Temo pela democracia

RAUL ELLWANGER
Temo pela Democracia. Estamos na beirinha de uma paralisia institucional. Facções da casta predadora estão engalfinhadas em luta feroz pelo governo-poder. Usam seus já nada ocultos operadores no Legislativo, Executivo, Judiciário, MPF e especialmente na ditadura atual de uma só família sobre a opinião pública brasileira.
Os interesses e os operadores se cruzam e confundem de tal modo, que fica difícil entender a situação. Uma iniciativa simpática é motorizada por gente do pior calão. Uma iniciativa perversa é apoiada por gente boa.
Temo pela república – a desordem e o choque de interesses disfarçados atrás de cada um dos poderes estão quase transbordando as taças. A casta rica e predadora está arrastando o país, sua jovem democracia, ao fundo do poço.
A casta (e seus sub ramos) se lançou em uma aventura , a partir de derrota de Aécio, que inaugurou uma etapa de solavancos e tsunamis, Agora pilota um barco incontrolável, sem presidência legitima, sem legislativo prestigiado, sem judiciário confiável.
O Poder está sem poder, ele liquidificou o poder moral que tinha ante a nação, levando ao descrédito generalizado. A república é um consenso, em que os cidadãos se colocam de acordo num projeto e plasmam isso numa Constituição. A nossa está em frangalhos.
A casta é aventureira e irresponsável, inclusive quanto a seus próprios interesses. Está mostrando seu fracasso e sua fraqueza. Não sabe oferecer ao país um projeto pelo menos aceitável, não o tem. Ela mesma não se aceita, e arrasta o Brasil para o precipício.
Em 1870, o povo simples de Paris pulverizou o império. No Brasil de 2016, os bem vestidos, bem togados, os bens remunerados, empreiteiros, financistas e sua coorte de interessados, estão pulverizando a República. O povo assiste imóvel.
Depois ? Depois temos Heidrichs, Mussolinis, Hitlers, Videlas, Garrastazús, Francos, Salazares: toda a fauna treinada para fazer o serviço sujo e pesado, se a casta não tiver outra saída. Temo pela Democracia.

Extinguir a FEE é uma agressão ao povo gaúcho

Há 25 anos, tive a honra de assumir a Presidência da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser, a FEE, cargo que ocupei por dois anos. Vivíamos um momento difícil para o sistema de estatística nacional, pois o então Presidente Fernando Collor havia decidido, com o objetivo de reduzir gastos da União, promover cortes expressivos no orçamento e no quadro funcional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Pesquisadores e gestores públicos que viveram aquele período conhecem bem os estragos resultantes, sendo a não realização do Censo Demográfico em 1990 um dos mais eloquentes.
Em 21 de novembro de 2016, o governador Ivo Sartori, em uma repetição trágica e tão equivocada quanto aquelas decisões do Governo Collor, anunciou a extinção da FEE, no âmbito de um pacote de privatização  de fundações e empresas no Estado do Rio Grande do Sul.  Essa decisão causará uma irreversível destruição do sistema de estatísticas gaúcho, e terá um impacto irrelevante sobre as contas públicas pois a FEE custa menos de 0,08% do orçamento do Estado.
Por 43 anos, a FEE tem produzido estatísticas e indicadores metodologicamente consistentes e socialmente confiáveis, atributos fundamentais a um instituto público de pesquisa. Se hoje o Rio Grande do Sul dispõe de uma matriz insumo-produto, de indicadores sobre o agronegócio, de estimativas do PIB, de índices de vendas no Comércio e na Indústria, que permitem conhecer a estrutura produtiva do Estado e direcionar as políticas de estímulo à produção, é porque a FEE os produz. Se dispomos de estimativas municipais de população, que propiciam conhecer a demanda por serviços públicos pelos gaúchos, para atendê-los mais adequadamente, é porque a FEE as organizou. Se temos o retrato do mercado de trabalho metropolitano, é porque a FEE o constrói, mensalmente.
Para produzir todos esses indicadores, a FEE estabeleceu parcerias com instituições e órgãos governamentais, além de órgãos de representação setorial, gaúchos e nacionais. Destaco essas parcerias porque elas são expressão do respeito que a FEE construiu junto à comunidade científica e estatística, aos gestores públicos e à sociedade gaúcha ao longo de sua história, além de mostrarem o empenho do corpo técnico da instituição para dialogar e construir indicadores capazes de retratar, da forma mais adequada possível, a realidade que os atores envolvidos querem e precisam conhecer.
A proposta de extinção da FEE é, por todos os ângulos que analisemos, um enorme equívoco. Mais que um equívoco é um grave dano ao Estado e à sociedade gaúchos. Séries históricas se perderão, informações necessárias ao planejamento das ações públicas deixarão de existir, o conhecimento sobre a realidade produtiva e social do Estado escasseará. Quando o governo ou a sociedade quiser planejar suas ações, fará o que? Contratará empresas de consultoria privadas, que cobrarão pelos serviços que antes eram prestados, com autonomia e qualidade, pela FEE?
Cabe perguntar por que a extinção da FEE? Por que esse verdadeiro  atentado ao patrimônio dos gaúchos já que a extinção da FEE não contribui para a melhoria das contas públicas?  Será a dificuldade de lidar com a transparência que os dados trazem?
Infelizmente, a conjuntura recente tem se mostrado pródiga em pontes e caminhos que prometem o futuro, mas nos conduzem a um passado que o Rio Grande do Sul e o Brasil não merecem reviver.
Como gaúcha por adoção e como parte do corpo técnico dessa brilhante instituição, me somo a todos que, neste momento, bradam contra a extinção da FEE. Devemos nos opor, mobilizar a sociedade e nossos representantes na Assembleia Legislativa, para evitar que, em nome de uma economia pífia de recursos, comprometamos o conhecimento da realidade do Rio Grande do Sul. É hora de mostrar “valor, constância, nesta ímpia, injusta guerra”.
(Publicado originalmente no Sul21)

