A política dos corpos e a memória das revoluções

Por Cristiano Goldschmidt

Em Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas (Edições Sesc São Paulo, 2026), Renan Quinalha, James N. Green e Augusta de Oliveira organizam uma coletânea que enfrenta uma contradição persistente da história política moderna: projetos que anunciam a transformação da sociedade também podem conservar ou instituir hierarquias no campo da sexualidade. A questão que atravessa o livro não é apenas como diferentes regimes trataram as pessoas homossexuais, mas o que a regulação do desejo revela sobre suas ideias de cidadania, moralidade e pertencimento. Os ensaios respondem sem recorrer a uma narrativa simples de progresso nem a uma equivalência apressada entre sistemas políticos. O que emerge é uma história de disputas em torno de quem pode ocupar o espaço público, de quais corpos são considerados legítimos e de quais formas de intimidade podem existir sem vigilância ou punição.

O principal mérito da obra está em tratar a homossexualidade como dimensão constitutiva da história política, e não como tema lateral, circunscrito à vida privada. Nos artigos, o desejo aparece como experiência vivida, categoria produzida por saberes médicos, objeto de policiamento, instrumento de propaganda e possível fundamento de solidariedade e mobilização. Essa perspectiva desloca a ideia de que a modernização política conduziria naturalmente à ampliação das liberdades. As trajetórias examinadas mostram que uma mudança legal pode ser revertida, que um projeto revolucionário pode reproduzir normas patriarcais e que movimentos emancipatórios também precisam interrogar as exclusões presentes em suas próprias organizações. A liberdade sexual, assim, não surge como consequência automática de uma transformação política mais ampla: integra a disputa pelo significado dessa transformação e por quem será contemplado por ela.

A introdução de Quinalha, Green e de Oliveira situa a coletânea nesse horizonte comparativo e apresenta questões relevantes para o debate brasileiro. As experiências internacionais não são oferecidas como modelos prontos nem como etapas de uma cronologia universal. Funcionam como instrumentos para pensar as contradições entre a esquerda e os movimentos homossexuais no Brasil, especialmente as tensões entre autonomia política e participação em alianças mais amplas. A referência à divisão do grupo Somos, entre 1979 e 1980, condensa esse problema: não se trata apenas de uma disputa identitária ou de divergências pessoais, mas de diferentes concepções sobre como articular sexualidade, classe e projeto político. Ao aproximarem essa memória da conjuntura conservadora discutida na introdução, os organizadores lembram que o passado não é um arquivo encerrado. É também um terreno em que se disputam interpretações e possibilidades de ação no presente.

A coletânea divide-se em quatro partes: Parte 1, “Marxismos e homossexualidades”; Parte 2, “Desejos e revoluções”; Parte 3, “Desejos e contrarrevoluções”; Parte 4, “Desejos em 1968 e depois”. Essa organização dá forma ao horizonte comparativo do livro sem reduzir as diferenças entre seus contextos históricos. A primeira parte examina as relações entre tradições de esquerda e dissidência sexual; a segunda se volta às experiências soviéticas, chinesas e cubanas; a terceira reúne textos sobre as contrarrevoluções e a repressão da homossexualidade, com destaque para os fascismos europeus; e a quarta acompanha mobilizações e disputas de memória a partir de 1968, nos Estados Unidos, na França e na Argentina. O fio condutor é a pergunta sobre como projetos políticos delimitam a sexualidade aceitável e sobre como as pessoas submetidas a essas normas se organizam, resistem, negociam espaços de autonomia ou sobrevivem.

A primeira parte, “Marxismos e homossexualidades”, evita tanto o anacronismo condenatório quanto a indulgência retrospectiva. Em “Política sexual de esquerda e homossexualidade: um panorama histórico”, Gert Hekma, Harry Oosterhuis e James Steakley reconstroem as ambiguidades da política sexual da esquerda. A crítica à exploração e à desigualdade pôde conviver com moralismos, explicações naturalizantes e a concepção de que a sexualidade pertenceria à esfera privada. Essa tensão importa porque a separação entre público e privado pode retirar do debate político os mecanismos que regulam a intimidade; por sua vez, discursos apresentados como científicos podem preservar normas sob uma linguagem de neutralidade. O artigo não descreve uma esquerda homogênea, mas um campo de disputas em que projetos de emancipação, compromissos com a respeitabilidade e hostilidades explícitas coexistiram.

