Categoria: Análise&Opinião

  • ELMAR BONES/ O salame

    É atribuída ao marechal Costa e Silva a metáfora do poder como uma peça de salame: “Se você usa bem corta uma fatia, quando usa mal corta duas…em qualquer caso ele fica sempre menor”.

    Jair Bolsonaro usou seu poder presidencial para promover, estimular e participar dos eventos deste Sete de Setembro.

    Terá cortado duas grossas fatias para misturar os atos oficiais do Dia da Independência com dois comícios de candidato a ditador, que ameaça o STF e impõe condições para aceitar as eleições em 2022, que não admite perder.

    O golpe, explícito agora, é a alternativa que Bolsonaro busca para restaurar o poder que alcançou em 2018 e que vem fatiando prodigamente para se manter à frente de um governo sem rumo.

    A questão é saber se o que lhe resta do salame é suficiente para tanto.

     

     

     

     

  • ELMAR BONES / O sangue de Vargas

    24 de agosto de 1954

    A aula mal havia iniciado, a professora foi chamada à sala da diretora e voltou chorando. Não haveria aula naquele dia, todos pra casa.

    No corredor ouvi: “Getúlio se matou”. “Mataram ele, com certeza”, disse uma velha professora.

    Em casa, encontrei minha mãe na cozinha, chorando. Me abraçou, soluçava: “Morreu o pai da gente”.

    Getúlio Vargas era o ‘pai dos pobres’ e a comoção que tomou conta do pobrerio naquele subúrbio de Santana do Livramento foi como se de fato tivessem perdido o pai.

    Homens choravam nos botecos, indignação gritada nas ruas, alguns saiam para juntar-se aos grupos que se formavam na estação ferroviária, dispostos a embarcar para o Rio de Janeiro.

    A Rádio Cultura intercalava “músicas fúnebres” com as notícias do quebra-quebra em Porto Alegre, da multidão que tomava conta das ruas do Rio de Janeiro. Parecia que o mundo vinha abaixo.

    (Nas aulas de música que tive com Enio Squeff  descobri que aquela melodia que soava  aterradora  entre as notícias era o réquiem que Johannes Brahms compôs quando morreu sua mãe).

    No fim o terremoto popular que parecia brotar do fundo da terra dissipou-se  e o que Getúlio conseguiu à custa da própria vida foi protelar o golpe por dez anos.

    Brizola com a Legalidade, em 1961, foi o último bastião da resistência getulista, que seria aniquilada com o golpe 1964.

    Um golpe contra  um projeto nacionalista populista, de conciliação e inclusão social que, na ótica da guerra fria, estava abrindo caminho para o comunismo.

    Seria uma intervenção transitória dos militares para extirpar a corrupção, conjurar a ameaça comunista e, em seguida, restabelecer o poder pelo voto.

    Resultou num regime militar que durou 21 anos, sem encontrar o rumo certo.

    Foi derrubado não só pela política dos porões que adotou, mas principalmente pelo modelo econômico de viés getulista que o general Ernesto Geisel tentou implantar.

    “Deus não me traria de tão longe para ser o síndico da catástrofe”, disse José Sarney ao assumir a Presidência da República como o primeiro civil, desde o golpe de 64.

    Sarney era da “ala jovem” da UDN, o partido que comandou a derrubada de Vargas, quando os militares tomaram o poder. Foi aliado do regime desde o primeiro instante.

    Pode-se dizer que aí, em 1985, quando Sarney se tornou presidente pelo voto indireto (e não quando os milicos derrubaram Jango) se deu a derrota definitiva de Getúlio Vargas.

    Na primeira eleição direta, em 1989, Fernando Collor, também da vertente udenista/arenista, sucedeu Sarney, derrotando Lula e Brizola, dois herdeiros da herança trabalhista de Vargas, que se dividiram.

    Era mais uma pá de terra em cima  daquele cadáver.

    Para completar, o sucessor de Collor, Fernando Henrique Cardoso, assumiu declarando que seu propósito era “sepultar a era Vargas”, negando suas raízes social-nacionalistas. (Seu pai defendeu “O Petróleo é Nosso”).

    Mas eis que de repente, quando parecia  coberta por várias camadas de terra, a utopia de Vargas renasceu com a eleição de Lula em 2002.

    E, por década e meia, pareceu que a nação havia se reencontrado com o seu velho projeto nacional desenvolvimentista, de conciliação de classes e inclusão social.

    O que veio depois de 2015 está na memória de todos. Mas parece que a hidra tem sete cabeças e aí está Lula, liderando todas as pesquisas, com a bandeira do projeto  nacional desenvolvimentista, de conciliação e inclusão social.