50 Tons de Rosa, referência para jornalistas do mundo todo

José Antonio Severo
Segunda metade dos anos 70. O Brasil ferve com a “abertura lenta, gradual e segura” da dupla gauchesca Geisel/Golbery. A juventude esperneia e vai empurrando a censura. A imprensa alternativa atinge seu auge. Jornaizinhos críticos, mal-humorados ou satíricos dão dor de cabeça ao governo. Dentre todos, o nanico mais surpreendente não saiu do Rio ou São Paulo, foi mais arrojado que o celebrado Pato Macho, de Porto Alegre: assim era o improvável “Triz”, escrito e editado em Pelotas em outubro de 1976.
Triz até hoje é um espanto e uma referência. Ribombou em todo o País: foi matéria de página inteira na Veja. Esse jornal foi o epicentro de um vulcão cultural que jorrou uma geração de brasileiros notáveis.
É isto que mostra o livro recém-lançado com um título desafiante: 50 Tons de Rosa. Pelotas no tempo da ditadura.
Entretanto, não é uma obra saudosista. Pelo contrário: compõe uma coletânea de relatos vivos de uma geração. Seus autores são as próprias personagens.
Centrado na cidade de Pelotas, nas vidas e vivências de um grupo de jovens, 50 Tons é um trabalho de alcance nacional. Ali está o Brasil daqueles tempos, emergindo de uma mocidade bem-humorada e confiante.
Apesar do que sugeriria o título, recupera tempos inesquecíveis, memórias joviais, tempos de irreverência, de otimismo, de confiança no futuro.
Seus autores-personagens trazem de volta aqueles tempos com recordações bem-humoradas, sem mágoas. As páginas transbordam com a jovialidade, com as peripécias dessa rapaziada que enfrentava os costumes e as repressões inúteis daqueles tempos de chumbo. Chumbo dourado.
A maior parte dos autores-personagens converteram-se em referências nacionais em suas áreas de atuação, a maior parte, evidentemente, na imprensa. Nos velhos tempos eram estudantes universitários das universidades locais, Federal e Católica.
Os primeiros passos dos que vieram do jornalismo foram na redação do vetusto Diário Popular, naqueles tempos comandado por uma figura fascinante, seu chefe de redação e professor do curso de Jornalismo da UCPel, Joaquim Salvador Coelho Pinho.
Pinho, como era chamado por seus alunos e funcionários, é uma figura emblemática da imprensa daquela fase em que a imprensa se renovava sob a batuta de grandes condottieres: Mino Carta em São Paulo, Alberto Dines no Rio, a famosa reportagem da Folha da Tarde dos estagiários do Walter Galvani. Pinho foi um desses reformadores da imprensa, tão carismático, renovador e valente como seus colegas dos chamados grandes centros, conforme o relato.
Esses testemunhos são valiosos e críveis, devido à projeção que a turminha da gurizada de Pelotas veio ter nas diversas áreas em que atuaram dali por diante, nos grandes centros brasileiros. Embora a maior parte fossem jornalistas, outros saíram por outros caminhos e foram profissionais de grande destaque nos seus mercados.
Não seria justo destacar nenhum dos autores, por ser injustiça com os demais. Neste espaço exíguo de um veículo de internet não se pode alongar.  Citamos apenas o organizador (e autor de várias partes do livro), Lourenço Cazarré. Entretanto, não se pode omitir seus nomes. Portanto, por ordem de entrada em campo: Lourenço Cazarré, Vitor Minas, Rubens amador Filho, Geraldo Hasse, Luiz Lanzetta, Ayrton Centeno, Ênio Squeff, Carlos Morais, Marcius Cortez, Lúcio Vaz, Kledir Ramil, José de Abreu, José Cruz, Marcos Macedo e, um autor oculto, pois sua presença emana do livro, Laerte Mário Pedrosa.
É muita gente boa. Pelotas deve tremer na base até hoje, pois não é fácil para uma comunidade ter uma galera destas em campo ao mesmo tempo.
O livro tem de tudo. É a história de um grupo de rapazes, é a reportagem sobre uma cidade nos tempos da ditadura, é o Rio Grande e, além de tudo, um quadro do Brasil, com pinceladas de arte, racismo, ditadura, imprensa, vida acadêmica, frescura e todos os temas que se possa imaginar.
A vontade é escrever sem parar, pois a leitura é veloz devido ao texto escorreito dessa turma. O livro é lindo, uma obra de arte gráfica. A capa é de um dos redatores, Ênio Squeff. 50 Tons de Rosa é um livro de referência para jornalistas de todo o mundo, uma obra imperdível para brasileiros, essencial para gaúchos e uma ameaça aos pelotenses.
Belo livro, em todos os sentidos. Leitura obrigatória.

Raul Seixas, o “Monstro Sist” e o conformismo

O sistema – enquanto engenharia social montada para submeter os menos conscientes aos ímpetos dos poderosos – produz seres previsíveis e infelizes, porém conformados: pessoas que praguejam por não gozarem do melhor emprego, por não ganharem os melhores salários, por não comprarem os melhores carros, pelas injustiças… mas é só chegar o final de semana – e seus goles de esquecimento – que tudo fica “globeleza”. Insatisfeitos mas obedientes, aceitam manter o “silencioso desespero” de suas vidas, como dizia Thoreau.
A Arte é um dos presentes dos Céus para chacoalhar as estruturas da sociedade quando seus integrantes se encontram alheios às infinitas possibilidades que a vida proporciona. Raul Seixas (28/07/45 a 21/08/89) foi um desses artistas que fizeram da arte uma espada para combater a hipocrisia e transmitir os valores de liberdade e coragem, que nortearam sua passagem por este planeta.
Com temas irreverentes e profundos e uma ousadia rítmica que unia vertentes distantes como Xaxado e Rock and Roll, a música de Raulzito, como também era chamado, seduziu milhões de fãs pelo “som” e o conteúdo originais. Mais do que palavras bem colocadas, suas letras inspiravam as pessoas a questionarem a ordem estabelecida e a buscarem um caminho alternativo às conveniências do sistema, ou o “Monstro Sist”, como tratava.
A canção “Ouro de Tolo” é uma das obras que condensam o espírito contestador do “Maluco Beleza”.  Versos como “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar” e “Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado” são um tapa na nuca dos reféns da mesmice cotidiana.
O mais impactante para o paradigma vigente, porém, ele deixa para o final: convicto da existência de seres inteligentes provenientes de outros planetas, termina a letra da música com uma provocação inquietante para os que preservam pelo menos um pouco da curiosidade dos grandes homens: “Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador”.
Com todos os seus erros humanos, o baiano Raul Seixas foi um desses raros exemplos de artistas que conseguiram fazer do próprio ofício um instrumento para alertar os que, apesar de todo sofrimento, persistem “bravamente” na zona de conforto. (Na maioria das vezes, é o próprio sistema que se vale da influência da arte para propagar a programação mental que mais lhe convém.) É urgente o surgimento de artistas com a coragem e o talento de Raul Quem sabe assim o algo mais substantivo possa ser feito contra o “Monstro Sist”.

