Rolando Boldrin, um brasileiro sem máscara

Ao completar 80 anos, Rolando Boldrin, um caipira ilustrado, liberou sua biografia escrita por Willian Correa e Ricardo Taira, jornalistas da TV Cultura de São Paulo. O livro é editado pela Contexto.

A história é muito boa, tipicamente brasileira: conta como o auxiliar de sapateiro de São Joaquim da Barra (SP) se tornou ator, compositor e cantor na cidade de São Paulo, onde chegou em 1958, aos 22 anos de idade.
Desde criança, quando formou uma dupla caipira (Boy e Formiga) com o irmão mais velho, Rolando Boldrin sonhava ser ator na pioneira TV Tupi, fundada em setembro de 1950 em São Paulo. Pois o cara chegou lá, foi entrando pelas beiradas, fez uma ponta aqui, outra ali, e de repente estava trabalhando como coadjuvante ao lado de atrizes como Irene Ravache e Rosamaria Murtinho.
No filme Doramundo, dirigido por João Batista Andrade com base em livro de Geraldo Ferraz, fez um marcante maquinista de trem que tinha por rival o galã Antonio Fagundes.
Entrevistado pelo Roda Viva, da TV Cultura, Boldrin, a cavaleiro em sua imensa experiência musical, esclareceu algo que pouca gente percebe na atual barafunda cultural brasileira, onde os interesses comerciais são mais fortes do que melodias e ritmos nativos.
“No meu programa, não deixo usar chapéu de caubói americano”, disse ele. Por que? Porque o chapéu de cow boy é da cultura country americana. E também a camisa listrada, a calça jeans e a botinha de salto. Não é birra gratuita contra o império americano, apenas coerência de um brasileiro disposto a valorizar as coisas autênticas deste país.
Afinal, o programa se chama Sr. Brasil. Boldrin sabe como se misturam as coisas, manipulando símbolos e conceitos.
Segundo Boldrin, a antiga música caipira, de origem rural, foi transformada em “sertaneja” por interesse comercial.
Sertaneja autêntica é a música do sertão nordestino, afirma ele, sem qualquer empostação intelectual.
Por sua vida e obra, Boldrin é uma expressão do Brasil caboclo que sobrevive nas zonas rurais, nos arrabaldes das grandes cidades e nas pequenas comunidades do interior.
Seu programa na TV Cultura, Sr. Brasil, apresentado todo domingo às 10 horas, tira do desvio inúmeros artistas sem espaço nos canais comerciais de rádio e TV.
Não é à toa que cantores e compositores reverenciam Boldrin como uma espécie de padrinho da autêntica música brasileira, o que abrange o baião, o bugio, a catira, o chote, o congo, a guarânia, a milonga, o maçambique, a moda de viola, o pagode, a rancheira, a valsa, o xaxado, o vanerão e as diversas variantes do samba.
Sim, o samba: surpreendentemente, em seu depoimento à Roda Viva, Boldrin revelou gostar de samba de Moreira da Silva, Germano Matias e Adoniran Barbosa.
Sem pose de professor, Boldrin é um brasileiro como Paulinho da Viola, Elomar Figueira de Mello, Geraldo Azevedo, Nelson Coelho de Castro, Renato Teixeira e outros representantes de uma cultura massacrada pelos interesses da indústria cultural, serva do showbiz americano e afins.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“…repetindo os esquemas senhoriais anciães, em umas zonas mais que em outras, o interesse privado dos ‘coronéis’ ou poderosos locais se sobrepõe ao desenvolvimento dos interesses públicos, gerando formas regionalizadas de despotismo, a impossibilitar, entre outras coisas, a ‘democracia cultural’. Todavia, parafraseando Zunthor, a cultura popular é amacetada, mas impossível de se extirpar, pela acusação de heresia religiosa ou paganismo estético.”
Romildo Sant’Anna – A MODA É VIOLA – Ensaio de Cantar Caipira, Arte & Ciência/Unimar, 395 p., 2000

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