A Eletrobras pagou R$ 400 milhões ao Hogan Lovells, escritório norte-americano de advocacia, por uma auditoria na contabilidade da Usina de Belo Monte, no Pará.
O Hogan Lovells contratou a Krol, empresa de espionagem, também americana.
Há três anos eles entregaram um relatório que a Eletrobras manteve em segredo até domingo último, quando o Globo publicou um resumo.
Segundo as matérias do jornal, a auditoria baseou-se em investigações e delações da Lava-jato e as conclusões foram exatamente as mesmas de uma auditoria interna.
A Eletrobras pagou R$ 400 milhões!. Para não ficar feio, o relatório foi classificado como “confidencial”.
Categoria: Análise&Opinião
Confidencial
Chile
A expansão constante nas últimas duas décadas deu ao Chile a maior classe média e uma das menores taxas de pobreza da região. Mas a alta desigualdade permaneceu praticamente a mesma, de acordo com o Banco Mundial.
Os manifestantes reclamam da educação privada e da assistência médica caras, do aumento do custo do serviço público e da redução das aposentadorias. Em junho, o preço da eletricidade subiu 10%.
“Há mais de uma década, estudos alertam para a crescente frustração com as condições de vida no Chile”, disse ao WP Jorge Contesse, professor de direito da Universidade Rutgers. “Ainda nos dizem que isso era imprevisível”.
“O Chile é governado por uma constituição que foi criada sob a ditadura e que – apesar de reformas significativas – deixou a infraestrutura política e jurídica fundamental inalterada e sem resposta às demandas de milhares, senão milhões, de chilenos.”
“A raiva que mantém as pessoas nas ruas é contra um modelo que privatiza e lucra com todos os aspectos de nossa vida”, twittou Emilia Schneider , chefe da Federação de Estudantes da Universidade do Chile. “O aumento das passagens foi a gota que derramou o copo.”causando violência “têm um nível de logística característico de uma organização criminosa”.
“Somos contra um inimigo poderoso que não respeita ninguém”, disse ele. “Isso está disposto a usar a violência sem limite, mesmo quando isso significa perda de vidas humanas.”
Ele distinguiu entre manifestantes radicais e aqueles que estavam nas ruas para exigir melhores condições de vida.
“Compartilhamos muitas de suas preocupações”, disse ele. “Peço que nos unamos nesta batalha que não podemos perder.”
Bachelet disse que qualquer estado de emergência “deve ser excepcional e enraizado na lei”.
“Há alegações perturbadoras de uso excessivo da força pelas forças de segurança e armadas, e também estou alarmado com relatos de que alguns detidos tiveram acesso negado a advogados, o que é seu direito, e que outros foram maltratados enquanto estavam detidos”, ela disse.
Ainda não era esperado que os protestos ameaçassem o poder de Pinera antes que seu mandato terminasse em 2022.Mas, por trás de tudo, dizem os analistas, existem expectativas não atendidas, pois o amplo crescimento durante o boom das commodities das décadas de 1990 e 2000 ficou estagnado na última década, à medida que os preços globais caíram, provocando frustração não apenas com os líderes políticos, mas também com toda a economia e economia. sistema democrático.
A taxa de crescimento anual do PIB da América Latina aumentou de 0,3% em 1990 para quase 6% em 2010, segundo o Banco Mundial. Mas, desde então, encolheu mais rápido que a média global, para 1,4% em 2018.
Enquanto isso, a confiança no sistema político chegou a um ponto mais baixo. O pesquisador Latinobarometro descobriu que menos de 25% da população da região está “satisfeita com a democracia em seu país”.“Como a economia desacelerou na última década em todos os lugares da região, as pessoas não estão vendo suas vidas melhorarem tanto quanto esperavam e estão atacando seus governos e todo o sistema”, disse Winter.
Com a frustração crescente contra líderes de centro-direita no Chile, Equador e Argentina, ele previu um apoio crescente a esquerdistas.
“É como assistir a um peixe cair em volta da mesa”, disse Winter. Ninguém é realmente capaz de dar às pessoas o que elas querem, então elas elegem alguém do outro lado do espectro político.
“Ou é que as pessoas tenham expectativas irreais, ou que ninguém tenha aproveitado as reformas que realmente poderiam colocar a América Latina de volta no caminho do crescimento”, disse ele. “Eu acredito que é o último.”
(Do Washington Post)Falta uma oposição
Vladimir SaFatle* Uma das mais astutas peças da engenharia política colocada em operação pela ditadura militar consistiu na produção de sua própria oposição. Dificilmente encontraremos uma ditadura que, logo ao ser implementada, não anulou toda a oposição, mas na verdade criou seu próprio partido de oposição. Ou seja, o MDB é um produto da ditadura, talvez seu produto mais impressionante. O que demonstrava como, desde o início, tratava-se de uma ditadura que não se via como uma operação de intervenção cirúrgica, mas como um movimento de reformulação profunda da vida nacional feito para durar mesmo depois do seu fim.
Produzir sua própria oposição, definir as modalidades de sua própria resistência é a forma mesma de um “poder perfeito”. Pois o poder se exerce não exatamente quando definimos as normas a serem seguidas. Ele se exerce principalmente quando definimos as margens, quando organizamos as posições e as formas de resistência que os descontentes poderão ocupar. Um poder perfeito é aquele que é, ao mesmo tempo, a norma e a resistência.
Assim, ao definir as condição de sua própria oposição, ou seja, ao construir o próprio ator que a sucederia depois de seu término, a ditadura brasileira encontrou uma maneira de fazer, da Nova República, apenas a ocasião de seu próprio desdobramento.
