CARLOS FERREIRA / Um basta ao racismo estrutural!

África.

Eu  não vivi os dias que o preto em mim foi escravizado, mas tenho a memória e carrego a dor e a tristeza disso todos os dias com esta tatuagem orgânica que faz a minha pelo ser preta. Todo o santo dia que vivi em Porto Alegre, sem ao menos um descanso por dia eu fui rebaixado pelo branco. Todos os dias da casa grande arrogante, a cada olhar, a cada palavra, para a senzala. Mas houve o basta e libertação para o quilombo. Engana-se você que acha que estes lugares são apenas físicos, são também geografias humanas. O branco a casa grande, o preto inferiorizado pelo branco habita a senzala em sua mente de racismo estrutural. Esta a perspectiva quando cada branco abre a boca, abre o olho para descrever o preto. Não há branco sem racismo estrutural. Sinto, como eu sinto. Na pele, na boca de lábios, grossos, no cabelo grosso que já não tenho.

A Senzala (A palavra tem origem africana e significa morada. Mas ganhou novo significado com a escravidão significando jaula.)

Vale dizer que os escravizados não eram considerados homens, nem animais, mas peças. O idealizador sistema da escravidão africana foi a Igreja Católica, o principal financiador a realeza portuguesa e demais países europeus.

A senzala foi uma forma de alojamento destinado aos escravizados vindos da África. As senzalas estavam diretamente relacionadas à casa-grande. Enquanto os senhores e suas famílias viviam sob a casa-grande, escravizados serviam e habitavam esses alojamentos com raros recursos e nada de conforto.

A experiência das senzalas existe desde o início da experiência da escravidão na América Portuguesa. Desta forma o alojamento em questão esteve presente do século XVI ao XIX, ou seja, dos engenhos de açúcar, das minas de ouro às fazendas do cultivo de café. Elas foram a principal forma de aprisionamento dos escravizados dos períodos colonial e imperial. As senzalas inspiram o sistema presidiário neste país.

Com as Senzalas preveniam fugas colocando grades nas poucas janelas existentes e instalando à frente da senzala o pelourinho – tronco destinado aos castigos físicos da população escravizada. Essa estratégia era utilizada a fim de utilizar a tortura como forma exemplar aos demais e inseria as sevícias na vida cotidiana e na morada desses homens e mulheres

A senzala fez parte da vida cotidiana de sujeitos escravizados, envolvendo formas de organização social, resistência e convívio social.

A divisão interna da senzala é bastante diferente de como são organizadas as moradias atuais. A divisão interna que prevê espaços individuais (quartos, banheiros) não existia, nem mesmo a divisão por unidades familiares, tendo em vista que a própria noção de família se alterou com o tempo. Não havia divisão de cômodos e dormiam todos juntos, num mesmo espaço, apenas com separações entre homens e mulheres e crianças. Lembrando muito as condições dos antigos e atuais presídios brasileiros onde a maioria de presos são homens e mulheres pretos.

Para dormir o chão era o destino. Diretamente na terra ou sobre palhas eram as formas que os escravos encontravam para se acomodar para a noite de sono.

A vida na Casa-grande e nas senzalas traz aspectos da formação social brasileira e está presente nos debates atuais. A PEC das domésticas, aprovada em 2013 é exemplo deste debate. Os direitos garantidos aos trabalhadores pela CLT são bastante difundidos, entretanto, somente em 2013 que o trabalho doméstico assalariado passa a ter tais garantias. Isso acontece pois o fator doméstico – ou a intimidade e as relações pessoais que surgem desta relação – implicam outras regras. A ideia desta suposta proximidade entre patrão e empregado (ou entre senhor e escravo, no mundo colonial) faz do direito trabalhista das domésticas uma questão sensível. A proximidade e a intimidade fizeram com que a ideia de que a empregada doméstica “é quase da família” seguisse os padrões patriarcais e escravocratas da experiência na Casa-grande e nas senzalas. Que horas ela volta? filme de Anna Muylaert de 2015 retrata essas relações.