“Capitalismo e identidade gay”, de John D’Emilio, acrescenta uma chave materialista a essa discussão. O ensaio relaciona a formação de identidades gays e lésbicas a transformações na organização do trabalho e da família, que possibilitaram a algumas pessoas constituir formas de vida menos subordinadas à unidade doméstica. A emergência de comunidades e identificações próprias está ligada a condições históricas concretas, não a uma essência imutável. Isso não significa que experiências de desejo entre pessoas do mesmo sexo fossem inexistentes antes da formação dessas identidades modernas; significa que as formas de nomeá-las, vivê-las coletivamente e organizá-las mudaram. D’Emilio também evidencia uma contradição do capitalismo: a ordem que pode criar condições materiais para a autonomia é capaz de absorver parte da dissidência por meio do consumo. A contribuição do artigo está em mostrar que a história das identidades exige atenção simultânea às condições materiais, às formas de pertencimento e aos limites da integração mercantil.

Na segunda parte, “Desejos e revoluções”, os debates teóricos cedem espaço à análise das instituições e de suas práticas. Em “A existência homossexual e o socialismo real: uma nova luz sobre a repressão da homossexualidade masculina na Rússia de Stálin”, Dan Healey questiona leituras esquemáticas da trajetória soviética. A descriminalização inicial e a posterior recriminalização dos atos homossexuais masculinos consensuais não são tratadas apenas como uma parábola sobre uma revolução que teria traído seus princípios. Healey reconstrói mudanças nas práticas médicas, administrativas e policiais e mostra que as classificações variavam conforme fatores como gênero, posição social, pertencimento nacional e lealdade política. O artigo também sugere que a repressão não pode ser medida somente pela existência de uma lei: ela se exerce por categorias, instituições e práticas de vigilância. Ao devolver espessura histórica ao caso soviético, o ensaio impede que essa experiência seja usada apenas como instrumento retórico para julgar a política de outros países.

“‘Debaixo da mesma coberta’: os paradoxos do sexo entre homens na Revolução Cultural”, assinado por Heather Worth, Jun Jing, Karen McMillan, Chunyan Su, Xiaoxing Fu, Zhang Yuping, Rui Zhao, Jia Cui, Angela Kelly-Hanku e Zhang Youchun, traz ao centro relatos orais de homens que viveram a Revolução Cultural na China. A experiência narrada não se deixa reduzir a uma descrição uniforme de repressão ou de liberdade. O afastamento de jovens de suas famílias, a vida em alojamentos e brigadas de trabalho e a mobilidade entre cidade e campo podiam criar condições específicas para encontros entre homens; essas possibilidades coexistiam com estigma, perseguição e violência. A palavra “paradoxos”, no título, assinala precisamente essa coexistência, sem converter circunstâncias particulares numa experiência geral. O valor metodológico do artigo está em tratar os depoimentos como fontes capazes de complicar os registros oficiais e de revelar diferenças entre trajetórias. O silêncio, nesse quadro, não é tomado como prova de ausência, mas como problema histórico a ser investigado.

Em “Policiamento de gênero, homossexualidade e o novo patriarcado da Revolução Cubana, 1965-70”, Lillian Guerra relaciona a regulação da sexualidade à construção de um ideal de cidadania revolucionária. A perseguição de homossexuais e de outros grupos classificados como desviantes aparece articulada a políticas de trabalho, juventude e gênero. A promessa de formar um novo sujeito socialista conviveu com expectativas de masculinidade e com concepções tradicionais dos papéis femininos. Guerra, assim, não explica a repressão somente pelo preconceito individual de dirigentes nem a trata como resíduo destinado a desaparecer com a revolução. Analisa como o controle dos corpos participava de um projeto de organização da vida cotidiana e de afirmação da autoridade estatal. O artigo torna visível a distância entre emancipação proclamada e liberdade efetivamente distribuída, sem retirar do quadro a especificidade histórica do caso cubano.