Como se disse várias vezes antes, o MDB era sobretudo um modelo de paralisia, uma forma de travar as lutas e dinâmicas de conflitos sociais próprios à realidade brasileira. Esta paralisia acabou por levar a Nova República ao colapso e, ironia maior da história, ao restabelecimento de novos representantes do setor mais violento da ditadura militar.
Um processo similar está em curso atualmente, a saber, as forças em torno do governo, ou que um dia giraram em torno do governo, estão a construir sua própria oposição.
Neste sentido, é digno de nota a maneira com que o espaço da oposição é atualmente ocupado, principalmente, por antigos aliados, por apoiadores ocasionais ou ainda por atores de espectros políticos próximos àquele assumido pelo governo.
Isto é parte fundamental de uma operação de restrição e gestão do horizonte de debate nacional. Não por acaso, o discurso oposicionista começa a se configurar como um discurso de crítica à política ambiental, às “derrapadas” do governo, a sua “insensibilidade” para com setores historicamente violentados, mas que sempre termina por lembrar: “embora tudo isto ocorra, sua política econômica é boa”.
Como se estivéssemos a ver a gestação de novos candidatos a gerentes de uma política econômica aparentemente consensual, a despeito de seus resultados catastróficos.
Assim, da mesmo forma como em Aristóteles a atualidade é a situação atual mais a soma de seus possíveis, constrói-se paulatinamente horizonte dos possíveis deste atual governo.
Na outra face necessária dessa moeda, vemos desenhar-se no Brasil um tipo de movimento que parece querer repetir o que se passou na Itália nas últimas décadas. Desde o fim da Segunda Guerra, a Itália despontou como um país de esquerda em ebulição.
O maior partido comunista da Europa, movimentos autonomistas extremamente dinâmicos e contestadores, movimentos sociais múltiplos. No entanto, não há sequer sombra disto atualmente. Simplesmente não há mais esquerda italiana. O que aconteceu?
Se quisermos fazer a arqueologia de Bolsonaro chegaremos necessariamente a Silvio Berlusconi, certamente o primeiro da série de líderes populares de extrema-direita que dão o tom da política mundial.
Quando Berlusconi emergiu, todo o resto do espectro político foi paulatinamente se configurando em enormes “frentes de resistência”.
Ou seja, a política se resumiu a Berlusconi e as resistências a ele. Essas grandes frentes, no entanto, quando conseguiam desalojá-lo não eram capazes de realmente governar. Pois não havia nada que os uniam a não ser a recusa a Berlusconi.
Principalmente, tais frentes tendiam a anular as forças de esquerda no interior de dinâmicas gerenciais de poder. Sem espaço para impor suas dinâmicas de ruptura, a esquerda era convocada à responsabilidade de sustentar governos com a paralisia das coalizões heteróclitas.
Assim, no interior desta dinâmica de frente ampla, todos se enfraqueceram, pois a única força política real era Berlusconi. A única força política real, que pregava a ruptura, estava fora da frente. Todo o resto era a expressão da ordem, de uma ordem que ninguém queria mais.
O resultado final demonstrou-se absolutamente inefetivo. Quando Berlusconi enfim caiu em definitivo, seu lugar foi ocupado não por atores dessa frente ampla, mas por alguém ainda pior que ele, alguém cujas simpatias fascistas eram ainda mais evidentes, a saber, Matteo Salvini.
Mesmo fora do governo depois de uma manobra desastrada, Salvini permanece o político mais popular da Itália, prestes a retornar ao poder na próxima eleição.
Isto apenas demonstra como, em política, resistir é perder. Resistir é apenas confessar que não é você quem controla a agenda política, quem tem a força de produzir a agenda. Você simplesmente responde negativamente a uma agenda decidida por outro.
A política de frente ampla, de todos contra Bolsonaro será impotente diante de uma “oposição consentida” que está a ser gestada atualmente e que visa garantir a proliferação de atores dispostos a perpetuar as políticas do atual governo, apenas com diferentes graus de temperatura e pressão.
Neste ponto fica claro o que falta a uma oposição real no Brasil. Falta-lhe a capacidade de impor no debate público os tópicos de outra agenda. Quando a finada Margareth Thatcher estabeleceu seu braço de ferro contra os mineiros britânicos em greve, ela durante meses repetia o mantra: “Não há alternativa”.
O que sempre foi a estratégia clássica do autoritarismo neoliberal, a saber, querer vender a ideia de que o “remédio amargo” é o único remédio (diga-se de passagem, amargo apenas para alguns, pois há sempre os que lucram muito com o amargor de outros). Mas mostrar a existência de alternativas, impor outra agenda, não pode em absoluto significar tentar reeditar o que já foi tentado.
Por exemplo, em seus últimos trabalhos, o economista Thomas Piketty mostrou aquilo que muitos críticos da política econômica do governos petistas já perceberam: que não houve política de combate à desigualdade realmente eficiente.
Seus estudos mostram como a participação, na renda total, dos 1% mais ricos cresceu no período do antigo governo e que o crescimento da renda das classes mais pobres foi, na verdade, feita em detrimento da faixa entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos, ou seja, em detrimento da classe média.
Já havíamos percebido a ineficácia da política em questão quando ficou claro que tudo o que ela havia conseguido produzir fora levar o índice Gini (que mede a desigualdade) aos patamares do início dos anos sessenta.
Agora, fica claro em números como ela foi também uma política de preservação e crescimento dos ganhos da elite rentista brasileira, devido à ausência de qualquer reforma fiscal que de fato transferisse a conta para os setores mais ricos da sociedade.
