Categoria: Análise&Opinião

  • VILSON ROMERO/ E agora, Luis Inácio III?

    Vilson Antonio Romero (*)

    Muitos problemas seguem batendo à porta dos brasileiros nesta virada de ano.

    A desigualdade social neste nosso país subdesenvolvido é escancarada em cada semáforo, ou sob viadutos e marquises.

    Nas barraquinhas e camas de papelão espalhadas por todos os cantos.

    Há alguns anos era somente nas metrópoles, mas se espalharam como um rastilho de pólvora durante a pandemia de coronavírus que teima em não nos abandonar.

    Nosso índice de desenvolvimento humano (IDH) segue catastrófico.

    Com duas quedas seguidas, o Brasil se situa em 87ª posição no ranking de desenvolvimento entre 191 países, com um IDH de 0,754.

    Nas Américas, o país com a melhor colocação é o Canadá, na 15ª posição, com índice de 0,936.

    Na sequência vêm os EUA, em 21º, com IDH de 0,921. Seguimos atrás de Chile, Argentina, Uruguai, e Peru, segundo o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) que avalia expectativa de vida, educação e renda per capita.

    Esses indicadores são reforçados pelo recrudescimento da pobreza extrema em todo o território nacional.

    As intercorrências da covid-19, segundo o IBGE, fizeram aumentar em mais de 22% o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. Já o número de pessoas em situação de extrema pobreza saltou 48,2% no último período avaliado.

    Isso significa que quase 12 milhões de brasileiros passaram a viver abaixo da linha da pobreza e outros 5,8 milhões foram empurrados para o submundo da extrema pobreza.

    São mais de 62 milhões de brasileiros que recebem o novo governo em famílias com menos de US$ 5,50 diários para seu sustento.

    Dentre estes, quase 18 milhões sobrevivendo (como se isso fosse possível!) com renda mensal per capita até R$ 168, segundo os critérios do Banco Mundial.

    Incontestável é a falta de comida no prato.

    O governo terá que implementar medidas urgentes para mitigar a fome de mais de 33 milhões de brasileiros.

    A insegurança alimentar, ao lado do combate ao desemprego e ao trabalho precarizado, são problemas que exigirão políticas públicas urgentes que estão além dos R$ 600 do Bolsa Família.

    Ao largo do debate sobre responsabilidade fiscal, há que ser priorizada a pauta da responsabilidade social, sob pena de cada vez mais as placas de papelão pedindo dinheiro, comida e ajuda avançarem além das esquinas da Faria Lima ou da avenida Paulista, e invadirem o centro econômico que o acolhe o Senhor Mercado.

    Esse é o Brasil que espera o novo ano e o novo governo. Luis Inácio III assume com enorme responsabilidade de mitigar estas mazelas ao longo de seu mandato.

    Oremos!

    (*) Jornalista, auditor fiscal, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (ANFIP)

     

     

     

     

     

     

     

     

  • MARCIA TURCATO/ A posse de Lula

    Por Márcia Turcato*

    Antes de escrever sobre a posse de Lula, preciso comentar sobre Anderson Torres. O ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres (União Brasil), 46, vai retornar à secretaria de Justiça do Distrito Federal.

    Convidado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), 51, eleito para um segundo mandato, Torres aceitou. Ele foi homem de Ibaneis de 2019 a 21, depois foi repassado para o governo federal onde cumpriu com desenvoltura o papel de ser o homem de Bolsonaro.

    Advogado de formação e ex-delegado de polícia, Torres não considerou antidemocrático, nem imoral, nem absurdo ético, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) matar por sufocamento Genivaldo Santos, 38, em uma abordagem de rotina em Umbaúba (SE), em maio. Também não fez nada para permitir o acesso de eleitores às salas de votação no segundo turno quando foram parados nas estradas pela PRF, ela de novo.  Nem solicitar ao STF que institutos de pesquisas fossem investigados. Requerimento rejeitado pelos ministros da Suprema Corte.

    Torres também considerou normal viajar ao Rio de Janeiro para dar apoio ao ex-deputado Roberto Jefferson, que atirou contra policiais e ainda jogou granadas nos veículos oficiais.

    Em 12 de dezembro, em Brasília, ele não interrompeu o jantar com amigos para assumir o enfrentamento aos bolsonaristas que tentaram invadir a sede da Polícia Federal, incendiaram carros e ônibus e promoveram o vandalismo pelas ruas centrais da capital da República.

