Categoria: Análise&Opinião

  • O fim da Previdência Social

    Vilson Antonio Romero (*)

    A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 6/19 encaminhada à Câmara dos Deputados pelo governo federal em 20 de fevereiro de 2019, desmonta, dizima a estrutura de proteção social dos brasileiros instituído pela Constituição Cidadã de outubro de 1998.

    Sob a justificativa da insustentabilidade do sistema previdenciário, surgiu a opção política de reduzir os direitos sociais de todos os trabalhadores brasileiros, em especial das camadas mais empobrecidas.

    Com qual objetivo? Reduzir a carga tributária das corporações empresariais, aumentar a lucratividade dos conglomerados financeiros e manter a política de elevados gastos tributários (isenções e renúncias fiscais).

    Sob o argumento falacioso de que se não mudar a previdência social, o Brasil quebra, o governo implode nosso “welfare state” tupiniquim.

    Primeiro e talvez o mais importante: através da PEC 6/19, retira do texto constitucional todas as regras de concessão de benefícios previdenciários a trabalhadores do serviço público e da iniciativa privada, remetendo para posterior legislação complementar, gerando insegurança jurídica sem precedentes na recente história nacional.

    Segundo, o mais ambicionado pelos “abutres do mercado financeiro”: determina o fim da previdência social sob o regime de repartição simples, onde os trabalhadores da ativa, governo e empregadores garantem a aposentadoria dos seus concidadãos.

    A partir de lei complementar posterior, todos os trabalhadores e trabalhadoras somente poderão almejar alguma mínima dignidade ao fim da vida laborativa se caírem no colo dos bancos e instituições financeiras que vendem planos e aplicações com este fim, em pacotes e contas individualizadas.

    Quase o mesmo ou pior do que aconteceu nos vizinhos andinos do Chile, onde passados 37 anos da privatização da previdência, os idosos estão se suicidando ou mendigando pelas ruas das cidades, em razão do golpe que foram vítimas. Por terem contribuído por mais de três décadas e as maravilhosas aposentadorias prometidas terem virado pó ou quase isto.

    Além disto, há regras de transição extremamente draconianas na proposta, promovendo rupturas para quem já está no mercado de trabalho, seja nas empresas ou no serviço público, além das maldades do miserável Benefício de Prestação Continuada (BPC) de R$ 400, da idade igual para professores e professoras, da falta de transição para servidores admitidos antes de 2004.

    Por estas e outras, temos que nos organizar e combater, lutar e enfrentar esta verdadeira hecatombe que se avizinha sobre o seguro social brasileiro, impactando direta ou indiretamente na vida e sobrevivência de milhões de cidadãos.

    (*) jornalista, auditor fiscal, diretor da Associação Gaúcha dos Auditores da Receita

    Área de anexos
  • “Abaixo a desigualdade”

    Poucas vozes se contrapõem à mediocridade da política econômica do Brasil
    O engenheiro metalúrgico Antonio Ermirio de Moraes (1928-2014), um dos herdeiros do gigantesco grupo industrial Votorantim, costumava dizer que para se desenvolver de verdade e de forma mais igualitária o Brasil precisaria investir prioritariamente, e a longo prazo, sem trégua, em educação – em todos os níveis, da base ao ensino superior.
    Foi o que ele disse em 1980, respondendo a um grupo de jornalistas da revista Exame que o entrevistou por duas horas numa manhã de sábado (para não atrapalhar sua rotina do trabalho).