A terceira parte, “Desejos e contrarrevoluções”, reúne textos que examinam a repressão da homossexualidade em contextos fascistas e autoritários, bem como as disputas em torno de sua interpretação. “Homossexualidade e fascismo”, de Klaus Mann, é um ensaio de intervenção intelectual que rejeita a associação automática entre homossexualidade e fascismo e denuncia o uso da sexualidade para estigmatizar adversários políticos. Sua inclusão ao lado de estudos históricos permite aproximar o debate de época da investigação posterior, sem confundir os estatutos dos textos: Mann polemiza e argumenta; os artigos seguintes trabalham com arquivos, registros e práticas institucionais. Essa justaposição amplia a leitura porque mostra que a história da repressão também é a história das disputas contemporâneas sobre como nomeá-la e contestá-la.

Em “A propaganda homofóbica e a delação de homens que desejavam o mesmo sexo durante o Nacional-Socialismo”, Stefan Micheler examina a dimensão social da perseguição nazista, com atenção especial às denúncias e aos rumores. A repressão não se restringia à lei ou à ação direta das autoridades: suspeitas transmitidas por vizinhos, conhecidos, colegas, proprietários e familiares podiam alimentar investigações e ameaçar a vida cotidiana. Micheler mostra como a propaganda ensinava a reconhecer um suposto inimigo e podia incentivar a participação de terceiros em sua exposição. Essa circulação social do poder não diminui a responsabilidade do Estado; ao contrário, ajuda a compreender como as instituições se apoiaram em práticas ordinárias para ampliar a vigilância. O artigo torna visível uma forma de violência que as sínteses centradas apenas nos decretos e nos aparelhos repressivos podem deixar em segundo plano: a produção cotidiana da vulnerabilidade.

Lorenzo Benadusi, em “Vida privada e moral pública: o fascismo e o ‘problema’ da homossexualidade”, investiga o fascismo italiano sem pressupor que a repressão dependesse sempre de uma proibição penal explícita. O ensaio analisa a importância das práticas policiais e do ideal de virilidade, que tornava particularmente vulneráveis os homens percebidos como efeminados. A vigilância não incidia de forma idêntica sobre todas as relações entre homens: a transgressão das normas de gênero era parte central do modo como o regime identificava e disciplinava sujeitos. Benadusi também situa essas práticas em relação a formas de controle anteriores ao fascismo, evitando apresentar o regime como inventor exclusivo da repressão, sem por isso minimizar sua apropriação política desses mecanismos. O artigo contribui para a coletânea ao mostrar que a moral pública e a vida privada se articulavam por meio de códigos de masculinidade, polícia e posição social.

Em “‘Que o Todo-Poderoso nos ajude a chegar aonde desejamos’: homossexualidade e catolicismo na Espanha de Franco (1954-70)”, Javier Fernández-Galeano recorre a arquivos, cartas, referências literárias e práticas de amizade para estudar homens gays católicos. O foco não está apenas na condenação institucional da homossexualidade, mas também nos modos pelos quais esses homens procuraram dar sentido à relação entre desejo e fé. Referências religiosas e literárias podiam ser apropriadas para construir linguagens de afeto e pertencimento, mesmo sob vigilância e desigualdade de classe. O artigo é especialmente expressivo por recusar a imagem de sujeitos definidos exclusivamente pela repressão: sem negar os constrangimentos do franquismo, acompanha formas de interpretação e de sociabilidade que tornam a experiência mais complexa do que a oposição entre submissão e ruptura.

Na quarta parte, “Desejos em 1968 e depois”, a coletânea passa à formação dos movimentos de libertação gay e às disputas em torno de suas memórias. Em “Movimentos e memória: a criação do mito de Stonewall”, Elizabeth A. Armstrong e Suzanna M. Crage perguntam por que Stonewall se tornou um marco tão duradouro, enquanto outros conflitos anteriores ou próximos no tempo tiveram menor presença na memória pública. A resposta das autoras não reduz o episódio a uma invenção retrospectiva: destaca o trabalho de ativistas, a circulação de notícias e a capacidade de organizar comemorações. Stonewall adquiriu centralidade não apenas por sua dramaticidade, mas porque uma narrativa em torno do acontecimento pôde ser repetida, transmitida e institucionalizada. Nesse argumento, “mito” designa uma narrativa coletiva eficaz, não uma falsificação; sua força mobilizadora, porém, envolve seleção e simplificação.