Tirar as consequências das ilusões de “todos ganhando” que alimentou as políticas anteriores é condição necessária para que possa aparecer uma oposição que faz minimente jus ao seu nome. Há um longo debate a ser feito que, infelizmente, continuamos a nos recusar a fazer enquanto “resistimos”.
(Reproduzido de Elpais)Canabidiol: mitos e verdades
Neide Montesano*
Em todas as discussões que ocorrem junto à opinião pública sempre nos defrontamos com mitos e verdades e alguns desses temas merecem nossa atenção pela relevância. O Canabidiol (CBD), esse composto químico encontrado na planta Cannabis, que nos últimos anos ganhou notoriedade por suas funções terapêuticas e cognitivas, é uma questão que merece bastante consideração por todos e urgência em sua regulamentação no Congresso Nacional.As pessoas costumam generalizar a planta Cannabis, mas é importante esclarecer que ela tem três espécies principais: a Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis. Todas possuem características e compostos semelhantes, porém quando o assunto é Canabidiol (CBD), a atenção se volta à Cannabis ruderalis, conhecida como cânhamo (hemp). Esta variedade da planta possui uma porcentagem inferior a 0,3% de THC (Tetrahidrocanabinol), que é o responsável pelos efeitos psicoativos, e também cerca de 20% de CBD (Canabidiol), que tem mais efeitos farmacológicos e terapêuticos.No Brasil, o tema CBD tem gerado muitas polêmicas e dúvidas pelo fato de a substância estar associada à planta Cannabis, já que ela continua sendo fonte lucrativa no tráfico de entorpecentes, ao ser utilizada para fins recreativos por grande parte da população. De fato, temos em nosso País um grande preconceito social com a planta, além de desinformação na sociedade e até ignorância generalizada.Para melhorar a compreensão desse produto, separamos alguns mitos e verdades sobre o Canabidiol:MITOS1. CBD É O MESMO QUE THCQuimicamente falando, o CBD não é o mesmo que THC, embora tenham a mesma composição química. O que diferencia os dois compostos é o arranjo de um único átomo. O THC atua diretamente na ativação de células do receptor cannabinoide CB1 (agonista). É o responsável pelo efeito psicoativo no cérebro e sistema nervoso central. Já o CBD atua no receptor cannabinoide CB2 (antagonista), suprimindo até as propriedades do THC nos receptores CB1. Isso que significa que o CBD não deixa o consumidor sem reação, não importa a quantidade consumida. As suas propriedades são benéficas com diversas aplicações terapêuticas.2. TODO CBD É IGUAL?O CBD não é igual sempre. Os produtos que contêm CBD podem ser ‘Full spectrum’, ‘Broad spectrum’ ou isolados. O ‘Full spectrum’, ou espectro completo, é um extrato que contém todos os compostos encontrados naturalmente na planta, incluindo terpenos, óleos essenciais e outros canabinóides (incluindo THC e é responsável pelo efeito ‘entourage’). O CBD isolado é a forma mais pura dessa substância, que é produzida pela remoção de todos os outros compostos encontrados na planta, incluindo terpenos, flavonoides, partes de plantas e outros canabinóides.3. CBD É VICIANTE?O CBD age mais como um suplemento do que como um medicamento. Para dar um exemplo: se você confia na melatonina para ajudá-lo a adormecer à noite, o mesmo se aplica ao CBD, que não é viciante ou causa distúrbio por uso.4. CBD TRATA TODAS AS PESSOAS?Se você é novo no mundo do CBD, tenha cuidado. É importante estar atento às situações. Por exemplo, um site pode afirmar que o CBD é a melhor cura para a insônia, enquanto outro diz que é um estimulante natural que pode mantê-lo acordado à noite. O que você provavelmente não saiba é que esses efeitos dependem muito de cada indivíduo. As pessoas recorrem ao CBD por uma infinidade de razões.5. CBD CURA O CÂNCER?Isso não procede. O canabidiol, como foi explicado, age mais como um suplemento e por isso é utilizado em alguns tratamentos de câncer, porém sua função é aliviar alguns sintomas dos pacientes com essa doença. Pode-se dizer que o CBD contribui para o tratamento em algumas etapas.6. CBD É MACONHA MEDICINAL?Isso não é verdade, porque a maconha é a nomenclatura comercial da apresentação recreativa da Cannabis. Tenho explicado em minhas palestras que seria como chamar a rapadura, de álcool combustível, afinal todos derivam da cana-de-açúcar. Trata-se de um grande equívoco, que inclusive impede alguns pacientes de utilizarem esse recurso ou mesmo resistirem intensamente ao uso, pois não querem fazer uso de ‘maconha’.7. FALTAM PESQUISAS OU EVIDÊNCIAS QUE COMPROVEM A EFICÁCIA DO CBD?Não faltam provas para sua eficácia. Essa substância existe na milenar Medicina Chinesa, o que nos permite concluir que não faltam mais ao mundo comprovações de sua eficácia e segurança. Qualquer outro discurso é meramente desconhecimento científico, ou vontade de dificultar discussões ou ainda ‘vender’ soluções de interesse particular.VERDADES1. CBD FUNCIONA NATURALMENTE COM O CORPO?O canabidiol, juntamente com vários outros produtos químicos da cannabis, funciona naturalmente nos mamíferos com os receptores locais de canabinóides. Eles compõem o sistema endocanabinoide e são encontrados principalmente no cérebro e no sistema nervoso central.2. É IMPOSSÍVEL TER OVERDOSE DE CBD?O CBD não é uma substância tóxica, portanto, não é possível que haja overdose utilizando Canabidiol.3. TEM POTENCIAL ANTIFLAMATÓRIO?Quando o CBD se liga aos receptores, ele pode bloquear a transmissão de mensagens químicas que podem causar inflamação, dor e convulsões em pacientes vulneráveis.4. O CBD É USADO NO TRATAMENTO DE EPILEPSIA?Segundo Orrin Devinsky, principal pesquisador de Neurologia da Universidade de Nova York, depois de testes usando o Epidiolex (forma líquida do CBD já aprovado pelo FDA) concluiu que, no grupo tratado com CBD, a frequência de convulsões diminuiu em 39%, e de uma média de 12 convulsões por mês para aproximadamente seis.As mais recentes informações proporcionam um novo olhar para a forma de medicar, de tratar doenças, de quebrar paradigmas e mais ainda, traz a esperança de, se não curar, pelo menos minimizar dores, reduzir ataques, melhorar a memória, reduzir síndromes e principalmente aprimorar o convívio dos pacientes com suas famílias e a sociedade. Esse não é o futuro, é o presente, que na verdade é um presente a todos que precisarem do Canabidiol.*Neide Montesano é engenheira química, CEO do Grupo Montesano, palestrante e expert em sustentabilidade regulatória e boas práticas de desenvolvimento de negócios
Manifesto Pelo Futuro do RS
Francisco Milanez*
O Rio Grande do Sul sempre foi expoente da luta ambientalista moderna, na qual, além da preservação, se discute a forma de desenvolvimento da sociedade. A Agapan lança este manifesto e convoca os gaúchos para garantir o futuro do Rio Grande.