    Quando lhe perguntaram qual o prazo desse plano educacional prioritário, ele falou genericamente em 30 anos “para começar”.
    Decorrido esse prazo, pensava ele, as coisas estariam melhores, desde que as metas educacionais fossem mantidas, sem retrocesso.
    Já se passaram quatro décadas desde aquele depoimento e o que vemos?
    Estamos nos afastando rapidamente da qualidade perseguida durante o recente período de 14 anos em que governos progressistas investiram fortemente em educação.
    Há um lamentável retrocesso que se manifesta em lances graúdos como o congelamento por 20 anos dos gastos orçamentários em educação (e saúde) determinado pelo governo Temer em 2016; e lances miúdos como a campanha obscurantista pela “educação sem partido”, um engodo pelo qual grupos de extrema direita pretendem obrigar professores a lecionar segundo a cartilha deles.
    Num país que teve um Anisio Teixeira, um Paulo Freire e um Darcy Ribeiro, temos como ministro da Educação um paraquedista especializado em bajular militares e disposto a transformar escolas em quartéis.
    Além de grandes universidades estaduais como a Unicamp, Unesp e USP, o Brasil tem atualmente 68 universidades federais, mais de 600 institutos federais e notáveis instituições particulares de ensino e pesquisa, mas não se guia pela criatividade e a ousadia.
    Pelo contrário, regride ao insistir na prática de políticas econômicas concentradoras de renda e excludentes, tudo isso em nome da ideia fixa de favorecer o Mercado, essa instituição abstrata que despreza os seres humanos, só pensa em cifrões.
    Mal comparando, ter na direção da economia nacional um economista como Paulo Guedes equivale a colocar um jagunço na gestão da agricultura e do meio ambiente. Pensando bem, não estamos longe disso.
    Não será achatando salários e cortando direitos que se desenvolverá o país. Nessas bases, nem mesmo o mercado consumidor crescerá.
    Em nome do Mercado, Guedes está levando o país a dar um tiro no pé.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O Brasil precisa atacar o problema da desigualdade social. Esse é o problema mais urgente”
    Danilo Miranda, diretor do SESC, no programa Roda Viva da TV Cultura de 25/02/2019.
  • Anticrime?

    O pacote “anticrime” do dr. Moro, pelo que vi nos meios, não contém um único item sobre prevenção ou recuperação de apenados.
    Só um projeto de prevenção, que abra oportunidade de integração, pode tirar da rota do crime  milhões de jovens das periferias das grandes cidades brasileiras.
    Estima-se em mais de  20 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, ou seja não ganham o suficiente para comer.  Vivem em áreas precárias, sem saneamento, sem creche, sem escola. Metade dessa população tem menos de 18 anos.
    É um interminável exército de reserva para as facções criminosas.
    Só um projeto de recuperação que dê oportunidade aos criminosos primários vai tirar das garras das facções 60% ou mais dos detentos que superlotam as penitenciárias e que lá estão por pequenos delitos.
    Sem isso, qualquer plano de combate à criminalidade está fadado ao fracasso. Pode produzir estatísticas satisfatórias num primeiro momento…o resultado final será uma calamidade.

  • Sucatas

    Mais de 50 quilos: foi com um monte de peças obsoletas que Macário de Freitas viu suas contas encerradas na firma em que trabalhou por três anos. Ia bem no emprego, até engordara. A demissão o pegou de surpresa.
    Desacorçoado, c’uma baita raiva misturada a uma certa vontade de chorar, ele colocou a “indenização” sobre o assoalho da carroceria do caminhãozinho de um conhecido, desses que ficam no largo aguardando encomenda de frete. Encostou a barriga na carroceria e ficou ali matutando, mão no queixo. Parecia conformado:
    “Eu não queria pegar essa sucata, mas o funcionário falou ‘Pega porque na Justiça vais perder anos e pode ser que no final não ganhes nada’. Ele ainda falou que o desmanche já começou: ‘Agora, a Justiça do Trabalho vai ser a Justiça do Capital’.”
    Outros trabalhadores, alguns em situação semelhante – na corda bamba ou já devidamente demitidos –, se debruçavam sobre os objetos espalhados pela carroceria da camioneta. Completando o quadro de irregularidades trabalhistas, alguns tinham recebido cheques pré-datados como acerto de contas.
    Estavam todos entre a raiva e o desamparo quando se aproxima o professor Hans Selm, que é aposentado e mexe com abelhas. Ele chega, olha para a sucata-indenizatória sobre a camioneta e comenta:
    “Isso parece uma metáfora sobre a libertação dos escravos, Macário”.
    Hã?!
    Ninguém entende o comentário do professor. Degustando o silêncio, como ocorria nos tempos em que dava aulas na escola técnica, o professor desliza a mão sobre alguns elos de uma grande corrente de ferro, dessas apropriadas para prender âncoras de navios: “Isso vale quanto pesa, Macário”.
    Tentando consolar o recém-demitido, o professor sugere que Macário veja os fatos positivamente. Por exemplo, venda imediatamente a sucata-indenização no ferro-velho da vizinhança e, em seguida, procure um advogado que o ajude a processar a empresa que o dispensou de modo tão vil.
    Alguém da roda questiona o professor:
    – O quê o senhor faria no lugar do Macário, professor?”
    – Eu?! Sim, eu faria o que estou recomendando a ele: vender a sucata e entrar na Justiça contra o empregador, mas faria uma terceira coisa: tentaria iniciar um trabalho novo.
    – Brincadeira! Olha como está o mercado, professor! Não tem trabalho pra ninguém!..
    – Tô falando sério! Olhem pra mim: tenho uma aposentadoria como professor, mas estou preocupado com a reforma da Previdência que vem aí…
    – Sim, mas o senhor tira uma renda da produção de mel de abelhas?
    – É verdade, mas nesse caso a situação também está ficando preta. As abelhas estão sendo exterminadas pelos agrotóxicos.
    – E o mel cada vez mais caro…
    – É como lhe digo: sempre tem uma saída. Macário, por exemplo, pode trabalhar como ajudante de apicultor.
    Cutucado por um colega de infortúnio, Macário desperta do seu estado de choque:
    – Tá me oferecendo serviço, professor?!
    – Sim, mas veja bem: é trabalho intermitente, apenas em dia de sol e enquanto houver abelha…
    LEMBRETES DE OCASIÃO
    “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” (ditado popular nordestino)
    “Se as abelhas desaparecessem da face da Terra, a humanidade não sobreviveria mais do que quatro anos”  (Albert Einstein, físico 1879-1955)