    A  difusa utopia pela qual Vargas deu um tiro no peito em 24 de agosto de 1954.

     

     

     

     

     

     

  • GERALDO HASSE/ O militarismo vai pesar na balança em 2022

    Uma live sobre “os militares e a democracia” promovida na sexta-feira 13 de agosto pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap (fundado em 1968 pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso com ajuda da Fundação Ford) resultou numa conclusão unânime de dois cientistas políticos convidados a expor seus conhecimentos acadêmicos sobre o protagonismo militar no atual governo e no Brasil em geral: os generais, os parlamentares originários de forças policiais, as polícias estaduais e os milicianos tendem a ser os fiéis da balança político-eleitoral de 2022, prevalecendo seu viés conservador.

    Fizeram análises e responderam a perguntas os professores Octavio Amorim Neto da FGV RJ e Anais Medeiros Passos da UFSC, ambos especialistas no estudo do comportamento das Forças Armadas.

    Três dias depois de dizer ao jornal El País que as manifestações do presidente Bolsonaro “são estridentes mas não têm efeito”, a veterana socióloga Maria Herminia Tavares, de 74 anos, perguntou a Octavio Amorim Neto e a Anaís Medeiros Passos se a presença de militares no governo significa uma mudança de padrão nas relações com os civis ou, mais grave ainda, representa uma ruptura que dificultaria a manutenção da democracia no Brasil.

    Amorim Neto, formado em 1987 na UFRJ, acredita que a militarização do atual governo (39% dos ministros têm origem militar) gerou uma indefinição política cujo desfecho deverá ocorrer no ano eleitoral de 2022.

    Anaís Medeiros Passos, com doutorado concluído em 2018 em Paris sobre a mística militar na América Latina, afirmou que “a ruptura já aconteceu”, o que está agravando nitidamente a qualidade da democracia no país. Estamos diante da perspectiva de uma transição complicada, pois “a volta aos quartéis não será simples”.

    Qual seria, então, o futuro previsível do exercício do poder no Brasil?

    Segundo o sociólogo carioca, tornou-se claro que o apoio das Forças Armadas é crucial para Bolsonaro, que não tem projeto para o país e age contra as instituições democráticas, estando na contingência de governar para algumas minorias, a quem cumula de favores e benesses, como é o caso dos pacotes pró-militares. Criou-se assim uma situação em que os militares, acumpliciados ao governo, são chamados a avalizar um mandatário discricionário que reencarna o salvacionismo anticomunista de 1935 e 1964 – isso, sem falar do alinhamento político-ideológico com os EUA e contra a China, Cuba e Venezuela.

    Ao explicar por que tem uma visão cética do processo político brasileiro, a portoalegrense Anaís, de 31 anos, diz que as eleições de 2018 marcaram a reorganização das forças políticas conservadoras após pouco mais de uma década de governos liderados pelo PT. Como parte das forças conservadoras, as Forças Armadas se dividem atualmente em três blocos: os bolsonaristas, os simplesmente conservadores e os democratas – isolados, no momento. Além dos membros das três armas da República, a pesquisadora da UFSC lembra que há movimentos mais ou menos conservadores organizados no âmbito das polícias militares dos estados; e, ainda, não se pode desconsiderar a fundação recente da Associação Brasileira de Praças Eleitos, uma inédita entidade formada por componentes dos baixos escalões de todas as forças militares.

    A live com apenas dois debatedores, no final da manhã de sexta-feira 13/8, parece não ter obtido grande audiência, mas aprofundou o conhecimento sobre o surto militarista que voltou a assombrar a sociedade brasileira e – está claro – tem potencial para se prolongar, ainda que a correlação de forças políticas já não favoreça Bolsonaro.

    Octavio Amorim Neto acredita que, apesar do fracasso do governo 2019-2022, a percepção popular ainda mantém os militares “num patamar de alto respeito”, embora o desempenho do presidente coloque as Forças Armadas numa “corda bamba” e o alto comando militar numa sinuca histórica semelhante à dos primeiros presidentes militares — Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto –, que traíram a democracia. Atualmente, segundo o sociólogo da FGV, “a cúpula militar segue comprometida com a governança democrática”, com a ressalva de que o entendimento militar sobre o que é democracia segue padrões especiais. Por isso, Amorim entende que as lideranças civis nacionais devem escrever o quanto antes “um livro branco” com as regras sine qua non do jogo político, de modo a enquadrar todo mundo, especialmente os militares.

