Categoria: Análise&Opinião

  • A volta sem-vergonha do capitalismo selvagem

    Geraldo Hasse

    Aprovada às pressas, a reforma trabalhista favorece o mundo empresarial e vai precarizar dramaticamente a vida dos trabalhadores.
    As contradições entre o novo e o antigo regime vão desaguar na Justiça do Trabalho, formada por uma maioria de juízes inclinados a garantir o lado mais fraco da relação trabalho-capital.
    Nesse aspecto, levando em consideração o pensamento dominante no Congresso Nacional, faz total sentido a declaração de um deputado antitrabalhista que disse na maior cara de pau: “Feita a reforma, agora é preciso acabar com a Justiça do Trabalho”.
    No entanto, se a Justiça do Trabalho for desmantelada, será dado o passo final para instalar o caos na economia e em diversos setores da vida nacional.
    A precarização das relações de trabalho vai escancarar a porteira para a ação de aventureiros internacionais adeptos do capitalismo selvagem.
    Basta lembrar que o recente boom econômico da China foi iniciado por capitais norte-americanos e europeus que buscaram o grande país asiático para desfrutar do baixo custo de sua mão-de-obra.
    Passadas duas décadas, porém, os salários melhoraram na China. Estariam os aventureiros procurando novos territórios de operação? É possível que o Brasil seja a bola da vez, no aspecto trabalhista.
    Na realidade, há indícios concretos de que o capital internacional quer fazer do Brasil uma plataforma rentável de produção global.
    Com a ajuda de brasileiros dispostos a servir como capachos (“testas de ferro”, segundo o jargão de 50 anos atrás), os EUA e a União Europeia estão conspirando mais ou menos abertamente para reduzir o índice de conteúdo nacional de equipamentos brasileiros de prospecção de petróleo, que se tornaram o filé da indústria nativa desde a descoberta de petróleo na camada pré-sal da plataforma continental, em 2006.
    Ao analisar as plataformas de petróleo construídas em estaleiros nacionais em anos recentes, os advogados do diabo alegam que o custo brasil é muito alto e a qualidade da mão-de-obra, muito baixa.
    Em outras palavras, querem nos fazer crer que o país não tem futuro senão como colônia. É a segunda vez que se desmantela a indústria naval brasileira.
    Na primeira arrancada, ela durou cerca de 20 anos — da década de 1950 aos anos 70. Agora, a retomada dos estaleiros durou o tempo dos governos petistas — pouco mais de uma década.
    Não se sabe até onde vai essa onda reacionária no plano trabalhista, mas trata-se de um retrocesso que faz o Brasil retornar a antes de 1932, quando Getulio Vargas iniciou a regulamentação do trabalho e da previdência social.
    A reforma das leis trabalhistas do governo Temer deixou intacta a Justiça do Trabalho, que deverá se tornar alvo de uma grande ofensiva conservadora para desfazer direitos consagrados e favorecer a implantação de novas formas de relações de trabalho, como está acontecendo com a multinacional Uber e seus motoristas.
    Onde caberia um novo pacto social modernizador, foi imposto goela abaixo das centrais sindicais dos trabalhadores um regramento que vai favorecer a parte mais forte da relação capital-trabalho.
    No mínimo, o resultado será um boom de ações trabalhistas. No limite, como escreveu o jornalista Luis Nassif, “a reconquista dos direitos perdidos trará de volta as grandes batalhas campais dos primórdios do capitalismo.”
  • A morte de Marco Aurélio Garcia

