Categoria: Análise&Opinião

  • Os candidatos falam, o eleitor não escuta 

    Fora Temer, que após dois anos na chefia do governo não conseguiu juntar cacife para concorrer, os candidatos preliminares à presidência começam a esquentar os motores para a reta final a ser percorrida somente depois da Copa do Mundo, que começa dentro de dias, em junho.
    Na mais estranha pré-campanha eleitoral dos últimos tempos no Brasil, as apostas seguem concentradas em Lula, que detém mais de 30% das intenções de voto, mesmo estando no início do cumprimento de uma pena de 12 anos de prisão por – controvérsias à parte – corrupção.
    Do alto desses tantos milhões de votos, o líder do PT mantém suas pretensões de chegar novamente ao Planalto, embora saiba que seu nome não deverá ser registrado pela Justiça Eleitoral.
    Diante da sinuca petista, cresce — surpreendentemente colocado em segundo lugar (18% das intenções de voto) — o nome do deputado Jair Bolsonaro, o ex-militar que cristalizou um discurso agressivo a favor da violência, do apoio à tortura de adversários políticos e “morte aos bandidos”.
    Afinal de contas, qual o fundamento eleitoral desse desmiolado e, mais importante, qual seu futuro na campanha em curso?
    Parece bastante claro que o apoio popular a Bolsonaro representa uma espécie de desabafo da população inconformada com os políticos e os governantes em geral.
    Pesa a favor desse candidato a brabeza (não confundir com bravura), com a qual ele disfarça sua estreiteza mental.
    Fantoche a palrar bravatas diante dos microfones do parlamento e da mídia, seu futuro depende do grau de ignorância política do eleitorado, que pode despejar nele, em forma de votos de protesto ou desprezo – como ao Cacareco de anos atrás –, a frustração com os ocupantes do poder.
    Ao lado do representante da extrema direita, alinham-se outros candidatos conservadores que até agora não reuniram fôlego para deslanchar.
    Os mais notórios são o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), a ex-ministra Marina Silva (Solidariedade), o ex-governador paranaense Alvaro Dias (Podemos) e o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (DEM).
    Sem contar o vexame do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que se inscreveu no PSB e fugiu da raia antes de entrar em campanha, é indispensável avaliar a situação do ex-ministro Henrique Meirelles, o candidato do MDB, o partido que tomou o governo das mãos do PT.
    Após dois anos na Fazenda, Meirelles não amealhou nem 1% das intenções de voto. É um candidato sem ressonância popular. Fez a lição de casa desejada pelos mercados, mas deixou a economia estagnada, com alto desemprego e baixa capacidade de poupança e, portanto, de investimento no potencial de crescimento.
    Sua maior conquista é a queda da taxa de inflação a menos de 3% ao ano. Com a redução da taxa básica de juros pela metade (de 13% para 6,5%), caiu a rentabilidade dos papéis da dívida pública, dando alento às atuais especulações com o dólar.
    Prato cheio para o economista Ciro Gomes, o candidato presidencial (PDT) que mais vantagem tem tirado da situação de incerteza econômica. Equilibrando-se no centro do espectro político, o filho de Sobral aproximou-se do índice de 10% das intenções de votos graças a um discurso  inspirado na teoria do desenvolvimento de Celso Furtado, o pai da Sudene.
    Articulado e bem falante, Ciro aponta solução para quase todos os problemas brasileiros. De todos os candidatos, é o que possui maior experiência político-administrativa.
    Mantendo-se sobre o fio da navalha, Ciro aspira a herdar parte do acervo eleitoral de Lula, de quem foi ministro e do qual se diz amigo há 30 anos, embora tenha mantido distância do ex-presidente durante o processo judicial por este sofrido no âmbito da Operação Lava Jato.
    Por alguma razão, porém, o pernambucano Lula não confia no cearense Gomes. Tanto que, às vésperas de ir para a prisão, Lula saudou como herdeiros os jovens Manuela d’Avila e Guilherme Boulos, candidatos à presidência por dois partidos de esquerda – PCdoB e PSOL. Até agora nenhum deles passou de 1% das intenções de voto.
    Sinal de que os eleitores petistas ainda esperam nova mensagem do fundador e líder do PT.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”
    Ditado popular nordestino
     