Instituições adultas estão doentes

Fazia muito tempo que instituições previstas para cuidar e bem educar crianças e adolescentes não se prestavam a espetáculos tão grotescos como os que temos assistido no Brasil nos últimos meses.
Frente a ocupação de mais de 1.300 escolas estaduais e federais, faculdades e universidades, em cerca de dois terços dos estados brasileiros, por estudantes secundaristas e do ensino superior contrários aos anunciados efeitos nocivos da PEC 241 (55), contrários a Medida Provisória que permite o sucateamento da Educação Básica e às propostas de Lei, intituladas Escola Sem Partido, o Ministério da Educação falta às suas obrigações constitucionais.
Mais que isso, o MEC ameaça, busca que escolas e instituições de ensino superior entreguem os nomes de quem está ocupando para tomar ‘medidas cabíveis’. Com a proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio, ao invés de negociar com os movimentos, dá ultimato: saiam ou não haverá o ENEM.
Ministério da Educação assume, com a postura do ministro de um governo antidemocrático, ares do governo civil-militar pós 1964. No caso do ENEM, jogam estudantes contra estudantes, povo contra povo. Alega o MEC questões técnicas e de custo. Absoluta inverdade.
Com maiores problemas e prazo mais exíguo, a Justiça Eleitoral determinou a mudança dos locais de votação em escolas ocupadas, no segundo turno, para mais de 700 mil eleitores dos estados do Espirito Santo, Goiás, Pernambuco e Paraná. Já o órgão que deveria ser o gestor nacional da política pública de educação deixou 191 mil estudantes sem ENEM por motivo ideológico. Por repulsa à democracia, apostando no caos social, esquivando-se de debates com os estudantes.
Por outro lado, no Distrito Federal, um juiz determina tortura contra estudantes ocupantes, posição rapidamente seguida em outros estados, com corte de água, luz, comida e entrada de familiares em escolas ocupadas. Um promotor de justiça do Paraná diz que estudantes que ocupam escolas são piores que adolescentes que estão aliciados pelo tráfico de drogas e que cometem atos infracionais.
Adultos impregnados de autoritarismo, deseducando. Jovens praticando atos de desobediência civil, de coragem e de esperança.

Treme o governo Temer

Pinheiro do Vale 
O governo Temer treme. Na semana que vem, um dia depois de Finados, o governo ilegítimo do PMDB poderá ver assinada sua sentença de morte e iniciar sua derrocada afundando-se na ingovernabilidade e acabar expulso do Palácio do Planalto pelo improvável Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Quem diria?
O primeiro choque virá do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), um dispositivo que impede a pessoas acusadas na Justiça de ocupar cargos de vice-presidente da República, presidente da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.
Por isto que o então presidente da Câmara, o então deputado Eduardo Cunha, foi impedido de exercer o cargo. Não cassado nem deposto, apenas foi afastado para que o País não corresse o risco de ser governado por uma pessoa acusada de ter cometido crimes.
Se bastou para Cunha, vale para Renan. Ele é o segundo na linha de sucessão. O STF não vai cassar seu mandato; apenas transfere o poder para seu vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre, ex-governador de seu estado e eminência da Oposição. É aí que a porca torce o rabo.
A se manter esta agenda, a ADPF entrará em plenário, no Supremo, dia 3 de novembro. Se Renan cair, Viana assume a Presidência do Senado. Então desaba todo o programa econômico de Temer, pois ficará na mão do petista a tramitação da PEC 241. É um tiro no coração.
A PEC da Morte não é apenas um programa de arrocho orçamentário. Vai além. No curto prazo seu valor é demonstrativo para o Brasil e o mundo do poder real do governo ilegítimo. Veja o que a aprovação da PEC diz: Dilma caiu porque não conseguia aprovar sequer um tema por maioria simples; Temer entra, faz passar toda a agenda (dezenas de MPs e vetos) contida e ainda altera a Constituição à hora e como bem quiser.
É muita força política, diz a todos, desprezando os números catastróficos da popularidade (aprovação na linguagem do IBOPE) e as manifestações das ruas e ocupações de mais de mil escolas em todo o País gritando “Fora Temer” e “abaixo a PEC 241”.
A questão é que sem Renan, leia-se a confraria do PMDB/PSDB, a casa cai. Viana e a aguerrida bancada oposicionista poderão, mesmo minoritários do plenário, retardar, embaraçar, obstaculizar e, por fim, derrubar a ratificação da PEC aprovada na Câmara. A derrota da PEC é a pá de cal na cova do golpismo.
Caindo a 241, zerada ‘ “reforma”, vem baixo a “equipeconômica” do ministro Henrique Meirelles, o fiador do governo ilegítimo junto ao sistema financeiro. Dólar nas alturas, disparada da dívida, credibilidade no chão. Um quadro desestabilizador irrefutável.
Entretanto, enquanto tudo isto não acontece, Michel Temer tem uma maioria confortável no Senado. Quanto poderá fazer um presidente hostil? Esta é a questão. Na Câmara a arapuca que Cunha deixou armada não funcionou. E no Senado? Estabelece-se o clima de horror na aliança golpista.
No Senado será diferente. Na Câmara, ao montar sua chapa rebelde, Cunha olhou para o outro lado da rua na Praça dos Três Poderes e viu que perigo corria a presidente Dilma Rousseff, que tinha uma raposa à espreita no seu galinheiro. Com as barbas de molho, escolheu para vice-presidente a figura esdruxula do histriônico deputado Waldir Maranhão (PP/MA).
Entretanto, não deu certo. Nem mesmo o baixo clero engoliu Maranhão e tomaram o poder na mesa deixando o sucessor legítimo de fora. Golpe dentro do golpe.
Isto não se reproduz com Jorge Viana, um ex-governador reeleito e aprovado nos dois mandatos em seu estado (fez o sucessor). Na Mesa Diretora, uma figura irrepreensível, respeitado por todas as correntes, isento quando dirige os trabalhos. Um verdadeiro estadista. Não dá para comparar com Maranhão.
Viana, contudo, estará em minoria, apoiado numa bancada aguerrida, mas com suas lideranças bastante agastadas por debates ríspidos com as bancadas golpistas.
Por outro lado, o senador acreano não pode ser removido simplesmente. Embora afastado, Renan Calheiros ainda será o presidente, tal qual foi Cunha no seu ocaso. Viana só pode ser substituído se o titular renunciar à Presidência.
No caso de renúncia, haveria nova eleição, pois cai a Mesa. Entretanto, ninguém espera que o senador alagoano abra mão de suas prerrogativas antes de esgotar todos recursos. Nesse cenário, Renan fica até fevereiro de 2017, quando se extingue seu mandato. Ou seja: o tempo vai correr contra o governo.
A verdade é que ninguém esperava por esta peça incluída no enredo pela presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia. Esta ação estava lá há tempos, dormindo.
Soterrada a PEC 241, Meirelles pede as contas, Temer treme. Sua “base” ancorada na poderosa e numerosa ala fisiológica dos minipartidos da direita, que já demonstrou sua perfídia quando abandonou a base aliada do governo Dilma cooptada por tucanos e peemedebistas, é um castelo de cartas. Os rastros da traição ainda estão bem visíveis no gramado do Palácio do Planalto.
Temer terá que se arrastar até 31 de dezembro. Virado o ano, muda o processo eleitoral: na falta de um vice, a eleição para o Executivo será indireta, no Congresso. Nenhuma força, nem mesmo a oposição, quer ir para as ruas pedir votos agora. A direita tem medo que o repúdio ao governo seja um tiro pela culatra; a oposição ainda tem o lombo doendo pela sova que levou nas eleições municipais. Melhor um acordão.
Já na virada do ano, poderá desabar sobre o presidente ilegítimo a impugnação da chapa vencedora em 2014. No TSE os procuradores estão assoprando as cinzas e reacendendo as brasas. Logo-logo volta a labareda.
Caso Renan seja torrado, será necessário encontrar um nome que preencha as pré-condições para uma situação tão delicada. Deve ser uma pessoa que responda a uma reputação ilibada, notório saber, acima de todas as controvérsias. Não é difícil supor que poderiam repetir a fórmula da 1945, quando o poder foi depositado no colo do presidente de Supremo, ministro José Linhares. Deve ser uma pessoa que se sustente não só pelas qualidades individuais, mas também respaldada pela representatividade institucional. Quem seria? Vamos ver.