A comparação com episódios como a revolta da Compton’s Cafeteria, em São Francisco, em 1966; a batida no Black Cat, em Los Angeles, em 1967; e a invasão do Snake Pit, em Nova York, em 1970, permite às autoras ampliar a história da resistência à violência policial. Esses casos não são intercambiáveis nem servem apenas como versões menores de Stonewall. A análise mostra que os acontecimentos dependem de condições específicas para se tornarem memoráveis: organizações capazes de promover comemorações, veículos de comunicação e formas públicas de recordação. Ao examinar a ascensão de Stonewall como símbolo, Armstrong e Crage reconhecem sua força política e perguntam o que a narrativa mais difundida deixa menos visível, inclusive quanto a geografias, classes e experiências de gênero distintas. A memória coletiva aparece, assim, não como espelho neutro dos movimentos, mas como um dos espaços em que eles se constituem.

“Um arco-íris vestido de preto: política gay e o Partido dos Panteras Negras”, de Ronald K. Porter, examina as aproximações e tensões entre a política gay e o Partido dos Panteras Negras. Ao discutir a intervenção de Huey P. Newton em favor dos movimentos de libertação gay e das mulheres, o artigo acompanha a abertura de possibilidades de solidariedade sem supor que ela fosse automática ou plenamente incorporada pela organização. A homofobia e os modelos dominantes de masculinidade também atravessavam movimentos comprometidos com outras formas de emancipação. A aliança precisava, portanto, ser elaborada em meio a divergências internas e a disputas sobre quais opressões seriam reconhecidas como políticas. Ao tratar a solidariedade como prática a construir, o ensaio contribui para uma história dos movimentos que não se satisfaz com declarações de princípio, mas investiga suas consequências e seus limites.

Em “O espírito de Maio de 1968 e as origens do Movimento de Libertação Gay na França”, Michael Sibalis acompanha os vínculos entre o ciclo de contestação de 1968 e a formação de organizações de libertação gay. A trajetória passa por iniciativas radicais, entre elas o Front homosexuel d’action révolutionnaire (FHAR, Frente Homossexual de Ação Revolucionária), e por mudanças posteriores em direção a formas mais pragmáticas de ação e aliança política. O artigo não transforma a radicalidade em destino inevitável nem interpreta o pragmatismo como simples renúncia. Mostra a tensão entre uma contestação ampla da normalidade sexual e a construção de reivindicações capazes de sustentar a intervenção pública e as coalizões. O caso francês ajuda a perceber que o legado de uma conjuntura de protesto pode persistir de modo desigual: linguagens e práticas se transformam, e seus efeitos não se distribuem por igual entre cultura, organização e política institucional.

A comparação latino-americana ganha relevo em “Governo ditatorial e política sexual na Argentina: o caso da Frente de Liberación Homosexual, 1967-76”, de Pablo Ben e Santiago Joaquin Insausti. Os autores reconstroem a formação e a atuação da FLH em um cenário de repressão e intensa disputa política. A relação do grupo com sindicatos, intelectuais, correntes de esquerda e movimentos feministas foi marcada por aproximações e conflitos, e a FLH elaborou uma linguagem que vinculava a opressão sexual a estruturas mais amplas de poder sem reduzir sua pauta a uma extensão secundária de outras lutas. Sua trajetória não é apresentada como simples prelúdio de organizações posteriores, mas como experiência histórica com estratégias, tensões e limites próprios. Ao acompanhar a produção de redes e diagnósticos em condições adversas, Ben e Insausti mostram que a organização política homossexual também se constituiu em meio ao autoritarismo, e não apenas em períodos de abertura democrática.

