Autor: Análise & Opinião

  • GERALDO HASSE / Pardo Moraes

    Nada é mais trivial do que a morte, mas só nos damos conta de sua virulência quando ela passa a foice no nosso quintal. Ou no nosso jardim. E leva alguém próximo, querido ou muito respeitado – justo quando a gente menos espera.
    Hay que se registrar a perda súbita de Carlos Moraes, gaúcho de Lavras do Sul, falecido aos 78 anos no dia 14 de dezembro em São Paulo, onde viveu a maior parte da existência dividida entre o sacerdócio, o jornalismo e a literatura.
    Nos seminários em que estudou (em Pelotas e Viamão), era chamado de Nego Moraes por ter a pele morena dos “pelos duros” (descendentes de portugueses, espanhóis e açorianos) do Pampa gaúcho. Ao ficar grisalho, na maturidade, gostava de tratar os contemporâneos e a si mesmo com os adjetivos “pardo velho”, cujo som fazia todos se lembrarem do substantivo “padre” que nunca se separou dele.
    Como jornalista, trabalhou nas revistas Realidade, Psicologia Atual e Ícaro, publicação de bordo da Varig – todas sediadas em São Paulo, onde ele chegou em 1971, liberado dos votos religiosos pelo Vaticano e absolvido pela Justiça Militar de uma intriga armada contra ele em Bagé, onde trabalhou como padre.
    Na Paulicéia, achou que a grande cidade colocara sobre seus ombros “um capote cinza”, alusão ao anonimato e à solidão que caracterizam a vida nas metrópoles.
    Torcedor do Internacional de Porto Alegre, apaixonou-se pela torcida do Corinthians, na qual encontrou uma espécie de manifestação da força divina.
    Pai de dois filhos (nascidos no Chile) e avô de três netos (idem), Moraes casou-se duas vezes e escreveu outros livros como O LOBISANJO (Vozes, 1970), A VINGANÇA DO TIMÃO (2002) e COMO SER FELIZ SEM DAR CERTO, mas seu livro mais marcante é AGORA DEUS VAI TE PEGAR LÁ FORA (Record, 268 páginas, 2004), no qual conta, de forma muito bem-humorada, como foi sua temporada na cadeia pública de Bagé, onde esteve preso sob a acusação de pregar a subversão política mediante sermões sobre a escassez de justiça social no Brasil e no mundo.
    Ao contrário do que se possa pensar, AGORA DEUS VAI TE PEGAR LÁ FORA é uma narrativa sem amargura ou ressentimentos sobre um dos “causos” mais bizarros da época da ditadura militar (1964/85). Se fosse menos tímido e tivesse se mantido no seio da Igreja, o padre de Lavras teria talvez galgado os degraus da hierarquia católica. Não nos olvidemos do padre argentino eleito Papa.
    Como pregador, Moraes foi tão “subversivo” quanto o “cardeal vermelho” D. Helder Câmara (vigiado e atacado, nunca foi preso), mas entrou em cana por pregar a igualdade numa cidade com cinco quartéis com o agravante de ser a terra natal do general Médici, que chefiou o governo no período 1969/1973, os “anos de chumbo”.
    Como escritor, Moraes elevou-se um degrau acima do frei Leonardo Boff, “condenado” pela Igreja Católica a manter-se em “silêncio obsequioso”. Mas Boff se manteve fiel à teologia da libertação, enquanto Moraes preferiu pairar num “corredor” metafórico entre a esquerda e a direita.
    Nos seus últimos anos de vida, ele se dedicou a escrever um ensaio sobre a vida de Jesus  –  desde a infância até sua transfiguração em filho de Deus por decisão da Igreja Católica chefiada pelo imperador romano Constantino no século IV; e daí em diante, com Jesus sendo usado por charlatães, picaretas e outros líderes, foi um deus-nos-acuda.
    Ainda não publicado (foi concluído alguns dias antes da morte do autor), EM BUSCA DO PRIMEIRO JESUS é um livro indignado com a exploração das carências humanas pelo mercantilismo religioso.
    Cristão até debaixo d’água – apesar de dispensado dos votos religiosos, Moraes manteve seu trabalho como “pastor de almas”, comparecendo à casa de amigos que reclamavam sua presença para diversas funções religiosas  –, ele chicoteia todas as igrejas em seu ensaio.
    Leia abaixo um trecho extraído do copião enviado por Moraes a amigos em meados de 2018:
    “Por que nos tempos modernos há tanta gente respeitável irritada com as religiões?
    Já no século 18, Philippe Pinel (1745-1826), o pai da moderna psiquiatria, parece que não estava brincando quando afirmou que só conhecia duas doenças praticamente incuráveis: o inchaço do ego e o fanatismo religioso.
    Chocado talvez com alguns horrores desse fanatismo, o  cientista Steven Weinberg, Prêmio Nobel de Física de 1979, chegou a dizer: “Com ou sem religião teríamos pessoas boas fazendo  o bem e pessoas más fazendo o mal. Mas para que pessoas boas façam coisas más é necessária a religião”.
    Quando, em sua famosa música Imagine, John Lennon sonha um novo mundo, faz questão de ressaltar que ele será – sem religião!
    Visões assim tão pessimistas suscitam perguntas igualmente incômodas.
    Se todas as religiões se mostram tão plenas das melhores intenções, onde e como elas se pervertem?
    Quando e por que, na história da humanidade, a pureza e a fé deram de matar mais do que o pecado e a dúvida?
    Por que tantas religiões insistem em partir para um controle minucioso e totalitário das consciências em vez de uma serena e misericordiosa  iluminação da vida?
    E por que, às vezes, dentre os grandes filhos de uma puta deste mundo, os mais convictos, os mais inatingíveis e, não raro, os mais cruéis são os filhos de uma puta em nome de Deus?
    Uma resposta única para tantas e tão exasperadas perguntas não é fácil, mas tudo indica que esse desencanto todo diz respeito principalmente aos arreglos mundanos das instituições religiosas em si, sem levar em conta  todo o bem, todo o amor,  todos os rituais e cantos de  esperança com que  pessoas de fé  iluminam  e sempre iluminaram milhões de vidas   neste mundo. Um pequeno exemplo tirado de um jornal. Numa entrevista, dois brilhantes irmãos intelectuais de esquerda relembram suas vidas, os primeiros duros anos em que, órfãos de pai, viram a mãe aguentar a barra da família toda com extrema valentia. No fim, um deles só lamenta: “É, ela só era meio carola, coitada”. Pergunta: e onde eles acham que ela buscou forças e confiança para aguentar a difícil barra? Em Marx, Engels ou Noam Chomski?
     
    Mas é preciso reconhecer: as comunidades dos que crêem nunca haverão de ser  perfeitas e ainda bem que  cristianismo é a religião da extrema exigência e da extrema misericórdia.  Belamente diz o apóstolo Paulo que em vasos de barro carregamos nossos tesouros. Alguém igualmente inspirado escreveu que todos nós, de uma forma ou de outra, seremos sempre respingados pela lama do mundo, o importante é que ela não nos chegue ao coração. Por isso é tão crucial tentar distinguir, sempre,  o tesouro do barro,  que só assim  será possível, para uma Igreja e ou qualquer  cristão, sentir-se tentado e até respingado pelas sordidez  em volta,  mas sem nunca  entregar o coração.  Há muitos séculos o Livro dos Provérbios (4:23) já  sugeria que,  acima de todas as coisas deste mundo, o que mais importa é  preservar o coração, pois é dele que provêm as grandes fontes da vida. Era do que Jesus mais queria saber: o coração. Para o resto, para os sistemas locais de salvação e pureza,  ele não parecia  ligar muito.
     