    Coube ao futuro ministro da Justiça do governo Lula, Flávio Dino, tomar a ação para si.

    Diante dessa performance, não foi surpresa para ninguém o silêncio de Anderson Torres diante da tentativa de atentado a bomba em Brasília, por um terrorista bolsonarista, na véspera do Natal.

    No sábado, 24, a polícia desmontou uma bomba que estava presa a um caminhão-tanque carregado com querosene e que iria abastecer o Aeroporto Internacional de Brasília.

    George Washington Souza, 54, empresário de Xinguara, Pará, admitiu participar do acampamento bolsonarista em frente ao QG do Exército em Brasília e que sua motivação foi o incentivo de Jair Bolsonaro ao armamento civil e que pretendia provocar o caos para que fosse decretado o Estado de Sítio em Brasília e assim impedir a posse do presidente da República eleito Luís Inácio Lula da Silva.

    Em depoimento, Souza entregou o nome de outro terrorista, Alan Diego dos Santos, foragido.

    Em entrevista coletiva, o futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, disse que alguns aspectos da cerimônia da posse de Lula serão reavaliados e que os “acampamentos bolsonaristas são incubadoras de vandalismo” e que são intoleráveis.

    Extra-oficialmente circula em Brasília a informação de que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ofereceu ajuda para a posse de Lula e que a embaixada do país no Brasil fez a reserva de 240 apartamentos na rede hoteleira.

    Além disso, teriam sido mobilizados 700 agentes da Polícia Federal para o ato e 300 atiradores de elite estão a postos em diversos prédios da Esplanada dos Ministérios, cenário do trajeto da cerimônia da posse presidencial. Também haverá barreira nas estradas de acesso à Brasília e vistoria rigorosa em bolsas e mochilas das pessoas que cruzarem a cerca de segurança para entrar no espaço da Esplanada para assistir a posse.

    A recomendação é que as pessoas não utilizem mochilas, nem sacolas, no dia primeiro de janeiro de 2023 para agilizar o acesso ao cenário da posse de Lula.

    Sim, vai ter posse. Antes das cerimônia oficial, que começa às 15h, haverá show no gramado da Esplanada a partir das 11h do dia primeiro de janeiro.

    A proximidade do governador do DF, Ibaneis Rocha, com o pior do bolsonarismo, não será um fator impeditivo para a festa popular.

    As forças de segurança do Estado irão garantir a ordem e a tranquilidade para o grande evento democrático da posse do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato.

    *Jornalista, autora do livro Reportagem: da ditadura à pandemia

     

     

     

     

     

  • MÁRCIA TURCATO: O relatório da terra arrasada

    Por Márcia Turcato*
    Quatro anos de governo Bolsonaro. 1.460 dias de desmonte do espaço democrático foram resumidos no relatório “Radiografia do Desmonte do Estado e das Políticas Públicas”, de 73 páginas, construído pela equipe
    do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva em 34 dias de intenso trabalho e que envolveu mais de mil pessoas organizadas em cerca de 30 grupos temáticos. O documento foi tornado público na quinta-feira, 22 de dezembro, em evento realizado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em Brasília.
    O relatório mostra que Lula recebe no dia primeiro de janeiro de 2023 uma herança socialmente perversa, pavimentada por meio de uma política antidemocrática, que promoveu a desconstrução institucional, o
    desmonte do Estado e a desorganização das políticas públicas.
    Ao apontar o desmonte do Estado, onde a diretriz de Bolsonaro foi oferecer menos direitos para a maioria e mais direitos para a minoria, o governo Lula identifica onde sua equipe terá de atuar com celeridade
    para recuperar o país, resgatar a cidadania e recuperar a autoestima da Nação.
    O desmonte promovido por Bolsonaro e sua equipe, onde o economista Paulo Guedes ocupou lugar de destaque do começo ao fim do pesadelo, atingiu o setor da saúde com um corte de R$ 10,47 bilhões.
    Com isso, vários programas foram descontinuados ou extintos, como o Mais Médicos, não há recurso garantido para Aids/HIV, não há estoque de vacinas contra covid-19 e não há campanhas públicas de vacinação ou prevenção de agravos. A taxa de crianças vacinadas, em média, caiu
    de 70% para menos de 50%.
    As campanhas de utilidade pública eram construídas pelo Ministério da Saúde junto a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom/PR), que teve seu status extinto e passou a ser um apêndice do
    Ministério das Comunicações. Esse ministério não tem relação alguma com estratégias de comunicação, é um órgão técnico cujas atribuições estão relacionadas, basicamente, à regulação dos serviços de radiodifusão e conectividade.