Cinema 
A origem da palavra “cinema” deve-se à circunstância de ter sido o cinematógrafo o primeiro equipamento utilizado para filmar e projetar. Por metonímia, a palavra também se refere à sala onde são projetadas obras cinematográficas. A invenção da fotografia, e sobretudo a da fotografia animada, foram momentos cruciais para o desenvolvimento não só das artes como da ciência, em particular no campo da antropologia visual.

Cinema (do em grego: κίνημα, kinema “movimentos” e γράφειν, graphein “registrar”), também chamada sétima arte, ou, em certos contextos cinematografia, pode ser definida como a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento, assim como a indústria que produz estas imagens. As obras cinematográficas (mais conhecidas como filmes) são produzidas através da gravação de imagens do mundo com câmeras (câmaras) adequadas, ou pela sua criação utilizando técnicas de animação ou efeitos visuais específicos. Mais especificamente, pode ser descrita como o “conjunto de princípios, processos e técnicas utilizados para captar e projetar numa tela imagens estáticas sequenciais (fotogramas) obtidas com uma câmera especial, dando impressão ao espectador de estarem em movimento”. O diretor de arte pode ser descrito como o principal colaborador visual de um diretor de cinema. Também se usa a palavra ‘cinegrafia’, estando dicionarizada.

Os filmes são assim constituídos por uma série de imagens impressas em determinado suporte, alinhadas em sequência, chamadas fotogramas. Quando essas imagens são projetadas de forma rápida e sucessiva, o espectador tem a ilusão de observar movimento. A cintilação entre os fotogramas não é percebida devido a um efeito conhecido como persistência da visão: o olho humano retém uma imagem durante uma fração de segundo após a sua fonte ter saído do campo da visão. O espectador tem assim a ilusão de movimento, devido a um efeito psicológico chamado movimento beta.

O cinema é um artefato cultural criado por determinadas culturas que nele se refletem e que, por sua vez, as afetam. É uma arte poderosa, é fonte de entretenimento popular e, destinando-se a educar ou doutrinar, pode tornar-se um método eficaz de influenciar os cidadãos. É a imagem animada que confere aos filmes o seu poder de comunicação universal. Dada a grande diversidade de línguas existentes, é pela dublagem (dobragem) ou pelas legendas, que traduzem o diálogo noutras línguas, que os filmes se tornaram mundialmente populares.

Cinema de Senzala 

É possível debater o racismo estrutural sem tochas e cabeças cortadas? Noto que em Porto Alegre ergueu este debate com a live da APTEC (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS). Estamos nós, pretas e pretos, mais ativos em revisitar as questões sociais ligadas a abdução de uma cultura preta para um contexto escravista e diante disto há um oceano de distância em embate onde a configuração agora é de dizer basta.

Faço parte da associação, sou diretor cinematográfico, sou preto, mas confesso que não tenho demanda ativa de contestação e participação em suas pautas. Mas recebi uma mensagem sobre essa questão que polemizou racismo estrutural e machismo.

Com a atenção devida assisti o videolive e formei a minha opinião sobre o ocorrido. Antes de qualquer coisa, digo isto como homem preto, há que debater o racismo estrutural, na minha opinião sem tochas, sem fogueira, mas lanternas de conscientização em alertas críticos porque tochas, fogueiras é o jeito do homem branco extremo. O Europeu que ascendeu o criacionismo e fomentou o nazismo, antes disso a escravidão senzala aportada pelos navios negreiros. A superioridade branca então nunca foi apenas em um período das grandes guerras do século XX. A superioridade branca é fácil de ver. Perpetua em uma linha de narrativa da história onde agora despertadas as minorias em movimentos de basta atuam para baixar a curva da perversidade humana.

Porto Alegre é uma cidade racista. O Rio Grande do Sul é extremo estado racista e perverso, mas há movimentos de gente que quer aprender a deixar essas raízes profundas do racismo estrutural.
Como diretor de cinema, como autor de quadrinhos eu tenho consciência prática em dizer isso para todos que estavam nessa live que foi importante o debate, o embate e a onda que vem com isso. Por que me citei como autor de quadrinhos? Porque fui processado por uma editora que quis que eu abrandasse o final do meu livro Zumbi- Guerreiro dos Palmares mostrando o negro na sociedade de hoje considerando o Quilombo dos Palmares como um assunto superado. Isso me fez por 5 anos lutar na justiça e me defender, defender o meu livro em co-autoria com outro autor negro e depois de 5 anos vencer o processo que foi sim um fomento de racismo estrutural.