  • Os burros ativos

    Alguns anos atrás, convivi com uma pessoa que, por sua rara sensibilidade, era considerada louca. Após trabalhar por três décadas no Banco do Brasil, se aposentou aos 55 anos e foi cuidar do próprio lazer — esportes, leituras e viagens.
    Não tinha paciência com os chatos que, a seu ver, eram a maioria no mundo.
    Não sei onde encontrou forças para aguentar chefes e subordinados numa instituição bancária estatal minada pela bajulação e o carreirismo, mas o fato é que ele soube se divertir enquanto teve saúde para pilotar seus brinquedos — barco, moto, teclado e teco-teco.
    Pois bem, sua lição inesquecível: ele criticava os “burros ativos”, expressão que inventou para definir o comportamento dos ignorantes colocados em situação de mando e dos medíocres que por medo, inveja, raiva ou ignorância puxam as coisas para baixo, contribuindo para a estagnação e o retrocesso.
    Lembro-me dele agora, toda vez que vejo o vice-presidente em exercício fazendo malabarismos com as mãos e com as palavras no esforço tatibitati de explicar alguma coisa referente a suas atividades de governo.
    Ele, seus ministros e altos funcionários da administração vêm se esmerando no esforço para convencer os brasileiros de que a economia saiu da estagnação em que andou mergulhada desde 2015.
    A mídia tradicional, na ilusão de contribuir para a ordem e o progresso (lema do governante-tampão), se esforça para convencer os leitores de que agora a coisa vai. Não vai.
    Esquecem todos eles — os burros ativos — que o país jamais sairá da paradeira socioeconômica enquanto o governo trabalhar para tirar direitos dos trabalhadores, reduzir salários e proteger prioritariamente os agentes do mercado, os rentistas, os banqueiros, os empresários.
    Isso tudo que o subgoverno Temer vem fazendo, além de antidemocrático, é burrice.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Jerivá torto não dá ripa”
    Ditado popular recolhido por João Simões Lopes Neto (1865-1916)

  • Fábio Koff

    A decisão mais corajosa de Fábio Koff, como dirigente do Grêmio, foi praticamente ignorada nos longos e merecidos panegíricos que os jornais lhe dedicaram nesta quinta-feira 10 de maio, quando ocorreu sua morte.
    Refiro-me à denúncia do escabroso contrato firmado com a OAS para a construção da Arena do Grêmio, assunto ainda hoje envolto em brumas. O fato espelha o espírito público e a firmeza de caráter de Fábio Koff.
    Mereceu cinco linhas no Gaúchazh:
    “(…)Uma semana antes de assumir, Koff havia polemizado ao afirmar em entrevista a Zero Hora que a Arena não era do Grêmio. Durante os dois anos de seu mandato, o ex-dirigente ocupou-se em renegociar o contrato com a OAS, em bases que não comprometessem tanto as finanças do clube. Morreu sem conseguir concluir a missão (…).
    Duas no Correio do Povo:
    Fora do ambiente político do Grêmio por alguns anos, Fábio Koff retornou para vencer uma pesada eleição contra Paulo Odone em 2012 e assumiu no biênio 2013/2014. (…)