As eleições do desencanto com a política e da ilusão com os “não políticos”

Benedito Tadeu César
Cientista político e professor da UFRGS
Diferentemente do que noticiou a grande imprensa corporativa e do que tentam nos fazer crer alguns analistas oficiais, o resultado do 1º Turno das eleições municipais de 2016 não representou a vitória das forças políticas que depuseram Dilma Rousseff e que se dedicaram ao aniquilamento do PT e de seu projeto de governo e de país.
O resultado expressou, em primeiro lugar, o desencanto com as instituições políticas e, ainda, o crescimento de candidaturas apresentadas como “antipolíticas” ou “novas” na política.
O somatório das abstenções (não comparecimento), dos votos brancos e dos nulos, que em ciência política é denominado de alienação eleitoral (com o significado de que o eleitor abre mão de sua capacidade de interferir no resultado do processo eleitoral) registrou, em 2016, um aumento expressivo frente às eleições anteriores.
Tomando-se os exemplos das capitais dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, verifica-se, de acordo com os dados do TSE, que a alienação eleitoral praticamente dobrou durante o período das cinco eleições municipais realizadas de 2000 até 2016.
Como se pode verificar nos gráficos e tabelas abaixo, a alienação eleitoral para a Prefeitura de São Paulo saltou de 22,60% em 2000 para 34,70% em 2016, enquanto praticamente dobrou em Porto Alegre em igual período, passando de 19,04% em 2000 para 38,40% em 2016.
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Os gráficos e as tabelas acima e abaixo permitem observar que, se ocorreu um salto brusco do crescimento da alienação eleitoral na eleição do corrente ano nas duas capitais em questão, este salto foi mais intenso em Porto Alegre. Nesta capital, além disso, os votos nulos praticamente dobraram entre 2012 e 2016, saindo de 4,82% para atingir 8,88%. Fenômeno similar foi observado também com relação à votação para a Câmara Municipal, mas que não será aqui analisado.
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O crescimento significativo da alienação eleitoral ocorreu em todo o país. A análise dos resultados eleitorais de 2016, realizada a partir dos dados fornecidos pelo TSE, permite constatar que, em 11 das 26 capitais onde foram realizadas eleições municipais neste ano, a alienação eleitoral foi superior à votação do candidato mais votado no 1º turno. O caso de São Paulo é emblemático, pois o candidato eleito já no 1º turno obteve votação inferior à alienação eleitoral.
Mais grave do que este fato, em três capitais, a saber, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a alienação eleitoral superou o somatório dos votos conferidos aos dois primeiros colocados, ou seja, o total de “não voto” foi superior aos votos totais obtidos pelos dois candidatos mais votados e que disputarão o 2º turno, como se pode constatar no quadro abaixo.
Cumpre alertar que, neste quadro, os percentuais de votos dos candidatos apresentados diferem daqueles fornecidos pelo TSE, uma vez que o TSE calcula os percentuais eleitorais tomando por base apenas os votos válidos, ou seja, excluindo as abstenções e os votos nulos e brancos, enquanto os dados apresentados no quadro foram calculados sobre o total do eleitorado apto a votar, única maneira de se trabalhar com a mesma base numérica para o cálculo da alienação eleitoral e dos votos em cada candidato.
Alienação eleitoral e votação dos candidatos melhor colocados nas capitais no 1º turno em 2016

