A prisão de Cunha não ameaça Lula

Pinheiro do Vale 
A prisão de Lula pela Operação Lava Jato ainda é improvável, pelo menos até este momento, desde que seja seguida a regra principal do juiz Sérgio Moro para encarcerar suspeitos.
O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi levado a Curitiba porque havia possibilidade concreta de fuga para o Exterior: contas em bancos estrangeiros e, mais ainda, um passaporte italiano que lhe daria imunidade no Velho Mundo.
Até ser definitivamente condenado, Cunha estaria protegido, tal como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizolato, condenado no processo do Mensalão e que se encontrava exilado na Itália protegido por sua dupla nacionalidade. Confirmada a sentença, o governo de Roma mandou-o de volta para a Penitenciária da Papuda. Em Brasília.
Isto invalida o diz-que-diz-que de que Cunha está lá para abrir a porta da cadeia ao ex-presidente.
Lula não perfaz nenhuma dessas ameaças a um eventual processo (até o momento ele foi apenas indiciado). Não tem contas no Exterior e só é brasileiro puro.
O ex-presidente não se cansa de desmentir que vai pedir asilo neste ou naquele país. Isto é importante pois quem espalha esses boatos são seus próprios correligionários, achando que, com isto, estão protegendo Lula. Ledo engano: a acenarem com essa possibilidade estão chamando os agentes da Polícia Federal com mandado da Justiça por ameaça de fuga do País. Gol contra dos “companheiros”. Mui amigos.
Lula também não se cansa de dizer que seus bens são os declarados e que o dinheiro de que dispõe vem de seus salários como deputado federal e presidente da República, além de doações e ajudas de custo do partido.
Nada errado: o ex-presidente nunca escondeu que fora político profissional, sustentado pelo PT, com doações de seus militantes. Não se esqueçam que os petistas que ocupavam cargos públicos tinham o compromisso de doar parte de seus subsídios ao partido.
Nos últimos tempos, já como cidadão comum, sustentava-se com seu salário de ex-presidente e cachês por conferências, aparições públicas e outros tipos de remuneração de celebridades. Cobrava caro, pois ninguém discorda que era uma das maiores personalidades mundiais, quase tão famoso quanto Pelé. Portanto, tudo explicadinho.
A suspeita de que Lula tenha fundos no Exterior atira no ar a calúnia de que seu dinheiro estaria em Angola e Cuba, países fora dos controles do sistema financeiro internacional, com regimes ditatoriais que não permitem intrusos nas suas contas públicas ou privadas.
Neste caso, se não fosse uma calúnia rasteira, tais fundos estariam nos grandes bancos, mas triangulados com Cuba ou Angola, em nome de laranjas desconhecidos. Isto não é possível, tanto que nada apareceu. Só calúnias.
De ter fundos secretos em Cuba nem se deve dar ouvidos, pois se houvesse alguma coisa já teria surgido na imprensa internacional: o país de Fidel Castro até muito pouco tempo estava na lista de estados terroristas do FBI, portanto estreitamente vigiado. Não faltaria um bom vazamento.
Quanto a Angola, dizem que Lula investiu seu dinheiro em operações acobertadas pela filha do presidente José Eduardo Santos, a empresária Isabel Santos, atualmente apontada pela revista Forbes como a maior fortuna pessoal do continente africano.
É uma grande maldade acolherar Lula com Isabel. Ela é uma pessoa soterrada por suspeitas, considerada pela Transparência Internacional como a sexta pessoa mais corrupta do mundo. Sua fortuna não está apenas em Angola. Ela é grande acionista de vários bancos europeus e tem investimentos em mais de uma dezena de megaempresas na União Europeia e, especialmente, em Portugal. Seria uma laranja invulnerável.
Na verdade, as suspeitas lançadas sobre Isabel Santos é que ela seria não uma laranja, mas um pomar inteiro, e que Angola seria o estado reciclador dos caixas dois de uma dezena de potentados do antigo mundo soviético, dentre eles Vladimir Putin. De fato, tamanha fortuna seria de muitos donos e seu pai, o presidente Santos, teria infiltrado Lula e alguns outros amigos brasileiros. Uma blindagem impenetrável.
Isabel não é uma figura grosseira de uma ditadura africana. Pelo contrário. Nasceu em Baku, na então República Socialista Soviética do Azerbaijão, onde seu pai estava exilado e atuava como um dos chefes da guerrilha angolana, o MPLA, no posto de general revolucionário.
Sua mãe, Tatiana Kukanova, é azerbaijana de etnia russa, alta funcionária do PCUS. Isabel nasceu em 1973. Teve uma educação esmerada mesmo para os padrões europeus: fez sua formação básica na escola para moças da nobreza britânica, a Saint Paul Girls School, e graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Kings College de Londres. Também se casou com um homem refinado, o conhecido colecionador de arte Sindika Dokolo, natural da República Democrática do Congo.
Quando voltou a seu país, nos anos 1990, chegou a trabalhar como engenheira, mas logo deslocou-se para o mundo dos negócios, onde triunfou a ponto de se converter numa das 100 mulheres mais poderosas do mundo. Seu pai trabalha sua candidatura a presidente de Angola.
Ela seria a sócia de Lula, segundo seus detratores. Não há como provar essa ligação nem minimamente. Tampouco há qualquer indício de algum investimento do ex-presidente em negócios comandados pela angolana.
Nem mesmo fazendo os mais sinuosos contorcionismos legais o arrojado juiz Sérgio Moro pode invocar seja o que for para sugerir que Lula não fala a verdade quando diz que não quer nem tem como fugir do País.
O que se fala em Brasília relativamente às possíveis denúncias de Eduardo Cunha é que podem apontar corruptos em outras plagas, tanto no ninho tucano como na toca das raposas do PMDB. Não seria por nada que o presidente ilegítimo Michel Temer pegou o avião e voltou voando para o Brasil tão logo soube que seu correligionário cassado estava atrás das grades.
Na verdade, não é Lula, mas Temer que deve botar as barbas de molho.

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