É preciso esvaziar os bolsões ignaros onde prosperam os ”sem noção”

Geraldo Hasse
Embora o eleitorado tenha se inclinado para o lado direito no primeiro turno das eleições de 2018, o Brasil possui um arcabouço democrático que, mesmo manipulado pelo poder econômico em conjunto com setores dos poderes judiciário e legislativo, deverá proteger os direitos elementares dos cidadãos até que passe o surto autoritário de tendência fascista, esse sim preocupante, porque resulta de uma combinação da ignorância política com diversas carências (afetivas, econômicas, sociais) exploradas por muitos detentores de mandatos eleitorais, por pregadores religiosos e, economicamente, pelos empreendedores privados e seus operadores no Mercado, tudo isso embalado maliciosamente pelos veículos de comunicação de massa, com honrosas exceções.
Brigar com a onda cansa, mas também não é recomendável ficar parado.
É preciso desarmar os gatilhos teóricos e automáticos que tangem as pessoas para um confronto em que a civilização tende a ser vítima de barbaridades encaminhadas pela intolerância.
Sem delongas, dado o adiantado da hora, eis alguns lembretes tão óbvios que não cabe sequer discuti-los:

  1. A reforma da Previdência é necessária mas não pode ser feita de afogadilho, como pretendeu fazer o atual governo presidido por Michel Temer, que superou Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso em submissão às demandas do poder econômico.
  2. A reforma trabalhista, fruto do imediatismo empresarial, precisa ser revista porque está lesando os direitos de milhões de pessoas, enquanto o aumento da informalidade no mercado de trabalho mina os alicerces da Previdência Social.
  3. Feita com cautela e grandeza federativa, uma reforma tributária faria bem a todos, mas precisa favorecer a base da pirâmide social.
  4. Uma reforma político-eleitoral deve necessariamente incorporar os instrumentos eletrônicos (internet) como mecanismo de consulta popular, pois não basta votar apenas de dois em dois anos.
  5. A economia não vai crescer com achatamento salarial e redução do poder de compra dos trabalhadores.
  6. Se os trabalhadores ganharem menos do que ganhavam, as consequências serão evidentemente cumulativas: queda geral do consumo, estagnação da economia, menos lazer, mais doenças e sobrecarga dos serviços públicos de saúde, onerando quem mais precisa de amparo do Estado.
  7. Não tem futuro uma economia em que as pessoas são obrigadas a trabalhar por salário vil, sem garantias e sem esperança de progredir na vida.
  8. Não haverá paz e harmonia numa sociedade rachada pela desigualdade social, cultural e econômica.
  9. O estado democrático de direito é o pressuposto básico do exercício da liberdade pessoal em busca da justiça social.
  10. Ultimamente disfarçado como neoliberalismo, o fascismo é uma doutrina excludente que se nutre do egocentrismo, da frustração, da inveja e da intolerância.

A comparação imposta pelo primeiro turno entre os dois candidatos presidenciais é absolutamente desigual. Pode-se argumentar que ambos são seres humanos sujeitos a equívocos, disparates e hesitações, mas o Brasil não merece ser governado por um destemperado que acredita no castigo, na violência e na ordem unida como método de gestão de pessoas, algo só admissível em comunidades sujeitas a regulamentos rígidos, como acontece em instituições militares ou religiosas, nas quais preponderam a disciplina e a hierarquia.
Por isso crescem as manifestações de medo de um retrocesso político partindo do lado direito do espectro político.
Em termos nacionais, se vencer, o temperamental de Bolsonaro tende a precipitar um governo militarizado em que os “sem noção” se sentirão no direito de praticar a violência contra os adversários políticos e até, gratuitamente, contra alvos habituais como os gays, os índios, as mulheres, os negros e os quilombolas. A eleição do radical de direita poderá ser bom para minorias privilegiadas, não para a maioria.
Em contrapartida, se ele perder, seu inconformismo, “revolta” ou o que seja podem desencadear uma onda de atos de “vingança” para “descarregar” a frustração pela derrota. Por isso é preciso atentar para o ditado segundo o qual “cautela e caldo de galinha não fazem mal pra ninguém”.
Já o estilo Haddad, para se impor, precisa passar um mataborrão sobre os erros praticados por seu partido no exercício do poder. De forma sutil, alguma autocrítica já está rolando. Até que ponto irá, não se sabe.
Tampouco é possível imaginar o resultado desse jogo sutil em que se defrontam, grosso modo, um membro da caserna e um representante da academia. Infelizmente, as duas campanhas se tornaram um tiroteio municiado por marqueteiros.
Olhando para cada um dos candidatos, porém, não resta dúvida de que o centramento do professor Haddad inspira mais confiança do que os rompantes do capitão Bolsonaro.
O resultado final só veremos na prática, tal é o risco da democracia.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O renascimento militar, inequivocamente inspirador da candidatura (do marechal) Hermes da Fonseca, adquiriu maior consciência com a campanha civilista, que negava ao homem de farda a presença na política, em manifesta contradição com o quadro republicano”.
Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, vol 2, pag 600 (Editora Globo, 3ª edição, 1976), referindo-se aos confrontos políticos de 110 anos atrás, em plena República Velha.
 

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