A contribuição editorial de Quinalha, Green e de Oliveira está em fazer da diversidade de métodos, lugares e escalas um princípio de composição. Ensaios teóricos convivem com pesquisas de arquivo, história oral, análise de movimentos e intervenção intelectual. A introdução oferece referências para que o leitor estabeleça relações entre os artigos, sem apagar suas diferenças ou forçá-los a sustentar uma tese única. A seleção e a tradução de textos produzidos em tradições acadêmicas diversas ampliam o repertório disponível em português e colocam em diálogo debates que poderiam permanecer dispersos. Organizar uma coletânea é também decidir quais problemas se tornam legíveis em conjunto; neste caso, o trabalho dos organizadores transforma essa decisão em contribuição substantiva para o debate brasileiro.

A amplitude do volume não pretende equivaler a uma história total das homossexualidades políticas do século XX. Os artigos diferem em escala e abordagem: alguns privilegiam instituições e categorias jurídicas; outros, experiências individuais, memórias e formas de organização. A obra funciona melhor como mapa crítico de problemas do que como inventário exaustivo. Sua leitura exige comparar sem nivelar: a perseguição sob o Nacional-Socialismo, as práticas de controle no fascismo italiano e a disciplina sexual em contextos revolucionários têm pontos de contato, mas não são fenômenos idênticos. Reconhecer recorrências, como a associação entre virilidade e cidadania, não autoriza apagar as diferenças históricas entre os regimes. A força da coletânea está justamente em sustentar essa tensão entre comparação e singularidade.

Também é produtivo que os textos não compartilhem um único gênero de escrita ou um só tipo de evidência. O ensaio de Klaus Mann, por exemplo, participa de uma polêmica de seu tempo; o estudo de Stefan Micheler trabalha com denúncias e registros da perseguição; a pesquisa de Worth e coautores se apoia em relatos orais; e os textos sobre Stonewall e a FLH interrogam a organização e a memória dos movimentos. Essa variedade exige que o leitor considere, em cada caso, o método, a fonte e o alcance do argumento. Em lugar de comprometer a unidade do livro, ela permite perceber diferentes modos de produzir conhecimento histórico e os limites específicos de cada perspectiva.

A avaliação positiva de Desejos em revolução não depende de apresentá-lo como obra sem lacunas, mas de reconhecer a qualidade de suas perguntas e a consistência de sua composição. A coletânea recusa uma genealogia confortável da liberdade sexual, na qual o presente apareceria como culminação natural de um passado superado. Mostra, em vez disso, que direitos, identidades e comunidades se constituem em conflitos e que nenhuma linguagem política está dispensada de examinar as exclusões que reproduz. Movimentos de esquerda podem abrir possibilidades de emancipação e, simultaneamente, conservar normas morais; revoluções podem transformar hierarquias e instituir outras; memórias coletivas podem mobilizar e deixar experiências à margem. O livro não dissolve essas contradições, mas oferece instrumentos para compreendê-las historicamente.

O título condensa o horizonte da obra: a relação entre desejo e revolução é uma disputa concreta sobre quem pode amar, aparecer, organizar-se e participar da vida pública sem ser expulso da comunidade política. Ao percorrer experiências da Rússia soviética à China da Revolução Cultural, de Cuba à Europa fascista e franquista, e dos movimentos dos Estados Unidos, da França e da Argentina às suas memórias, a coletânea constrói uma perspectiva transnacional atenta às singularidades. Sua contribuição mais duradoura talvez seja devolver ao campo da política os corpos, os afetos e as condições materiais da intimidade, tantas vezes relegados à esfera privada. Organizado com rigor e ambição, o livro oferece ao debate brasileiro um repertório crítico indispensável e uma advertência que ultrapassa o tema específico da coletânea: nenhum projeto de emancipação se completa enquanto a liberdade de alguns depender do silêncio, da invisibilidade ou da punição de outros.

Em tempo: Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas, foi lançado no dia 18 de setembro de 2026, na Livraria Taverna, em Porto Alegre, em uma sessão de autógrafos e bate-papo que contou com Renan Quinalha, Manuela d’Ávila e Atena Roveda.