    Como seria isso? Aí é que a porca torce o rabo. Aqui, para encerrar, volta o ceticismo de Anaís Medeiros Passos. Segundo a jovem professora, há dois fatores favorecendo o status quo militarizante:

    1 – o anticomunismo continua sendo ensinado nas escolas militares, o que fortalece o conservadorismo das forças armadas em geral

    2 – os políticos não têm interesse em contestar os militares; pelo contrário, a maioria joga no time do “tamo junto”.

     

  • ALDO REBELO/ A Ferrogrão e os desorientados

    Circula a notícia de que na segunda quinzena de agosto integrantes de uma autodenominada Internacional Progressista desembarcarão no Brasil com o objetivo de, segundo seus porta-vozes “derrotar e enterrar” a Ferrogrão.

    A articulação global conta entre seus integrantes com o senador Bernie Sanders, ex-pré-candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais dos Estados Unidos, além de outras celebridades norte-americanas e europeias.

    No Brasil, o movimento tem o apoio de ONGs ligadas às questões indígenas e ambientais e de próceres de setores progressistas e de esquerda.

    É importante registrar que o anúncio da caravana acontece depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal provocada por ações judiciais do Ministério Público e de um partido político pretensamente de esquerda, interrompendo o processo para a construção da ferrovia.

    É de se notar que a campanha contra a Ferrogrão parte dos mesmos grupos que atuaram para inviabilizar a construção da hidrelétrica de Belo Monte e se dedicam a sabotar qualquer iniciativa para dotar a Amazônia da infraestrutura necessária ao seu desenvolvimento e à proteção do meio ambiente.

    O caso da Ferrogrão é exemplar porque é um projeto essencial para a redução do custo de transporte da produção agropecuária do centro-oeste para o porto de Miritituba, no Rio Tapajós, no estado do Pará, e daí para o exterior.

    A caravana só se explica pela desorientação de agrupamentos progressistas e de esquerda que perderam completamente os laços com os interesses nacionais, com o desenvolvimento nacional e com as necessidades do povo brasileiro.

    Da mesma forma, a interferência estrangeira nos assuntos internos do Brasil pode ser explicada pela desastrada política externa do governo.

    Hoje o Brasil é um país sem aliados no mundo, em conflito com o atual governo dos Estados Unidos, nosso mais importante vizinho de hemisfério, em hostilidade permanente contra a China, o nosso mais destacado parceiro e cliente da agropecuária, em arengas desnecessárias com os europeus, para não falar do mal-estar com vizinhos como Argentina, Bolívia, Venezuela e mais recentemente o Peru.

    Dividido internamente e isolado no mundo, nossa Pátria se converte em presa fácil para a cobiça geopolítica e comercial das aspirações hegemônicas do planeta.

    O Brasil e a Amazônia precisam de rumo, de união, de uma agenda voltada para a retomada do desenvolvimento, do crescimento da economia, da redução das desigualdades e da construção da democracia.

    O Brasil precisa da Amazônia para voltar a crescer e gerar esperança para a população, principalmente os mais jovens, desenganados com o País.

    E a Amazônia necessita do apoio do Brasil para proteger o meio ambiente e aproveitar as potencialidades de sua biodiversidade, de sua fronteira agrícola e de sua fronteira mineral, com hidrovias, ferrovias, rodovias, infovias e educação de qualidade para garantir o seu futuro.

    * Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Estado da Defesa, da Ciência, Tecnologia e Inovação, do Esporte e da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais.

     

  • LOURENÇO CAZARRÉ/ É a Oceania, estúpido!

    Lourenço Cazarré

    A disputa mais acirrada dessa última Olimpíada foi, sem dúvida, a luta pela conquista do maior número de medalhas. Tradicionalmente, os Estados Unidos eram o vencedor sempre isolado dessa modalidade. Por décadas, tiveram como concorrente a União Soviética, até que essa foi desmilinguida por Gorbatchov.

    A batalha dessa disputa em Tóquio – travada agora contra a China, sua nova rival – só veio no último dia, quando os americanos ultrapassaram, por uma chapinha metálica de ouro, os asiáticos.

    A nossa cobertura jornalística desse evento, como de quase todas outras disputas esportivas, não primou pela objetividade. Ficou mais para o pachequismo, que é a torcida frenética, herança de nossa paixão futebolística. E para o furor patrioteiro, que nos leva a acreditar que nossos atletas, especialmente os de origem mais modesta, maioritários, são os mais dedicados do universo.

    Além da mera leitura numérica, o quadro de prêmio de uma Olimpíada poderia ser analisado, por exemplo, levando-se em consideração o PIB dos países ou sua população.