Capital Alienação Eleitoral 1º candidato mais votado no 1º Turno 2º candidato mais votado no 1º turno Total dos dois candidatos mais votados no 1º turno
Porto Alegre 38,40% 19,45% 16,90% 36,35%
Florianópolis 22,86% 31,70% 19,25% 50,95%
Curitiba 30,22% 27,66% 17,04% 44,71%
São Paulo 38,48% 34,72% 10,88% 45,60%
Rio de Janeiro 42,54% 17,19% 11,30% 28,49%
Vitória 21,44% 34,93% 28,16% 63,08%
Belo Horizonte 43,14% 20,54% 16,33% 36,88%
Campo Grande 30,35% 24,82% 19,11% 43,93%
Goiânia 30,48% 28,95% 22,77% 51,72%
Cuiabá 33,55% 23,62% 19,64% 43,26%
Salvador 34,72% 50,42% 9,91% 60,33%
Aracajú 38,94% 25,13% 24,69% 49,82%
Maceió 29,56% 33,99% 17,94% 51,93%
Recife 23,32% 38,51% 18,54% 57,05%
João Pessoa 25,27% 45,54% 25,59% 71,13%
Natal 36,78% 42,23% 8,90% 51,13%
Fortaleza 25,42% 37,70% 23,68% 61,37%
Teresina 20,09% 41,37% 32,17% 73,53%
São Luís 21,48% 36,34% 16,98% 53,32%
Palmas 25,51% 39,82% 23,90% 63,72%
Belém 26,98% 23,12% 21,98% 45,10%
Macapá 24,50% 34,26% 20,26% 54,52%
Boa Vista 26,71% 59,51% 7,06% 66,57%
Manaus 18,40% 28,99% 20,50% 49,49%
Porto Velho 36,78% 18,11% 17,40% 35,51%
Rio Branco 22,16% 43,25% 25,24% 68,48%

Como se pode observar, não se tratam de resultados eleitorais que legitimem fortemente os eleitos e/ou os candidatos que chegaram ao 2º turno e, muito menos, que impliquem ampla aprovação popular e eleitoral aos projetos de governo que eles representam.
A análise da geografia eleitoral nas capitais brasileiras, isto é, da distribuição espacial dos votos segundo as zonas eleitorais e os bairros, evidencia que foram nas regiões com eleitores de mais baixa renda onde se observou as maiores incidências de alienação eleitoral, ou seja, de “não votos”. Estas áreas, normalmente localizadas nas periferias das grandes cidades e capitais, são áreas onde o PT detinha a preferência da maioria do eleitorado.
O caso de São Paulo é, novamente, emblemático, uma vez que não apenas o candidato petista perdeu grande parte do eleitorado das regiões de menor poder aquisitivo e que havia votado nele em 2012, como foi também nessas regiões onde ocorreu o maior percentual de alienação eleitoral ou de “não votos”.
É expressivo, além disso, o fato de Porto Alegre e Belo Horizonte terem sido administradas pelo PT durante longos anos e serem duas das três capitais onde a alienação eleitoral suplantou o somatório dos votos obtidos pelos dois candidatos que chegaram ao 2º turno, conforme referido acima.
O desencanto com o PT e, mais do que isto, o desencanto com a política de modo geral, provocou o crescimento do “não voto” e fez com que candidatos “alternativos”, que se apresentaram como “novidade” e/ou como “não políticos”, obtivessem a maioria dos votos válidos. Maioria obtida em grande parte das capitais apenas porque parcela expressiva do eleitorado (média de 29,54% e mediana de 28,27%) se alienou do processo, deixando de votar em qualquer dos candidatos concorrentes.
Em relação aos candidatos “alternativos” vencedores no 1º turno ou levados ao 2º turno eleitoral nas capitais analisadas, vejam-se os exemplos da vitória de João Dória Jr, em São Paulo, um empresário que se apresenta como “não político”, e a ida ao 2º turno de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, senador e antes de tudo pastor evangélico, e, ainda, de Nelson Marchezan Jr., em Porto Alegre, deputado federal, filho do líder do governo Figueiredo (o último da ditadura civil-militar de 1964/85) e apoiado pelas forças políticas tradicionais mais conservadoras no estado, o qual  se apresenta como um “novo político”.
Se o PT foi o partido que mais perdeu postos e eleitores nestas eleições e o PSDB o que obteve o maior crescimento percentual, enquanto o PMDB manteve-se ainda como o partido detentor do maior número de Prefeituras e o segundo em eleitorado, isto se deveu muito mais ao desencanto do eleitorado com a política, em geral, e com o PT em particular, do que ao encantamento com as propostas e/ou os candidatos peessedebistas e/ou peemedebistas.
Considerando-se os resultados eleitorais nacionais registrados em 2012 e em 2016, verifica-se que o PT perdeu 60,1% do eleitorado total que havia conquistado na eleição municipal anterior e passou da primeira para a quinta posição nestas eleições, enquanto o PSDB teve um crescimento eleitoral total de 25,1% e passou a ocupar a primeira posição.
O bom desempenho eleitoral do PSDB pode ser atribuído ao fato de ele ser o partido que tradicionalmente polarizou com o PT, caracterizando-se como o seu antípoda ideológico, e, talvez, principalmente pelo fato de as denúncias envolvendo muitas de suas principais lideranças não terem sido investigadas judicial e criminalmente e nem terem sido exploradas pela grande imprensa, como ocorreu principalmente com o PT e suas lideranças e, secundariamente, com o PMDB.
Tão significativo quanto a diminuição eleitoral do PT e o crescimento do PSDB, foi o decréscimo registrado na votação nacional de boa parte dos partidos tradicionais, aqui considerados como os partidos com presença histórica nas disputas eleitorais e/ou que já haviam obtido resultados eleitorais expressivos em eleições municipais anteriores. Neste grupo de partidos, apenas o PDT, o PPS e o DEM cresceram eleitoralmente e, mesmo assim, o fizeram de modo débil: o primeiro cresceu 2%, o segundo 4,4% e o último 6,3%.
Todos os demais partidos aqui considerados como tradicionais, incluindo-se neste grupo também os partidos de esquerda, exceto o PT e o PPL (que cresceu 8,2%, mas que passou de apenas 146.686 para 158.650 votos), sofreram uma diminuição eleitoral total de 27% frente aos votos que haviam conquistado em 2012. Entre estes partidos, o campeão de perdas foi o PMDB, que teve uma redução de 12,5% em seu eleitorado, o que representa quase a metade do decréscimo eleitoral deste conjunto de partidos.
Votação por partido em 2012 e 2016