    Quando uma Igreja entrega o coração? Tudo sugere que o que o mais perverte as religiões é a facilidade com que se rendem aos deuses deste mundo, o poder, a ganância, as vaidades e assim  mundanizadas nada de novo podem de trazer – ao mundo. E é pena porque, como acabamos de ver,  elas representam  experiências e valores sagrados que vêm de longe, muito longe e ainda hoje teriam  muito a contribuir com os melhores sonhos da humanidade. Ou especialmente hoje, pois, apesar de toda a amargura com que a modernidade  foi vista pelos papas do século 19, ela só trouxe boas perspectivas não só para a Igreja Católica como  para todas as religiões que não queiram viver apenas da baixa escolaridade ou alto grau de desamparo dos seus fiéis.
     
    Só para citar algumas das grandes bênçãos que o mundo moderno trouxe para as Igrejas:
    Com o advento da democracia laica, elas ficaram livres da tentação de implantar na marra o Reino de Deus na terra, como tantas vezes  tentaram.
    Com o advento do estado de direito, elas foram dispensadas de julgar a tudo e a todos, com grande economia, no caso da Católica, de latim e lenha nos tribunais eclesiásticos.
    Com o fortalecimento das ciências, as Igrejas não precisam mais perder tempo explicando biblicamente a origem e funcionamento do Universo.
    Com a evolução da medicina e da psiquiatria, elas foram dispensadas de curar ou atribuir ao demônio doenças que hoje contam com nomes e tratamentos bem definidos.
    Com o advento do Estado de Bem–Estar Social, das ONGs e das Fundações, elas não são mais a única instituição a se preocupar com a educação e a miséria, embora todas tenham feito e continuem fazendo obras comoventes nessa área.
    Livres enfim dos rolos e ambições mundanas, as religiões  podem agora, mais do que nunca cuidar de áreas de transformação do coração e do mundo onde a democracia, a ciência, a economia,  o direito e a medicina não têm obtido grandes resultados.”
     
     
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    Se falta lã para alguns, não é por culpa das ovelhas.
    Carlos Moraes (1941-2019)
     

  • ELMAR BONES/ O que está em extinção

    Em certo sentido, Bolsonaro tem razão.
    Mas, como sempre, mete os pés pelas mãos.
    O que está em extinção não são os jornalistas mas um certo jornalismo que obriga seus profissionais a correrem atrás de declarações de um sujeito que diz bobagens decoradas para o aplauso de uma claque.
    Ele é o presidente? Sim, mas essas gracinhas ele pode fazer pelo twitter. Os repórteres teriam coisas mais importantes a fazer.
     
     