    No caso da relação com o PIB, darei apenas um exemplo: Cuba, que obteve 15 medalhas e acabou em décimo quarto da classificação geral. É de longe o mais pobre dos primeiros quinze maiores vencedores. Teve, claro, melhores desempenhos nos anos em que recebia ajuda econômica da União Soviética. Considerando o fato de ser um país de renda média muito baixa (uma das menores na pobretona América Latina), seu desempenho esportivo é excepcional. Superado apenas pelo paupérrimo Quênia, dos grandes corredores de longas distâncias, o décimo nono na classificação final.

    Ainda considerando o produto interno bruto, talvez se deva mencionar aqui o óbvio: as duas economias mais pujantes ocupam os dois lugares mais altos do podium medalheiro. Estados Unidos e China somaram 201 premiações.

    Tão interessante, sem dúvida, pode ser uma conta que considere a população de uma determinada nação em relação ao número de vitórias que ela conquista numa Olimpíada. Nesse aspecto, destaca-se de maneira espantosa a Oceania.

    Comecemos pela Nova Zelândia, que ocupou o décimo terceiro posto em Tóquio, logo atrás do Brasil, ao ganhar 20 medalhas. É um país de escassos 4,9 milhões de habitantes. Ou seja, sua população é quarenta e duas vezes menor que a brasileira. Quarenta e duas!

    Passemos agora ao segundo país mais atlético do mundo, quando se observa a relação entre medalhas e habitantes. É a Austrália, que tem 25 milhões de habitantes e obteve 46 medalhas. Destrinchando: com população oito vezes menor que a brasileira ganhou o dobro de medalhas.

    Mais um número: dividindo-se cada medalha conquistada pela Nova Zelândia por sua população, veremos que cada círculo de ouro prata ou bronze corresponde a 250 mil habitantes. Na Austrália, essa mesma relação seria de uma medalha para cada 540 mil cidadãos. No Brasil, a proporção seria de 10 milhões de pessoas por vitória.

    Os números aqui apresentados nunca são considerados pela mídia brasileira que prefere fazer comparações com as nações europeias, todas elas com maior tradição esportiva e renda média bem mais elevada, como Alemanha, França e Itália.

    Na velha Europa, talvez devêssemos nos concentrar no Reino Unido. Com uma população semelhante à de Itália ou França, e um pouco menor que a da Alemanha, o reinado de Elisabeth 2 faturou no Japão o dobro das medalhas obtidas por esses seus três vizinhos.

    Então, talvez possamos aqui avançar um comentário provocativo: esporte é coisa dos anglo-saxões. Somados, os britânicos – que criaram a maioria dos esportes hoje disputados – mais as nações colonizadas maciçamente por eles (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) ganharam 308 medalhas.

    Os três países orientais mais bem colocados em Tóquio (China, Japão e Coreia do Sul) conseguiram só a metade: 166 medalhas.

    Por fim, podemos refletir sobre a América Latina, na qual o Brasil se destaca com alguma luz de frente, como diria um gaúcho amante de corridas de cavalo. Os sete países de fala portuguesa ou espanhola faturaram 55 medalhas, sendo 36 de Brasil e Cuba. A ex-riquíssima Argentina – que na virada para o Século XX possuía renda maior que a das grandes nações europeias – ficou com o sétimo posto da região com apenas três medalhas, nenhuma de ouro.

    Será que, pensando em Paris, daqui a três anos, não deveríamos voltar nossos olhos para essa vizinha (fica no Hemisfério Sul) distante, a Oceania?

    Certa vez um jornalista amigo me disse que, se ganhasse na loteria, se refugiaria na Austrália porque lá vigora a cultura anglo-saxã, de pleno respeito aos direitos individuais, em um clima semelhante ao nosso. Um clima civilizado. Um clima que permite a prática desportiva ao longo de todo o ano sem os invernos selvagens que fustigam as nações do Norte.

    Como perguntar não ofende, não seria o caso de indagarmos de nossos dirigentes esportivos: vocês prestaram atenção ao que ficou bem claro no quadro de medalhas de Tóquio?

  • Joice, Queiroz e Borba Gato: o que há em comum

    A história, que a deputada Joice Hasselman conta, não pára em pé.

    Não lembra o que aconteceu até acordar em seu apartamento, numa poça de sangue, com fraturas e um dente quebrado. Teria ficado sete horas desacordada.

    Na primeira versão, teria levado uma pancada na cabeça e desmaiado. Depois, disse que poderia ter sido dopada. O certo é que não se lembrava de nada.

    O marido dormia em outro quarto do apartamento funcional que a deputada ocupa em Brasilia, Não ouviu nada.