    A morte de Marco Aurélio Garcia despede-me compulsória e dolorosamente de meu passado. Fizemos política estudantil juntos, num tempo em que sonhávamos alto com um mundo que se projetava mais humano, menos aguerrido; isso em meados dos anos 60.
    A vitória de Fidel em Havana, início da derrocada americana no Vietnã a partir do próprio  EUA, tudo parecia que iria melhorar. Éramos e queríamos ser filhos da utopia; e, embora militássemos em grupos diferentes, nunca nos afastamos do respeito mútuo.
    Era um ouvinte assíduo de música de câmara. E afora as posições políticas diferentes, mas genericamente comuns – que logo voltaram a se estreitar – tínhamos sempre muito o que conversar em torno dos quartetos de Beethoven, de Brahms, dos lieder de Mahler, de Schumann e por aí afora.
    No nosso tempo de sonhos, porém, os militares logo assumiram o poder no Brasil.
    Então do Rio Grande do Sul vim para São Paulo, mais ou menos fugido (devo confessar); e ele, foragido de fato, rumou para o Chile.
    Quando nos reecontramos, não levou muito para que Marco Aurélio – ambos, agora, já conscientemente, órfãos da utopia – assumisse o papel histórico que sua inteligência e cultura lhe reservavam, como assessor de relações exteriores, do governo Lula.
    Deve ter morrido triste. Num breve encontro casual que tivemos em Congonhas – ele indo para Brasília e eu voltando de lá – relatei-lhe a resposta que o jornalista Paulo Totti, um amigo comum, me deu quando lhe perguntei sobre a situação do Brasil e do já então claudicante governo Dilma.
    Ele riu muito ao lhe contar – segundo Totti – que quem explicasse a situação do Brasil, estava no mínimo mal informado.
    Nunca ouvi ou assisti qualquer conferência do professor Marco Aurélio Garcia ao vivo. Mas nas entrevistas em que demonstrava o quanto era sólido o seu conhecimento sobre o Brasil e suas relações exteriores – pude aurir seus conhecimentos e o quanto ele e Celso Amorim foram importantes para que o Brasil se tornasse, por fim, um protagonista da cena mundial.
    Estimo que lhe tenha sido muito deprimente ver o Itamarati nas mãos de Serra e de Aloysio Nunes Ferreira. Nada pessoalmente contra esses dois autênticos micróbios intelectuais – mas é assustador saber que saímos de um Marco Aurélio Garcia, com seu brilhantismo, sua alta cultura, sua honestidade, para dois sujeitos que devem estar fazendo corar até mesmo os mais retrógrados diplomatas brasileiros.
    Bestuntice e inteligência são raras de acontecerem num mesmo período histórico.
    Aliás, num tempo em que um líder como o Lula está sendo perseguido por energúmenos, justamente por não preencher as acusações que lhes movem outros homens minúsculos, Marco Aurélio Garcia deve ter padecido o diabo.
    Foi um autêntico patriota, Seu imenso coração brasileiro deve ter estourado ao ver o grande país que ele projetou desde seus tempos de juventude, ir por água abaixo, sem que ninguém conseguisse opor nem mesmo um berro.
    Morreu Marco Aurélio Garcia: difícil imaginar alguém para substituí-lo.
  • Temer e a caneta

    Pior cego é o que não quer ver, já dizia Millôr.
    Assim estão os analistas e comentaristas da imprensa passiva que se comprometeram com a tese de que “Temer já caiu”.
    Não viram o gesto de Temer, erguendo a caneta, cercado por sua tropa de choque em clima festivo. Não querem ver.
    Ele havia assinado a Reforma Trabalhista, mas não era só isso que seu gesto estava referindo. Ele estava mostrando a caneta com a qual se nomeia ou se demite, a caneta que libera ou contingencia.
    A caneta que vai garantir o bloqueio parlamentar à denúncia de Janot. Ou já garantiu.
    O deputado Darcísio Perondi, que substituiu Padilha na linha de frente da Câmara, garante que já garantiu.
    Enquanto isso os analistas e comentaristas ficam dando nó em pingo d’água para justificar a previsão precipitada. Falam em “sangria”, em “desgastes junto às bases”, “fatos novos que surgirão”, seguindo a cartilha da Globo.
    Mas, agora, depois de barrar a denúncia na CCJ,  Temer está se sentindo forte a ponto de partir para cima da Globo, que decretou sua queda depois do episódio Joesley Batista.
    Denúncias já começaram a pipocar, dívidas de impostos sonegados, evasão de divisas… O telhado é de vidro e o histórico do grupo indica que eles sempre saíram pelo governismo. Então, a Globo é questão de tempo, pouco tempo, talvez.
    Os empresários foram contemplados com mais do que esperavam na Reforma Trabalhista. Temer, agora, promete a Previdência nos moldes requeridos pelo capital. Por que duvidarão? Para apostar no filho de Cesar Maia?
    Restaria a bandidagem do Congresso, que poderia trair Temer para se safar. Mas aí, basta olhar a foto e ver o sorriso do Jucá. Dificilmente alguém fará melhor do que Temer está fazendo para “estancar essa porra” da Lava Jato.
    A instabilidade vai continuar por que a situação decorre de um poder usurpado. Uma vez que uma manobra parlamentar comandada por um corrupto (hoje na cadeia) derrubou uma presidente eleita por 54 milhões de votos, não há como ter poder estável.
    Nesse contexto, Temer pode até cair. Mas é ilusório achar que ele está por um fio.
     
     