    Num governo que se manteve à força da
    desinformação -as chamadas fake news- não havia interesse algum em promover o acesso à informação. Aliás, Bolsonaro criou o sigilo de um século para várias de suas ações. Na área da Educação, em plena pandemia, com as crianças sem acesso à sala de aula e com muitos pais desempregados ou sem renda,
    Bolsonaro congelou o valor da merenda escolar em 0,36 centavos por criança, apesar dos alunos terem direito à alimentação. No Esporte, que também contempla atividades voltadas para crianças, o orçamento caiu de R$ 3,4 bilhões para R$ 890 milhões.
    O governo que finalmente chega ao fim, ampliou o discurso de criminalização das artes e da cultura e fez de tudo para amordaçar os artistas. A partir de 2016, com o golpe de Michel Temer, a Cultura perdeu 85% do seu orçamento e deixou de ser ministério.

    A Cultura, junto com a Educação, sempre foi espaço de resistência e é assim em todo o mundo. Estrategicamente, Bolsonaro e seus cúmplices
    começaram por aí o desmonte da articulação popular e o esfacelamento da organização social. As manifestações populares, ligadas às tradições e às comunidades tradicionais, não receberam nenhum apoio financeiro.
    A área que atendia as demandas das mulheres e direitos humanos foi transformada em missão religiosa. Sob o comando de Damares Alves, agora eleita senadora, o serviço Disque 100, que atendia denúncias e orientava pessoas em situação de vulnerabilidade, foi utilizado para
    fazer busca ativa em telefonemas de assédio para estabelecimentos de ensino que exigiam atestado de vacinação contra covid-19, aponta o relatório. Ao mesmo tempo, o Ministério da Justiça, por meio de seu titular, para nosso espanto, promovia ataques às instituições e à
    democracia.
    Nas Relações Exteriores, o Brasil de Bolsonaro se aproximou de ditaduras, criticou democracias, atacou organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), e apoiou a invasão da embaixada da Venezuela em Brasília. E, por fim, cortou relações com o
    governo de Nicolas Maduro e estabeleceu relação com o golpista Juan Gaido, autoproclamado presidente da Venezuela.
    O fim da era Bolsonaro deixa o Brasil com uma inflação de 26%, um aumento de 60% no desmatamento da Amazônia e do Cerrado, sem o programa Minha Casa Minha Vida, sem verba para programas de
    mobilidade urbana, sem recurso para a Defesa Civil para o
    enfrentamento às catástrofes, devolve ao mapa da fome 33,1 milhões de brasileiros e 125,2 milhões (mais da metade da população do país) em situação de insegurança alimentar.
    Ao assumir no dia primeiro, Lula e sua equipe, formada por integrantes que participaram da ampla frente social e de partidos políticos que articulou sua eleição vitoriosa, terão de desmontar todas as armadilhas enterradas por Bolsonaro e reconstruir as políticas públicas e de proteção social que fazem do Brasil uma democracia que respeita a diversidade e promove a equidade ao mesmo tempo em que assegura o crescimento econômico e social.
    *Jornalista, autora do livro “Reportagem: da ditadura à pandemia”

  • DÉCIO GUIMARÃES/ Saudades do Brasil

    Mudei eu, ou mudou tudo, de uma hora para outra, e não me avisaram?. Só assim se explica esta nova versão do brasileiro e do país que chamamos Brasil.