  • BENEDITO TADEU CÉSAR/Os “pequenos” grandes ladrões

    Benedito Tadeu César*
    Durante a primeira metade do ano de 2014, diversas vezes afirmei que Bolsonaro não romperia a barreira dos 18% da preferência do eleitorado e que ele poderia até retirar sua candidatura à Presidência da República, pois sem mandato legislativo sua carreira política se encerraria. Errei porque não percebi que a postura antipolítica em construção pela grande mídia e o consequente desalento já estivam tão fortes e tão disseminados na população e no eleitorado brasileiros.
    Bolsonaro e seus filhos, que constituem um ente uno, são oportunistas que se beneficiaram da descrença na política construída pela grande mídia e, principalmente, por setores do Judiciário e do Ministério Público. As elites tradicionais brasileiras, agrupadas nos partidos de direita, de centro direita e de centro, na maioria das entidades de representação empresariais, em think tanks e por meio de novas formas de manifestações de rua, criaram o clima de opinião propício à emergência de um outsider que aparentasse se contrapor a “tudo isso que está aí”. Elas não conseguiram antever a dimensão do monstro que criaram e que quase as devorou, mas, frente a seu crescimento eleitoral, rapidamente se uniram a ele para implementar as medidas econômicas de seu interesse.
    Da descrença e do desalento construídos emergiu uma família de pequenos ladrões do patrimônio público, inexpressiva politicamente e que sobrevivia havia décadas no baixo clero das casas legislativas nas quais exerciam mandatos, à custa do desvio do salário de suas assessorias por meio de “rachadinhas”, apoiando-se e sendo apoiada, numa relação simbiótica, pelas milícias que dominam as “comunidades” pobres das periferias do estado do Rio de Janeiro. Um apoio mútuo que envolvia (e continua envolvendo) também os remanescentes da ala mais truculenta da ditadura civil, militar e midiática de 1964/85, incluindo alguns de seus mais doentios torturadores.
    Ladrões vulgares, em busca unicamente de pequenos ganhos (além das “rachadinhas”, as pescarias ilegais em área de preservação ambiental, a utilização de helicóptero da FAB para o transporte de familiares e as despesas no cartão de crédito da Presidência da República ao menos três vezes superiores à média dos dois últimos presidentes, são outros exemplos emblemáticos), tornaram-se os agentes ideais para executar o projeto das elites econômicas e políticas tradicionais brasileiras.
    Ralé da política, com jeito “popular”, simples e grotesco, machista, misógina, racista, preconceituosa, ignorante e esperta, a família Bolsonaro, com seu patriarca à frente, atraiu a simpatia e canalizou a empatia das hordas de desassistidos nas periferias urbanas acolhidas pelas igrejas neopentecostais, dos setores mais arrivistas das classes médias, de amplos setores dos novos “empreendedores” e da quase totalidade do empresariado brasileiro.
    Os Bolsonaro e sua trupe, à qual se agregaram integrantes de uma oficialidade militar de visão estreita (cuja concepção de soberania resume-se à defesa do território nacional e que está convencida de sua irrelevância frente aos grandes blocos armados mundiais e, por isso, perfila-se incontinente aos EUA) vieram para ficar no poder – este é seu único e grande objetivo. Servem aos interesses de uma elite cujo único projeto, salvo poucas e honrosas exceções, são os ganhos imediatos, sem projeto de Nação e sem projeto de desenvolvimento de médio e longo prazos.
    Adepta da rapinagem, é uma elite também ela formada por “pequenos ladrões”, ávidos por se apropriarem dos “pequenos” ganhos que o capitalismo periférico lhes propicia. Convencidas de sua incapacidade de disputar espaço internacional e acomodadas confortavelmente na posição que historicamente se auto atribuíram de fornecedoras de commodities para os grandes centros de desenvolvimento tecnológico, aos quais elas nunca almejaram se equiparar, as elites brasileiras encontraram em Bolsonaro, Mourão e seu time os escudos necessários para a execução de suas políticas e a manutenção de seus objetivos.
    São todos “pequenos ladrões”: bolsonaros, seus agregados e elites nativas tradicionais. Pequenos não nos seus ganhos imorais, no volume daquilo de que se apropriam ou nos prejuízos que provocam. São pequenos como o são os medíocres e os mesquinhos. Pequenos nos seus objetivos e em suas aspirações frente ao mundo e à competição internacional. Pequenos na posição a que se acomodam e à qual submetem o país e sua gente em relação ao mundo e ao desenvolvimento.
    Vieram para destruir, como eles mesmos declaram. Seu objetivo é a destruição de qualquer resquício de soberania e de desenvolvimento social e econômico nacional. Por isso o desmonte das políticas sociais, dos direitos e das instituições públicas, das garantias constitucionais, das universidades, da investigação científica, das artes, da cultura e da educação, das indústrias (notadamente as com maior agregação e desenvolvimento de tecnologia, como a Petrobras, a Eletrobrás, a Embraer, a indústria naval e as grandes construtoras). Para que desenvolver conhecimento, que promove ganhos de produtividade e aumentos salariais (além de maior competitividade), se para obter seus “pequenos” ganhos no cenário internacional basta manter a mão de obra inculta e abundante, o desemprego alto e os salários baixos?
    Nossas elites tradicionais têm vocação subalterna. A elas bastam seus “pequenos” grandes ganhos. Pouco lhes importam o país e sua gente. Pouco lhes importa o futuro coletivo. Bastam-lhes os ganhos imediatos. Temos uma elite extrativista, que promove e mantém há séculos algo que se pode definir como um tipo de colonialismo interno. Somos uma nação historicamente colonizada e espoliada por sua própria elite. Uma nação mantida conscientemente “subdesenvolvida” e “atrasada”, porque essa condição é suficiente para que nossas elites obtenham os ganhos imediatos que lhes asseguram riqueza e bem-estar.
    Sempre exportamos muitas das commodities mais valiosas do comércio mundial: pau brasil, açúcar, ouro e diamantes, borracha, café, soja e, agora, petróleo bruto. Enquanto nossas elites se enriqueceram e continuam se enriquecendo, a grande maioria do nosso povo se manteve e se mantém paupérrima. Sempre estivemos entre as nações com os maiores PIBs mundiais, mas sempre nos mantivemos entre aquelas com as maiores concentrações de riqueza no mundo – hoje somos o segundo país em desigualdade social e a miséria retomou o processo histórico de crescimento, que fora momentaneamente rompido nas duas décadas iniciais dos anos 2000.
    Bonifácio de Andrade, Vargas, Jango, Lula e Dilma, lideranças que tentaram por caminhos diversos e não sem erros romper com essa tradição histórica, foram submetidos a provações semelhantes. Bonifácio, não obstante tenha sido cognominado como o Patriarca da Independência, caiu logo em desgraça por idealizar e lutar por um país desenvolvido e soberano, tendo sido perseguido e exilado pelo imperador Pedro I.
    Vargas, que iniciou o salto de industrialização e a legislação social do país, foi deposto e depois induzido ao suicídio, logo após ter criado a Petrobras e o monopólio estatal do petróleo. Jango, deposto por ter ousado propor “reformas de base” que modernizariam o capitalismo nacional, promoveriam desenvolvimento, competitividade e melhor distribuição de riquezas, morreu no exílio em situação até hoje não suficientemente esclarecida.
    Lula, que promoveu a saída da miséria absoluta de 28 milhões de pessoas e a ascensão social de outras 40 milhões, que iniciou um novo projeto de integração do hemisfério sul e em cujo governo o país retomou o processo de crescimento econômico interrompido desde os anos de 1980, não obstante tenha terminado seu mandato com mais de 80% de aprovação da opinião pública, foi condenado e preso por mais de um ano sob a acusação de corrupção, foi impedido de se candidatar a novo mandato presidencial e hoje ainda responde a dezenas de processos e corre risco de ser novamente preso. Dilma, mesmo que tenha governado durante o período de menor desemprego já registrado na história do Brasil e tentado, ainda que sem sucesso, a retomada do processo de industrialização do país, teve seu mandato cassado e foi alvo de chacotas da grande mídia e do empresariado que ela pretendeu incentivar e induzir ao crescimento.
    Os “pequenos” grandes ladrões que nos governam há séculos e que, nas poucas e rápidas vezes em que estiveram fora do poder por terem sido derrotados nas urnas, não hesitaram em empregar métodos fundados na violência e na fraude para retomar ao mando, só poderão ser afastados do poder por um intenso e difícil esforço coletivo de articulação de amplos e diversificados segmentos sociais prejudicados com o modelo concentrador, os quais se encontram fragmentados e não organizados.
    Hoje, os ovos das serpentes de um novo e ainda mais nefasto tipo de fascismo, que sequer defende as riquezas nacionais, já eclodiram. Os seus ataques, que começaram na grande imprensa e tomaram as redes sociais, as conversas e reuniões de amigos e familiares, além de se incrustarem em grande parte das instituições públicas constitucionalmente destinadas a garantir a democracia, os direitos e os deveres dos cidadãos e dos governantes, já se espalharam pelas ruas e começam a espocar em bombas e atentados.
    No último ano, aumentou exponencialmente a violência contra as mulheres, os negros e os pobres, o assassinato de lideranças rurais e indígenas e o esbulho de suas terras, bem como a truculência policial e sua impunidade. Espalharam-se por diferentes estados do país as milícias formadas por policiais e marginais e seu controle sobre as áreas desassistidas da população. A valer as revelações da história universal, a escalada do terror depois de iniciada tende sempre a aumentar.
    Interromper o avanço desse novo fascismo só será possível com a união das organizações da sociedade civil comprometidas com a defesa da democracia e a reconstrução nacional, sejam elas partidos políticos da esquerda, do centro e da direita não adepta da barbárie, sejam sindicatos, associações, comitês e agrupamentos de cidadãos. Para isso, precisarão se refazer internamente e se reagrupar, minimizando suas diferenças e valorizando suas semelhanças e, ainda mais importante, buscando conquistar as amplas parcelas da população ainda hoje encantadas pelos brados nazifascistas dos “pequenos” grandes ladrões que nos governam.
    Terão que fazer tudo isso construindo um novo projeto de Nação, capaz de atrair e abrigar as mais amplas camadas da população e, ao mesmo tempo, despertar uma identidade nacional brasileira (não xenófoba) hoje inexistente nas nossas classes médias e altas. A “revolução” que nos cabe lutar e vencer no Brasil (e no mundo) é a da reafirmação da democracia e da sua radicalização, cujo caminho é longo e exige capacidade de mobilização, diálogo e negociação. *Cientista político, professor da UFRGS (aposentado), integrante das coordenações do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e do M3D – Movimento Democracia, Diálogo e Diversidade.
    btcesar@gmail.com

  • RODRIGO MARONI/ Até quando?

    Amanheceu na cidade de Guaíba, Rio Grande do Sul.
    Dona Alveni, aos 63 anos de idade, acordava para um novo ano, um novo dia.
    Tudo muda.
    Nada acontece.
    Esperança de um ano melhor, com a possibilidade de viver (sobreviver, na verdade) com mais acesso à dignidade.
    Sabe as imagens que aparecem na televisão? Principalmente em anos eleitorais? Cidades melhores, pessoas mais felizes. “Reforma agrária”. “Diminuição da desigualdade”. “Aumento de empregos formais.”
    Dona Alveni, sobrevivente, sonhava com todas essas promessas.
    Moradora da cidade de Guaíba, se deparou com a iminência de morte de vários cães do bairro quando percebeu que um fio da energia elétrica estava exposto em poças de água.
    Apavorou-se com o que via: os cães mexendo nos fios, constatação de uma tragédia que estava por vir.
    Buscaram ligar para aqueles que comandam a cidade bonita e para todos apresentada nas eleições.
    A exposição do fio na poça de água colocava em risco os cães e inúmeras crianças que brincavam no local.
    A resposta que teve foi: mostre-me uma conta de luz formal que iremos resolver!
    Lógica liberal. Quem consegue ter conta merece atendimento.
    Mostre-me uma conta de luz formal…numa comunidade sobrevivente… num bairro sem acesso a serviços básicos, com a maioria ganhando o mínimo para sobreviver.
    Dona Alveni, então, como todas as guerreiras das comunidades carentes, foi socorrer os cães. Colocou os pés na água. Pegou o fio desencapado. Eletrocutou-se, junto a um dos cãezinhos.
    Morreu salvando vidas, e deixou uma mensagem no ar: até quando vamos deixar a pobreza enfrentar sozinha suas mazelas?
    Até quando a política servirá apenas para aumentar os lucros dos ricos?
    Até quando a lógica liberal de quem merece  o necessário e essencial é quem tem méritos por não ser pobre?
    Rodrigo Maroni é Deputado Estadual