    Quando ela pediu socorro pelo celular, ele a encontrou caída e cogitou que poderia ser um acidente doméstico, a deputada teria caído e na queda sofrido todas as lesões apresentadas no rosto, no braços e na coluna.

    A deputada esperou dois dias para dar queixa à polícia legislativa.

    Isso levou à hipótese de que o agressor tenha sido marido, o neurocirurgião  Daniel França, hipótese implicitamente encampada pelo noticiário.

    No domingo,  a deputada e o marido, apareceram de mãos dadas em uma entrevista ao Fantástico. Ele disse que nunca deu um tapa em ninguém.

    Ela contou que entregou à polícia os nomes de dois suspeitos: um desafeto político que tem acesso ao prédio e outro “que tem acesso aonde ele quiser”.

    Mostrou-se mais preocupada em processar as pessoas que apontam o marido como agressor (“Vou processar todas”)  do que em esclarecer quem a agrediu.

    Já o ex-assessor do deputado Flávio Bolsonaro e intimo da familia, Fabricio Queiroz, recorreu ao face-book para reclamar do isolamento, postando uma foto em que aparece com  Bolsonaro e amigos.

    Na resposta a um comentário, Queiroz disse que “está com a metralhadora cheia”.  Metralhadora de palavras, entenda-se.

    Quanto ao Borba Gato, pelo que diz a imprensa, foi alvo de um grupo de jovens da periferia movidos pela idéia de que a mudança tem que começar pela destruíção dos símbolos do sistema opressor.

    O que esses três fatos tem em comum:  são muito mais do que parecem, cada um deles extremamente revelador, mas que vão  submergir na voragem das notícias, sem que se fique sabendo o que realmente aconteceu.

     

     

  • GERALDO HASSE/ Embolou o meio de campo

    Geraldo Hasse

    Apareceram recentemente na mídia alguns especialistas — antes pouco visíveis — no estudo das Forças Armadas, cujo humor costuma ser medido a partir de algum resmungo de um almirante, um brigadeiro ou um general.

    Depois de alguma declaração atemorizante de um alto oficial sobre isso ou aquilo, sucede-se um jogo de “não foi nada disso” e (nem) tudo volta ao que era antes nos quartéis.

    Sem nenhuma movimentação de tropas, somente com palavras, as FA se mantêm ultrapresentes no cenário político como apoiadoras, fiadoras, participantes e/ou beneficiárias do governo eleito em 2018.

    Não surpreende que muitos analistas falem do risco de um golpe militar para manter Jair Bolsonaro e/ou Hamilton Mourão no poder a partir de 2023. Com ou sem eleições, o que estaria por trás desse jogo seria o chamado Partido Militar.

    Tudo parece possível, mas está faltando uma análise sociológica do panorama político.

    Ou, seja, como chegamos a isso que aí está: um ex-militar desclassificado na presidência, depois de um jurista (Temer), uma economista (Dilma), um dirigente sindical (Lula), um professor de sociologia (FHC), um playboy alagoano (Colllor), um político mineiro (Itamar), um prócer maranhense (Sarney)…

    E ninguém sabe como sairemos dessa sinuca, já que os responsáveis pelo poder constitucional parecem amedrontados, como se não acreditassem na própria capacidade de reação.

    A única possibilidade de extirpar o mal pela raiz está nas mãos do Senado, que pode encaminhar um processo de impedimento do presidente, mas a credibilidade do parlamento é tão baixa que, mesmo contando com o apoio do Judiciário, é possível que a proposta de impicho não seja aprovada.

    Além disso, por cima de tudo, há a incógnita das Forças Armadas, que foram cooptadas e estão acumpliciadas ao governo em sua incrível marcha para detonar as bases da democracia e desmanchar os direitos das maiorias em benefício de detentores de privilégios históricos.

    Falta ainda dimensionar a terrível aliança que se formou entre militares e políticos — o presidente Jair atua nas duas categorias, embora tenha sido expulso do Exército –, secundados por religiosos e milicianos atuantes em largas periferias urbanas.

    Embora sejam recentes, essas parcerias sinistras têm raízes históricas e trazem até nossos dias um grau altíssimo de predisposição à violência contra os cidadãos indefesos e as comunidades desassistidas.

    Na realidade, desde os tempos coloniais há uma tolerância com a violência dos coronéis rurais contra os camponeses, dos policiais contra o povo humilde.

    O escritor Graciliano Ramos reclamou dos “amarelos” fardados em suas obras de ficção; João Ubaldo Ribeiro também mexeu nesse angu em seu romance Sargento Getúlio, mas a cultura da violência e a tolerância com a truculência se agravaram nos últimos 50 anos.