  • A greve de 1917

    Passou despercebido o centenário da greve paulista de 1917, deflagrada por trabalhadores têxteis. O movimento teve início no dia 10 de junho na indústria de tecidos Rodolfo Crespi, localizada no bairro do Brás. Os operários reivindicavam aumento salarial de 25%. O proprietário recusa-se a entrar em negociações, ameaça os grevistas de demissão e afirma que fechará a fábrica.
    Em poucas horas a paralisação ganha o apoio dos empregados de outras indústrias do bairro. Os empresários acreditam na derrota do movimento pelo cansaço e fome, e pedem o auxílio da polícia. A Força Pública intervém e passa a efetuar prisões de homens e mulheres. No final do mês o movimento paredista havia se espalhado pelo interior do Estado. A direção da Votorantin, em Sorocaba, dispensa alguns operários, provocando intensa agitação em todas as seções da fabrica.
    A greve permanece firme e avança pelo mês de julho. Everardo Dias (1886-1966), anarco-sindicalista espanhol imigrara criança para o Brasil, acompanhando o pai Antonio Dias, professor e maçon, envolvido em fracassado levante republicano. Aos 13 anos começa a trabalhar como tipógrafo no jornal “O Estado de S. Paulo”, onde permanece até concluir os estudos de professor. Autor do clássico História das Lutas Sociais no Brasil, editado em 1962, como uma das lideranças do movimento, assim descreveu a greve: “8 e 9 de julho – Densas demonstrações operárias no Brás e Mooca. Os estabelecimentos fabris vão paralisando o trabalho e os operários aderem imediatamente à massa que está na porta. Algumas fábricas onde se verifica que há operários trabalhando são apupadas e apedrejadas. A polícia, que guarnece as portas das fábricas, coloca-se, à ordem do delegado que patrulha, em posição de atirar, mas ninguém se intimida. Já não são alguns milhares, mas dezenas de milhares de grevistas que tomam conta das ruas. Na fábrica Mariângela, à Rua Flórida, a cavalaria carrega sobre a multidão, enquanto os agentes da polícia, à ordem do delegado, descarregam suas armas sobre os grevistas. Cai ferido mortalmente um jovem operário Antonio  I. Martinez, enquanto muitos outros estão também machucados. Efetuam-se prisões em massa” (pág. 293).
    O enterro de Antonio Martinez, falecido no dia 11, é realizado no dia 12. O féretro sai às 8 horas da rua Caetano Pinto para o cemitério do Araçá. Escreve Everardo Dias: “Desde muito antes, a rua fica intransitável pela massa popular que se aglomera e se espalha pela avenida Rangel Pestana. Há também grande aparato de força militar: um batalhão forma na calçada fronteira de baioneta calada”.
    O espírito libertário, que dava vida ao sindicalismo nas duas primeiras décadas do século XX, foi estrangulado pela Carta Constitucional de 1937, outorgada por Getúlio Vargas, e sepultado em 1943 pelos autores da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que encontraram na Carta Del Lavoro, de Benito Mussolini, a inspiração que buscavam para submeter a estrutura sindical ao controle do governo.
    A redemocratização em 1946, e o restabelecimento das liberdades democráticas em 1988, não foram suficientes para proporcionar o direito à autonomia de organização às classes trabalhadoras e patronais. O art. 8º da Constituição conserva os sindicatos sob o controle do Ministério do Trabalho, mantém a divisão de empregados e patrões em categorias, garante o monopólio de representação, preserva a Contribuição Sindical, que deixará de ser compulsória.
    Os estudiosos da matéria advertem sobre a possibilidade do desaparecimento das organizações sindicais como instrumentos de luta.  Diversos fatores atuariam nesse sentido: a) a incapacidade de formularem propostas convincentes de combate ao desemprego; b) o desaparecimento dos antagonismos de classes; c) a legislação trabalhista; d) a politização das organizações; g) o desencanto dos jovens.
    A greve de 1917, encerrada no dia 17 de julho, mediante acordo negociado com o governo e os empresários pelos jornalistas Nestor Pestana, Amadeu Amaral, Paulo Mazzoldi, João Castaldi, Valdomiro Fleury, J.M. Lisboa Júnior, Umberto Serpieri, Valente de Andrade, João Silveira Junior, deve ser rememorada como capítulo heroico da luta do nascente operariado paulista contra o capitalismo selvagem.

    O sindicalismo do século XXI dá demonstrações de perda do conteúdo ideológico, para se tornar fisiológico, alimentado por ambições pessoais alheias aos problemas das classes trabalhadoras.

  • Rolando Boldrin, um brasileiro sem máscara

    Ao completar 80 anos, Rolando Boldrin, um caipira ilustrado, liberou sua biografia escrita por Willian Correa e Ricardo Taira, jornalistas da TV Cultura de São Paulo. O livro é editado pela Contexto.