    Por estes caminhos e descaminhos da vida, sofremos e ficamos abalados com o surgimento da pandemia.
    Que devastou o mundo, e tocou fogo na cozinha e nos quartos de todos nós. Deixou-nos desamparados, e sentados à beira do caminho, como diz a música do
    inesquecível mestre Erasmo Carlos.
    Estamos ainda apagando incêndios, e procurando entender o que se passou, e quais são as sequelas e ensinamentos que nos deixou o Coronavírus.
    Houve uma mudança brusca na vida do brasileiro, trocamos abruptamente de rotina, e do modo como víamos o Mundo.
    Nossa interação com o Planeta, e com seus habitantes e o meio ambiente, também, sofreram interrupções.
    Acrescente-se a tudo isso às eleições presidenciais, e a forma como reagiram as partes envolvidas.
    No meio da realidade que grita por mudanças, e persegue um novo caminho, encontramos pessoas e organizações que têm dificuldade em aceitar o resultado do pleito.
    Dia após dia, desde o encerramento das urnas, pessoas e organizações resolveram abrigar-se em frente aos quarteis e assemelhados, numa forma de protestar, e dizer que era preciso outra solução, armada, para que não se promovam mudanças “que retiram a liberdade e são contra a Família.”
    Ignoram eles que houve eleição, onde foram escolhidos e aprovados nomes, de maneira incontestável, portanto, não é mais possível voltar atrás e dar outro veredicto.

    Mas o que mais impressiona a nós outros, que não frequentamos quarteis e nem fazemos barricadas, é o desapego à Democracia e seus valores intrínsecos, que
    demonstram os seguidores do candidato derrotado.
    Segundo o ex-Primeiro Ministro Winston Churchill ‘“A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que foram tentadas.”
    Então, o momento que se segue é o de obedecer ao rito normal de país democrático, que é visto pelo Mundo como um parceiro a ser admitido no concerto das nações.
    A alternância do poder e a mudança, via transição, de governo para o outro, devem servir de modelo a ser ensinado nas escolas e obedecido por todos os cidadãos.
    A forma com está sendo conduzida a transição, coloca em xeque as opções acima referidas, pois numa atitude negacionista e revanchista, somos mantidos em um estado de tensão, o que nos obriga a chamar às falas os dirigentes de fim de mandato.
    Passado mais de mês do fechamento das urnas, e da divulgação do resultado, era natural que se obedecesse ao rito normal da sucessão.
    Como ainda não foi superado o evento eleitoral, é preciso trazer à baila uma reflexão episódios marcantes da história, que muito bem podem servir de exemplo para as
    gerações vindouras.
    Ou, como afirma o jornalista Charles W. Brow, num recente artigo na Folha de S.Paulo, “A democracia está sendo salva pela pura força de vontade de pessoas que estão escalando uma montanha que nunca deveria ter sido colocada diante delas“.
    Desde do advento da democracia em nosso país, depois de 1964, os períodos eleitorais sempre sofreram percalços, e deixaram um rastro de discórdia.
    O que se viu em 2022, na eleição presidencial, com candidaturas bastante heterodoxas, conflitantes e de matizes bem delineadas, não deveriam trazer nenhuma surpresa. Mas não foi o que aconteceu.
    E o Brasil como fica, diante desta situação?
    É preciso relembrar que temos instituições sólidas, pessoas de bom senso em lugares estratégicos, e um país de fazer inveja.
    Sim, temos manguezais, praias, somo produtores de alimentos, fazemos carnavais e festas regionais.
    Temos, também, pessoas famintas, favelas e pessoas morrendo de covid, além de uma dívida social impagável.
    No entanto, somos incensados em todos os lugares que andamos, seja pelo futebol-arte, seja pela música atemporal, ou pela resiliência em ressignificar as vontades do povo, pelos exemplos de solidariedade e compaixão.

    Muitos deles foram, exemplarmente, mencionados durante a pandemia, como o pedido de socorro no Amazonas, ou pelo histórico da vacinação ordeira e pacífica, e, por último, mas não menos importante, eleições livres e limpas.

    Mas que Diabo aconteceu com as pessoas que, ao contrário dos demais, insistem e vocalizam falsas promessas, clichês de um politica equivocada, pedindo à volta dos militares, e clamando por um processo que se mostrou equivocado ao longo da história.
    Ser de direita, também, requer obediência ao rito democráticos, ganhar ou perder é do jogo eleitoral, mas ficar se lamentando em porta de quartel, ultrapassa todos os limites da consciência cidadã.
    Volte Brasil a ser o que você sempre foi, não ao passado de triste memória, ele só servirá para relembrar o que não deveríamos repetir.
    Volta Brasil, sinto saudade!

    *Décio Guimarães é advogado e poeta

  • MÁRCIA TURCATO/ Uma armadilha do golpe de 2016

    Por Márcia Turcato*

    Manter a lei de responsabilidade das estatais tal como foi sancionada em 2016 é dar sobrevida ao golpe de Michel Temer contra a presidenta Dilma Rousseff e o estado democrático de direito.