  • VILSON ROMERO/A MP 905, a CLT e os registros profissionais

    Vilson Antonio Romero (*)
    O governo fez novas mudanças expressivas na CLT e nas leis previdenciárias através da Medida Provisória (MP) n⁰ 905, editada em 12 de novembro de 2019, que já vigora com o intuito oficial de “reduzir o desemprego e a informalidade através da criação de mecanismos específicos, como a instituição do contrato de trabalho Verde e Amarelo e outros que visam a simplificação e desburocratização normativa, a racionalização de procedimentos e a promoção de segurança jurídica para favorecer o empreendedorismo e o ambiente de negócios e, com isso, possibilitar, também, a criação de novos e melhores postos de trabalho”.
    Mas, de fato, a MP intensifica a exploração da mão de obra com a precarização de direitos de jovens trabalhadores entre 18 e 29 anos, ao reduzir a multa e os depósitos do FGTS, autorizar trabalho adicional sem horas extras, liberar o trabalho aos domingos e feriados e ainda, reduzir o adicional de periculosidade de 30% para 5%, entre outras determinações.
    Além disto, cria empecilhos à fiscalização trabalhista, essencial à saúde e segurança do trabalhador e, no campo processual, altera o critério de atualização dos créditos trabalhistas em detrimento do trabalhador reclamante.
    Não passa despercebida a questionável taxação do seguro desemprego, por mais que possa ser defendida em razão de contagem do tempo para a aposentadoria, é cruel pensar em tirar algum dinheiro de alguém que está na situação mais frágil do mercado de trabalho: a de desempregado.
    Há evidentes retrocessos sociais e vícios técnicos no texto em debate no Congresso Nacional, apresentados por autoridades, parlamentares e especialistas.
    Inclusive a Instituição Fiscal Independente (IFI) que assessora os senadores, calcula que a MP tem um viés mais arrecadatório, ou seja, busca mais reforçar o caixa do governo, do que de incentivar o emprego.
    O Contrato Verde Amarelo isenta da contribuição previdenciária, salário-educação e contribuições para o Sistema S, reduz o FGTS de 8% para 2%, nos casos de contratações de trabalhadores entre 18 a 29 anos.
    Como essas medidas resultam em perda de arrecadação, o governo decidiu compensá-la com a taxação de 7,5% sobre o seguro-desemprego. O estudo da IFI avalia que, caso a meta de criação de vagas anunciada pelo governo seja alcançada – ou seja, 1,8 milhão de vagas geradas –, a renúncia fiscal seria de R$ 11,3 bilhões. Já com a taxação do seguro-desemprego, a IFI estima em arrecadação extra de R$ 12,7 bilhões.
    Há também uma série de “jabutis” na MP: o governo aproveitou para acabar com a necessidade de registro profissional para 13 categorias.
    Jornalista, artista, corretor de seguros, publicitário, atuário, arquivista e técnico de arquivo, radialista, estatístico, sociólogo, secretário e até guardador e lavador autônomo de veículos automotores são as profissões para as quais o registro junto às antigas DRTs deixa de ser exigido.
    Ao invés de misturar alhos com bugalhos, o governo deveria preservar, no mínimo, as categorias profissionais para cujo exercício há necessidade de formação acadêmica, bem como buscar outras fontes para bancar o programa Verde Amarelo, como a redução das renúncias tributárias e a melhoria na efetivação do contencioso, antes de pura e simplesmente taxar o desempregado.
    No retorno do recesso parlamentar, este debate deve esquentar. Esperemos para ver.
    (*) jornalista, coordenador de Estudos Socioeconômicos da Anfip e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

  • ALDO REBELO/EUA x China: entre a paz armada e a guerra híbrida

    ALDO REBELO
    Estados Unidos e China anunciaram a conclusão da fase preliminar do acordo para acabar com a guerra comercial entre os dois países, que já afetava o comércio e a economia mundial.
    O acordo consiste basicamente na redução da artilharia pesada tarifária com que ambos os países atingiram uma série de produtos um do outro, e no compromisso chinês de ampliar as compras agrícolas nos Estados Unidos.
    O acerto revelado triunfalmente pelo presidente Donald Trump desencadeou uma onda de euforia nos mercados, inclusive no Brasil, com alta da Bolsa e queda do dólar.
    Mas a bolha de euforia precisa levar em conta que o ajuste anunciado não remove os obstáculos mais importantes que separam Estados Unidos e China de um entendimento abrangente e duradouro.
    Ao contrário, episódios recentes entre os dois países indicam uma situação de paz armada, denominação dada pelos historiadores ao período percorrido pela Europa entre o final da Guerra Franco-Prussiana e a Primeira Guerra Mundial.. quando as desconfianças entre as potências desencadearam a corrida armamentista e a crise econômica que resultaram na carnificina de 1914-1918; ou de guerra híbrida, como parece a que é travada em Hong Kong, onde manifestantes com explícito apoio norte-americano desafiam a autoridade chinesa.
    Tanto é assim que enquanto os negociadores dos dois países conduziam o pacto para pôr fim à guerra comercial, a Câmara dos Deputados em Whashington aprovava o Uyghur Rights Policy Act, legislação com proposta de sanções contra a China por supostas violações de direitos da população muçulmana na província de Xinjiang.
    Em outubro Trump já sancionara uma lei prevendo a punição de autoridades chinesas e de Hong Kong envolvidas na repressão aos protestos que há seis meses ocorrem na cidade. Em retaliação, a China suspendeu a autorização para a presença de navios dos Estados Unidos no porto de Hong Kong.
    A pressão de Trump sobre aliados europeus levou dois partidos da base de apoio da primeira-ministra Angela Merkel a apresentarem projeto de lei que praticamente exclui a gigante chinesa de tecnologia Huawei da instalação da rede 5G na Alemanha.
    A China já anunciou que as montadoras alemãs de automóveis sofrerão retaliações, caso a lei venha a ser aprovada.
    No último dia 17 de dezembro, em solenidade concorrida e com a presença do presidente Xi Jinping, a China incorporou à sua marinha de guerra o porta-aviões Shandong, inteiramente fabricado em seus estaleiros, e já informou que está em construção um terceiro navio de uma série de seis.
    A liberdade de navegação no Mar do Sul da China e o destino das gigantes chinesas de tecnologia são os verdadeiros desafios para os quais os negociadores dos Estados Unidos e da China não têm solução à vista.
    O Brasil pode e deve antecipar os movimentos que o protejam da tensão permanente e incontornável entre os Estados Unidos e a China, e colher das amplas possibilidades de que dispõe nas relações com o poderoso vizinho do hemisfério Norte e com o gigante asiático o melhor resultado possível para o seu desenvolvimento.
    Mas, para tanto, precisa alterar o rumo errático da diplomacia praticada pelo Itamaraty e pelo próprio presidente da República, de aliança quase submissa aos Estados Unidos, e de negação de nossa tradição mediadora em política externa.
     
     

  • BENEDITO TADEU CESAR / Eleições 2020: não será hora de ousar?

    As eleições municipais de 2020 poderão ser um divisor de águas, o início de um processo de rearticulação das forças e partidos democráticos de centro-direita, centro, centro esquerda e esquerda ou mais um passo na consolidação das forças e partidos de viés fascista de direita e de extrema direita.
    O caminho escolhido dependerá, em grande parte, da clarividência das lideranças políticas, de sua capacidade de ler a conjuntura política e econômica, de entender os humores da opinião pública e do eleitorado, de costurar alianças e de apresentar candidaturas capazes de se sobrepor às campanhas negativas.