Partido 2012 2016 Diferença
PSDB 14.074.121 17.612.606 25,1%
PMDB 17.007.755 14.877.621 -12,5%
PSB 8.760.546 8.304.485 -5,2%
PSD 6.064.464 8.005.878 32,0%
PT 17.448.801 6.822.964 -60,9%
PDT 6.265.198 6.388.898 2,0%
PP 5.675.405 5.667.418 -0,1%
DEM 4.596.112 4.886.817 6,3%
PR 3.818.374 4.388.095 14,9%
PRB 2.615.553 3.882.494 48,4%
PTB 4.102.470 3.555.638 -13,3%
PPS 2.509.908 2.621.541 4,4%
PSOL 2.400.892 2.097.623 -12,6%
PC do B 1.882.526 1.767.051 -6,1%
PSC 1.695.643 1.761.688 3,9%
PV 2.165.078 1.691.752 -21,9%
SD 1.469.099
REDE 995.447
PHS 319.572 945.782 196,0%
PMM 570.684 797.449 39,7%
PTN 354.028 697.627 97,1%
PROS 689.958
PSL 324.604 487.592 50,2%
PMB 288.893
PEN 286.493
PRP 385.586 280.645 -27,2%
PTC 412.783 268.155 -35,0%
PT do B 301.338 267.680 -11,2%
PSDC 240.480 211.648 -12,0%
PRTB 328.750 162.215 -50,7%
PPL 146.686 158.650 8,2%
PSTU 178.607 77.952 -56,4%
NOVO 38.512
PCB 46.107 24.501 -46,9%
Fonte: G1, com base em dados do TSE

Na verdade, os grandes vencedores do 1º turno das eleições municipais deste ano, considerando-se os resultados obtidos nacionalmente, foram os partidos de orientação religiosa ou de defesa de interesses clientelísticos. O PR obteve um crescimento eleitoral de 14,9%, o PSD de 32%, o PRB de 48,4%, o PSL de 50,2%, o PTN de 97,1% e o PHS de 196%.
Somados, os votos obtidos pelo PR, PMM, PRB, PSL, PTN e PHS representam 19.204.917 eleitores, o equivalente a 13% dos votos válidos consignados em todo o país. Isto faz com que o eleitorado deste conjunto de partidos se torne numericamente mais expressivo do que o do PMDB ou do PSDB tomados isoladamente, já que o primeiro obteve 14.877.621 ou 10% dos votos válidos e o segundo 17.612.606 ou 12% desses votos nacionalmente.
A tendência é, portanto, o aumento do poder de pressão e de chantagem política desse conjunto de partidos e, a se repetir o mesmo fenômeno nas eleições nacionais de 2018, o revigoramento do chamado “presidencialismo de coalizão” brasileiro, reforçado em suas práticas de barganha.
Afastado dos partidos e dos candidatos que anteriormente mereciam a sua preferência, o eleitorado se dividiu. Cerca de 1/3 dos eleitores das capitais decidiu-se pela alienação eleitoral, abdicando de seu direito de interferir no resultado eleitoral, enquanto cerca de 1/4 do total dos eleitores do país decidiu votar em partidos alternativos, ou seja, em partidos que não tinham obtido expressão nas eleições anteriores.
Verifica-se, deste modo, que uma parcela importante do eleitorado total do país não votou nos candidatos e/ou os partidos que tiveram maior responsabilidade nos governos anteriores ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, nem votou nos candidatos e/ou partidos que interferiram diretamente na sua derrubada e que dão sustentação política ao atual governo federal.
Assim, mais do que uma eleição que legitime os atuais governantes em nível federal e que autorize seu projeto de governo, o 1º turno das eleições municipais de 2016 revela a existência de um eleitorado à deriva, a ser disputado pelos diferentes partidos, e que está sendo ganho, até aqui, em grande parte, pelos partidos que defendem não projetos políticos para o país,  mas interesses de parcelas restritas da sociedade e que, por este motivo, encontram-se, quase sempre, distantes dos interesses públicos.
Fica claro, além disso, que todo o esforço para a desconstrução do PT e de seus políticos não foi suficiente para liquidá-los. Não obstante a perda significativa de seu eleitorado e do número de Prefeituras sob o seu comando, o PT manteve-se entre os maiores partidos nacionais, como o 5º maior partido brasileiro em termos eleitorais, o que lhe reserva, ainda, um grande potencial de crescimento.
Nas eleições municipais de 2016, foram a criminalização da política e o desencanto do eleitorado, na verdade, os grandes vencedores do 1º turno. Um resultado altamente preocupante, porque contribui para que lideranças oportunistas possam se apossar do poder de Estado e se manter nele por meio de ações ilegítimas, ainda que travestidas pelos ritos legais.