A Agapan – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – foi criada em 1971, antes mesmo do próprio Greenpeace. A entidade é pioneira no Brasil e uma das primeiras do mundo na luta ambiental. A Agapan foi o berço da agroecologia, especialmente por seu primeiro presidente, José Lutzenberger, ter saído de uma multinacional de agrotóxicos para se alinhar na luta contra os venenos junto com os demais fundadores da Agapan.
Por influência dos ambientalistas, o RS acumula vários pioneirismo no Brasil, como a criação da primeira secretaria municipal de Meio Ambiente, primeiro órgão estadual de Meio Ambiente, um dos primeiros mestrados em Ecologia do país (na UFRGS), criação da lei de podas, lei dos agrotóxicos e a lei dos recursos hídricos, entre outras que serviram de referência para todo o país.
Esses movimentos históricos e de vanguarda demonstram uma sensibilidade cultural e de valores de nosso povo. Conseguimos chegar ao século 21 sem termos destruído nosso Estado de forma irreversível e, hoje, somos e podemos ser ainda mais atrativos para o desenvolvimento do futuro, com novos valores e nova qualidade de vida.
Somos o ambiente perfeito para empresas sustentáveis que querem qualidade ambiental e pagam bons salários. Está tudo pronto graças a 48 anos de lutas das entidades ambientalistas e simpatizantes. Temos o melhor futuro pela frente, devido ao nosso passado.
PROTEGER AS ÁGUAS
Os planejadores urbanos pelo mundo têm se dado conta de que uma das mais importantes necessidades de um município é água de boa qualidade. Boa parte das cidades é cercada por atividades industriais e agrícolas poluentes, cujos rejeitos contaminam a água de abastecimento.
Isto tem feito com que estes municípios invistam grandes somas em áreas de proteção e de produção agroecológica, que constituem formas de não poluir e de preservar/filtrar a água. Junto com isso, várias outras vantagens: ar puro, estabilidade térmica, beleza estética, e outros.
Porto Alegre tem de graça um cinturão verde agroecológico, que muitas cidades modernas da Europa e EUA estão investindo milhões para ter. Os assentamentos agroecológicos de trabalhadores rurais implantados na região da Grande Porto Alegre contribuem para que a cidade receba desta região o que de melhor um município pode ter: ar limpo, água filtrada, proteção climática/de flora/fauna/de ruídos e ainda excelentes alimentos orgânicos para sua população.
É justamente nesta região que uma empresa, por ambição desmesurada, tem um projeto para implantar a maior mina de carvão da América Latina, dentro da região metropolitana a 16 km do centro da capital do Estado. Como se não bastasse, a empresa quer retirar um assentamento de produtores agroecológicos campeões na produção de arroz e de hortifruticultura orgânicos.
ATIVIDADE POLUENTE
Uma iniciativa ilógica para tempos em que países da Europa e a China buscam fugir do uso de combustíveis fósseis, em especial do carvão, por ser esta a energia mais poluente. Atualmente, Inglaterra e Alemanha fecham suas minas de carvão e a China cria suas novas cidades verdes e com energia limpa.
No mundo inteiro milhões de jovens e adultos saem às ruas pedindo o fim dos combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão mineral porque contribuem para as mudanças climáticas e comprometem o futuro do Planeta.
A produção de energia tem sido revolucionada no mundo. As formas limpas de produção como a solar e eólica se tornaram também as mais baratas. Além disto, a produção descentralizada de energia é uma conquista importante para a sociedade, já que barateia a transmissão e diminui perdas.
No mundo inteiro as regiões do carvão têm populações pobres e doentes. O carvão nunca melhorou a qualidade de vida de ninguém, exceto, talvez, dos donos das minas que vão morar e gastar seu dinheiro bem longe da poluição que produzem.