  • A cinco meses das urnas

    Geraldo Hasse
    Em vez de esperar um enganoso salvador da pátria o povo precisa construir partidos confiáveis.
    Os petistas dizem que eleição sem Lula é fraude, mas mantê-lo como candidato configura uma espécie de blefe. A esta altura do jogo, parece não haver chance de que ele seja libertado antes da eleição do novo presidente, dentro de cinco meses.
    Sobram os outros candidatos. Algum deles – Alckmin? Barbosa? Bolsonaro? Ciro? Maia? Marina? – tem cara de que pode corresponder às aspirações da maioria da população?
    Não precisa ser o salvador da pátria nem o redentor dos pobres. Bastaria que fosse uma síntese do que de melhor fizeram Getúlio e Lula nos seus respectivos mandatos.
    Quem parece mais próximo desse perfil é Ciro Gomes, candidato pelo PDT, o partido de Brizola. Se estivesse vivo, Tio Briza abençoaria o boquirroto do Ceará?
    Temos muitas dúvidas e poucas certezas. Uma delas é que a saída para tamanho impasse não virá de agentes do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário.
    Os três famosos poderes da República hospedam um funcionalismo que se acredita depositário de direitos supremos. Tragédia.
    Talvez apenas os agentes das bases, nos postos de saúde e repartições de ensino do interior, possam ser isentados da pecha de parasitas da nação. São 4,8 milhões de funcionários públicos federais, estaduais e municipais.
    Quanto mais altos os cargos, maiores os salários e as mordomias, espelhando dentro da burocracia estatal a desigualdade existente na sociedade em geral. Dupla tragédia.
    Mesmo assim, é preciso acreditar que as distorções do poder econômico e político possam ser corrigidas. Pobre esperança. No Supremo Tribunal Federal, os ministros ficam fazendo média uns com os outros, aparentemente perturbados pelas luzes das câmeras de televisão e temerosos de tomar decisões que só a eles compete tomar.
    Parecem contemporizadores de ofício.Há quem acredite que eles julgarão melhor sem TV.
    Mais corajosos parecem ser os militares, a quem compete garantir a ordem interna e manter as fronteiras livres, mas esses servidores públicos, que se caracterizam pela disciplina, também têm medo de avançar além de pronunciamentos verbais ou por escrito – ações só dentro dos regulamentos, ainda bem e benza-os Deus.
    O candidato Bolsonaro, felizmente, só representa a parcela mais desvairada desse segmento do serviço público.
    Então volta a pergunta: quem vai colocar o(s) guizo(s) no rabo do(s) gato(s)?
    Evidentemente, com Lula fora do baralho, o próprio povo terá de buscar uma saída para o impasse vigente. Que a Globo se sujeite, não há solução fora da democracia.
    Em 7 de outubro, temos a obrigação de eleger deputados decentes, senadores dignos, governadores corretos e uma chapa presidencial confiável.
    CONSOLO DE CRISTÃO
    Apenas uma parcela da riqueza acumulada nas mãos das elites é suficiente para redimir a pobreza espalhada pelos bolsões onde proliferam as doenças, a fome e a raiva.
     

  • Imprensa livre, sempre

    Vilson Antonio Romero (*)
    Lamentável que tenhamos que prantear mais vítimas neste 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa.
    Apesar de a data celebrar o direito de todos os profissionais da mídia de investigar e publicar informações de forma livre e isenta, os cenários nacional e internacional seguem extremamente preocupantes.
    A edição deste ano do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), deixa evidente que há um recrudescimento do ódio ao jornalismo e aos jornalistas, num atentado claro à democracia e à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
    Declaração esta que reza, em seu artigo XIX, que: “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
    Os recentes atentados do final de abril no Afeganistão são a demonstração mais terrível do quão penosa e mortífera é a atividade dos profissionais da comunicação.
    Dez jornalistas e fotógrafos foram assassinados em ataques coletivos e individuais, num único dia na capital Cabul e em localidades afegãs.
    Mesmo assim, não podemos nem devemos esmorecer.
    Temos que seguir na luta constante em defesa do bem informar, tentando cada vez mais aproximar o Brasil e o mundo daquilo que representam hoje Noruega, Suécia e Holanda que ponteiam a classificação mundial da liberdade do trabalho da imprensa, como países modelares do bem informar e da atuação livre dos jornalistas.
    Entre 180 países analisados estamos muito longe da metade do caminho. O Brasil avançou em 2018 uma posição, passando para 102ª. posição, sendo enquadrado como um país com “ambiente de trabalho cada vez mais instável”.
    A RSF realça que “a ausência de um mecanismo nacional de proteção para os repórteres em perigo e o clima de impunidade – alimentado por uma corrupção onipresente – tornam a tarefa dos jornalistas ainda mais difícil no Brasil.
    Em um contexto de forte instabilidade política, ilustrado pela destituição de uma presidente em 2016 e pela incerteza que envolve a corrida presidencial de 2018, a liberdade de informação está longe de ser uma prioridade para os poderes públicos”.
    A organização se vale também do levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que registrou 99 casos de violência contra profissionais da comunicação em 2017.
    Ainda há muito a ser feito, mas a sociedade deve permanecer atenta, com os poderes constituídos e organizações sociais articuladas e vigilantes, pois o que está em jogo é o seu direito de ser bem informada sobre o que ocorre no país e no mundo. Imprensa livre sempre!
    (*) Jornalista, diretor de Direitos Sociais da Associação Riograndense de Imprensa  (ARI) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – imprensalivre@ari.org.br
     