  • Das ladroíces à corrupção

    Vilson Antonio Romero (*)
    Aumentou a percepção de que a corrupção grassa entre os agentes públicos brasileiros, a despeito das seguidas ações policiais, prisões e etapas ostensivas, em especial, da já decantada Operação Lava Jato.
    A relação quase sempre promíscua entre empreiteiros, políticos, funcionários e gestores tem resultado em centenas de escândalos divulgados diuturnamente em todas as mídias.
    Apenas a Lava Jato, desde 2004, somente no PR, já chegou próximo de sua 60ª. etapa, com 2.476 procedimentos instaurados, 226 condenações contra 146 pessoas, com pedidos de ressarcimento público de mais de R$ 40 bilhões.
    Estas constatações consolidam a posição nacional no Índice anual de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela ONG Transparência Internacional.
    Segundo a ONG, o IPC, aferido desde 1995, é o mais abrangente indicador de medição da corrupção no mundo, reunindo dados de 180 países e territórios.
    A pontuação indica o nível percebido de corrupção no setor público numa escala de 0 a 100, em que 0 significa uma nação altamente corrupta e 100 um país muito íntegro.
    No indicador deste ano, o Brasil caiu mais fundo no poço. Alcançou sua pior nota desde 2012 passando da 96ª para a 105ª posição no ranking, com somente 35 pontos na classificação. Entre todos os países pesquisados, ponteiam positivamente Dinamarca, Nova Zelândia e Finlândia. No extremo oposto, os mais corruptos são Sudão do Sul, Síria e Somália.
    No continente, ficamos no 20º lugar entre os 32 países americanos, numa queda significativa. Em 2012 estávamos na 12ª posição e desde então, fomos ultrapassados por Jamaica, Suriname, Trinidad e Tobago, Argentina, Guiana, Colômbia e Panamá.
    O Canadá lidera o ranking nas Américas com a menor percepção de corrupção da região.
    A própria regional brasileira da Transparência Internacional alerta que “esforços notáveis do país contra a corrupção podem estar em risco e não foram suficientes para chegar à raiz do problema”.
    Temos plena consciência que ainda são necessárias medidas legais e institucionais mais efetivas para coibir a endemia corruptiva que assola a Nação.
    Já tivemos uma mudança radical com a Lava Jato, fundamental para mostrar que pelo menos parcela da impunidade está sendo combatida, alcançando de forma inequívoca criminosos do colarinho branco, antes poderosos e inatacáveis.
    Apesar de a corrupção campear em solo nacional desde Pedro Álvares Cabral, necessitamos da consciência da sociedade, da articulação entre os Poderes e da mobilização dos cidadãos, para que se vislumbre um túnel e uma luz no final dele.
    Já rezava o padre Antonio Vieira, nos idos de 1655: “(…) Dessas mesmas ladroíces, que tu vês e consentes, hei de fazer um espelho em que te vejas – e quando vires que és tão réu de todos esses furtos, como os mesmos ladrões, porque os não impedes, e mais que os mesmos ladrões, porque tens obrigação jurada de os impedir, então conhecerás que tanto, e mais justamente que a eles, te condeno ao inferno (…)” – Sermão do bom ladrão.
    ………………………… ….
    (*) jornalista, auditor aposentado e diretor da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro titular da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