    A história é muito boa, tipicamente brasileira: conta como o auxiliar de sapateiro de São Joaquim da Barra (SP) se tornou ator, compositor e cantor na cidade de São Paulo, onde chegou em 1958, aos 22 anos de idade.
    Desde criança, quando formou uma dupla caipira (Boy e Formiga) com o irmão mais velho, Rolando Boldrin sonhava ser ator na pioneira TV Tupi, fundada em setembro de 1950 em São Paulo. Pois o cara chegou lá, foi entrando pelas beiradas, fez uma ponta aqui, outra ali, e de repente estava trabalhando como coadjuvante ao lado de atrizes como Irene Ravache e Rosamaria Murtinho.
    No filme Doramundo, dirigido por João Batista Andrade com base em livro de Geraldo Ferraz, fez um marcante maquinista de trem que tinha por rival o galã Antonio Fagundes.
    Entrevistado pelo Roda Viva, da TV Cultura, Boldrin, a cavaleiro em sua imensa experiência musical, esclareceu algo que pouca gente percebe na atual barafunda cultural brasileira, onde os interesses comerciais são mais fortes do que melodias e ritmos nativos.
    “No meu programa, não deixo usar chapéu de caubói americano”, disse ele. Por que? Porque o chapéu de cow boy é da cultura country americana. E também a camisa listrada, a calça jeans e a botinha de salto. Não é birra gratuita contra o império americano, apenas coerência de um brasileiro disposto a valorizar as coisas autênticas deste país.
    Afinal, o programa se chama Sr. Brasil. Boldrin sabe como se misturam as coisas, manipulando símbolos e conceitos.
    Segundo Boldrin, a antiga música caipira, de origem rural, foi transformada em “sertaneja” por interesse comercial.
    Sertaneja autêntica é a música do sertão nordestino, afirma ele, sem qualquer empostação intelectual.
    Por sua vida e obra, Boldrin é uma expressão do Brasil caboclo que sobrevive nas zonas rurais, nos arrabaldes das grandes cidades e nas pequenas comunidades do interior.
    Seu programa na TV Cultura, Sr. Brasil, apresentado todo domingo às 10 horas, tira do desvio inúmeros artistas sem espaço nos canais comerciais de rádio e TV.
    Não é à toa que cantores e compositores reverenciam Boldrin como uma espécie de padrinho da autêntica música brasileira, o que abrange o baião, o bugio, a catira, o chote, o congo, a guarânia, a milonga, o maçambique, a moda de viola, o pagode, a rancheira, a valsa, o xaxado, o vanerão e as diversas variantes do samba.
    Sim, o samba: surpreendentemente, em seu depoimento à Roda Viva, Boldrin revelou gostar de samba de Moreira da Silva, Germano Matias e Adoniran Barbosa.
    Sem pose de professor, Boldrin é um brasileiro como Paulinho da Viola, Elomar Figueira de Mello, Geraldo Azevedo, Nelson Coelho de Castro, Renato Teixeira e outros representantes de uma cultura massacrada pelos interesses da indústria cultural, serva do showbiz americano e afins.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “…repetindo os esquemas senhoriais anciães, em umas zonas mais que em outras, o interesse privado dos ‘coronéis’ ou poderosos locais se sobrepõe ao desenvolvimento dos interesses públicos, gerando formas regionalizadas de despotismo, a impossibilitar, entre outras coisas, a ‘democracia cultural’. Todavia, parafraseando Zunthor, a cultura popular é amacetada, mas impossível de se extirpar, pela acusação de heresia religiosa ou paganismo estético.”
    Romildo Sant’Anna – A MODA É VIOLA – Ensaio de Cantar Caipira, Arte & Ciência/Unimar, 395 p., 2000
  • Quanto o mercado da música significa para a economia gaúcha