  • Tchernóbil

    O acidente nuclear que matou um milhão de pessoas reduziu a longevidade dos bielorrussos
    No dia 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio derreteu o coração da usina nuclear de Tchernóbil, situada no norte da Ucrânia, perto da Bielorrússia, dois países naquele tempo integrantes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
    Foi um acidente causado por erros humanos numa instalação construída às pressas em plena guerra fria entre URSS-EUA, as potências mundiais que se ameaçavam mutuamente de destruição com bombas atômicas.
    Entre o dever de socorrer a população regional e a necessidade de salvar a própria imagem, o governo Gorbatchov, mentor da perestroika (abertura), gerou um sentimento de ambiguidade que ajudou a acelerar o colapso da URSS, consumado em 1989 com a queda do Muro de Berlim.
    A ordem inicial foi de enviar soldados e técnicos com a missão de evacuar a população ameaçada pela radiação (estrôncio, césio e outros minerais radiativos), que se propagou para outros países da Europa, provocando terror em milhões de pessoas (a Alemanha desativou suas usinas nucleares e passou a investir em energia eólica e solar).
    Em cidades e vilas da Ucrânia e da Bielorrússia milhares de famílias foram obrigadas a deixar suas casas e seus pertences, sendo alojadas em acampamentos distantes, como refugiados de uma guerra louca. Algumas pessoas voltavam clandestinamente às suas origens para buscar algum objeto mas muitos, principalmente agricultores, continuaram a tocar sua vida em cantos remotos do território contaminado e ali ficaram correndo risco de morte por leucemia e outras doenças.
    Morreu muita gente, muitos ficaram inválidos e o que de mais sólido se tem hoje em dia é “Vozes de Tchernóbil”, livro de 384 páginas com depoimentos organizados pela jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch, que por esse trabalho ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2015.
    O livro recupera de forma pungente o impacto causado pelo acidente nuclear. Apresenta uma centena de depoimentos em que cada pessoa conta como se sentiu e se comportou diante da explosão. Há casos singelos de donas de casa que não compreenderam a profundidade da tragédia e, também, depoimentos indignados de cientistas acusando o governo de imperícia e muitas pessoas de inconsciência e irresponsabilidade.
    O povo russo se orgulha de viver vitoriosamente diante de adversidades como o inverno gelado e as guerras, mas o desastre de Tchernóbil minou a autoestima da maioria dos russos.
    A população não sabia de nada e recebeu a notícia primeiro com incredulidade, depois com raiva, perdendo enfim a confiança nas autoridades, que se acusavam mutuamente. O acidente arruinou o sentimento comunitário e estimulou o ressurgimento do individualismo, abrindo espaço para a implantação do liberalismo em sua versão mais ferrenhamente egoista.
    Um dos destaques do livro é o depoimento de Viktor Latun, torneiro mecânico que foi para Tchernóbil como soldado e, usando a máquina fotográfica para registrar o que via com espanto, acabou se tornando uma testemunha fundamental da história.
    “Por que me tornei fotógrafo? Porque me faltavam palavras”, ele explicou, com simplicidade. Mesmo assim, o depoimento verbal de Latun é espantoso. Um trecho da página 296:
    “Temíamos a bomba, o cogumelo atômico, e olhe o que se passou. Hiroshima foi algo pavoroso, mas compreensível. Já isso…Sabemos como uma casa se incendeia por causa de um fósforo ou de um projétil, mas isso não se parecia com nada. Chegavam rumores de que era um fogo extraterrestre, que nem era fogo, mas uma luz. Uma reverberação. Uma aurora. Não de um azul qualquer, mas de um azulado celestial. E que a fumaça não era fumaça. Os cientistas, que antes ocupavam o trono dos deuses, agora haviam se convertido em anjos caídos. Em demônios. E a natureza humana seguia sendo tal qual no passado, um mistério para eles. (…) A casa camponesa bielorrussa! Para nós, da cidade, não é mais do que uma casa, uma construção para se viver. Mas para eles era todo o seu mundo. O seu cosmos. Você atravessa as aldeias vazias e te dá um desejo tão grande de ver um ser humano… Vimos uma igreja arruinada, entramos nela. Aroma de cera. Dava vontade de rezar. Eu queria recordar tudo isso e me pus a fotografar. Essa é a minha história.”
     