Li o pedido de desculpas por parte de quem cometeu os erros. Racismo estrutural não há como desculpar, as pessoas envolvidas acredito que precisam sim receber a aprendizagem necessária para achatar a curva dessa arma genocida que é o racismo em um país que ainda segue escravista. Essas pessoas precisam ser educadas no mundo anti-racistas e sou humanista e percebo que o debate deve servir sim em fazermos como foi feito no Quilombo dos Palmares, acolhermos não apenas pretos, mas índios e até gente branca que não estavam a favor do sistema escravista.

Você, branco, realmente não é a favor do racismo estrutural? Então faça o seu pedido de desculpas e revisa a sua história e a história para o seu despertar. Nós, pretos, conscientes armados com as nossas lanças, espadas, escudos representados com as nossas artes e discursos precisam ser mais bombeiros que policias. Não podemos reverberar violência, mas justiça.

Há outra questão que preciso falar. Mercado. Não existe essa coisa de mercado em Porto Alegre, no RS quando se fala de audiovisual, quando se fala em cinema. Existem iniciativas, vontades, lutas. Querendo ou não estamos todos não mesmo barco, no mesmo balde. Somo siris ou caranguejos tentando sair do balde. Esta é a configuração de Porto Alegre, a POAWOOD.

Não me falem de mercado. Mercado precisa ter bases, estações empresariais de veículos de massa para fomentar séries, filmes, animações, bases financeiras e de industrializações para as série e filmes. Aqui em POAWOOD são todos artesãos do audiovisual. Puxadinhos. Somos uma comunidade, uma favela de profissionais, e é nas artes que afloram os egos (os egoicos não dando espaço pra perdão pra ninguém aqui). Todos acreditam um uma certa dinastia das artes. Só que isso uma ilusão. Dá-lhe bolha sombria de Porto Alegre Poawood!

Olhando a live falta a mea culpa neste sentido. Cada um faz a história e a narrativa errada quando o assunto é sim, preciso aparecer, não contestar ou a auto análise.

Isso de Porto Alegre ter as panelinhas, isso de Porto Alegre apontar para o caminho da EXTREMA DIREITA ESQUERDA MACHISTA FASCISTA não pode ir para a polaridade da EXTREMA FACA DECAPITAR COM ÓDiO. Repudiar, barrar, orientar educar sim.

Há um movimento estranho dentro dos movimentos autênticos que vai trazer uma consequência de ainda mais ódio. Isso se não aproveitarmos este exato momento para debater e revisar tudo.

Há que cuidar ao máximo esta energia de o dedo na cara do outro, vão todos acabar matando um aos outros por tamanha hipocrisia.

Há que também entrar na lista dos Anti o preconceito aos velhos. Tá rolando isso também. Te cuida que na velhice chegamos todos. Artista envelhece, mas a sua arte, como real arte não. A arte do artista não é apenas o seu passado, mas o presente e futuro. Para perpetuar no tempo o artista sempre tem que está aberto a escutar, aprender e expandir a sua vivência. Seja um jovem, seja um velho.

APTEC, por favor, seja mais coerente e seja ponte com o diálogo. GRAFAR, aprenda com a APTC em reconhecer os seus limites.

Mesmo que eu já não pertença mais a esta cidade, esta cidade é pertinente em mim. E desejo que ela volte a brilhar arte consciente e com um plural das suas divergências.

Arte preta, feminina e GLBT se precisa sim. Cuidar da nossa trajetória até aqui também.

Queimamos as casas grandes e senzalas, mas salvamos vidas, ok?

 

*Carlos Ferreira nasceu em Porto Alegre em 1970. Artista gráfico, diretor e roteirista, já teve histórias em quadrinhos publicadas no Brasil, Argentina e Japão. É roteirista da biografia em quadrinhos Kardec, desenhista e roteirista de O castelo e da revista Picabu, e diretor dos curtas-metragens Phil (2001), Pessoas incertas (2003), Castigo (2009), Os cafalhões (2009) e Bacantes (2019).

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