Vejamos algumas consequências que esta mina poderia trazer: destruição do maior manancial de água límpida para abastecer a zona metropolitana futuramente; destruição do cinturão agroecológico da capital, destruição da saúde metropolitana através de gases e particulados cancerígenos no ar; ruídos; destruição do Parque Delta do Jacuí, o maior parque próximo a uma capital; rebaixamento e contaminação do lençol subterrâneo e do Jacuí, destruição da atividade agrícola regional.
O argumento de que o empreendimento vai gerar empregos cai por terra quando se analisa o balanço total, que subtrai as vagas perdidas na agricultura já existente e em outras atividades que vão sucumbir.
A arrecadação de impostos com a mineração é mísera comparada aos danos causados à sociedade e não computa as despesas com os consequentes tratamentos de saúde da população..
A Mina Guaíba significa a destruição simbólica e prática do futuro do Estado do Rio Grande do Sul que, ao minerar a sua própria capital, passará a repelir qualquer tipo de investimento limpo e de futuro.
CONSULTA PÚBLICA
A população gaúcha tem o direito de exigir uma consulta pública para as 170 minerações aprovadas no Estado e que podem transformar o Rio Grande numa nova versão de Minas Gerais com Brumadinho.
O Rio Grande do Sul tem o direito de colher neste novo milênio os frutos de 48 anos de luta pela qualidade vida de todos. Temos hoje a maior rede de agroecologistas do país, temos o único bioma natural para produção de carne orgânica em pasto natural do Brasil, temos uma população que ama a natureza e uma excelente qualidade de vida.
Não queremos ser mineradores.
*Francisco Milanez é presidente da AgapanEncruzilhada
O SUL EM BUSCA DE UM NORTE
Não tenho dúvida de que o projeto de mineração do carvão em Charqueadas/Eldorado do Sul situa-se numa encruzilhada decisiva.
Não se trata simplesmente de aprovar ou vetar o projeto da Copelmi.
É muito mais do que uma questão local. A questão é global.
Além de uma avaliação econômica, cabe uma apreciação holística dos princípios ambientais e valores humanos embutidos nesse gigantesco empreendimento.
É hora de resolver de uma vez por todas o impasse entre o direito popular a um ambiente limpo e o direito empresarial de explorar recursos naturais para produzir eletricidade e outros insumos.
Não é achismo ou mero palpite. Desde criança, vivenciei tantas modalidades de geração de energia, primeiro como cidadão/consumidor e posteriormente como repórter/observador, que me considero razoavelmente qualificado para fazer algumas considerações. Vejamos alguns episódios.
Na casa de madeira em que fui criado, a água do banho era aquecida no fogão a lenha; para iluminar um ou outro cômodo, contávamos com velas de sebo ou lampião a querosene. Em certas épocas do ano, o máximo de conforto era oferecido por um motorzinho a óleo diesel que funcionava por duas horas após o entardecer. Cinco minutos antes do desligamento do serviço, a luz piscava três vezes e, pronto, logo depois aquela comunidade rural da várzea do médio Jacuí mergulhava na escuridão e no silêncio. Em algumas noites se ouvia o som de um violão ou uma gaita. Ou era o vento chacoalhando o arvoredo.
No final dos anos 1950, enquanto a Petrobras engatinhava, eu ajudava a alimentar com lenha de eucalipto a fornalha de uma locomóvel que puxava água para irrigar uma lavoura de arroz. Ainda dependíamos de formas primitivas de energia que, no entanto, ainda estão aí, fazendo parte da matriz energética brasileira.
Depois, morando na casa-sede de uma fazenda isolada no topo de uma coxilha na campanha, a novidade era a energia eólica. A 10 metros do chão, no alto de um poste, o cata-vento carregava uma bateria que acumulava energia suficiente para acender uma ou outra lâmpada e o aparelho de rádio – música e notícias. Mas o básico ainda era o duo lenha-querosene.
Na entrada dos anos 60, nossas tradicionais formas de transporte pessoal e de cargas – cavalo, carroças, charretes – passaram a ser substituídas por veículos a motor (gasolina, sobretudo); com as bicicletas correndo por fora, vimos como uma evolução sensacional as marias-fumaças tocadas a carvão mineral ou lenha saírem dos trilhos para a passagem das gigantescas locomotivas a óleo diesel. Até então, o barulho do trem, a fumaça e o cheiro do carvão de pedra queimado eram considerados sinais de progresso.
Mutatis mutandi, as chaves do progresso inverteram-se. As várias formas de poluição seriam objeto de alertas a partir de 1968, quando um grupo de sábios reunido no chamado Clube de Roma começou a preparar o documento Os Limites do Crescimento, lançado como livro em 1972. Foi a primeira vez que se falou objetivamente, com dados concretos, sobre o desajuste entre o crescimento econômico, a explosão populacional e a degradação ambiental.
Em cima do lance, em 1971 um grupo de cidadãos de Porto Alegre liderados por José Lutzenberger colocou a razão ecológica no ar ao criar a Associação Gaúcha de Proteção Natural, a famosa Agapan.
Na Conferência Mundial do Meio Ambiente, realizada em 1972 em Estocolmo, não prosperou a tese européia do crescimento zero, que condenaria os países pobres ao eterno subdesenvolvimento. “A pior forma de poluição é a pobreza”, clamou a primeira-ministra Indira Gandhi, da India. Nasceu ali o conceito de ecodesenvolvimento, palavra que se desdobraria na expressão “desenvolvimento sustentável”, presente em todos os artigos e discursos sobre ecologia. E foi criado o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Nos anos seguintes houve diversos episódios históricos que provocaram sucessivas conferências mundiais seguidas de acordos diplomáticos mais ou menos inconsequentes. Crise do petróleo provocada pela OPEP em 1973. Proálcool em 1975. Acidente na usina nuclear de Three Miles Islands em 1979 na Pensilvânia. Explosão da usina de Chernobyl na URSS em 1986. Eco-92 no Rio. Queda do Muro de Berlim em 1989. Gasoduto Brasil-Bolivia inaugurado em 2000 em Biguaçu, SC. Parque eólico de Osório (RS) iniciado em 2005. Descoberta do Pré-Sal em 2006. Protocolo de Kyoto assinado em 2007. Crise financeira global de 2008. Acordo de Paris em 2015 visando reduzir as emissões responsáveis pelo efeito-estufa.