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “A Secretaria de Turismo de Kiev oferece viagens turísticas a Tchernóbil. Foi elaborado um itinerário que tem início na cidade morta de Prípiat. Lá os turistas podem observar os altos prédios abandonados… Da cidade de Prípiat, a expedição prossegue até as aldeias mortas, onde lobos e javalis selvagens, que se reproduziram aos milhares, correm soltos entre as casas… O ponto alto da viagem é a visita ao Abrigo, nomeado mais apropriadamente de sarcófago. Construído às pressas sobre os escombros do quarto bloco energético explodido, o sarcófago está há tempos juncado de fendas através das quais ‘supura’ o seu conteúdo mortal, os restos do combustível nuclear…“
    Extraído de jornais bielorussos de 2005 e publicado como posfácio do livro Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch (Cia das Letras, 2015)

  • Há 54 anos… A mais longeva ditadura de nossa história

    O clima de hoje lembra o vivido nas vésperas do golpe de 1964, que dividiu o país e abriu espaço para a violência. Antes da ruptura, a conflagração
    Completaram-se, no último 1º de abril, 54 anos da implantação da mais longeva ditadura de nossa história, com todo o seu acervo de tragédias sociais e individuais, e profundo atraso político. Suas consequências ainda se fazem sentir, pois estão na raiz dos dramas de nossos dias, cujo desfecho  não podemos divisar: em alguns momentos a ‘luz no fim do túnel’ nos enche de esperanças; noutros sugere um trem na contramão.
    Lamentavelmente, os regimes autoritários e as ditaduras não são fenômenos estranhos à República, marcada por insurreições militares e golpes de Estado, manifestações exacerbadas de um  autoritarismo larvar cujas fontes remontam à Colônia e ao escravismo de séculos, construtor da ideologia da casa-grande, profundamente presente em nossa vida política e em nossa vida social, e mesmo nas relações interpessoais.
    A própria República é obra de um golpe de Estado construído na caserna, e sua consolidação fez-se dependente de outro golpe, sustentado pela espada  de Floriano Peixoto. Assim se firmou a República oligárquico-agrária, sem povo e sem eleitores, que sobreviveria até a ‘revolução de 1930’. Antes, porém, viveria o país a insurreição de 1922 (Levante do Forte de Copacabana), e os dois 5 de julho que desembocariam na Coluna Prestes (1924).
    E, na sequência de 1930, o levante paulista de 1932, o levante comunista de 1935, a implantação da ditadura do ‘Estado Novo’, o putsch integralista de 1938 e, fechando o ciclo, o golpe que detonou a ditadura e levou Vargas para seu exílio na estância Santos Reis em 1945.
    É a história do ‘tenentismo’ que se estende até o regime de 1964, quando seus líderes já eram generais, almirantes e brigadeiros.  No seu currículo constam ainda a deposição e suicídio de Vargas em 1954, o golpe e contragolpe de 1955, a crise de 1961 e a implantação casuística do Parlamentarismo, de vida breve. A história da República tem sido a história da preeminência dos militares sobre a política e a vida institucional.
    O clima de hoje muito lembra aqueles vividos nas vésperas do golpe de 1964, dividindo o país e abrindo espaço para a violência. É sempre assim. Antes da ruptura propriamente dita, a conflagração. Os  conflitos exacerbados em 1963 foram a preparação ideológica da ditadura militar.
    Os anos difíceis que se instalam com as jornadas de 2013, de que se apropriou a direita com seu aparato midiático, abrem as rotas que levariam ao golpe de 2016 e à instauração do regime de exceção jurídica que não sabemos se será declarado perempto com as eleições de 2018. O precedente histórico não é animador.
    Esse viés autoritário, cultivado pela casa-grande desde a Colônia, é servido à população pelos aparelhos ideológicos do Estado a serviço dos interesses de nossas elites perversas. Nesta  faina destaca-se o papel dos meios de comunicação de massa, a quem se pode tributar, hoje, a maior responsabilidade pelo clima de violência que pervade a política.
    Em 1964 os militares e seus associados – na política e no ‘mercado’– encerraram o ciclo da Constituição democrática de 1946, enquanto a consolidação do impeachment de 2016 declarou perempto o ciclo iniciado com a ‘Constituição cidadã’ de Ulisses Guimarães, que culminara com a ascensão e queda do lulismo.
    Talvez sejam os dias correntes a boa oportunidade para tentarmos antecipar o que podem ser os tempos vindouros. As lições colhidas dos fatos que não se repetem podem orientar estratégias e corrigir táticas, principalmente quando o distanciamento histórico favorece a análise fria.