Os desafios do sindicalismo na conjuntura atual

O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.
Antônio Augusto de Queiroz
Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap
Os movimentos sociais e sindicais têm três desafios pela frente, em curto e médio prazos: 1) promover formação política, 2) melhorar sua comunicação institucional e interpessoal, e 3) ter sempre alternativa ao que critica ou se opõe.
O primeiro desafio é o de qualificar os militantes, ativistas e dirigentes para o enfrentamento da agenda do Consenso de Washington, que esteve suspensa no Brasil durante os 12 anos de governos do PT.
O passo inicial nessa direção é conscientizar os cidadãos-trabalhadores, mediante cursos, seminários e oficinas, sobre o papel de cada um dos três setores do sistema social: o Estado, como primeiro setor; o mercado, como segundo setor, e a sociedade, como terceiro setor.
As cartilhas editadas pelo DIAP sobre “Noções de Cidadania no Brasil”, “Análise de Conjuntura”, “Relações Institucionais e governamentais” e “Políticas Públicas e Ciclo Orçamentário” dão uma boa base para entender esses processos.
O segundo desafio diz respeito à forma de comunicação. As forças neoliberais desenvolveram uma tecnologia que força o disparo do “gatilho mental” dos cidadãos contra determinadas ideias, especialmente se elas conflitarem com os interesses do mercado e dos rentistas.
A comunicação política no Brasil passou para a fase da pós-verdade, em que o fato e a verdade ficam em segundo plano e são explorados os comportamentos e reações, com o objetivo de dizer ao cidadão “sobre o que pensar” e não “sobre como pensar”.
A tática é simples. Criminaliza-se os defensores dessas ideias, associando-os a desvios de conduta (corrupção, ilegalidade, irregularidade, etc) ou a agressão a valores (familiares, religiosos, etc) e as pessoas automaticamente deixam de analisar as ideias e passam a condenar seus autores. Isso tem sido feito com partidos e também será feito com os movimentos sindical e estudantil ou qualquer outro que seja visto como de esquerda.
Nesse particular, os movimentos sociais, em geral, e o sindical, em particular, precisam se qualificar e — sem abrir mão um milímetro sequer em relação as suas convicções e visão política e ideológica — focar o debate no conteúdo do que propõe ou rechaça, de tal modo que as pessoas possam perceber o que de fato está acontecendo.
Evitar o esquema “petralhas” versus “coxinhas” é a melhor alternativa, porque desinterdita o diálogo. Por exemplo: muitos dos que foram a favor do impeachment de Dilma são contrários às reformas em bases neoliberais de Michel Temer. Entretanto, se insistirmos na tese de que todos são “golpistas”, isso interdita o debate e o diálogo.
Se as lideranças dos movimentos sociais não tiverem tolerância, capacidade e disposição para persuadir, pelo conhecimento, pelos argumentos e fatos, mostrando os malefícios de parte dessas reformas, vai persistir a polarização e muitos que são aliados potenciais, e poderiam cooperar nessa batalha de resistência à supressão de direitos, permanecerão impermeáveis ao diálogo.
O terceiro desafio consistirá em montar equipes e assessorias para formular e propor, com a agilidade que os novos tempos exigem, alternativas às propostas patronais e governamentais.
O movimento sindical, no período pós-64, passou por duas fases que foram muito eficazes: a de ser contra, em plena ditadura militar, e a de reivindicar, após a derrota da ditadura. E ingressou na terceira fase em que não basta ser contra nem reivindicar: é preciso formular, ter alternativas.
Esta terceira fase, que coincide com a chegada ao Brasil da agenda neoliberal, não estava suficientemente clara para o movimento sindical por ocasião dos governos Collor e FHC, quando houve alguns importantes retrocessos, exatamente porque o movimento insistiu nas táticas anteriores: apenas ser contra e reivindicar.
A investida em bases neoliberais — que esteve suspensa no Brasil, pelo menos por parte do Poder Executivo, nos 12 anos do governo do PT — agora volta com força total e sob a liderança de um governo cuja sobrevivência depende de sua implementação.
O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.

A prisão de Cunha não ameaça Lula

Pinheiro do Vale 
A prisão de Lula pela Operação Lava Jato ainda é improvável, pelo menos até este momento, desde que seja seguida a regra principal do juiz Sérgio Moro para encarcerar suspeitos.
O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi levado a Curitiba porque havia possibilidade concreta de fuga para o Exterior: contas em bancos estrangeiros e, mais ainda, um passaporte italiano que lhe daria imunidade no Velho Mundo.
Até ser definitivamente condenado, Cunha estaria protegido, tal como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizolato, condenado no processo do Mensalão e que se encontrava exilado na Itália protegido por sua dupla nacionalidade. Confirmada a sentença, o governo de Roma mandou-o de volta para a Penitenciária da Papuda. Em Brasília.
Isto invalida o diz-que-diz-que de que Cunha está lá para abrir a porta da cadeia ao ex-presidente.
Lula não perfaz nenhuma dessas ameaças a um eventual processo (até o momento ele foi apenas indiciado). Não tem contas no Exterior e só é brasileiro puro.
O ex-presidente não se cansa de desmentir que vai pedir asilo neste ou naquele país. Isto é importante pois quem espalha esses boatos são seus próprios correligionários, achando que, com isto, estão protegendo Lula. Ledo engano: a acenarem com essa possibilidade estão chamando os agentes da Polícia Federal com mandado da Justiça por ameaça de fuga do País. Gol contra dos “companheiros”. Mui amigos.
Lula também não se cansa de dizer que seus bens são os declarados e que o dinheiro de que dispõe vem de seus salários como deputado federal e presidente da República, além de doações e ajudas de custo do partido.
Nada errado: o ex-presidente nunca escondeu que fora político profissional, sustentado pelo PT, com doações de seus militantes. Não se esqueçam que os petistas que ocupavam cargos públicos tinham o compromisso de doar parte de seus subsídios ao partido.
Nos últimos tempos, já como cidadão comum, sustentava-se com seu salário de ex-presidente e cachês por conferências, aparições públicas e outros tipos de remuneração de celebridades. Cobrava caro, pois ninguém discorda que era uma das maiores personalidades mundiais, quase tão famoso quanto Pelé. Portanto, tudo explicadinho.
A suspeita de que Lula tenha fundos no Exterior atira no ar a calúnia de que seu dinheiro estaria em Angola e Cuba, países fora dos controles do sistema financeiro internacional, com regimes ditatoriais que não permitem intrusos nas suas contas públicas ou privadas.
Neste caso, se não fosse uma calúnia rasteira, tais fundos estariam nos grandes bancos, mas triangulados com Cuba ou Angola, em nome de laranjas desconhecidos. Isto não é possível, tanto que nada apareceu. Só calúnias.
De ter fundos secretos em Cuba nem se deve dar ouvidos, pois se houvesse alguma coisa já teria surgido na imprensa internacional: o país de Fidel Castro até muito pouco tempo estava na lista de estados terroristas do FBI, portanto estreitamente vigiado. Não faltaria um bom vazamento.
Quanto a Angola, dizem que Lula investiu seu dinheiro em operações acobertadas pela filha do presidente José Eduardo Santos, a empresária Isabel Santos, atualmente apontada pela revista Forbes como a maior fortuna pessoal do continente africano.
É uma grande maldade acolherar Lula com Isabel. Ela é uma pessoa soterrada por suspeitas, considerada pela Transparência Internacional como a sexta pessoa mais corrupta do mundo. Sua fortuna não está apenas em Angola. Ela é grande acionista de vários bancos europeus e tem investimentos em mais de uma dezena de megaempresas na União Europeia e, especialmente, em Portugal. Seria uma laranja invulnerável.
Na verdade, as suspeitas lançadas sobre Isabel Santos é que ela seria não uma laranja, mas um pomar inteiro, e que Angola seria o estado reciclador dos caixas dois de uma dezena de potentados do antigo mundo soviético, dentre eles Vladimir Putin. De fato, tamanha fortuna seria de muitos donos e seu pai, o presidente Santos, teria infiltrado Lula e alguns outros amigos brasileiros. Uma blindagem impenetrável.
Isabel não é uma figura grosseira de uma ditadura africana. Pelo contrário. Nasceu em Baku, na então República Socialista Soviética do Azerbaijão, onde seu pai estava exilado e atuava como um dos chefes da guerrilha angolana, o MPLA, no posto de general revolucionário.
Sua mãe, Tatiana Kukanova, é azerbaijana de etnia russa, alta funcionária do PCUS. Isabel nasceu em 1973. Teve uma educação esmerada mesmo para os padrões europeus: fez sua formação básica na escola para moças da nobreza britânica, a Saint Paul Girls School, e graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Kings College de Londres. Também se casou com um homem refinado, o conhecido colecionador de arte Sindika Dokolo, natural da República Democrática do Congo.
Quando voltou a seu país, nos anos 1990, chegou a trabalhar como engenheira, mas logo deslocou-se para o mundo dos negócios, onde triunfou a ponto de se converter numa das 100 mulheres mais poderosas do mundo. Seu pai trabalha sua candidatura a presidente de Angola.
Ela seria a sócia de Lula, segundo seus detratores. Não há como provar essa ligação nem minimamente. Tampouco há qualquer indício de algum investimento do ex-presidente em negócios comandados pela angolana.
Nem mesmo fazendo os mais sinuosos contorcionismos legais o arrojado juiz Sérgio Moro pode invocar seja o que for para sugerir que Lula não fala a verdade quando diz que não quer nem tem como fugir do País.
O que se fala em Brasília relativamente às possíveis denúncias de Eduardo Cunha é que podem apontar corruptos em outras plagas, tanto no ninho tucano como na toca das raposas do PMDB. Não seria por nada que o presidente ilegítimo Michel Temer pegou o avião e voltou voando para o Brasil tão logo soube que seu correligionário cassado estava atrás das grades.
Na verdade, não é Lula, mas Temer que deve botar as barbas de molho.

