Bienal do Mercosul, essa arte é para todos?

Christian Lavich Goldschmidt, escritor e ator
Há muito tempo venho trocando idéias com os amigos sobre a arte e suas funções. Antes de mais nada, um grupo de apreciadores, e não de conhecedores. As discussões aumentaram no início de julho, quando estabeleci um diálogo com Justo Werlang, presidente da atual Bienal do Mercosul – este sim um exímio conhecedor. Na época, questionei a proposta e a arte exposta na megamostra argumentando que a grande maioria está acostumada desde cedo a apreciar imagens, sons e cores que reproduzem de forma transparente a cultura e a realidade, tanto suas como estranhas.
Nesse sentido, ficou claro que os jovens pertencentes ao meu grupo entendem que a arte tem como objetivo retratar sentimentos, emoções, épocas, os povos e seus costumes, ou até mesmo as guerras, como o fez o arquiteto e artista plástico José Lutzenberger nas aquarelas da coleção Farrapos, de 1935, ou ainda nas da coleção da Primeira Grande Guerra da França, em 1914, da qual participou como Oficial da Reserva da Infantaria.
A arte de Lutzenberger, assim como a de Renoir, Klint, Matisse e Van Gogh, cada uma a seu estilo, são de fácil compreensão – quando falo em uma arte fácil de ser compreendida, talvez o diga por estarmos em uma época bem à frente de seus contemporâneos. E talvez também estes não a compreendiam em sua plenitude na época em que viviam. O que quero dizer, no entanto, é que além da fácil leitura de suas obras, as histórias são retratadas de forma colorida, um atrativo indispensável para nós, apreciadores, não conhecedores ou críticos.
Sabemos, todavia, que na arte nem tudo são cores, e nem por isso questionamos seu valor, sua magnitude e representatividade no contexto artístico. O maior exemplo foi a exposição de Goya, que também em julho passado esteve em Porto Alegre. As imagens sombrias e obsessivas de Goya, assim como as de Francis Bacon (as de Bacon são coloridas), não são em nada prazerosas; e para nós, apreciadores, a grande arte é aquela que dá uma profunda satisfação visual. Frida Kahlo, por exemplo, com suas cores, soube expor suas angústias, sofrimentos e tristezas sem repassá-las ao espectador.
O que vemos nas edições da Bienal do Mercosul é diferente de tudo o que temos acima. Os artistas utilizam-se das mais diversas matérias e formas para transmitir algo poucas vezes compreensível para “cidadãos comuns”. Então, estariam os artistas, influenciados pelo caos da sociedade contemporânea, simples e unicamente retratando as dores da humanidade e deixando de lado o colorido da vida?
Segundo Justo Werlang, o artista está inserido no seu tempo, materializando as angústias e certezas com que convive; ele sabe do volume e gravidade dos desafios que deveríamos enfrentar imediatamente: questões como violência, miséria, saúde, habitação, etc. “Quando dizes da mostra de gravuras de Goya e percebes as angústias por que passou em sua vida, tens a oportunidade de perceber essas mesmas angústias, essa mesma faixa de vibração, em diversos dos trabalhos que compõem a 6ª Bienal do Mercosul”.
Em meio a tantas dúvidas e indagações, a pergunta latente é: Sem conhecer a história da arte, seus personagens e obras, sua evolução, como é possível para nós, leigos, entendermos e apreciarmos a arte contemporânea, a arte exposta na Bienal? É uma arte para todos ou somente para os eruditos? Como conhecedor e colecionador de artes, Werlang diz que as linguagens, os vocabulários presentes nas propostas artísticas contemporâneas são muito novas.
Assim, é difícil penetrar em seus conteúdos. Mas uma das propostas pedagógicas desta Bienal é apresentar os trabalhos como uma solução visual a que chegou o artista, a partir do problema com que se defrontou. A obra de arte como resultado de uma reflexão, como solução de um problema. Como os problemas com que nos defrontamos são mais ou menos iguais em todo o planeta, eventualmente essa seria uma forma de permitir ao público em geral penetrar nos conteúdos poéticos das obras expostas. Quanto mais nos julgarmos sabidos, prontos, menores condições teremos de apreciar o que surge de novo.
A maior dificuldade, no entanto, não reside no desconhecimento generalizado de história da arte, mas em pensarmos que já conhecemos o suficiente. Justo Werlang lembra ainda que nada justifica ignorarmos qualquer nova proposta, e acrescenta que uma das maiores dificuldades para penetrar num mundo novo se encontra justamente na falta de disposição para aprender. Na medida em que a Bienal apresenta as propostas artísticas como conclusões a que chegou o artista depois da reflexão sobre questões com que se defronta, isso nos permitirá semelhantes reflexões. Afinal, pensar sobre a vida é cada vez mais urgente.

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