    Naqueles anos hoje distantes, os anos do pré-golpe e do golpe de 1º de abril,  poucos viram para além da superfície, e assim muitos ignoraram a conspiração que se desenvolvia nos subterrâneos da caserna em  interlocução com a ordem econômica, o Congresso e os meios de comunicação,  para logo estampar-se à luz do dia.
    De outra parte, uma vez mais, a continuidade e segurança do governo popular se havia deslocado das ruas para os acordos políticos de cúpula. O povo continuava percebido como  elemento tático numa estratégia que se resolveria fora das ruas.
    Não obstante os elementos fornecidos pela realidade palpável, não eram poucos, então, os que transferiam da mobilização popular  para o ‘dispositivo militar do general Assis Brasil’,  chefe da Casa Militar de Jango, a defesa do governo, das ‘reformas de base’ e da ascensão das massas.
    Nesta linha pontificava o antigo capitão Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
    No dia 17 de março de 1964, para uma plateia que lotava o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o antigo Cavaleiro da Esperança, após dissertar sobre ‘a formação popular do Exército brasileiro’, anunciou, com o respaldo de sua biografia, a impossibilidade de um golpe militar no Brasil. E quando este se efetivou, muitos o viram como ‘apenas mais uma quartelada’, como as outras  que haviam pontuado a República de 46. Passaria logo.
    A história que se segue é conhecida.
    Do golpe de 1964 muito se pode afirmar, menos a surpresa, defendido que foi abertamente  pela grande imprensa, preparando sua recepção e animando as manifestações dos adversários do governo e de suas teses.
    O pretenso combate à corrupção de 2013-2016 era, em 1963-1964, a denúncia de suposta  corrupção e  de infiltração comunista no governo João Goulart, dando conta das conspirações de toda ordem, militares e civis igualmente conjurados, e, hoje documentalmente comprovada, a arquitetura do Departamento de Estado dos EUA, para quem Goulart, se não era comunista, estava a serviço do comunismo, o que dava no mesmo, segundo Washington. Vivíamos o auge da Guerra Fria e poucos meses nos separavam da crise dos mísseis estocados em Cuba pela União Soviética, incidente que por muito pouco não nos levou ao suicídio nuclear.
    A conspiração, aliás, já se iniciara e era visível  desde a posse de Goulart,  como em suas memórias registra sem peias o Marechal Denis, líder da trinca militar que em agosto de 1961 tentara impedir a posse do vice-presidente constitucional, chamado ao posto pela renúncia do presidente Jânio Quadros.
    Hoje também já se sabe que a articulação que culminou com a deposição de Dilma Rousseff já era maquinada nos idos de 2013, a onda preparadora do levante de 2015, com sua inédita carga de violência, deixando  para trás os piores momentos de 1963.
    Nas duas oportunidades os golpes foram precedidos de grandes mobilizações populares e, ainda em ambos, o leitmotiv unificador da conspiração era, fundamentalmente,  a resistência da casa-grande à ascensão político-econômica das grandes massas, naquela altura representada pelo varguismo, em nossos dias pelo lulismo.
    Os  golpes de 1964 e de 2016 guardam parentesco que precisa ser posto de manifesto. Ambos foram precedidos de mobilizações populares  carregadas de atos de violência que expunham a genealogia fascista. Em 1964 importava  aos seus verdadeiros formuladores algo muito além da mera deposição de Jango e esse seu caráter profundo só ficou claro aos analistas em 1965, com o Ato Institucional n. 2, baixado pelo presidente que havia jurado a Constituição e prometido defender a democracia.
    O significado de 2013 não foi compreendido em seu primeiro momento, e os sismógrafos dos especialistas  não perceberam o real significado do impeachment, aquele que se revelaria pelo governo que a ele se segue..
    O difícil não está na identificação dos fatos expostos e vividos, mas na arte ou ciência da prospecção social, aquela que revela a realidade ainda em gestação, ou seja, a serpente ainda no ovo.
    Em 1964 muitos não lograram antever o significado e os objetivos da ditadura, nem seu largo e profundo mando de 21 anos. Carlos Lacerda, sua principal voz civil, e Juscelino Kubitschek, que votaria no marechal Castello Branco, primeiro ditador, apostaram, olhando para trás,  na transitoriedade do novo regime, e logo engrossariam  a lista de suas vítimas.
    Se não nos foi possível antever a gestação da irrupção popular de 2013, também faltou clareza à esquerda quanto a deposição da presidente Dilma Rousseff, apenas o passo necessário para  defenestrar o lulismo, a grande operação de nossos dias.
    O ovo da serpente, este é o título da obra-prima de Ingmar Bergman. Quem já assistiu, assista de novo. Quem ainda não o viu, corra para ver. Está no YouTube.
    Roberto Amaral
     