    Para além da influência das grandes empresas de comunicação social na formação da opinião pública e na definição de votos, serão as mídias sociais alternativas, principalmente as veiculadas pelas redes sociais, em que circulam memes e fake news, as principais armas de combate para a destruição dos adversários e a conquista de votos.

    O horário eleitoral de rádio e TV, determinante nas eleições anteriores a 2018, terá papel secundário, senão desprezível, ainda menos importante do que teve nas eleições presidenciais. Mais do que nunca, a desconstrução do(a) adversário(a) será o cerne das campanhas. A velha máxima de que “candidato que bate, pode destruir o adversário, mas não ganha eleição”, caiu por terra. As notícias falsas (produzidas por equipes altamente profissionais e com embasamento científico sofisticado, disparadas por centros emissores poderosos e milionários, quase sempre localizados no exterior, por meio de centenas e milhares de robôs, e disseminadas pelas tias e tios, primas e primos, irmãs e irmãos, amigas e amigos de cada eleitor, muitas vezes de modo ingênuo) serão as grandes formadoras da opinião pública e que terão peso fundamental na definição do voto da grande maioria do eleitorado. Não por acaso, pesquisa de opinião recente detectou que aqueles que se informam pelas mídias sociais têm visão mais positiva do governo atual e responsabilizam mais fortemente os governos anteriores (liderados pelo PT) pela crise.
    Atravessando o período mais extenso de crise e estagnação econômica da história brasileira, em meio ao desemprego recorde, à diminuição do poder aquisitivo, ao crescimento da miséria e da concentração de renda (somos hoje o segundo país mais desigual do mundo), grande parte da população está ainda convencida de que a “culpa” de tudo “é do PT” e das esquerdas comunistas, da “velha política”, identificados com a “corrupção”, a crise econômica e o colapso “moral”. Por esse motivo, a maioria apostou na “nova política”, corporificada no bolsofascismo e nos seus partidos satélites,  em que se incluem o PSL, o Aliança pelo Brasil em formação, o Novo, os velhíssimos PP, PTB, PPS e DEM ou o travestido Podemos, todos identificados agora com a “austeridade fiscal”, a pseudomoralidade (pública, social e individual) e o que alegam ser a “reconstrução do país” em curso.
    Evidenciando visões estreitas, baixa capacidade de análise conjuntural ou simplesmente oportunismo extremo, amplos setores do centro e da centro-direita, de um lado, e da esquerda e da centro-esquerda, de outro, adotam avaliações e posturas semelhantes. Derrotados e até esfacelados, após as eleições de 2018, ansiosos por reconquistar seus antigos eleitores e avançar sobre os de seus adversários, setores destes campos acreditam que surgirá a oportunidade, em tempo curto, para se apropriarem do que creem será o espólio do campo adversário.
    Grande parte das forças de centro e centro-direita, que foram fragorosamente derrotadas nas últimas eleições presidenciais e que se encontram hoje ligadas em graus diversos ao bolsofascismo, apostam em se apoderar do espólio do próprio bolsofascimo num futuro próximo, quando suas políticas fracassarem e o desencanto se enraizar entre os que se deixaram seduzir por suas promessas. Sonham também em abocanhar parcela do eleitorado de centro-esquerda, desencantada com os chamados “extremismos”, tanto bolsonarista quanto lulista. Apresentarão candidaturas próprias no pleito municipal, mas tenderão a se aliar com a direita e a extrema direita no segundo turno.
    Reproduzindo a postura adotada por seus congêneres europeus, principalmente italianos e alemães, no início do século XX, a maioria dos partidos e forças da direita e centro-direita une-se hoje à extrema-direita, acreditando que ela fará o “trabalho sujo” de destruir as antigas estruturas do Estado, as políticas sociais e, sobretudo, aniquilar as forças de esquerda em seu amplo espectro. São eles os que mais fortemente rejeitam qualquer entendimento com a centro esquerda e a esquerda para combater o bolsofascismo e garantir a democracia.
    Derrotadas nas últimas eleições presidenciais e nas municipais de 2016, a esquerda e a centro-esquerda querem se recompor e reconquistar espaço. Buscando se reafirmar, agitam publicamente a bandeira da aliança democrática antifascista, enquanto, muitas vezes, trabalham nos bastidores pelas candidaturas próprias e pela demarcação de territórios, cada qual procurando garantir seu quinhão de poder. Propõem a articulação de uma frente “ampla” que, em muitas localidades, não vai além da junção das forças de esquerda, tradicionalmente divididas.
    Se insistirem nas atuais posturas, serão todos engolidos pela extrema direita bolsofascista: os partidos ou forças políticas de centro direita, de centro, de centro esquerda e de esquerda. Os de centro e centro direita, aos poucos, até que não seja mais possível barrar a necropolítica que se enraíza no país. Os de centro esquerda e de esquerda, já nas próximas eleições, quando serão novamente derrotados pelo fanatismo pseudomoralista, anti “comunista”, anti conhecimento e anti civilização em curso.
    O quadro ideal para a vitória da extrema direita bolsofascista 
    Analisando a conjuntura eleitoral detectável hoje em Porto Alegre, e que pode ser tomada como exemplo do que se esboça em todo o país, constata-se uma forte tendência à fragmentação das candidaturas de todos os campos políticos, escorada na desculpa, elevada a dogma analítico, de que a proibição de coligações para a eleição de cargos proporcionais (vereadores) obriga a apresentação de candidatura majoritária (prefeito) de cada partido, que seria a “puxadora de votos dos vereadores”. Quando muito, admitem a inclusão de um ou mais partidos na coligação majoritária que, heróica e desprendidamente, ao não apresentarem candidatos majoritários, deverão correr o risco de não elegerem bancadas expressivas de vereadores.
    No caso de Porto Alegre, a centro-direita, direita e a extrema direita têm como possíveis candidatos o atual Prefeito Marchezan Júnior, pelo PSDB, o vice-Prefeito, rompido com o titular, Gustavo Paim, pelo PP, os vereadores Valter Nagelstein e Comandante Nádia, que ameaçam deixar o MDB e se filiar, um ao PTB e a outra ao futuro partido de Bolsonaro, e o ex-Prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, pelo MDB. O centro tem como possibilidades as candidaturas da deputada Juliana Brizola, pelo PDT, e do vereador Airto Ferronato, pelo PSB. A esquerda e a centro esquerda aventam a possibilidade de uma aliança que incluiria o PT, o PCdoB e o PSOL, com as candidaturas da deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB), para Prefeita, e do deputado estadual Pedro Ruas (PSOL), para vice, ficando o PT fora da chapa majoritária, ou, ainda, com a vaga de vice ocupada pelo ex-ministro e ex-vice-governador Miguel Rossetto (PT) ou outro quadro petista. PSOL e PT disputam a vaga de vice e cada um ameaça não integrar a aliança, caso seu indicado não seja o escolhido.
    A coligação que se desenha entre os partidos de esquerda e centro esquerda, de uma amplitude inédita em Porto Alegre, reunindo o PSOL e PT, antes adversários, e o PCdoB, em flagrante contraste com a fragmentação aparente entre os partidos do campo da direita e da centro direita, é, ainda assim, estreita e vulnerável. Não vai além da própria esquerda e apresenta nomes com enorme flanco aberto para a exploração pelas fake news, pelos memes e o bombardeio midiático e internético.
    Manuela D´Avila, detentora de imensas qualidades pessoais e políticas, amplamente demonstradas em sua militância e seus mandatos como vereadora, deputada estadual e federal e como candidata a Prefeita de Porto Alegre (2008 e 2012) e a vice-Presidente da República, na chapa com Fernando Haddad (PT), em 2018, e mesmo que se pese a dívida que o PT possa ter com ela e com o PCdoB, foi um dos alvos mais atingidos pelas fake news e memes bombardeadas pelos robôs e voluntários informais da campanha bolsofascista. Comunista que “come criancinhas”, que distribui “mamadeira de piroca” e que propaga que “Jesus é gay”, entre outras inverdades, será alvo fácil na campanha eleitoral de 2020.
    Fiar-se em pesquisas eleitorais realizadas quase um ano antes do pleito é ilusório. Elas medem apenas o conhecimento que entrevistados têm dos possíveis candidatos e a lembrança de suas candidaturas anteriores. São as campanhas eleitorais que definem os resultados das disputas e a próxima será definida essencialmente pela batalha na internet.
    Parece claro que as estratégias eleitorais traçadas pelos partidos e forças políticas democráticas, sejam de centro ou de esquerda em seus amplos espectros, merecem ser revistas. Ainda há tempo para a modificação das estratégias, para o abandono das disputas gerais por pequenas hegemonias e pela demarcação de espaços e para a ampliação das alianças que possam derrotar eleitoralmente a extrema direita e o bolsofascismo.
    Caso não seja possível a inclusão do centro e da centro direita na aliança eleitoral democrática e antifascista, uma vez que os partidos e forças políticas desse campo dão sinais de que participarão com candidatos próprios ou insistirão em se aliar à extrema direita, talvez seja o momento de a esquerda e a centro esquerda terem a coragem de ousar. Por que não buscar nomes respeitados na sociedade e com experiência de gestão democrática, mesmo que estejam fora de seus quadros, capazes de construir novas pontes com a sociedade civil e, assim, ampliar seu potencial de votos e as chances de vitória da democracia sobre o fascismo?
    (*) Cientista político, integrante das coordenações do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e do M3D – Movimento Democracia, Diálogo e Diversidade.