  • GM chantageia seus empregados

    O que a maior empresa automobilística do mundo está fazendo no Brasil é uma síntese escandalosa do espírito reinante na cúpula das grandes companhias multinacionais.

    Alegando prejuízos financeiros na operação brasileira, a GM ameaçou deixar o país. Um ultimato? Não, chantagem grosseira. Os atuais executivos da empresa talvez ignorem que a GM opera no Brasil desde 1921, quando começou a montar veículos que chegavam ao país em partes, dentro de caixotes.

    Conferindo as propostas e exigências da empresa aos seus empregados (veja abaixo a lista com 21 itens), custa crer que a líder do mercado brasileiro não tenha sido capaz de planejar antecipadamente a desaceleração de suas atividades nos próximos dois anos e, em plena temporada de verão, precise valer-se de um rol de chantagens, muitas delas baseadas na reforma trabalhista de novembro de 2017. É uma situação constrangedora para qualquer executivo.

    Num primeiro momento, na manhã desta terça (29), uma assembléia com 1 mil empregados de Gravataí, RS, rejeitou de pronto as propostas, todas configurando perdas de benefícios e vantagens para eles, mas é claro que haverá reuniões formais entre dirigentes da empresa e representantes dos funcionários, que terão de ceder alguns anéis para não perder os dedos. Somando trabalhadores diretos e indiretos, a GM de Gravataí ocupa 6 mil pessoas.

    Inaugurada há pouco menos de 20 anos pelo governador Olivio Dutra, do PT (1999-2002)), a planta gaúcha foi construída com incentivos fiscais concedidos pelo governador Antonio Britto, do PMDB (1995-1998). Ainda é considerada uma das mais eficientes do mundo.  É de onde sai o modelo Onix, atualmente líder de vendas no país (389,5 mil unidades vendidas em 2018).

    O mais espantoso nessa história é que, recentemente, durante o governo José Ivo Sartori, do PMDB, (2015-2018), a GM obteve vantagens fiscais para investir R$ 1,5 bilhão numa ampliação da capacidade de produção que seria implementada em 2019. O abacaxi vai cair inteiro no colo do governador estreante Eduardo Leite, do PSDB (2019-2022).

    Lista de propostas da GM:

    1 – Formalização de Acordo Coletivo de longo prazo (2 anos renováveis por mais 2). O atual, assinado em 2018, vence no fim de 2019.

    2 – Negociação de valor fixo e substituição de aumento salarial para empregados horista e congelamento ou redução da meritocracia para mensalistas.

    3 – Negociação do Plano de Participação nos Resultados (PPR)  com revisão das regras de aplicação, prevalência da proporcionalidade transição para aplicação de equivalência salarial e inclusão de produtividade.

    4 – PPR zero em 2019, de 50% em 2020 e integral em 2021.

    5 – Suspensão das contribuição da GMB à Previdência por 12 meses.

    6 – Alteração do plano médico.

    7 – Implementação de trabalho intermitente por acordo coletivo e individual.

    8 – Terceirização de atividades meio e fim.

    9 – Jornada de trabalho de 44 horas semanais para novas contratações.

    10 – Piso salarial de R$ 1.300,00. (O atual está em torno de R$ 1.570,00).

    11 – Redução do período de complementação do auxílio previdenciário para 60 dias para um evento no ano.

    12 – Renovação de acordos de flexibilidade.

    13 – Rescisão no curso de afastamento para empregados com tempo para aposentadoria.