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    Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

  • Faísca atrasada e oportunismo

    GERALDO HASSE
    Faz dois anos que o governo Temer mudou a direção da Petrobras e uma das primeiras medidas do novo presidente Pedro Parente foi cancelar encomendas de plataformas navais a estaleiros nativos como o de Rio Grande.
    Nenhuma voz se ergueu contra a medida absurda que, sob o argumento falacioso de que é mais barato comprar as plataformas no exterior, joga no lixo uma década de investimentos públicos pesados e um projeto que representava a redenção de uma região empobrecida.
    Nenhuma voz se ergueu no governo e as poucas vozes da oposição que tentaram reagir foram silenciadas. Não renderam sequer nota em jornal.
    Agora que a “Noiva do Mar” está à míngua, com 24 mil demitidos e a Ecovix devendo R$ 7,5 bi, o governo Sartori resolve “lutar pela reabertura do polo naval”.
    Tudo porque a RBS, que à época também calou sobre o desmonte anunciado por Pedro Parente, decidiu agora fazer uma campanha de “jornalismo construtivo” e discutir saídas para a dramática situação de Rio Grande.
    Então, o governador, que pela omissão apoiou o desmonte do polo naval, aproveita o barulho midiático e pega uma carona, de olho na reeleição.
    Eis aí a mais explícita confissão de incompetência, faísca atrasada e oportunismo eleitoral.
     

  • Primeiro poder

    Chegamos a um ponto em que grupos de mídia detentores de concessões públicas de canais de rádio e televisão, operando em rede, com veículos impressos e digitais adquiriram o poder maior sobre o país.
    De um lado, monopolizam as verbas, baseados no alcance que as concessões de rádio e tevê lhes garantem. Ampliam seu alcance e eliminam concorrentes.
    De outro, se arvoram reformadores sociais. Investigam, julgam, condenam e, quando necessário, constrangem juízes, policiais, deputados, senadores, governadores, que ousam discordar de seus julgamentos apressados e moralistas.
    No Brasil tudo está em crise: a política, a polícia, a justiça, a economia, as empreiteiras, tudo isso está nas manchetes.
    Mas a crise da mídia, que talvez seja a maior de todas, não está na pauta daqueles grupos que têm os meios para chegar à grande massa dos brasileiros. Não rende um rodapé.
    Como pode uma mídia ter receita para a crise de todos, se não consegue olhar para a sua própria crise, que talvez seja a primeira de todas?
    Uma mídia que há três anos se alimenta de vazamentos ilegais, tem a dizer o quê sobre corrupção?
    Será descabido pensar que o “primeiro problema” da nação está exatamente nesse “primeiro poder” de pés de barro?
    É enredo que vem de longe, Brizola denunciou e, na campanha de 1989,  num arroubo prometeu cassar a concessão da Globo. Foi derrotado na eleição.
    Lula, quando eleito, fez que não viu o problema e achou, talvez, que poderia cooptar os barões da mídia para um governo popular.
    Engavetou todos os projetos para estimular a diversidade na mídia, conformou-se aos cinco ou seis grupos dominantes… Hoje eles são os seus algozes, êmulos de seus algozes.
    Retaliar, hostilizando os jornalistas da Globo, por exemplo, como sugerem algumas lideranças populares, é um equívoco.
    A imprensa só vai mudar quando aparecer uma outra imprensa chamando seus leitores para uma outra pauta…
    Enquanto as alternativas se limitarem a manter um “fogo de barragem” ao bombardeio diário da grande mídia, a situação não se altera no ritmo que a democracia precisa.
     