    Uma ponta desse processo apareceu surpreendentemente no livro Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior,  premiado como o melhor romance brasileiro de 2020.  É uma história de quilombolas que se passa no interior da Bahia.

    O Esquadrão da Morte mantido por policiais civis e o DOI-Codi militar aprofundaram a prática de crimes hediondos perdoados pela Anistia de 1979 até que a eleição de Bolsonaro veio para “legalizar” a exceção vigente. Aparentemente, estamos a um passo da baderna sob tutela militar.

    É um quadro similar ao da ditadura, mas agravado pela ascensão do milicianismo.

    Por falar em milícias, falta uma análise desse segmento armado e ativo à margem das leis ou em substituição a leis não observadas pelas autoridades competentes.

    Até agora ninguém desvendou o alcance, a envergadura e a profundidade desse exército privado atuante abertamente no RJ e presente também em outros estados com assustadora liberdade.

    Os milicianos são jagunços urbanos que passaram a trabalhar na ilegalidade e até na clandestinidade. Segundo consta, muitos dos seus quadros, especialmente os chefes, seriam egressos das Forças Armadas e das polícias militares e civis, das quais foram excluídos por mau comportamento – caso do atual presidente.

    Esses ex-militares passaram a operar com serviços de proteção a comerciantes (nome brando do achaque trivial), da chantagem armada, incluindo distribuição de drogas, venda de GLP e sinal de TV. Assim se tornaram “donos” de bairros em que os serviços públicos não estão presentes ou funcionam mal.

    Esse sistema de privatização montado à sombra de esquadrões da morte civis e militares reivindica os mesmos direitos operacionais de empreiteiros e outros empresários que manipulam concorrências, tocam obras públicas com sobrepreço e/ou aditivos escorchantes, sonegam impostos e praticam lobby, conchavo, propina, suborno e conspiração em conluio com funcionários públicos e parlamentares.

    Se os grandes podem, por que os milicianos não poderiam impor regras e taxas às comunidades desservidas pelo Estado? Essa é a pergunta-base de suas operações. Lembram-se dos versos de Chico Buarque falando das “tenebrosas transações” feitas pelos “pigmeus do bulevar”?

    Vai passar, dizia o poeta, mas o que se passou foi o aumento da impunidade. No fundo, os milicianos pretendem ser impunes como os empresários privilegiados do nosso capitalismo periférico protegido por um sistema político dominado pelo dinheiro.

    Tornou-se lamentavelmente real a frase-piada do humorista Barão de Itararé: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”.

  • P.C. de LESTER/ Manchetes que não foram escritas

     

    Esta é a manchete do 247, site  de esquerda, na  noite desta segunda-feira, 19/07.  Uma manchete que seria saudada por Daniel Scola na Rádio Gaúcha.

    Essa tática do espelho – trabalhar com as pautas da direita trocando o sinal – funciona como tática. Quando passa a ser estratégia, acaba fazendo o jogo do inimigo.

    ***

    Artigo do Jilmar Tatto, coordenador nacional de comunicação do PT sobre a estratégia para enfrentar 2022  revela uma visão limitada da questão da informação/comunicação.

    Enaltece o alto indice de engajamento nas redes petistas e descreve medidas para ampliar as conexões do partido nas redes sociais e não vai além.

    Resumir o universo da comunicação social às redes entre grupos nos meios digitais é uma redução perigosa.

    Norbert Wiener, pai da Cibernética, abriu as portas do mundo digital quando colocou a informação no centro , o elemento que garante a estabilidade, tanto de uma pedra, ou organismo vivo, quanto de uma sociedade.

    Não há uma unanimidade sobre o que seja a informação, seria algo que  falta numa pedra quando ela vira pó.  Ou o que falta a uma sociedade quando ela se desintegra.

    Enfrentar o fogo cerrado que virá pelas redes, sem dúvida, é fundamental.

    Mas desconsiderar o jornalismo, tanto o dos meios de massa, quanto o dos alternativos, onde há experiências importantes e promissoras, pode ser um erro grave.

     

     

  • MÁRCIA TURCATO/ Eleição 2022, cheque a informação!

    Márcia Turcato, de Brasília

    O Facebook já removeu cerca de 850 mil vídeos com informações falsas no Brasil, onde 39% das pessoas que têm celular utilizam a plataforma como mídia de compartilhamento de conteúdo*.

    A desinformação, popularmente chamada de fake news, cresce no período eleitoral e se vale das redes sociais pela facilidade de manuseio, o que as tornou populares.

    Checar informação é um trabalho árduo frente a montanha de conteúdos falsos publicados nas redes sociais diariamente e mais ainda no período eleitoral.