    A lei é, basicamente, o resultado de negociação entre PSDB e MDB, de autoria do senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), e tem o objetivo de resguardar espaço para esses dois partidos nos altos cargos das estatais.

    Os dois partidos, afastados há muito da liderança dos grandes centros de negociação política e, por isso mesmo, sem chances de ocupar a gestão de estatais, fizeram uma espécie de reserva técnica para si mesmos.

    É praticamente impossível que uma grande liderança política, com destaque em várias áreas de atuação da vida pública, viva três anos sem participar de eleições. A exigência da lei de 36 meses de vida anônima é absurda, só favorece pessoas sem vida pública conhecida e que podem servir de fantoche para espertalhões da política.

    Essa lei é apenas uma das incongruências do cenário de insensatez que o Brasil experimenta desde o golpe de 2016 e que contou com a conivência do Congresso e do Judiciário.

    O mesmo Judiciário para o qual agora batemos palmas por ter saído do estado letárgico. Essa letargia permitiu a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, que construiu uma fantástica estratégia de comunicação, baseada em informações falsas, e para a qual o TSE não estava preparado, não buscou se preparar e não se preocupou em enfrentar, apesar dos esforços da sociedade civil, em especial de entidades de jornalistas profissionais, em oferecer sugestões e mão-de-obra para o enfrentamento.

    Agora, às vésperas da posse do presidente Lula, vemos estarrecidos o Brasil ter 960 mil CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores de Armas), quando eram 203 mil em 2018 e 4.900 registros mensais de armas de fogo. Hoje, são 37.400 registros ao mês.

    Atualmente, dois milhões de civis têm armas em casa, desde revólver a fuzis com mira telescópica e muita munição. É um exército, não institucional, e de pessoas armadas andando pelas ruas.

    A maioria tem autorização de posse e pode levar a arma para onde quiser, como fez a deputada bolsonarista Carla Zambelli e o ex-deputado Roberto Jefferson, também bolsonarista.

    O Brasil, que tem uma lei que regulamenta a compra, o registro e o porte de armas, deu milhares de passos atrás neste tema durante o governo Bolsonaro.

    A Lei 10.926, que disciplina o tema, foi sancionada por Lula em 23 de dezembro de 2003, em seu primeiro mandato. O principal escopo da matéria, de autoria do então senador Gerson Camata (PSDB/ES), é autorizar que apenas as Forças de Segurança tenham autorização para o porte de armas de fogo.

    Por ironia do destino, o senador, que também foi governador do Espírito Santo, foi assassinado com um tiro em 26 de dezembro de 2018.

    Nada é por acaso. Há uma rede de fatos interligados e que sustentam o arbítrio vivido pelo país desde o golpe de 2016. A estrutura do golpe precisa ser desconstruída e, para tanto, todas as armadilhas constitucionais enterradas ao longo do caminho, como minas de guerra, e que colocam em risco a democracia, precisam ser exumadas e sepultadas para sempre.

    *Jornalista, autora do livro ” Reportagem: da ditadura à pandemia”.

     

     

  • ELMAR BONES/ Renato Fonseca, o Divino (anotações para um perfil)

    Divino Renato Fonseca. Na primeira vez que nos encontramos chamei-o de Renato. Era elegante, simpático, gentil, mas achei que Divino era demais.

    Era 1965, cheiro de ditadura no ar, ele era presidente do Clube de Jornalismo, que congregava os alunos curso  de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, meia centena de candidatos a uma profissão ainda dominada pelos chapas-brancas.

    Nas primeiras conversas me dei conta: o nome Divino calhava naquele cara. Foi um dos meus primeiros amigos em Porto Alegre, um dos mais encantadores.

    Certa vez, numa festa, um dos convidados bebeu demais e se exaltou, começou a gritar e a xingar todo mundo. Divino levantou da cadeira, contornou a mesa  e tentou acalmar o sujeito, que reagiu aos berros. Ele agarrou o cara pelo colarinho, deu-lhe uns três tapas e o jogou na cadeira. Deu as costas, saiu calmamente e veio sentar-se. O cara levantou e deu o fora.  “Que foi isso Divino?”.  “Ele estava abusando”.