E aqui estamos debatendo se o velho carvão de pedra é capaz de aliviar a situação energética do Rio Grande do Sul… Alivia, e até pode alavancar o crescimento da economia regional, mas a que custo ambiental?
Eis a questão: cavar ou não cavar?
“Cavem!”, diriam Borges de Medeiros, Getúlio Vargas e Leonel Brizola, os três maiores estadistas do Rio Grande, todos favoráveis à exploração do carvão de pedra nos seus tempos de governo, décadas atrás. Suas atitudes poderiam ser tomadas como parâmetros para os dias de hoje?
A verdade é que, a cada novo projeto, nos inclinamos a esquecer o impasse detectado há meio século pelo Clube de Roma. Pior, fazemos de conta que o aquecimento global não é uma ameaça concreta. E ainda minimizamos o fato de que a jazida de carvão da Copelmi fica a apenas 1,5 km do rio Jacuí, o maior manancial de água de Porto Alegre.
Não é preciso ser ambientalista para temer a concretização desse megaprojeto mas, na dúvida, consultei um amigo geólogo, professor na Universidade de São Paulo, sobre a viabilidade do carvão mineral como fonte de energia.
Sem entrar em detalhes técnicos, ele disse que sim, o carvão é uma rica forma de energia mas, “veja bem”, o custo de implantação e manutenção de mecanismos de controle ambiental, despoluição e limpeza é tão alto que torna o investimento desinteressante para a iniciativa privada, cujo objetivo primordial é a remuneração do capital, não a preservação do meio ambiente.
Ou, seja, para que o projeto dê lucro, será preciso fazer alguma sujeira. Para que dê muito lucro, foda-se o meio ambiente. Simples assim: that’s business. Tudo isso sem considerar a possibilidade de um acidente. Por exemplo, uma enchente do Jacuí e seus afluentes. A sede de Eldorado do Sul fica 19 metros acima do nível do mar.
Resta uma pergunta: sendo a mineração uma atividade altamente poluente, seria então o caso de pensar que a segurança energética proporcionada pelo carvão mineral deveria resultar de um criterioso investimento estatal capaz de promover o desenvolvimento econômico sem contaminar o meio ambiente?
Sim ou não, esse é um debate que vale tanto para o varjão úmido do baixo Jacuí quanto para o bioma amazônico – e, claro, interessa também a outras regiões com potencial mineral. No Jacuí como na Amazônia, além de minérios, existem agricultores, animais, indígenas, sitiantes, urbanóides e vegetais que merecem considerações ambientais, sociais, culturais e econômicas.
Além de audiências, estudos e relatórios, o sucesso do debate talvez exija a realização de um plebiscito que não se restrinja aos municípios carboníferos, mas envolva toda a região potencialmente impactada pelas consequência da extração do carvão e seu beneficiamento ou coisa que o valha.
Precisamos entender que assim são as encruzilhadas. Para sair delas, é preciso pesar bem os fatores em jogo, sem esquecer de minimizar os riscos da escolha do caminho que nos levará a um futuro melhor.Como me tornei uma zebra gorda
Márcio Markendorf*Como me tornei uma zebra gorda? Bem, não é uma trajetória muito fácil.Ser um professor universitário do tipo zebra gorda leva algum tempo.Em média, um animal desta fauna estuda cerca de 4 anos em um curso de graduação, mais 6 anos em cursos de pós-graduação.Nesse meio tempo, as zebras, para engordarem, pastam pelos campos de luta da subsistência da pesquisa. Elas escrevem artigos, elaboram resenhas, apresentam comunicações, dão palestras, ministram minicursos/oficinas. Muitas vezes de graça, a convite de outros amigos, também zebras, ainda magras, em busca de melhorar o currículo e as listras.E depois, para alcançar o status de gorda, primeiro a zebra precisa ser aprovada em um concurso, o que não é muito fácil. Pode levar 4 a 5 concursos para isso acontecer. E, ora, verdade seja dita, não tem concurso todo ano, não é o tipo de concurso de beleza. E dentre as escolhas possíveis, a zebra às vezes precisa ir tentar a vida lá no interior (onde só os médicos cubanos foram).E, depois que a zebra entra em uma universidade pública, tem avaliação contínua de rendimento. Uma zebra gorda, só é gorda, porque precisa assumir “40 horas” de dedicação exclusiva à pesquisa, ao ensino, à extensão, à administração. E vamos colocar entre muitas aspas 40 horas porque toda zebra sabe que isso é conversa para boi dormir: toda zebra, para dar conta de tudo que lhe dão, trabalha muito mais do que 40 horas, sacrificando muitas das vezes seus momentos de lazer, finais de semana, feriados, férias, família. Afinal, a zebra precisa produzir, produzir, produzir… só assim pode, porventura, ganhar uma promoção ou progressão…e ficar “gorda” (o que é um termo bem contraditório para tudo o que uma zebra faz na vida e o que ela sacrifica para ser zebra).Talvez muitos não saibam, mas para uma zebra apresentar um trabalho em um evento de referência, tipo ABRAZEBRA, é preciso desembolsar um valor relativamente alto. Contando com anuidade, taxa de inscrição, transporte, hospedagem e alimentação….dá um valor bastante expressivo.Ah, sim, as universidades até podem dar um auxílio financeiro. Uma vez por ano. E