    Tarson Núñez

    A cadeia de produção musical é linear, com o produto final resultando de uma série de atividades interligadas que vão adicionando valor ao produto final que é comercializado. Esse produto final pode ser um objeto, um suporte físico de conteúdo musical (CD ou LP), um evento (show ou apresentação) ou mesmo, atualmente, um mecanismo de copyright (um fonograma registrado para efeitos de direito autoral). Em todos esses casos, o caminho que vai da criação artística até a sua realização enquanto valor monetário é longo e passa por múltiplos estágios que envolvem diferentes processos econômicos. A literatura divide as atividades de produção e comercialização dos produtos musicais em quatro etapas principais: criação, produção, divulgação e distribuição.
    Até a década de 90, essa cadeia estruturava-se em torno da indústria fonográfica. As grandes gravadoras, companhias que faziam a mediação entre a produção dos artistas e o grande público, eram o ator central de um processo industrial altamente verticalizado. A partir da criação, praticamente todo o resto da cadeia dependia dessas empresas. Esse foi o modelo predominante desde a década de 40 até o final do século passado. As mudanças tecnológicas do final do século XX impactaram de forma profunda e irreversível a indústria fonográfica, abrindo caminho para um novo modelo de mercado musical.
    Dois fatores foram essenciais nesse processo: o primeiro foi a redução dos custos dos equipamentos de gravação, que permitiu que o registro das músicas fosse realizado de maneira muito mais descentralizada, tornando a criação e a produção mais autônomas. O segundo foi a emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, que abriram novos caminhos para a divulgação e a distribuição. A oferta de produtos diretamente pela internet, mediante download ou streaming, cresce no mundo inteiro. Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), o mercado global da indústria relacionado à reprodução digital vem crescendo em uma média de 6% ao ano desde 2009, atingindo os US$ 6,9 bilhões em 2014.
    A cadeia da música não se restringe à relação entre o artista e o público. Ela tem como ponto de partida o processo de produção industrial dos insumos para a produção musical (instrumentos, equipamentos de amplificação e gravação, mídias virgens, etc.). Além disso, essa cadeia tem como pressuposto a formação de um mercado musical que envolve tanto a formação de músicos como a do público (escolas de música, cursos universitários, publicações especializadas, mídia, etc.), e também toda uma rede de espaços nos quais a música é: (a) apresentada ao vivo (teatros, casas de espetáculos ou clubes), (b) transmitida (via rádio, internet ou TV) ou (c) parte do contexto de outras atividades, sejam elas artísticas ou não (trilhas musicais de publicidade ou de outras produções audiovisuais e música ambiente em espaços públicos).
    Entre esses dois extremos, artista e público, há todo um encadeamento de atividades econômicas relacionado ao processo de produção (estúdios de gravação, equipes técnicas, atividades de produção de espetáculos), à divulgação (assessorias de imprensa, publicações especializadas, rádios e programas de TV), à execução (teatros, casas de espetáculos, clubes, bares) e também ao processo de comercialização de produtos vinculados à música. Em torno dessas atividades identificam-se impactos adicionais em termos de suporte, como a contratação de serviços de logística (transporte, alojamento e alimentação) e de divulgação (design e produção gráfica). É, portanto, uma cadeia longa e complexa de atividades econômicas, envolvendo uma grande quantidade de empreendimentos tanto no campo industrial como de serviços.
    No Rio Grande do Sul, a cadeia da música, identificada a partir dos critérios estabelecidos pela literatura nacional e internacional existente sobre o setor, envolve um conjunto de empreendimentos extenso, com a presença de praticamente todos os elos da cadeia. Uma primeira aproximação, ainda que limitada, ao peso dessa cadeia pode ser feita a partir dos dados disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), relativos ao ano de 2015, apontam a existência de 3.982 empresas formais, envolvendo um contingente de mais de 16 mil postos de trabalho, movimentando em salários e outras remunerações mais de R$ 240 milhões por ano. Isso se refere apenas a uma parte do mercado real, uma vez que no âmbito da música, mais do que em outras atividades da chamada economia criativa, o grau de informalidade das atividades é muito alto. Grande parte das atividades musicais realizadas, como as performances ao vivo, dá-se sem qualquer contratação formal ou registro de transação monetária. Além disso, para grande parte dos músicos daqui, viver exclusivamente de sua atividade artística é difícil, o que implica no exercício de outras atividades remuneradas. Além disso, parte significativa das atividades deste campo está relacionada a outras atividades econômicas, o que dificulta sua identificação. Um músico que faz jingles é encontrado nas estatísticas relativas à publicidade, um músico que dá aulas é encontrado nas estatísticas das atividades educacionais, entre tantos outros casos.
    As estatísticas existentes, portanto, permitem identificar apenas de uma forma muito limitada o impacto da cadeia da música na economia do Estado. No entanto, a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, cuja última versão é de 2008-09, permite fazer uma aproximação do potencial de mercado das atividades relacionadas à música. Segundo a POF, os gastos com cultura representam 5% dos gastos das famílias. Tomando-se como base os dados relativos ao Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul, é possível fazer uma aproximação do peso do consumo da música das famílias no Estado. De acordo com os últimos dados disponíveis, o consumo das famílias representa 58,1% do PIB do RS (FEE, 2013). Considerando-se que o PIB do RS, neste ano, foi da ordem de R$ 331 bilhões, é possível projetar que, em nosso estado, os gastos com atividades culturais são da ordem de R$ 9,6 bilhões por ano. Visto que os gastos diretamente com o consumo de música representam 6,9% dos gastos com cultura, pode-se estimar que o mercado da música movimenta, anualmente, pelo menos R$ 660 milhões no Estado.
    Esses dados mostram apenas uma parte da realidade do mercado da música, e os seus limites apontam para a importância do aprofundamento dos estudos sobre essa cadeia produtiva. O setor é parte de uma tendência global de importância crescente do setor de serviços na economia. Mais do que isso, a economia criativa é cada vez mais um campo em expansão que tem um potencial de integração importante em cadeias globais de valor. Conhecer melhor o setor, identificar suas potencialidades e pensar políticas públicas que contribuam para potencializar seu impacto na economia gaúcha é um grande desafio.

    *Tarso Núñez é pesquisador em Ciência Política da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Artigo publicado originalmente na edição de julho da  Carta de Conjuntura da FEE, com o título “O mercado da música e o seu significado para a economia do Rio Grande do Sul”.
  • Eles não querem diminuir o desemprego