Botar os pingos nos ii

Pinheiro do Vale 
É preciso botar os pingos nos ii. A deputada federal Erika Kokay (PT/DF) fez um discurso na Câmara dos Deputados para desmascarar a banda de música da direita que não se cansa de bater na nota do desemprego culpando a presidente deposta Dilma Rousseff.
Erika abriu os olhos dos desavisados: Desde a queda de Dilma o número de desempregados subiu de 11.800 milhões (em números redondos) para 12 milhões.
Com muita clareza Erika demonstrou que esses novos 200 mil já vêm na conta do Michel Temer e que esses é que são as bolas da vez. Então que parem de culpar a Dilma e tratem de seus desempregados.
Aqueles 11 milhões e tantos antigos já passaram e, enfatiza a deputada, tem aí muita culpa do Fernando Henrique Cardoso que deixou uma herança maldita para trás e que veio explodir no colo da Dilma.
Nesta semana a tropa de choque da esquerda vai tentar reverter o resultado da votação da PEC 241, a chamada PEC da morte, que limita os gastos do governo federal.
Esta é uma medida deletéria, pois tampa a outra ponta da Lei de Responsabilidade Fiscal, um mecanismo, como se viu, que se constituiu numa verdadeira casca de banana para os governos populares.
A Lei de Responsabilidade Fiscal foi uma criação dos tucanos no apagar das luzes do governo FHC para algemar os punhos do então inevitável governo Lula, que se aproximava como um vendaval para desmantelar o reinado do PSDB/PMDB que vinha desde o governo Sarney.
Essa amarra não conseguiu conter o ímpeto dos governos petistas, obrigando a direita e aplicar um golpe parlamentar para destituir a presidente Dilma.
Com a nova PEC, a direita amarra o orçamento com uma maneia, imobilizando os pés do governo para realizar seus programas sociais. Ou seja: os programas dos governos daqui por diante não podem mais fazer gastos acima da arrecadação.
Quer dizer: as verbas públicas têm de ficar no limite da receita. Como se sabe, os governos desde sempre financiaram seus déficits captando dinheiro no mercado financeiro. Melhor dizendo: pega o dinheiro dos ricos para aplicar no serviço público.
Melhor que uma emenda constitucional obrigando o governo a ficar dentro de limites seria aplicar pesadas tarifas e tributos aos aplicadores do mercado financeiro e um corte radical das taxas de juros como acontece no Japão e, inclusive, nos Estados Unidos. Como se sabe, os países ricos se financiam a juros negativos.
Não adianta dizer que se cortasse os juros e tributasse pesadamente a especulação em torno das demandas do setor público afugentaria os investidores. Como se sabe, os maiores financiadores dos governos são os fundos de aposentadoria das empresas estatais, instituições indiretamente controladas pelo Executivo.
Em vez de pagar os tubos pelos empréstimos dos chamados fundos de pensão, os governos poderiam obrigar essas empresas de direito público (são fundações submetidas ao Tribunal de Contas) a ganhar menos.
Puxando as rédeas dos fundos de funcionários das estatais, o governo não teria dificuldades para dar uma cacetada nos rentistas como um todo, pegando no bolso as parasitas na nação que se aproveitam dessa ciranda fundos/governo/fundos para encher os bolsos.
No entanto, essa questão da previdência privada dos empregados públicos ainda não está bem, digerida, pois aí está um dos principais obstáculos para reformas da Previdência.
É nisso que o governo Temer está tentando, sorrateiramente, pegar a esquerda, pois essa amarra orçamentária vai esgoelar as fundações das estatais, que serão obrigadas a cortar as aposentadorias complementares de seus segurados e restringir seus investimentos na economia. São insondáveis os caminhos que a direita trilha para sufocar os trabalhadores.
Com tais artimanhas a PEC da morte vai tirar o pão da boca dos pobres, os filhos do povo da escola, o remédio da cabeceira dos enfermos. É contra isto que as bancadas da oposição se levantam.
Suas possibilidades de êxito são reais, podendo derrubar aquele resultado do primeiro turno, na Câmara Federal, quando a PEC da morte foi aprovada por 366 votos da direita contra 111 da esquerda e duas abstenções.
Usando as mesmas táticas parlamentares do tempo do impeachment, a oposição obstruiu o quanto pode a votação com êxito reconhecido pela senadora Ana Amélia (PP/RS), que fez um discurso chamando a direita à razão e à disciplina, elogiando êxito da bancada antagonista. Ela queria dizer a seus correligionários da Câmara que se não levarem a sério a presença no plenário, a PEC cai na semana que vem no segundo turno.
Abram-se os olhos. Ana Amélia é uma jornalista experiente e uma parlamentar influente na direita. Deve saber o que está falando. Quem viver, verá.