    14 – Desconsideração de horas extraordinárias.

    15 – Trabalho em regime de tempo parcial.

    16 – Jornada especial de trabalho (12/36 horas).

    17 – Ajuste na cláusula de férias com parcelamento previsto em lei.

    18 – Regramento do contrato de trabalho intermitente.

    19 – Implicabilidade de isonomia salarial acima dos 48 meses para grade nova.

    20 – Cláusula regrando a adoção de termo de quitação anual de obrigações trabalhistas.

    21 – Congelamento por 12 meses da política de progressão salarial de horistas.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Pior que uma empresa perniciosa é uma empresa incompetente. Tão ruim quanto uma decisão errada é uma decisão postergada”.

    John Kenneth Galbraith, economista, na página 280 de “A Era da Incerteza” (Pioneira, 1977, 4 edição), falando da General Motors, considerada pelos americanos o suprassumo da livre empresa

  • O Rasputin dos Bolsonaros

    Há um ditado latino que diz: “Credo quia absurdum”, ou seja, “Acredito porque é absurdo”. Nada, no fundo, mais coincidente entre esse dito latino e a existência impávida de um Olavo de Carvalho e de seus inúmeros discípulos a governarem o Brasil. Quando trabalhávamos – o Olavo e eu, no “Estadão”, certa vez, (e os absurdos ainda não lhe tinham subido à cabeça, pelo menos não eram visíveis) – ele me disse, acho que na mesa de um bar, que fazia horóscopos. Fiquei curioso e pedi-lhe que desenhasse meu mapa astral. Dadas as minhas parcas informações, juro que ele não previu nada que eu não adivinhasse. Mas como lhe contei pouco, acedi que seu “esboço de mapa astral” acabasse mesmo num mero palpite – ainda que com os astros não sei bem em que posição. Não me surpreendi nem me decepcionei, pois não acredito em horóscopos, mas me assustou um pouco vê-lo, tempos depois, já como autodenominado filósofo, a deitar falação no “Globo” e, mais tarde, a dizer asneiras, como organizador da extensa obra de Otto Maria Carpeaux, um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve.
    Tudo bem: ele aproveitou a deixa e nos raros momentos em que o li – inclusive numa inacreditável introdução que fez da obra de Carpeaux, – senti que o anticomunismo lhe caíra muito bem. Ele era incensado e, por fim, ei-lo como guru de uma das estirpes mais torpes que a política produziu nos últimos anos. Poderia ignorá-lo como muitos fazem (até para não lhe dar a importância que quase um milhão de pessoas lhe dispensam no Brasil, por lhe comprarem seus livros), mas dias atrás, pespeguei algumas “jóias” de seus, digamos, “pensamentos”. E então constatei em definitivo que o homem não batia nada bem da cabeça. Deu a entender que sabia ciência e afirmou que foi encontrado hidrocarboneto num planeta fora da nossa galáxia. Ou seja, os dinossauros, a evolução das espécies de Darwin, que dariam no petróleo, são histórias pra boi dormir. Para enfatizar – e este recurso é muito usado por ele – afirmou que petróleo como hidrocarboneto “era o cu da mãe” (ouvem-se risos na platéia, não se sabe se de algum Bolsonaro).
    Ciência? Ele sabe que tudo começou no século XVIII e que, desde então, segundo ele, virou uma grande empulhação. Daí a teoria da relatividade. Einstein a inventou para não desmoralizar o que já estava feito. E citou um fato de que eu nunca ouvira falar (o que não quer dizer nada, porque não entendo do assunto) – que vários cientistas (não citou nenhum), tinham feito medições, e todas davam, em pontos diversos da terra, velocidades diferentes da luz (?). Conclusão: não se sabe se o universo é curvo. Ou plano. Os eclipses lunares seriam ilusões de ótica.
    Sociologia, antropologia, magia negra, candomblé? O Olavo de Carvalho tem respostas prontas. Uma delas: o Saci Pererê e o Exu seriam uma mesma entidade. Nenhum dos dois têm qualquer coisa em comum, para quem conhece um mínimo das religiões indígenas sincretizadas, com a cultura negra (Saci Pererê) e o candomblé (Exu). Mas Olavo de Carvalho lança a hipótese que o furacão Katrina e o terremoto no Haiti aconteceram em ambos os sítios, porque lá eles cultuam o candomblé. Ao contrário do norte dos EUA, onde os negros são evangélicos e “ricos”, onde nada aconteceu.
    Entenderam? Logo, nunca haverá qualquer hecatombe em tais lugares. E daí o castigo (não se sabe se do Deus Cristão ou de Alá, já que Olavo de Carvalho tem um passado islâmico). Mas o Príncipe Charles da Inglaterra estaria claramente empenhado em difundir o islamismo para acabar com o catolicismo. Portanto, é esperar e daqui a pouco todos estaremos lendo o Alcorão.
    Onde as provas? Ninguém lhe exigiu nenhuma, assim como não se sabe de onde ele tirou a ideia de que a escola de Frankfurt, pregava a pedofilia. Em qual dos livros de Horkheimer, Adorno, Benjamin, Habermas e outros isso foi dito? Em qual? À falta de provas, entre uma baforada e outra, sobrevêm xingamentos: os que pensam o contrário que vão “pra puta que os pariu”, ou “tomar no cu”(sic)
    Finalmente, uma última, mas não a derradeira: quem toma Pepsi Cola, consome abortos. O açúcar dos fetos nos tornaria a todos abortistas. Por que fetos humanos e não o velho açúcar, ninguém sabe. Ou melhor, talvez saiba a Coca-Cola, concorrente direta da Pepsi.
    E esse é o guru da família Bolsonaro e de muitos de seus seguidores, incluindo os generais das Forças Armadas brasileiras. E que indicou dois autênticos imbecis para chefiar os Ministérios da Educação e das Relações Exteriores
    “Credo quia absurdum”.
    Não, não é pra rir.