    Seu primeiro emprego, antes de sair da faculdade, foi como fiscal da Secretaria de Indústria e Comércio de Porto Alegre. Numa das primeiras operações de fiscalização encontrou irregularidades numa grande empresa, a multa era alta, o dono ofereceu propina, ele recusou,  foi ameaçado de morte se levasse adiante o processo. Levou o problema ao diretor e foi aconselhado a aceitar o suborno e evitar o pior. Registrou as notificações de multa e pediu demissão do emprego público.

    Juca Kfouri lembrou o apelido que os colegas da Placar lhe deram: “O Dostoiéviski dos pampas”.  Seus textos eram lidos em voz alta na redação.

    Na “História Ilustrada de Porto Alegre” ele foi o editor de texto. O projeto era uma série de fascículos, descrevendo a formação da cidade, desde a pré-história até o presente (1997).

    Era uma operação complexa, com repórteres, pesquisadores, fotógrafos   Ele foi a indicação unânime para finalizar o texto, que precisava ser simples, claro e conciso. A redação vibrava com os títulos e as sacadas. O historiador Sérgio da Costa Franco, que era nosso consultor, devolvia os originais com elogios.  O Caco Schmitt, que chefiava a equipe até hoje se emociona. Sim, o nome Divino definia bem aquele cara.

    NR: O jornalista Divino Renato Fonseca morreu no dia 10/12/2022, aos 80 anos.

    Equipe que produziu a “História Ilustrada de Porto Alegre”, em 1997: da esquerda para a direita: Luiz Ávila, Divino Fonseca, Adelia Porto, Elmar Bones, Caco Shmitt, Sérgio da Costa Franco, José Antonio Czamanski, Rosana Carlessi, Ricardo Fonseca, Paulo Pingret e Clô Barcellos.

     

     

     

     

  • ELMAR BONES/ O alvo é Lula

    A edição do Globo deste domingo é histórica, do porte daquela, de 1 de abril de 1964, em que deu em manchete que Jango havia saído do pais, quando ele estava em Porto Alegre.  Falo da edição on line que acessei agora às 22h55, deste domingo 27/11/2022. Quase não acreditei. A manchete cobra de Lula que um mes depois da eleição ele não apresentou o ministério. O Bolsonaro, que há um mês não faz nada, não aparece, sequer o nome na capa, por incrível que pareça. Nada interessa, o alvo agora é Lula.  

  • ELMAR BONES/ Prefeito brinca com fogo?

    Tudo indica que o prefeito Sebastião Melo está brincando com fogo.

    A audiência extraordinária na Câmara, na noite desta terça-feira, 23, não deixa dúvidas: a ideia de considerar o parque da Redenção como um ativo urbano e entregá-lo a uma gestão empresarial é explosiva.

    Ainda mais com um projeto de estacionamento subterrâneo embutido. É um projeto tão inábil que não faz jus à inteligência do prefeito Melo.

    Por isso, talvez, muitos militantes do movimento contra a concessão suspeitem que a Redenção é o “bode na sala” do pacote de parques a serem concedidos a investidores privados.  Nas negociações, o prefeito retira a Redenção e passa o resto da boiada.

    A audiência extraordinária, porém, mostrou que a situação pode fugir ao controle.

    A emocionante mobilização dos usuários do parque da Redenção pode contagiar e gerar um movimento contra qualquer concessão de parque público.

    O Calçadão do Lami, por exemplo, incluído à última hora no projeto, sem conhecimento dos moradores, já tinha vários representantes na audiência, que obtiveram da secretária Pellini a garantia de uma audiência lá no bairro, que não estava prevista.

    Já dizia o velho Rosa: “Quando a esperteza é demais, engole o dono”

  • ELMAR BONES/ De Vargas a Lula

    24 de agosto de 1954.

    A aula recém havia iniciado, a professora foi chamada à sala da diretora e voltou chorando. Não haveria aula naquele dia, todos pra casa. No corredor ouvi: “Getúlio se matou”. “Mataram ele, com certeza”, disse uma velha professora.

    Em casa, encontrei minha mãe na cozinha, chorando. Me abraçou, soluçava: “Morreu o pai da gente”.

    Getúlio Vargas era o “pai dos pobres” e a comoção que tomou conta do pobrerio naquele subúrbio de Santana do Livramento foi como se de fato tivessem perdido o pai.