  • MIRIAM GUSMÃO / A irresponsabilidade dos partidos de esquerda

    Não é possível que a população pobre e os segmentos progressistas independentes desta cidade sejam submetidos, mais uma vez, à irresponsabilidade dos partidos de esquerda.
    Ficaremos, de novo, sem chances, e a direita desmontadora de tudo continuará na prefeitura? Não é concebível que esses partidos continuem com suas disputas por uma tola hegemonia e se envolvam de maneira meramente eleitoreira e sectária no processo eleitoral do ano que vem.
    São patéticas as fotos do lançamento do suposto “Congresso do Povo” que o PT e o PC do B inventaram de fazer, ontem, na Redenção. Só faltou o povo!! Não adianta mencionar o nome de dirigentes de algumas entidades, todos eles com vinculação com esses dois partidos, pra dizer que foi representativo. Não foi. Faltou o povo. Parem de brincar de política, parem de fazer jogo de cena! A situação da cidade é grave, exige maior responsabilidade. Lá estavam os mesmos políticos e militantes falando para eles mesmos e, pior, falando tão-somente as mesmas coisas, sem qualquer aprofundamento.
    E esse grupo critica o Psol, que seria o sectário por não se submeter à busca da “unidade” via PT/PC do B. Já o Psol critica essa via, que seria sectária por ter ignorado a proposta psolista de realização de uma prévia eleitoral para definir nomes e programa. Na verdade, a prévia poderia definir nomes, mas jamais consolidaria um programa unitário para um governo progressista. A construção desse programa unitário exigiria competência, debate unitário aprofundado, estudo sério das questões sociais, verdadeira abertura para uma verdadeira unidade, espírito público, outro modo de fazer política.
    Agora os dois blocos falam em “buscar o povo”, “ir para a periferia”. Ir com tudo pronto, como faz a direita, ir tentar abocanhar o povo, “encantar” com proselitismo. Partidos que se distanciaram do povo, que se encantaram, isso sim, com gabinetes e cargos… Militantes em busca de status, discursando ao microfone para se tornarem “referência”, pois trabalho de base, luta social, é o que menos fazem (e alguns nada fazem).
    Desde que o neoliberalismo passou a destruir totalmente as políticas públicas, com auxílio feroz de fascistas neste país, eu tinha feito a minha parte, cuidando de suspender qualquer crítica a qualquer partido ou liderança das esquerdas. Os dias foram passando, eu e milhares de outros progressistas assistindo, aflitos, à repetição das mesmas disputas irresponsáveis desses partidos… E a gente aguardando a unidade das esquerdas… Agora, quando o ano eleitoral se aproxima e esses políticos e seus fiéis seguidores escancaram seu modo de proceder e sua incompetência para a unidade, não adianta mais ficar calada aguardando…
    Conclamo: esquerdistas, progressistas, mostrem sua indignação com a politicagem, ajudem a buscar a boa política. Sabemos inclusive que os nomes de candidatos não deveriam ser esses que estão sendo jogados na barganha… as esquerdas têm nomes mais agregadores para o executivo municipal (Pedro Ruas, por exemplo, ou outros, dependendo do processo de construção de um programa realmente unitário).

  • VILSON ANTONIO  ROMERO/ Nação Desigual

    Passam os anos e a nossa desigualdade social segue escancarada e insolúvel. Novamente, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou seu ranking anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e as notícias para o Brasil seguem preocupantes.
    Voltamos a cair na classificação mundial (pesquisados 189 dos cerca de 200 países reconhecidos no mundo) do IDH que mede o bem-estar da população com base em indicadores de saúde (expectativa de vida ao nascer), educação (anos esperados de escolaridade e média de anos de estudo da população adulta) e renda nacional bruta per capita.
    Desde que foi criado em 1990, tendo como base o trabalho dos economistas Mahbub Ul Haq (paquistanês) e Amartya Sem (indiano), nunca logramos chegar ao nível mais elevado do índice surgido como uma medida alternativa de desenvolvimento em contraponto ao simples uso do Produto Interno Bruto (PIB) dos países.
    Com um aumento de apenas 0,001 em relação a 2017, o Brasil passou da 78.ª para a 79.ª colocação em 2018, ficando em 0,761 pontos (quanto mais próximo de 1,000, maior o desenvolvimento humano da população).
    Numa retrospectiva, o Brasil registrou avanços significativos entre 1990 e 2013, porém, desde então vem caindo no ranking: já perdeu três posições, principalmente pelo fato de os indicadores de qualidade na educação se manterem em patamares muito baixos.
    O levantamento mostra o efeito dos equívocos cometidos pois o período esperado para que os brasileiros fiquem na escola estagnou em 15,4 anos desde 2016. Além disso, a média do tempo de estudo da população adulta ficou em apenas 7,8 anos – a mesma de 2017.
    A desigualdade de renda é outra chaga da sociedade brasileira: os 10% mais ricos detêm 41,9% da renda total do país, constituindo-se na segunda maior concentração de renda em todo o mundo, atrás apenas do Catar.
    Em outras variáveis há evoluções tímidas: a expectativa de vida ao nascer passou de 75,5 para 75,7 anos e a renda nacional bruta per capita subiu de US$ 13.975 para US$ 14.068.
    Na classificação geral, o melhor IDH é o da Noruega (0,954), seguido pelo da Suíça (0,954) e da Irlanda (0,942). Os três piores são Chade (0,401), República Centro-Africana (0,381) e Níger (0,377). Na América do Sul, o Brasil está atrás do Chile (0,847), Argentina (0,830) e Uruguai (0,808).
    Como alerta o PNUD, no relatório deste ano: “As desigualdades no desenvolvimento humano ferem as sociedades e enfraquecem a coesão social e a confiança das pessoas no governo, nas instituições e umas nas outras. As desigualdades ferem também as economias, impedindo que as pessoas alcancem seu potencial no trabalho e na vida”.
    Como os organismos internacionais sempre têm denunciado, há muito a ser feito neste nosso país-continente sempre em vias de desenvolvimento, para que tenhamos uma Nação mais justa, igual e solidária.
    Vilson Romero é jornalista, diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – vilsonromero@yahoo.com.br – fone 61-981174488