  • Previdência e capitalização

    Às vésperas de completar 96 anos de existência, em 24 de janeiro, as ameaças de reforma na previdência social brasileira estão fazendo seu idealizador, Eloy Chaves, falecido em São Paulo, em abril de 1964, se remexer no túmulo.
    Tendo como modelo o tsunami privatizante do Chile nos anos 80, o novo governo anuncia transformar drasticamente o seguro social brasileiro que abrange, nos setores público e privado, mais de 120 milhões de cidadãos, entre contribuintes e beneficiários,
    E a mudança se inspira, a exemplo do que ocorreu em território chileno, no ideário de um dos maiores defensores do liberalismo econômico no século passado, o economista americano Milton Friedman (1912-2006), mentor dos Chicago Boys, e de quem o atual superministro da Economia brasileiro parece ser um ferrenho discípulo.
    Pelo modelo que está sendo gestado segundo os balões de ensaio diários lançados
    atabalhoadamente na mídia, há três possibilidades sobre a mesa dos novos inquilinos da Esplanada dos Ministérios e do Palácio do Planalto.
    Em todos os anúncios, fala-se em pauperizar definitivamente a previdência pública
    transformando-a numa “esmola mínima nacional”, onde todos os brasileiros,
    independentemente de contribuição ou vinculo empregatício, a partir dos 65 anos fariam jus a benefício assistencial desindexado e inferior ao já mínimo salário mínimo.
    A partir desse valor, haveria uma previdência no regime de repartição como hoje existente, mas achatando o teto para algo em torno de três ou quatro salários mínimos.
    Acima deste limite máximo do INSS, viria o modelo que faz brilhar os olhos dos “abutres financeiros”: cada trabalhador do setor público ou da iniciativa privada teria que fazer aplicações em contas individuais para garantir, décadas após, alguma dignidade na aposentadoria, se for possível e se houver dinheiro ainda.
    Esse é o modelo que foi à bancarrota no Chile, pois passados trinta anos da sua instituição, a promessa de que os trabalhadores que contribuíam compulsoriamente para as AFPs – instituições criadas para guardar as aplicações dos chilenos – tivessem uma renda de cerca de 70% do salário, tornou-se vã.
    Há milhares de aposentados dormindo embaixo de marquises e viadutos por toda a Santiago e dezenas de cidades do país, e o número de suicídios se elevou drasticamente entre os idosos, segundo noticiam, pelo sofrimento, penúria e vergonha de não poder manter a si e aos seus.
    As mobilizações populares já fizeram o governo chileno reverter parcialmente a total
    privatização, mas segue a preocupação sobre o futuro dos aposentados.
    É isso que querem para o Brasil? É isso que querem para nossos filhos e netos? Quem
    sobreviver, verá!
    ……………………………..
    (*) Vilson Romero é servidor público aposentados e jornalista, diretor da ARI – Associação
    Riograndense de Imprensa e conselheiro da ABI – Associação Brasileira de Imprensa.