    Não será diferente no pleito de 2022. Na verdade, a guerra informacional já começou e as estratégias de desinformação, com apoio da tecnologia, estão mais sofisticadas. Não basta mentir.

    Agora são construídas novas verdades. A partir de conteúdos autênticos, disponíveis na web, é possível construir cenários, incluir ou retirar pessoas de um contexto, gravar áudios com a voz de alguém valendo-se de vestígios de arquivos de voz originais.

    Essa desinformação sofisticada é chamada de Deepfakes, também utilizada no seu modo pornográfico para atacar reputações e fazer chantagem.

    Se em 2020 já foi difícil, imagine a batalha comunicacional que acontecerá em 2022, na eleição presidencial. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está finalizando seu plano de ação para esse confronto e, no mínimo, manterá as parcerias firmadas na eleição passada.

    Em 2020, o Tribunal trabalhou com nove agências de checagem e formou a “Coalizão para Checagem – Eleições 2020”. Participaram do projeto: Agência France Press (AFP), Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, E-Farsas, Estadão Verifica, Fato ou Fake e UOL Confere.

    No mesmo ano, o TSE ampliou a estratégia para combater a disseminação de informação falsa, ampliando a parceria para mais 60 entidades da área de comunicação.

    As informações checadas estão disponíveis na página Fato ou Boato, no portal do TSE. Graças a uma outra parceria, feita com as operadoras de telefonia e o Conexis Brasil Digital, todos os sites do domínio da Justiça Eleitoral têm o chamado zero rating, ou seja, podem ser acessados sem cobrança ao pacote de dados do celular.

    Isso é muito importante porque, quando está sem acesso à internet, o usuário não consegue checar a origem da informação  publicada nas redes sociais.

    A iniciativa de checagem de fatos e de fornecimento de informações sobre o processo eleitoral do TSE integra o Programa de Enfrentamento à Desinformação, coordenado pela secretária-geral do Tribunal, Aline Osório.

    O Programa é permanente e é formado apenas pelo pessoal da Corte, não conta com participação de instituições convidadas, que poderiam oferecer um novo olhar à missão de proteger o processo eleitoral.

    Esse não é um ambiente da missão institucional do TSE, cujo quadro de pessoal é constituído por gente especializada em legislação eleitoral e pouco conhece do submundo das redes sociais como ferramenta de desinformação política, partidária e eleitoral.

    É imprescindível a parceria com as agências de checagem e a colaboração com instituições de defesa da democracia, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por exemplo, que poderiam ser observadores convidados do Programa de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal.

    Memória

    No pleito de 2020, o Facebook e o Instagram removeram 140 mil posts com informações erradas intencionalmente sobre data e horário de votação e rejeitou 250 mil conteúdos que não informavam ser anúncio eleitoral ou quem estava pagando por eles. No mesmo período, o WhatsApp cancelou contas que dispararam mensagens em massa.

    Mais de 4.700 contas de WhatsApp haviam sido denunciadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas  a checagem da plataforma reconheceu apenas 1.004 como contas automáticas e elas foram bloqueadas.

    O TSE coloca à disposição do público para checagem da informação o número de WhatsApp 61.96371078.

    O enfrentamento à desinformação não é apenas um trabalho de checagem. É necessário também regular esse espaço, criar regras que disciplinem um ambiente que hoje é uma terra sem lei. A regulamentação do tema é da competência do Congresso Nacional.

    PL da Fake News

    Em 2020, o Senado aprovou o PL 2.630/2020  de combate às fake news, que cria a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, com normas para as redes sociais e serviços de mensagem.

    A intenção é evitar notícias falsas que possam causar danos individuais ou coletivos e à democracia. O texto está agora para na Câmara dos Deputados, aguardando  análise, mas não agradou.

    Mais de 40 entidades, como a Fenaj, a Abraji, e a OAB, e empresas como o Facebook e o Google, protestaram pela forma célere em que o texto tramitou no Senado em 2020, em plena pandemia, com sessões remotas.

    Em nota enviada aos senadores, os signatários alegam que “em um contexto em que o Senado realiza deliberações por meio do sistema remoto, sem a existência de comissões, o debate aprofundado sobre o tema se mostrou comprometido desde o início.

    Em função disso, pedimos que o Projeto de Lei 2630/2020, seja retirado da pauta do Senado, a fim de que seja aperfeiçoado e amplamente debatido com a sociedade brasileira, da forma que uma lei desta envergadura requer”.

    Estamos a pouco mais de um ano da eleição majoritária no Brasil e o cenário de disputa está aberto. Não sei vocês, mas eu recebo posts todos os dias sobre os possíveis presidenciáveis, quase tudo é desinformação.