    ANDRES VINCE
    No início de 2014, quando o Brasil beliscou o pleno emprego, do alto da mesa mais cara, do restaurante mais caro, da cidade mais cara, foi decretado: “isso tem que acabar!”.
    A gota d’água, que transbordou a taça da elite econômica brasileira, havia pingado de algum lugar entre a cozinha e os corredores das mesas, por onde circulam os serviçais.
    Estava decidido: nenhum membro daquela elite iria tolerar mais ser submetido aos desmandos dessa ditadura de trabalhadores que se instalou no país. Nenhum deles iria aceitar mais negociar em igualdade de condições. “Aumento real de salário?”. Abusados. “Tem quem pague?”. Mentira! Que absurdo! “Participação maior nos lucros crescentes?”. Um acinte! “Ampliar direitos trabalhistas?” Vândalos! Estão acabando com a livre iniciativa! Como vamos investir num país onde somos reféns “dessa gente”?
    Menos de três anos depois, tudo já está resolvido. Não só resolvido, como definitivamente remediado. A cobra está morta, e agora, orgulhosa, a elite mostra o pau.
    Não adiantou nem tomar a mesa do Senado à unha, para evitar que o trabalhador fosse servido de sobremesa. E a cena das senadoras comendo quentinhas na mesa do Senado, patética para os elitistas, era apenas o ensaio do que o trabalhador será submetido daqui pra frente.
    Porque é assim que funciona: hoje, te tiram meia hora de almoço; amanhã será: “pra que almoço?”. Tudo em nome da modernidade e da competitividade
    Mas, a verdade é que essa elite nacional não quer competir com ninguém. Nâo conseguem dar conta nem do mercado interno! Eles não precisam de (mais) dinheiro, já tem o suficiente para incontáveis gerações. O problema não é o dinheiro. O objetivo que eles buscavam, e atingiram com méritos, era retomar o poder e, consequentemente, as políticas públicas: “chega de crédito pra pedreiro e açougueiro, nós queremos é o garçom!”.
    Certa senadora destes pagos, orgulhosa representante do agronegócio nacional, disse da tribuna, no dia seguinte ao da revogação da lei áurea, que a atitude das senadoras de tomar a mesa foi bolivariana, e que “o Brasil não é uma Venezuela.”.
    É uma pena que não seja senadora, pois lá, seja de direita ou de esquerda, as pessoas estão nas ruas, lutando por seus interesses, e, as mortes que esses conflitos geram, são muito mais valorosas que as mortes causadas pela negligência administrativa a qual essa mesma senadora dá suporte. Pelo menos, por lá, as pessoas morrem lutando pelos seus ideais, não por inanição.
    Por aqui, ao contrário da Venezuela, onde a resistência é admirável, a elite conseguiu seu objetivo: enfraquecer a classe trabalhadora e as minorias, para que esteja sempre abaixo da sola do sapato do sistema.
    Tudo sem causar traumas. Para eles, é claro.
     

  • Reforma Trabalhista

    A imprensa passiva apoiou desde o início e, agora, está aplaudindo a reforma trabalhista que o Senado acaba de aprovar por esmagadora maioria.
    Uma reforma patrocinada pelo capital, levada a toque de caixa no meio de um vendaval político e de uma crise econômica que já desempregou 14 milhões de trabalhadores. Só poderia merecer o aplauso das corporações midiáticas.
    Os comentários lembram aquele personagem do Nelson Rodrigues, o “idiota da objetividade”. Um chegou a dizer que “os parlamentares aprovaram porque sentiram que a reforma é necessária”.
    É necessária sim, para reduzir o custo da mão de obra e recompor as altas margens de lucro afetadas pelo crescimento da massa salarial na última década de governos trabalhistas.
     