  • JOSÉ ANTONIO SEVERO/A dança das cadeiras no Prata

    José Antonio Severo
    O presidente Alberto Fernández e o vice-presidente Hamilton Mourão botaram o balde de água fria na fervura da crise Argentina/Brasil, arrefecendo o arranca-rabo verbal entre o brasileiro Jair Bolsonaro e o novo governo portenho, que tomou posse nesta semana em Buenos Aires. Essa solução lembra, com papéis trocados entre os atores, revivendo a pacificação de 1910, quando os dois países quase foram à guerra por causa da mesma desfeita: O Brasil não mandou representantes à festa do primeiro centenário da independência das então Províncias Unidas del Río de La Plata, futura (1860) República Argentina. Vamos refrescar a memória histórica.
    O atual episódio aparentemente se extinguiu quando o presidente Maurício Macri, com sua proverbial elegância bonaerense, conseguiu botar panos quentes para evitar que seu sucessor Alberto Fernández ficasse exposto a algum constrangimento logo no início do mandato, aceitando antecipar a 55 ª Reunião de Cúpula do Mercosul, realizada em Bento Gonçalves (RS). Assim, deu mais tempo para seu amigo Jair Bolsonaro se acomodar na situação “pragmática”, sem precisar se retratar. Dar tempo ao tempo, é a regra.
    Com isto, Brasil e Argentina fizeram, terça feira, um afago no lugar de disparar impropérios. Mas as tensões não se resumem aos arrufos entre os dois mandatários. Também o Uruguai, vendo seus vizinhos traçando riscas no chão, amoleceu, mandando como chefe da delegação a vice-presidente Lucia Topolansky, igualmente nos últimos dias de seu mandato. Com isto, o presidente brasileiro, que estava deixando a presidência pró tempore do Mercosul, passou o martelo (como disse Bolsonaro, referindo-se ao bastão de comando) para seu sucessor pelos próximos seis meses, o também estreante presidente do Paraguai, Marco Abdo Benítez.
    Pausa na velha polêmica
    A manobra não desanuviou inteiramente o cenário político das duas maiores economias da sub-região. As relações diplomáticas entre os dois países vêm se atritando desde a eleição do candidato peronista, podendo, rapidamente, contaminar o intercâmbio comercial e minar irremediavelmente o bloco regional, o Mercosul, que já vem mal das pernas. Foi prudente o chefe do governo argentino, contribuindo para adiar a peleja.
    O sinal de alerta foi dado pelo deputado nacional(federal) argentino Ricardo Alfonsín, do Partido União Cívica Radical, advertindo que pode ir por terra a delicada costura realizada por seu pai, o ex-presidente Raúl Alfonsín (1983/89) e o brasileiro José Sarney. Os dois deram por finda uma rivalidade estratificada de séculos, criando o Mercosul.
    É verdade que as relações do mundo lusitano com os hispânicos platinos nunca foram muito tranquilas. Sarney e Alfonsín conseguiram aplainar arestas, o que foi mantido por seus sucessores, Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma. No século passado houve momentos dramáticos, à beira do conflito.
    Artigo abriu os olhos
    Um artigo de jornal abriu os olhos nos dois países. Neste sentido, vale transcrever trechos de um artigo publicado no jornal Clarín, o maior em circulação na Argentina, pelo historiador Rosendo Fraga, relembrando os momentos de maior tensão entre os dois países no Século XX. Fraga é um cientista político e diplomata, que serviu com o mais famoso embaixador argentino no Brasil, Oscar Camillon, depois chanceler de seu país. É um especialista respeitadíssimo.
    Escreve Rosendo (em tradução livre): “Os atuais embates entre Alberto Fernández e Jair Bolsonaro refletem uma difícil situação no vínculo bilateral. Mas não é o único. Houve outro muito mais difícil”, diz o historiador.
    Continua: “de fato, o momento mais difícil das relações entre Brasil e Argentina no Século passado ocorreu na primeira década, concretamente entre 1906 e 1910”.
    Fraga adverte que a grande crise se iniciou com um incidente menor, em 1906, insignificante, que descambou para a insensatez e quase levou os dois países às vias de fato.
    Começou numa ação desastrada da guarda costeira portenha, envolvendo um navio de bandeira uruguaia que navegava numa área proibida do Rio da Prata, disputada na demarcação de limites entre Argentina e Uruguai. O bate-boca entre Montevidéu e Buenos Aires foi escalando, até que o Uruguai, o célebre algodão entre os cristais, “sentindo-se ameaçado por um vizinho maior– conta Rosendo – aproximou-se do outro, no caso o Brasil. Tratava-se do jogo pendular que países como Bolívia, Paraguai e Uruguai, que têm fronteiras com os países de maiores dimensões, fazem o jogo buscando certo equilíbrio de poder conveniente a seus interesses”. Aí a confusão dos platinos chega ao Rio de Janeiro.
    A Primeira Lição
    Vamos acompanhar mais um trecho da narrativa de Rosendo Fraga: “neste caso (do barco uruguaio) a crise foi mais longe do que o previsto. Esta é a primeira lição que deixa este conflito: as crises podem escalar por erro de cálculo”.
    Esta história é uma boa advertência ao Itamaraty, atualmente conduzido por um diplomata de carreira ainda pouco experiente, sem grande experiência nas áreas de conflito. Está mais habituado aos embates retóricos. Entretanto, como conta Rosendo Fraga, a questões pode evoluir das bocas-rotas para a boca de um cano de canhão. Aí, literalmente, esquenta.
    A recusa do presidente Bolsonaro de comparecer à posse do novo presidente da Argentina lembra o incidente do início do século passado.
    “A deterioração do relacionamento para valer começou quando ao se comemorar na Argentina o primeiro centenário (da independência da Espanha), não compareceu nenhuma delegação brasileira”.
    Isto causou grande desconforto em Buenos Aires. Na posse de Fernández, o governo Bolsonaro seria representado pelo ministro Osmar Terra, da Cidadania. A escolha do delegado brasileiro justificava-se porque o ministro foi prefeito de Santa Rosa, às margens do Rio Uruguai, fronteira entre os dois países e terra de Xuxa Meneghel, que até hoje é a artista brasileira mais popular nos pampas argentinos. Esperava-se que isto baste para contornar o carão. Entretanto, na última hora o presidente brasileiro desfez a delegação e disse que não iria ninguém na festa castelhana. A fervura voltou a subir. Tal qual em 1910. Voltemos à narrativa de Rosendo.
    Naqueles tempos, a mídia argentina abriu a boca e considerou um desaforo que o Brasil não mandasse ninguém à grande comemoração. “Ao mesmo tempo – escreve Rosendo – os dois países haviam embarcado numa caríssima corrida armamentista, que tinha como ponto mais importante a compra de dois navios encouraçados”. Estas eram as armas estratégicas mais poderosas daqueles tempos. Cada qual encomendara três embarcações de grande porte, o Brasil na Inglaterra, a Argentina nos Estados Unidos.
    Segunda Lição: vaidades e rancores