    Alguns posts são grosseiros, outros são construídos com muito recurso. É preciso checar. Se você tem dúvida sobre algum conteúdo, não compartilhe e envie para alguma agência de checagem. Exerça sua cidadania.

    *Dados do Pew Research Center e do Digital News Report da Universidade de Oxford

     

     

     

     

  • ENIO SQUEFF/ O dilema dos militares

    “Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?”  (Desenho de Enio Squeff)

    Enio Squeff

    Na época em que trabalhei no Estadão, isto é, em plena ditadura militar, comentava-se que o brigadeiro Eduardo Gomes, ainda em vida “Patrono da Força Aérea Brasileira” e golpista de 64,  teria interrompido uma reunião do  alto comando da FAB, presidida por João Paulo Burnier, também brigadeiro, alertando-o que se levasse a cabo seu plano de eliminar algo em torno de 50 mil brasileiros, iria denunciá-lo à imprensa internacional.

    Ao que se comentava, Burnier pretendia imitar os militares argentinos nos famosos  “voos da morte”:  poria milhares de opositores da ditadura civil militar em aviões,  e os jogaria no mar. Eduardo Gomes o teria advertido, que se ele quisesse criar uma ruptura definitiva entre o povo brasileiro e suas Forças Armadas, ele que prosseguisse com seu plano criminoso. Burnier recuou.

    Nunca li essa história em jornal ou livro. Mas é possível que tivesse acontecido. O desvario de alguns chefes militares da época – justamente os que mantiveram muitos de seus discípulos nas academias militares e que hoje comandam as tropas brasileiras – nunca foram punidos pelo que cometeram. Burnier teria feito escola.

    Este talvez seja o problema de alguns generais, brigadeiros e almirantes seguidores dos algozes daquele período. Não foi ao léu que Jair Messias Bolsonaro prometeu que o Brasil só se salvaria se fossem mortos 30 mil brasileiros. Na época (isso não é novidade), acrescentou: “Vão morrer inocentes, lamento, mas e daí?”.

    O resto da história todos o vivenciamos. O atual presidente eleito do Brasil, contudo, deve-se admitir, foi  modesto em seus propósitos. Quinhentos mil brasileiros mortos depois, ele pode ostentar o título de o maior “Pagador de Promessas” da direita brasileira.

    Ao não comprar vacinas deliberadamente, ele coalhou os cemitérios do Brasil de centenas de milhares de cadáveres.

    Numa certa medida, portanto, o que Burnier não fez, por respeitar o velho Eduardo Gomes com a sua bengala, o ex-capitão expulso do Exército, talvez faça: o divórcio definitivo dos militares com a população que os sustenta com os seus impostos.

    Não se duvide, em suma, que o presidente e seus seguidores, principalmente  no Exército, estão pouco se lixando para a mortandade que, a essas alturas, está apavorando o mundo.

    Daí às manifestações do dia 04 do corrente, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra tudo isso; e que, no fundo, define este governo, como o pior que o Brasil já teve.

    O que os professores das escolas militares devem ter repetido aos hoje generais, brigadeiros e almirantes,  discípulos do velho Burnier, foi sustado pelo imponderável, já que a Covid lhes fez o especial favor, de nos matar antes.

    Delírio?

    Gostaria que o fosse, embora os membros do alto oficialato sugiram a toda hora e sempre, que eu, por desgraça, possa estar certo.

    Ora, Eduardo Gomes, reacionário, golpista, direitista inveterado, sabia o que dizia quando alertou Burnier e seus asseclas, de que as Forças Armadas nunca poderiam criar um fosso abissal entre elas e o povo. Não se trata da dívida que eles têm conosco por lhes pagarmos o soldo e, mesmo assim, termos  de aturá-los no papel que nunca lhes demos, de serem os tutores do Brasil.

    Isso, porém, vem desde há muito. A rigor, desde o golpe em que os militares derrubaram o Império.

    Claro que a monarquia é uma excrescência, mas daí às Forças Armadas se comportarem ainda hoje como tropas de ocupação de seu próprio país, vai uma distância que o brigadeiro Eduardo Gomes teria antevisto, e que, mesmo assim, anima muitos fardados brasileiros.

    Será que é preciso ter mais que bom senso ou o velho patriotismo para  que as Forças Armadas se comprometam com um governo genocida, responsável pelo maior morticínio já perpetrado contra o povo brasileiro?

    Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso, o seu petróleo, as suas hidrelétricas, suas florestas, e tudo mais que Bolsonaro, Guedes, Salles e os demais se esforçam por doar? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?

    O dilema é deles.