  • A carrapatolândia é aqui

    Vejam só o que a vida nos ensina em mais um inverno de nossas existências: à temperatura de 15ºC ou menos, os carrapatos ficam inativos. Hibernam, como fazem diversos seres vivos deste planeta sui generis.
    Mas isso só ocorre com os carrapatos bovinos, cujo nome científico  tem algo de nobre: Rhipicephalus (Boophilus) microplus.
    Já os carrapatos do poder da república, com nomes bastante triviais, não descansam em nenhuma das estações do ano.
    Os carrapatos bovinos param no frio mas não desistem. Mal finda o inverno, em setembro, já  atacam novamente, depois de uma temporada no solo, onde as carrapatas depositam seus ovos, após cair, repletas de sangue, do couro dos bovinos, onde ficam sugando por cerca de 21 dias.
    Cada fêmea põe até 3 mil ovos por postura. É aí que está o perigo.
    Dá-se então o seguinte, contam os veterinários: quando estão do tamanho da cabeça de um alfinete, as larvas dos carrapatos sobem do chão para a ponta dos capins e arbustos do campo, onde ficam esperando carona de um quatro patas.
    Conseguindo embarcar, logo se instalam no couro (gostam muito do pescoço) e vão sugando até completar o ciclo de crescimento — 21 dias, durante os quais os carrapatos fecundam as fêmeas e todos vão parar no chão, redondamente nutridos pelo sangue da boiada.
    A cada estação surge uma nova geração de carrapatos.
    Da primavera ao outono, passando pelo verão, os carrapatos enfraquecem o gado e causam prejuízos de bilhões em carne e leite que deixam de ser produzidos (pesquisadores do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais andaram fazendo umas contas e concluíram que o carrapato provoca um prejuízo anual de cerca de 3 bilhões de dólares na produção de carne e de 1 bilhão de dólares na produção de leite). Talvez seja o caso de aplicar um lava-jato na carrapatolândia.
    Além disso, os carrapatos transmitem a tristeza parasitária bovina, uma doença que aniquila os animais, caso não seja tratada logo que se apresenta. Para a chamada TPB não tem vacina.
    Na Embrapa estão tentando descobrir uma, mas por enquanto nada. O carrapato existe em todo o país, mas é no Rio Grande do Sul que ele causa mais dor de cabeça. Não no inverno, mas nas outras estações do ano.
    Voltemos ao solo onde são depositados os ovos. Se não arranjam um hospedeiro, os carrapatinhos-cabeça-de-alfinete morrem em dois, três meses. Mas há quem diga que eles podem durar até três anos no solo.
    Por isso a estratégia dos fazendeiros é impedir que os carrapatinhos se agarrem aos seus animais. Uma das saídas é roçar os campos. Outra, implantar lavouras de arroz, milho, trigo ou soja. Em campo com lavoura, os carrapatos não têm vida fácil.
    Por fim há uma saída genética que vem sendo praticada nas últimas décadas: azebuar os rebanhos. Como? Fazendo cruzamentos entre gado europeu (angus, hereford, devon, Jersey, holandês) com o asiático (nelore, gir). Isso porque o gado zebu, trazido da Índia há 100 anos, possui certa resistência ao carrapato. Resistência, não imunidade.
    O prezado leitor já deve ter notado como é vistoso o couro de um nelore. Brilha ao sol. Numa sala, é tapete esplêndido. Pois esse lindo animal branquelo, que tem o corpo adornado por um cupim e uma barbela, possui certa aptidão para beliscar-se de dentro para fora. Ele contrai o couro no ponto onde o parasita tenta se instalar. É o que os economistas e afins chamariam de “vantagem comparativa” do zebu.
    Já um angus ou um hereford, ambos de origem inglesa, são menos eficientes no tal movimento epidérmico de repelir os insetos.
    Além disso, são peludos, o que facilita a vida do carrapato, que pertence à espécie dos ácaros, criaturinhas especializadas em viver grudadas nos seus hospedeiros, sejam animais ou vegetais. “Pragas”, diria alguém com baixa cultura ecológica. Baixaria semelhante comete quem diz que certas plantas invasoras das lavouras são “ervas daninhas”, algumas das quais produzem chás milagrosos para os animais humanos.
    Pode ser também que os animais de raças europeias tenham um sangue mais apetitoso para os carrapatos. Talvez algum dia se descubra porque os ácaros sugadores de sangue se dão melhor no gado europeu do que no asiático.
    Carne por carne, o zebu não tem o maior atributo do gado europeu: o “marmoreio” tão apreciado pelos paladares mais exigentes. (O neologismo aspeado na frase anterior foi presumivelmente inventado por alguém diante de uma chuleta que continha uma picante mescla de gordura e carne, daí lembrar certos aspectos do mármore).
    Pois a verdade é que hoje em dia há no Brasil milhares de fazendeiros praticando o chamado cruzamento industrial, ou seja, cruzam animais taurinos e zebuínos, obtendo híbridos de carnes mais macias e com maior resistência ao carrapato Boophilus (“amigo do boi” em latim).
    Digamos então que o pessoal da pecuária está fazendo uma ponte genética que liga Bagé a Uberaba mas alcança também Campo Grande e Paragominas. Os mais abonados conseguem esticar essa ponte até o Texas, onde surgiu o brangus, variedade bovina resultante do cruzamento do angus europeu com o brahman asiático.
    Claro que o Brasil não fica atrás nesse item. Para fins leiteiros, foi criada aqui a variedade girolando, cruzo do indiano gir com a raça holandesa, que deu ao mundo a Mercedes-Benz do leite (poderíamos dizer que a raça jersey inglesa é o Volks do mundo lácteo). Já para fins de carne, temos o braford (brahman + hereford) e outros como o tabapuã.
    Onde se vai chegar com isso ninguém sabe, mas não foi à toa que o Brasil se tornou um grande exportador de carnes bovinas. A diversidade de ambientes é um dos trunfos da agricultura brasileira. Falta tomar cuidado com os ácaros-vampiros.
    Como os ratos, os pernilongos, as baratas e as formigas, os carrapatos sobrevivem aos venenos formulados para eliminá-los. Há cepas de carrapatos que desenvolveram resistência aos carrapaticidas. Um problemão semelhante ao criado pelos vírus da gripe e as bactérias de diversas infecções.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O problema da criação vacum não é produzir uma rês grande nem bonita, segundo o gosto variável de cada um; é transformar pasto e água em ouro; portanto, melhor raça é aquela que na mesma área de terreno deixar maior saldo líquido.”
    J.F. de Assis Brasil (1857-1938), fazendeiro, diplomata e político nativo do pampa gaúcho que implantou no Rio Grande as raças bovinas inglesas devon e jersey
  • Acordo de Paris: saída dos EUA reforça nova dinâmica geopolítica e protagonismo da China