veja bem: auxílio (não dos numerosos, vultosos e extravagantes auxílios de políticos, esses sim bem gordos, muito desproporcionais em relação às zebras, razão para que eu afirme que as zebras, perto dos políticos, são tão mirradas que dá até uma dó profunda).Vamos lembrar que as agências de fomento que avaliam a gordura das zebras exigem padrões muito altos, o que leva até a estafa mental dos animaizinhos.E por falar em dó e saúde, não exatamente nesta ordem, é digno de nota o sentimento com o qual as zebras são agraciadas na sociedade.Dia desses estava no médico veterinário e fui questionado se, por eu ser uma zebra, eu gostava de sofrer. Vejam só: a condição de zebra é vista sob a ótica do sofrimento existencial, algo que serve de gracejo até para os médicos (cujas profissões se devem… às zebras).Obviamente que não é somente assim que os outros vêem as zebras. Muitas vezes é com hostilidade, como se esses pobres equídeos fossem inimigos terríveis, doutrinadores e comunistas.Bem, não quero puxar o pasto para meu lado, mas ter um pensamento de esquerda não me torna comunista nem petista (esse é o julgamento de outros equídeos, como os jumentos, animais que, infelizmente, até chegam a presidir um país). Pelo contrário, me torna mais zebrino (ou humano, como queiram).E, falando nisso, nem todas as zebras são iguais, mas procuramos manter o respeito e a dignidade. Ao menos não ficamos escrevendo merdas ou dando declarações idem como outros equídeos, os asnos. Alguns desses, tristemente, chegam a ser ministros.*Professor de cinema da UFSCCarvão
Filho e neto de ferroviários, vivi minha infância à beira dos trilhos, no tempo em que os trens eram puxados por locomotivas a carvão.
Antes eram movidas a lenha e cheguei a ver: tinha um vagão só para levar a carga de lenha, duas vezes maior do que a parte da fornalha e da caldeira, o motor da locomotiva.
Dois homens se revezavam jogando constantemente achas na fornalha. Imensas pilhas de lenha ocupavam quase todo o recinto da estação ferroviária.
O carvão foi um salto tecnológico: sumiram as pilhas de lenha, aumentou a velocidade, a locomotiva ficou mais potente, puxava o dobro de vagões, o tempo das viagens encurtou, um homem com uma pá abastecia a fornalha.
Certa época fomos morar num local, junto a um enorme reservatório onde as locomotiva “bebiam água” para encher a caldeira e, nos trens de passageiros, abastecer as torneiras e banheiros.
Depois, mudamos para perto da carvoeira, onde as locomotivas manobravam para se abastecer de carvão. Um cone, como um funil, sobre os trilhos era carregado de carvão por um guindaste.
A locomotiva estacionava embaixo e recebia sua carga, num “tender”, três vezes menor do que no tempo da lenha.
Quando adolescente, aquela locomotiva que entrava em curva na estação ferroviária de Santana do Livramento às sete da noite, soltando faíscas e vapores, puxando o trem de passageiros que saíra de Porto Alegre 24 horas antes… era a materialização do progresso, do mundo civilizado de que carecíamos naquela pasmaceira fronteiriça.
Faço essas reminiscências para não deixar dúvidas de que sou suspeito nessa discussão tão acirrada que se trava em torno do projeto de uma nova mina de carvão na região do Jacuí. Mas não posso deixar de entrar nela.
Não consigo ver o carvão como um vilão, algo a ser criminalizado, banido. Vejo uma insensatez nesse radicalismo.
O carvão é um mineral complexo, resultado de 260 milhões de anos de transformações na crosta terrestre. Queima, produz calor, gera energia.
O professor Rualdo Menegat diz que o carvão é um “lixão químico”, tal a quantidade de substâncias e metais pesados que contém.
Pesquisas futuras podem revelar que o carvão é um “manancial químico” tal a quantidade de substâncias e metais que ele contém.
Não desconheço os riscos e o impacto da queima e da mineração do carvão, nem a gravidade e a urgência da questão climática.
Mas não consigo achar sensato abrir mão do carvão que temos. Primeiro que na conjuntura atual é uma fonte de energia inevitável – no setor elétrico, não há ninguém que descarte o carvão da matriz energética.
Uma base térmica é imprescindível, é o que dizem todos, inclusive históricos defensores da energia renovável.
Segundo: negar definitivamente o carvão, é abrir mão de melhorar o conhecimento sobre ele.
Já se sabe que é possível até extrair gás do carvão subterrâneo sem nem tirá-lo de lá.
Já tivemos pesquisas muito avançadas sobre uso mais sustentável do carvão, que deram para trás, exatamente pela falta de visão, pelo preconceito. Eminentes pesquisadores tiveram seus trabalhos de muitos anos, truncados abruptamente.
Questionar uma nova mina, exigir avaliação de todos os riscos e as mitigações e contrapartidas possíveis, antes de qualquer decisão, vetá-la se for o caso, está certo.
Mas extrapolar para uma condenação absoluta e total da maior riqueza mineral que o Estado tem, maior em potencial energético que as reservas do pré-sal, me parece no mínimo arrogância.
Lembra um amigo meu que fazia questão de pagar a conta sempre, mesmo quando seu cheque não tinha fundos.