    Homens choravam nos botecos, indignação gritada nas ruas, alguns saiam para juntar-se aos grupos que se formavam na estação ferroviária, dispostos a embarcar para o Rio de Janeiro.

    A Rádio Cultura intercalava “músicas fúnebres” com as notícias do quebra-quebra em Porto Alegre, da multidão que tomava conta das ruas do Rio de Janeiro. Parecia que o mundo vinha abaixo.

    (Nas aulas de música que tive com o Enio Squeff, bem depois,  descobri que aquela música aterradora que tocava entre as notícias era o réquiem que Johannnes Brahms compôs quando morreu sua mãe).

    No fim o terremoto popular que parecia brotar do fundo da terra dissipou-se  e o que Getulio conseguiu à custa da própria vida foi protelar o golpe por dez anos.

    Brizola com a Legalidade, em 1961, foi o último bastião da resistência getulista, que seria aniquilada com o golpe em 1964.

    Um golpe contra  um projeto nacionalista populista, de conciliação e inclusão social que, na ótica da guerra fria, estava abrindo caminho para o comunismo.

    Seria uma intervenção transitória dos militares para extirpar a corrupção, conjurar a ameaça comunista e, em seguida, restabelecer o poder pelo voto.

    Resultou num regime militar que durou 21 anos, sem encontrar o rumo certo.

    Foi derrubado não só pela política dos porões que adotou, mas principalmente pelo modelo econômico de viés nacionalista- getulista que o general Ernesto Geisel tentou implantar.

    “Deus não me traria de tão longe para ser o síndico da catástrofe”, disse José Sarney ao assumir a presidência da República como o primeiro civil, desde o golpe de 64.

    Sarney era da “ala jovem” da UDN, o partido que comandou a derrubada de Vargas, quando os militares tomaram o poder. Foi aliado do regime desde o primeiro instante, mas quando percebeu a mudança mudou de lado. Era o vice de Tancredo Neves, ex-ministro de Vargas, que morreu na véspera da posse.

    Poderia dizer que aí, quando Sarney se tornou presidente pelo voto indireto (e não quando os milicos derrubaram Jango), é que se deu a derrota definitiva de Getúlio Vargas e seu projeto.

    O resultado da primeira eleição direta, em 1989, seria a confirmação: Fernando Collor, também da vertente udenista/arenista, sucedeu Sarney, derrotando Lula e Brizola dois herdeiros da herança trabalhista de Vargas, que se dividiram. Era mais uma pá de terra em cima  daquele cadáver.

    Para completar, o sucessor de Collor, Fernando Henrique Cardoso assumiu declarando que seu propósito era “sepultar a era Vargas”, negando suas raízes social- nacionalistas.

    Mas eis que de repente, quando parecia  coberta por várias camadas de terra, a Utopia de Vargas renasceu com a primeira eleição de Lula.

    E, por mais de uma década, pareceu que a nação havia se reencontrado com o seu velho projeto nacional desenvolvimentista, de conciliação de classes e inclusão social.

    O que veio depois de 2015 está na memória de todos.

    Mas parece que a hidra tem sete cabeças e aí está Lula, eleito, com a bandeira do projeto  nacional desenvolvimentista, de conciliação e inclusão social.

     

     

     

     

     

     

    Às vezes penso

    se há sentido continuar

    mesmo tendo perdido

    tanta gente…

    parece que é mesmo

    uma caminhada

    em algum ponto dela

    cada um de nós

    está destinado a ficar pra trás

     

     

     

     

    24 de agosto de 1954.

    A aula recém havia iniciado, a professora foi chamada à sala da diretora e voltou chorando. Não haveria aula naquele dia, todos pra casa. No corredor ouvi: “Getúlio se matou”. “Mataram ele, com certeza”, disse uma velha professora.

    Em casa, encontrei minha mãe na cozinha, chorando. Me abraçou, soluçava: “Morreu o pai da gente”. Getúlio Vargas era o pai dos pobres e a comoção que tomou conta do pobrerio naquele subúrbio de Santana do Livramento foi como se de fato tivessem perdido o pai. Homens choravam nos botecos, indignação gritada nas ruas, alguns saiam para juntar-se aos grupos que se formavam na estação ferroviária, dispostos a embarcar para o Rio de Janeiro. A Rádio Cultura intercalava “músicas fúnebres” com as notícias do quebra-quebra em Porto Alegre, da multidão que tomava conta das ruas do Rio de Janeiro. Parecia que o mundo vinha abaixo.