    Luiz Eduardo Osorio*
    A recente saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris terá amplos reflexos sobre o cenário diplomático, econômico e ambiental. Em um momento em que nações e empresas se preparam para a transição rumo a uma economia de baixo carbono, a decisão norte-americana abre espaço para uma maior aproximação entre China e Europa. Também aumenta a pressão internacional sobre os líderes globais para que estabeleçam metas mais ambiciosas de redução de emissões e as anunciem nas próximas reuniões climáticas.
    Em dezembro de 2015, 196 nações reuniram-se em Paris e concordaram em manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais. Esse compromisso público, assumido também pelo governo dos Estados Unidos, foi firmado e enviado ao Alto Comissariado das Organizações das Nações Unidas (ONU). Esta ação contrasta com a postura adotada em relação ao Protocolo de Kyoto, que não chegou a ser aceito ou ratificado pelo governo norte-americano.  No pior cenário traçado pela ONU, sem o comprometimento dos Estados Unidos, poderia haver um aumento de 0,3°C na temperatura global para além dos 2º C.
    Ao rever a sua adesão ao Acordo de Paris, os Estados Unidos tornam-se, ao lado da Síria (em guerra civil) e da Nicarágua (que considerou o acordo tímido), parte dos três únicos países do mundo que não se comprometeram a reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O vácuo geopolítico criado estimula uma maior aproximação entre China e Europa, que já reforçaram nas últimas semanas o engajamento em relação ao tema das mudanças do clima, acenando inclusive com um potencial intercâmbio de permissão de emissões entre os países, assim como investimentos cruzados.
    Em busca de maior protagonismo internacional e competitividade de seus produtos nesse novo cenário, a China direciona os seus esforços diplomáticos e de cooperação para acelerar a expansão das fontes limpas de energia na matriz elétrica global. O governo chinês é o principal incentivador da Global Energy Interconnection (GEI), que tem como meta ampliar para 80% a participação das fontes renováveis no consumo primário global de energia em 2050. Para cumprir este objetivo ambicioso, a estimativa é a de que o GEI demande US$ 50 trilhões em investimentos em novas usinas, como eólicas e solar, e na construção de grandes sistemas de transmissão, que promoveriam a interconexão dos cincos continentes.
    Embora o desfecho da iniciativa seja incerto, observa-se que o Acordo de Paris se insere em um contexto de reconfiguração do fluxo de investimentos e comerciais, de rearranjo dos acordos geopolíticos e abertura de novos mercados. Com a manutenção da precificação do carbono como uma tendência irreversível, o retrocesso no apoio às fontes renováveis de energia significaria prejuízos financeiros, com perda de competitividade industrial e de exportações. Alguns governos, como o da França, já estudam sobretaxar em 100 euros por tonelada de CO2 os produtos importados, cuja pegada de carbono não tenha sido neutralizada.
    Aqui, novamente, nota-se o governo chinês utilizando o seu peso geopolítico e econômica para fomentar um novo modelo de desenvolvimento. Com a China mantendo seus preparativos para lançar seu mercado nacional de carbono neste ano, estima-se que 20% das emissões globais serão cobertas por mecanismos de precificação, hoje adotados por mais de 60 países e mais de 500 empresas no mundo. Outras 700 companhias planejam fazer o mesmo até 2018, segundo o CDP.
    A preocupação de ver as “portas fechadas” para as oportunidades de um mundo voltado para a economia de baixo carbono tem estimulado autoridades municipais e estaduais dos Estados Unidos a reforçar ou ampliar o compromisso com políticas públicas e tecnologias verdes. Os estados de Nova York, Washington e Califórnia – que reúnem um quinto da população e do PIB do país e responderam por 11% das emissões em 2014 – anunciaram que irão manter as suas metas de redução de poluição global, mesmo com a decisão do governo federal na direção oposta. Outras 200 prefeituras fizeram pronunciamentos na mesma direção.
    A Califórnia – que, se fosse um país, seria a sexta maior economia mundial – reforçou sua decisão de que 50% de sua energia seja oriunda de fontes renováveis até 2030 e que toda sua energia seja gerada por fontes limpas até 2045. A região quer criar mais valor na economia de baixo carbono. Com a adoção de leis que buscaram incentivar a utilização de novas tecnologias, a economia da Califórnia expandiu 80% entre 1990 e 2014 e sua população cresceu 30%, mas as emissões per capita caíram cerca de 20% neste período e as emissões por produção econômica despencaram 44%, segundo estudo da Comissão de Energia do Estado.
    Os resultados alcançados pela Califórnia ao longo das últimas três décadas reforçam a percepção de que crescimento econômico e redução das emissões de CO2 podem caminhar lado a lado, gerando riquezas, renda e novos empregos. Estudo recente da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, sigla em inglês) prevê que essas fontes de energia deverão agregar US$19 trilhões para a economia mundial até 2050 e criar seis milhões de empregos.
    A nova configuração do Acordo de Paris não terá impactos significativos no curto prazo para o Brasil, que, no começo de junho, promulgou os compromissos assumidos pelo País para combater as mudanças do clima. Dispondo de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo – sendo 80% da geração elétrica oriunda de fontes limpas, com ênfase para as hidrelétricas e usinas eólicas –, o Brasil e as empresas brasileiras podem ganhar espaço no cenário internacional, por exemplo, seja atraindo investimentos em fontes renováveis, seja na exportação de produtos com menor pegada de carbono.
    No médio e longo prazos, a nova dinâmica geopolítica pode significar o estreitamento dos laços econômicos de Brasil e China. Hoje, o país asiático já é o principal parceiro comercial do nosso País e caminha para se consolidar como um dos principais investidores estrangeiros, sobretudo no campo da infraestrutura. A cooperação entre as duas nações, a exemplo da criação de um fundo de investimento com US$20 bilhões para financiar projetos nas áreas de Logística, Energia, Recursos Minerais, Agricultura, Indústria de Manufatura e Serviços Digitais, pode alçar o Brasil à posição de líder proeminente no processo de transição para uma economia global de baixo carbono.