Carta de Barcelona

Tivemos uma semana cheia na arena política, tanto na Europa, com o desenrolar das eleições na Alemanha e Polônia e pelo início do processo de adesão de Turquia à União Européia, como na Espanha, com a aprovação do novo Estatuto da Catalunha pela câmara catalã e pela invasão de subsaharianos ao território espanhol nas cidades autônomas de Ceuta e Melina.

Chama a atenção que os assuntos europeus mereceram escassa importância pela imprensa espanhola, enquanto que o Estatuto catalão e a “invasão” de africanos ganharam as manchetes de jornais e os mais cobiçados horários televisivos.

A principal preocupação do governo foi a de acalmar o eleitorado, rebaixando as pretensões de maior autonomia dos catalães, tarefa levada a cabo pelo mesmíssimo presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, enquanto que o caso da imigração ilegal, ficou a cargo da vice-presidenta, Maria Tereza de la Vega.

Não é por acaso que o governo socialista de Zapatero deu maior importância a suas diferenças nacionais internas, deixando o problema da imigração em segundo plano. Ele sabe que o caso dos africanos não vai render muitos votos. Pelo menos por enquanto.

No primeiro dia da crise, quando cerca de 300 africanos saltaram as cercas que separam a cidade de Melina de Marrocos, o governo anunciou que o exército estaria no dia seguinte na fronteira para coibir a imigração. No segundo dia mais 300 africanos saltaram a cerca e o governo anunciou que aumentaria a cerca  para 12 metros de altura os atuais seis da cerca dupla. No terceiro dia, mais 200 saltaram a cerca e o governo anunciou que colocaria uma terceira barreira, com sensores eletrônicos e todo tipo de parafernália para bloquear a entrada dos africanos.

Estranhamente a oposição conservadora não atacou o governo. Talvez tenha sido a primeira medida do governo que praticamente não sofreu nenhuma contestação da bancada oposicionista. Os especialistas no tema, tão pouco alçaram suas vozes em defesa dos direitos humanos, salvo algumas honradas exceções. Uma espécie de cegueira nacional parece que se abateu sobre os espanhóis que lhes impede de ver a situação com os olhos do outro.

Os africanos do centro e do sul da África que saltam as barreiras são os negros que fogem da fome e da miséria. Caminham um ou dois anos, atravessando o deserto do Sahara, até chegar ao Marrocos para daí passarem à Espanha, via Melina. Melina é uma cidade espanhola encravada em território africano, o que explica o pouco caso que as autoridades marroquinas fazem para deter estes africanos do sul que passam por seu território.

A solução para o problema, dizem os espanhóis, seria a colaboração do governo de Rabat. A soberania compartida de Ceuta e Melina poderia ajudar a resolver a situação, respondem os marroquinos, já que a cidade está na África.
A conta que pouca gente fez ante as câmaras de televisão e nos artigos da imprensa é que enquanto África tem uma população de cerca de 700 milhões de pessoas, 11% da população mundial, com uma alta taxa de natalidade, o seu Produto Interno Bruto (PIB) corresponde apenas a 1% do mundial. O PIB africano é parecido ao da Bélgica, cerca de 250 bilhões de dólares (isso excluindo a parte mais pobre da África que é justamente a subsahariana). Em 1970 a África respondia por 3,5% do comércio mundial, hoje somente por 1,4%. A União Européia é a maior potência comercial do mundo, com um PIB que supera os US$ 10 trilhões, divididos entre uma população de 500 milhões de pessoas e uma taxa de natalidade estancada.

Ou seja, o “problema” da imigração para os europeus recém está começando. Se não mudarem as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), que beneficiam os interesses da Europa e Estados Unidos, não vai ter barreiras, por mais altas ou tecnológicas que sejam que detenham a fome e a miséria que a Europa ajuda a criar com as suas políticas comerciais.

Rivadavia Severo, Jornalista

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