Por que jovens na política incomodam tanto?
Essa semana fomos surpreendidos pelas declarações do apresentador do programa de rádio “96 Minutos” Gustavo Negreiros, da 96 FM, uma emissora de Natal (RN). Ele afirmou que uma menina de 16 anos é histérica, que “está precisando de um homem, de um macho ou de uma fêmea, pois ela precisa de sexo porque é uma mal amada”. Na ocasião também acusou a jovem de fumar maconha. Ainda sobrou para jornalistas que, segundo Negreiros, gostam de porcaria.Tudo isso, porque Greta Thunberg, 16 anos, ativista, fez um discurso duro em defesa do meio ambiente e criticou os dirigentes das principais nações do mundo, em evento paralelo à Conferência da ONU. Greta Thunberg foi Indicada ao Prêmio Nobel da Paz e já discursou em eventos internacionais como a COP24, a Conferência do Clima da ONU e no Fórum Econômico Mundial. É vegana e portadora de Sindrome de Asperg, um tipo de autismo. Foi a criadora do Fridays for Future, um movimento global de estudantes em prol do meio ambiente que já contou com a participação de mais de 1,5 milhão de jovens em mais de 100 países.O que está por trás desse discurso machista, misógino, raivoso e cheio de ódio do apresentador Gustavo Negreiros?Pode-se discordar do discurso de Greta, pode-se argumentar que há patrocinadores com interesses inconfessos apoiando a menina, pode-se discordar que existam eventos paralelos à Conferência da ONU. Mas não é possível ficar calado diante de um ataque como o feito por Negreiros. Porque ele não atacou apenas Greta. Ele atacou todas as mulheres e meninas que lutam por seus ideais. Ele atacou a juventude porque acha que ela não tem o direito à palavra, não tem direito a opinar. Onde o discurso de Greta tem a ver com a sua vida sexual? O machista não se contrapôs, não contra-argumentou ao que ela disse. Não. Ele tentou desqualifica-la da pior maneira possível. Não buscou argumentos para debater meio ambiente com ela. Falou sobre seu corpo, sua sexualidade. Para essa criatura, jovens e mulheres não têm o direito de opinar e de ocupar o espaço público.Nós, que representamos os estudantes brasileiros, repudiamos de forma veemente essas declarações, esse comportamento desrespeitoso e nos sentimos como Greta se sentiria se ficasse sabendo que, no Brasil, em pleno século 21, um radialista usa uma concessão pública para atacar com seu ódio misógino quem defende um mundo mais justo. Nos sentimos atingidos e no direito de reafirmar que esse tipo de declaração não nos calará nem nos colocará na defensiva. Vamos continuar denunciando as injustiças, lutando pelo meio ambiente, pela educação de qualidade e pelos direitos da juventude e das mulheres.Felizmente, a reação da sociedade às infelizes declarações foi forte e rápida. As empresas retiraram o patrocínio ao programa, o apresentador foi demitido e temos a opinião de que deveria ser processado, porque foi muito além do direito à liberdade de expressão.A Associação de Juristas Potiguares pelo Democracia e Cidadania (AJPDC) veio a público por meio de uma nota, repudiar a fala de Negreiros, que também é advogado. Diz a nota que “a fala misógina disfarçada de opinião evidencia a necessária e urgente desconstrução dos estereótipos machistas e o debate sobre a discriminação da mulher na sociedade, especialmente, no nosso país”.Esse episódio de preconceito geracional e misoginia tem que ser pedagógico e ensinar pra Natal e pro Brasil que o povo não aceita mais essas atitudes. Sabemos que esse não foi o primeiro caso de machismo na mídia, mas nossa batalha e pressão é pra que seja o último.*Pedro Gorki é presidente da União Brasileira de Estudantes SecundaristasMilton Nascimento falou errado
RAUL ELLWANGER
O grande compositor mineiro disse que a MPB “está uma merda”. Discordo.
Cancionistas, chorões, arranjadores, cantoras se mantém e surgem às centenas, com alta qualidade. Citemos Simone Guimarães, Pablo Lanzoni, Pedro Franco, Claudia Amorim, Oscar dos Reis, Camila Lopes, Everson Vargas, Monica Salmaso, Luis Claudio Ramos.
O que, sim, tornou-se uma imensa cloaca é a mídia pública. Na grande midia aberta, há dois monopólios.
O primeiro é comercial, que impõe desde 1985 o repertório medíocre que será escutado e vendido no país, parindo o êxito das Misiboras e dos Minitelos. Aqui falamos de dinheiro.
O segundo monopólio é de conteúdo da musica difundida no país, que silencia os temas de politica, de região, sociais, filosóficos, de protestos, de amores verdadeiros, de gênero.
Trata-se de uma política cultural autoritária, que priva os brasileiros de conhecer sua riqueza musical (em especial a regional). Trata-se de uma ditadura deseducadora planejada e executada para encher nossos ouvidos de bobagens.
Trata-se de matar uma cultura, um entretenimento, um saber. Nos querem burros, desinformados, vulgares.
Há quantos anos não surgem como fenômeno de massa interpretes e compositor@s de boa e normal MPB? Será acaso? Terá sido o Djavan o último, na década de ’80?
Nos 7 anos em que “sumiu”, Cartola seguiu fazendo suas canções, mesmo que não aparecessem. As obras de Charles Ives foram conhecidas após sua morte.
Nossa gloriosa MPB pulsa firme por detrás da cortina de ocultamento que os poderosos tecem, como o sangue vital e invisível que anima cada fração de nossos viveres.