    Conta Rosendo Fraga: “Neste conflito, tinham papel importante as personalidades: no Brasil, comandava as relações exteriores o barão do Rio Branco, chanceler entre 1902 e 1912 – quando morre – com quatro presidentes sucessivos. Do outro lado, o presidente argentino José Figueroa Alcorta – sem experiência internacional, escolheu Estanislao Zeballos, uma sólida personalidade na política, no direito, no jornalismo e nas letras, como seu chanceler. Era um grande erudito nas questões de limites em nosso País (Argentina)”, conta Rosendo.
    Continua o narrador: “Parecia o homem certo. Mas ao começar a última década do Século XIX, Zeballos e Rio Branco haviam sido os peritos designados por seus respectivos países para defender suas posições na arbitragem do presidente (Stephen Grover) Cleveland dos Estados Unidos, que deveria pronunciar-se sobre a quem pertencia o território das Missões, contíguo à província argentina que leva seu nome. No Brasil abrangia grande parte de Santa Catarina e um pedaço do Paraná. (Essa terra sem dono produziu, depois o conflito do Contestado).
    O brasileiro Rio Branco havia chegado a esse encontro, preparando-se durante muitos anos nas questões de limites. O argentino não percebeu, pois acreditava ter pela frente um opaco cônsul de seu país em Liverpool.
    Ledo engano. Rio Branco aproveitara o tempo na Inglaterra, para estudar, pesquisar e escrever importantes livros sobre a história e a geografia de seu país. O argentino, por seu lado, chegava muito seguro, com fama e prestígio. Mas o barão terminou sendo mais eficaz e convincente e a sentença de Cleveland favoreceu os interesses do Brasil”.
    Nesse ponto, um lembrete ao jovem chanceler Ernesto Araújo.  Rosendo demonstra como as idiossincrasias podem colocar em grande risco as relações internacionais.
    Rosendo recorda a derrota do figurão argentino ante o ainda desconhecido, mas já experiente e bem preparado Rio Branco: “Isto gerou em Zeballos um rancor, que ao assumir o Ministério de Relações Exteriores, tendo quem o havia derrotado como novo antagonista, fez o conflito escalar desnecessariamente. O argentino queria sua revanche”, escreve Rosendo, advertindo: “Aqui aparece uma segunda lição: personalidade e os rancores podem escalar os conflitos desnecessariamente. Podem levar a se perder a perspectiva e tomar atitudes arriscadas e imprudentes”.
    Rosendo relembra o que foi o Barão do Rio Branco no Brasil daqueles tempos, continuando no cargo ao longo de vários governos. Então não era mais o jovem cônsul dos tempos da arbitragem de Cleveland. Era um gigante diplomático.
    Golpe de Mestre
    “O chanceler brasileiro era um poder permanente em seu país. Já no ´primeiro ano no cargo (1902), trocava cartas regularmente com o presidente argentino, general Júlio A. Roca, que nesse momento exercia sua segunda presidência (. Por esta razão quando escala o conflito e Roca se preparava para regressar de uma prolongada viagem à Europa, após finalizar seu segundo governo, em 1904, recebe a sugestão do chanceler brasileiro para desembarcar em algum ponto do Brasil. Roca era um adversário político de seu sucessor ( Alcina), mas todavia controlava o Senado e os governos de várias províncias. A intensão (de Rio Branco) era demonstrar à opinião pública brasileira que haveria quem (na Argentina) não acompanhasse à rígida postura de Zeballos”.
    A manobra teve grande êxito: “Escolheu-se o porto de Santos para a escala (do navio          que levava o ex-presidente argentino) e ali foi recebido pelo barão, junto com o ex-presidente Campos Salles, que entre 1899 e 1900 havia trocado visitas com o general Roca. O encontro não resolveu o conflito, mas distendeu.
    Ao mesmo tempo, não obstante a ausência brasileira nas festas do Centenário (da independência da Argentina), Rio Branco realiza um segundo movimento. É eleito presidente o embaixador argentino na Itália, Roque Sáenz Peña. Sempre atento às oportunidades, o barão sugere (ao novo presidente) que poderia ser conveniente, dada a deterioração das relações bilaterais, que em seu regresso passasse pelo Rio de Janeiro. E assim se faz. O presidente eleito reúne-se com o brasileiro (o recém empossado marechal Hermes da Fonseca) e com seu chanceler. Acertam que uma vez em Buenos Aires, Sáenz Peña enviará uma pessoa de sua confiança para iniciar uma negociação e chegar a um acordo. Já na capital argentina, o novo presidente escolhe para a delicada missão ao deputado nacional (federal) Ramón J. Cárcano, que será um importante embaixador argentino no Brasil nos anos 1930”.
    O novo embaixador (ainda antes da posse) é recebido no Rio com todas as honras, recorda Rosendo Fraga: “Chega ao Rio de Janeiro, atendendo a um convite intermediado pelo barão, para fazer uma conferência no Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro sobre a história das relações entre os dois países. Trazia, também, a proposta para que os dois países concordem e anunciem a suspensão do terceiro encouraçado que haviam encomendado. O Barão não concorda. Diz que não será fácil. Terá de convencer o presidente. Combinam um código telegráfico para informar do êxito da gestão. De volta a Buenos Aires, Cárcano informa ao presidente sobre as conversações. Em poucos dias chega a resposta positiva. O acordo é anunciado. Ao suspender a construção dos terceiros encouraçados, os países davam por finda a corrida armamentista, que consumia recursos e aumentava os desconfortos e prevenções.
    (No final, os dois países ficaram com dois encouraçados cada um: No Brasil foram batizados como Minas Gerais e São Paulo. O terceiro seria o Rio de Janeiro; na Argentina foram denominados Rivadavia e o Moreno, nomes de heróis da independência).
    Terceira Lição, diplomacia
    Conclui o historiador argentino: “Aqui aparece a terceira lição: Uma boa diplomacia – neste caso exercida por um chanceler de um lado e dois presidentes sucessivos do outro – podem conter e inclusive superar conflitos. Estas lições do passado podem ser uteis quando Argentina e Brasil atravessam um momento delicado em sua relação bilateral”.
    Na posse do novo governo argentino, com a ação decidida do vice-presidente brasileiro, convencendo Bolsonaro a lhe dar a missão, os papeis se inverteram. O cordato Alberto Fernández fez o papel do presidente brasileiro, o gaúcho Hermes da Fonseca (São Gabriel) baixou o tom de seu discurso, Mourão fez os rapapés, e os assim Bolsonaro, no lugar do estridente Alcina, baixou abola, e ministro do Exterior Ernesto Araújo teve de engolir suas diatribes anti-peronistas. OU seja, pela segunda vez esses dois porto-alegrenses se encontraram na arena diplomática, Mourão e Ernesto. A primeira foi em Bogotá, quando o vice-presidente brasileiro desconversou a invasão da Venezuela, e acabou com a guerra de Araújo. Agora uma vez mais o general contém o belicoso diplomata profissional. Quantos gaúchos nesses imbróglios: Mourão, Enresto Araújo e Osmar Terra. Tinha tudo para dar nova briga com os castelhanos. Mas aí enterram os homens do dinheiro e influíram para que seus presidentes dessem uma meia trava. Segundo fontes, foi a Fiesp que deu a prensa decisiva em Bolsonaro, que ouviu e acatou Mourão, do grupo dos generais (Villas-Boas, de Cruz Alta e Santos Cruz – já defenestrado, mas influente – de Rio Grande). Desce o pano do primeiro ato.