     
     

  • Sangria

    De tempos em tempos o subgoverno tampão do vice-presidente Michel  Temer libera alguns bilhões de reais à população trabalhadora – foi assim com o FGTS de contas inativas e com parcelas do PIS – mas o que ele dá com uma mão, tira com a outra em muito maior volume.
    É uma prática criminosa deliberadamente cínica porque vem acompanhada de argumentos mentirosos.
    Agora, por exemplo, no afã de reativar a indústria de construção civil, a Caixa Econômica Federal foi autorizada a baixar as taxas de juros e a aumentou para 70% o índice de financiamento de imóveis para as famílias que ganham até três salários mínimos.
    Tal medida foi apresentada dias atrás como uma dádiva extraordinária, mas na realidade é um embuste que o governo apronta em cima das baixas taxas de inflação.
    Se há dois anos, com a inflação a 7% ao ano, a CEF emprestava a 11%, agora que a inflação está abaixo de 3% ela poderia emprestar a 7% e manteria seus ganhos (e até os ampliaria porque emprestaria maiores volumes).
    No entanto, o que faz a CEF, o “banco social” da república? Baixa a sua taxa para “apenas”  9,5%, anunciando-a como um benefício.
    Ora, o que aconteceu é que a diferença entre a taxa de juros e a inflação, que era de 4 pontos, subiu para 6,50 pontos. Ou, seja, a Caixa vai ganhar mais do que já vem ganhando. No exercício de 2017, segundo o balanço publicado dias atrás, ela registrou um lucro de R$ 12 bilhões.
    Jogada semelhante foi praticada com o salário mínimo, reajustado no limite da inflação passada, sem repor as perdas cumulativas do poder aquisitivo dos trabalhadores que têm nesse valor uma referência de remuneração.
    A pergunta que fica no ar é: como o governo quer que a economia cresça se a população perdeu poder aquisitivo? A massa salarial caiu, a capacidade de consumo minguou até nas classes médias.
    Quanto a isso, é preciso compreender que a medida governamental mais perversa — aprovada pelo Congresso, que se preocupou prioritariamente em atender aos anseios dos empresários, ignorando os interesses dos trabalhadores –, foi a reforma da legislação trabalhista, que retirou direitos e garantias dos empregados, minando profundamente os fundos de desemprego (FGTS) e da Previdência (INSS).
    Tudo isso está comprovado pelo relatório divulgado na sexta (20) pelo Ministério do Trabalho, que “comemorou” os resultados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do país. Segundo esses dados, em março passado o mercado formal de trabalho registrou 1340 mil admissões e 1284 mil demissões, do que resultou um saldo positivo de 56 mil postos de trabalho.
    Pelos números, parece que vai tudo bem no mercado. Na realidade, parte desse saldo positivo vem de contratações sob regime de trabalho intermitente ou parcial, de menor remuneração e proteção.
    Além disso, o salário de quem é contratado continua sendo menor do que a remuneração daqueles que são dispensados, uma prática que se tornou sistemática.
    A remuneração média dos que foram demitidos em março era de R$ 1.650,88, enquanto o ganho médio dos contratados foi de R$ 1.496,58 – diferença, para menos, de 9,3%.
    A “modernização da legislação trabalhista” prevê ainda desligamentos de pessoal mediante acordo, em que o empregado abre mão de parte de seus direitos. No mês passado, foram realizados 13.522 desses acordos em 9.775 estabelecimentos.
    Enquanto isso, permanece intocado o fluxo de recursos para o pagamento de juros e amortização da dívida pública, que absorve 51% do Orçamento da república.
    Num balanço sumário, se pode dizer que o governo trabalha para dar aos bancos o que vem tirando dos trabalhadores, aos quais oferece em compensação um saque no FGTS aqui ou um empréstimo habitacional ali – como o cafezinho ou o copo d’água que os laboratórios de análises clínicas ofertam após coletar o sangue dos pacientes que precisam se apresentar ali em jejum, depois de levantar cedinho.
    A nefasta sangria financeira praticada pelo governo acaba aparecendo nos índices de desemprego, que se mantém na faixa de 13%; reflete-se no aumento do número dos caídos abaixo da linha da pobreza (1,4 milhões de pessoas em dois anos); e se reflete na estagnação da economia, que não reage aos “estímulos” da equipe econômica do governo.