  • Babel

    À falta de critérios racionais, o governo alimenta a confusão

    Há quem considere normais as caneladas dos primeiros dias de governo, mas são tantas e tamanhas as divergências que se pode imaginar que os novos governantes estão gozando com a nossa cara.

    Lembram-se da Torre da Babel, metáfora bíblica sobre a desinteligência entre os homens na Antiguidade?

    Para não viajar nos equívocos, a saída mais inteligente é esquecer o diz-que-diz e tentar sacar as tendências básicas, os rumos, o norte, pois é notório que, a despeito das trombadas, o governo tem o seu Norte.

    Assim, excluídas as bolas chutadas fora por figuras individuais do novo governo, o que temos na mão, com certeza, são as seguintes diretrizes:

    1 – liberalismo na economia

    2 – obscurantismo nos costumes

    3 – retrocesso na educação

    4 – desrespeito ambiental

    5 – reviravolta na diplomacia com submissão ideológica ao império ianque e rejeição às parcerias com a China, a Rússia e outros países suspeitos de gostar do socialismo, seja lá o que isso venha a ser

    6 – renúncia à soberania nacional mediante o aprofundamento da  política de Michel Temer de entrega às petroleiras estrangeiras das jazidas do pré-sal, dispensando a Petrobras de exercer sua maior especialidade – a operação em águas profundas.

    7 – A “venda” apressada à Boeing da Embraer, uma empresa estratégica que não está à beira da insolvência

    São casos contraditórios e discutíveis. que não resistem a uma análise superficial.

    Por exemplo, a crítica ao “globalismo” levantada pelo novo chanceler Ernesto Araujo destoa da adesão incondicional aos EUA, líder do processo de “globalização” das finanças e das tecnologias.

    Já o apelo às raízes nacionais (“leiam José de Alencar”, recomendou o chanceler Araujo), é um disparate diante da subordinação aos interesses dos EUA; seria mais lógico se o dito cujo recomendasse a leitura de escritores como Steinbeck ou Faulkner, dois luminares da literatura norte-americana. Ou indicasse os filmes de John Ford ou Tarantino.

    Fora as baboseiras ditas por ministros saídos do anonimato para as luzes da Esplanada de Brasilia, o que mais espanta no novo governo é o jogo duplo que combina a condenação de boas práticas das gestões petistas à bajulação dos ricos.

    A pretexto de coibir concessões do PT aos carentes e pobres, o governo corre o risco de abrir a porta para favorecer quem não precisa de benefícios oficiais.

    O que configura uma forma gratuita de corrupção.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Quem nasce no Brasil ou funda um país ou vive da revolução dos outros.”

    Altair Martins, escritor, no romance Terra Avulsa (Record, 2014)

  • Demandas (2)

    Por um lapso lamentável, no artigo anterior, omiti o nosso bravo Sul21 de uma lista de projetos que hoje configuram uma “imprensa de resistência” ou “imprensa alternativa”.
    Logo o Sul21 que é um caso exemplar desse novo fenômeno.
    Pelo menos essa falha me serviu de alerta para a necessidade de se enfrentar primeiro a questão da mídia regional.
    Participei, na eleição, de uma iniciativa que reuniu 17 grupos que trabalham em todos os níveis de mídia. Havia uma grande energia ali. Grandes potencialidades emergiam naquelas poucas reuniões. Mas toda aquela energia se dispersou.
    Por que? Havia uma enorme vontade e uma disposição admirável para fazer as coisas em cooperação. Por que não foi adiante? O calor talvez explique.
    O Alexandre Haubrich, com sua capacidade de aglutinar, podia pensar num Encontro dessa mídia em Porto Alegre para começar a discutir essa prioridade.