    (Nas aulas de música que tive com o Enio Squeff  descobri que aquela música aterradora que tocava entre as notícias era o réquiem que Johannnes Brahms compôs quando morreu sua mãe).

     

    No fim o terremoto popular que parecia brotar do fundo da terra dissipou-se  e o que Getulio conseguiu à custa da própria vida foi protelar o golpe por dez anos.

     

    Brizola com a Legalidade, em 1961, foi o último bastião da resistência getulista, que seria aniquilada com o golpe 1964.

    Um golpe contra  um projeto nacionalista populista, de conciliação e inclusão social que, na ótica da guerra fria, estava abrindo caminho para o comunismo.

    Seria uma intervenção transitória dos militares para extirpar a corrupção, conjurar a ameaça comunista e, em seguida, restabelecer o poder pelo voto.

     

    Resultou num regime militar que durou 21 anos, sem encontrar o rumo certo.

    Foi derrubado não só pela política dos porões que adotou, mas principalmente pelo modelo econômico de viés nacionalista- getulista que o general Ernesto Geisel tentou implantar.

    “Deus não me traria de tão longe para ser o síndico da catástrofe”, disse José Sarney ao assumir a presidência da República como o primeiro civil, desde o golpe de 64.

    Sarney era da “ala jovem” da UDN, o partido que comandou a derrubada de Vargas, quando os militares tomaram o poder. Foi aliado do regime desde o primeiro instante e seria vice de Tancredo Neves, ex-ministro de Vargas, que morreu na véspera da posse.

     

    Poderia se dizer que aí, quando Sarney se tornou presidente pelo voto indireto (e não quando os milicos derrubaram Jango) é que se deu a derrota definitiva de Getúlio Vargas.

    Na primeira eleição direta, em 1989, Fernando Collor, também da vertente udenista/arenista, sucedeu Sarney, derrotando Lula e Brizola dois herdeiros da herança trabalhista de Vargas, que se dividiram. Era mais uma pá de terra em cima  daquele cadáver.

     

    Para completar, o sucessor de Collor, Fernando Henrique Cardoso assumiu declarando que seu propósito era “sepultar a era Vargas”, negando suas raízes social- nacionalistas.

    Mas eis que de repente, quando parecia  coberta por várias camadas de terra, a Utopia de Vargas renasceu com a eleição de Lula.

    E, por década e meia pareceu que a nação havia se reencontrado com o seu velho projeto nacional desenvolvimentista, de conciliação de classes e inclusão social. Durou pouco mais de dez anos.

    O que veio depois de 2015 está na memória de todos. Mas parece que a hidra tem sete cabeças e aí está Lula, eleito, com a bandeira do projeto  nacional desenvolvimentista, de conciliação e inclusão social.

     

  • ELMAR BONES/ Já está nos editoriais

    O maior desafio do governo Lula é rever o modelo econômico implantado a partir de 2016. Que modelo é esse?

    Neoliberalismo é o rótulo genérico, mas ele tem muitas nuances. Numa delas, poderia ser chamado de neocolonialismo.

    Ele vem de antes e vem de longe. Teve suas bases lançadas no governo Collor, continuidade nas privatizações do governo FHC, aprofundamento desde 2016, depois de um hiato petista que não abalou sua base ideológica.

    Privatizações, desregulamentação, estrito controle dos gastos do governo, redução do Estado e dos serviços públicos, para abrir espaço aos negócios privados, que seriam o motor da economia e do desenvolvimento social.

    Pelo mundo inteiro, a começar pela Inglaterra de Tatcher, esse modelo teve suas bases teóricas destroçadas pela realidade que produziu:  concentração de renda, desigualdade, estagnação econômica.  Mas seus defensores no Brasil desenvolveram um discurso que, com o “auxilio luxuoso” da mídia,  se tornou dominante: a receita ainda não foi aplicada inteiramente e mesmo assim já tem resultados, portanto, o que precisa é aprofundá-la.

    De fato,  em seis anos desse regime, com uma pandemia no caminho, é fácil embaralhar os dados e valer-se dos indicadores macro-econômicos, devidamente sob controle, para mostrar que a economia está no caminho certo e que, portanto, é preciso manter o rumo e aprofundar o projeto.

    Esse discurso já está nos editoriais. Indício do que vem pela frente.