, suas ideias, opiniões e valores.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, terreiros de umbanda estão sendo queimados por fanáticos religiosos” – Emir Silva, coordenador do Movimento Negro Unificado, no dia 19/09/2017, em Porto Alegre
 

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