JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte I

Josy Z. de Matos *
De Alicante/Espanha

O caminho que me trouxe até Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, começou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. Entre idas e vindas, fiquei oito anos. Retornei ao Brasil e passei no concurso da Fundação Zoobotânica do RS, em Porto Alegre. Depois de um desastrado governo gaúcho, que extinguiu a FZB, decidi retornar a Alicante para fazer um pós-doutorado junto ao Grupo de Pesquisa em Botânica e Conservação Vegetal na mesma universidade. Minha pesquisa trata da diversidade genética e conservação de cactos do RS.

Início do isolamento voluntário em março. Fotos: Arquivo pessoal

Aqui tenho muitos amigos, então a adaptação sempre é bem fácil. Mas o mais difícil de estar aqui é a distância dos meus filhos, Eduardo e Elis. Eduardo veio passar as férias comigo e voltou ao Brasil no dia 16 de fevereiro, quando o Covid-19 estava começando a aparecer por aqui, com dois casos registrados na Espanha. Um mês depois, foi decretado o confinamento obrigatório e assim começou esta fase tão difícil da nossa história.

No dia 12 de março de 2020 decidi entrar em isolamento voluntário. Nesse dia, fui ao fisioterapeuta, Andrés, para tratar o meu quadril. Conversamos sobre o coronavírus e os tempos difíceis que ainda estavam por vir. Ele me disse que fechariam a clínica e só atenderiam emergências, mas que isso ainda dependia das medidas que o governo tomaria.

Depois fui à universidade, cheguei tarde, passava das 13h e quase todos já tinham saído para almoçar. Benito, meu orientador, estava lá, organizando algumas coisas porque achava que a partir de segunda a universidade fecharia. Conversamos um pouco e eu lhe disse que não voltaria à uni nos próximos dias, que entraria em isolamento voluntário, ao que ele concordou comigo. “Não se preocupe, Josy, na segunda-feira a universidade provavelmente vai fechar”.

Depois disso, fui para a casa, passei pelo supermercado, comprei algumas coisas pensando em ficar uma semana enclausurada. À noite, conversei com minha colega de apartamento, Ariana, e concordamos que o isolamento seria o melhor a fazer nessa situação. Ela me disse: tenho que ir à uni amanhã, mas vou trazer tudo que necessito para trabalhar em casa. Ariana está fazendo um doutorado com moscas, está na fase final da tese.

Naqueles primeiros dias, nada estava claro, sabíamos apenas que a China estava com um número grande de pessoas contagiadas pelo covid-19. Pelos registros chineses, em 22 de janeiro, havia 571 contaminados e, quase dois meses depois, em 12 de março, eram 80.813 casos e 3.176 mortos. A epidemia tinha tomado proporções assustadoras.

Na Espanha os casos começaram em 15 de fevereiro. Eu estava viajando com meu filho Eduardo, que veio passar umas férias comigo. Estivemos em Roma primeiro, depois Edimburgo, Glasgow e Londres, e voltamos à Alicante.

Na Itália, já se falava em contaminados no início de fevereiro, mas o foco era Milano e não ficamos preocupados. Em Londres, comecei a tossir mas como não tive febre, deduzimos que era um simples resfriado. No dia 3 de março, faleceu a primeira pessoa na Espanha e dez dias depois, quando entrei na quarentena, já eram 133 mortos.

O governo espanhol já estava discutindo as medidas de prevenção e, dia 15, no domingo, o presidente do governo socialista, Pedro Sanchez, informou em rede nacional que adotariam a quarentena. Já eram 7.988 infectados. A partir daí, estava proibido sair às ruas, exceto para ir ao supermercado e farmácia. Autorizados a sair somente para trabalhar em atividades de primeiras necessidades.

Nesse momento você pensa: agora vai ficar tudo bem, daqui uns dias voltará tudo ao normal. Mas as cosias nunca funcionam como nós pensamos e a vida ficou mais difícil. No começo é tudo piada, o mundo foi invadido por memes e charges de como enfrentar uma quarentena. Tudo ainda era muito leve, mas os dias vão passando e as notícias só pioram, mais contaminados, mais mortes, mais incertezas.

Daí, vêm os momentos de angústia, de pensar na vida que foi e na vida que virá. Mas, na primeira semana de confinamento, ainda havia muitas controvérsias e incertezas.

É impressionante como neste momento em que o mundo consegue produzir mais informações sobre qualquer assunto e colocá-las à disposição do público de diferentes maneiras, especialmente com a ajuda da internet, surgem tantas informações falsas e tantos “sábios de plantão”. Todos entendem de todos os assuntos. Blogueiros que sabem mais que cientistas, políticos sabem mais do que professores, e, obviamente, qualquer um sabe mais do que os médicos. Esses “espertos” divulgam suas teorias sobre a doença, a origem do vírus e, é claro, as teorias de conspiração, para todos os gostos.

Depois da primeira semana, e mesmo acompanhando o processo na China, onde o vírus começou a se espalhar, a única certeza era que os números seguiriam crescendo. Começam a faltar equipamentos de proteção individual (EPIs) para o pessoal sanitário utilizar, que seriam as máscaras, luvas e roupas hospitalares. Assim, começam a aparecer também os primeiros sanitários contaminados, enfermeiros, médicos, auxiliares e o pessoal de limpeza dos hospitais.

O governo tenta desesperadamente comprar mais EPIs e respiradouros, mas esbarra na falta de material no mercado, subida absurda dos preços e exigência de pagamento adiantado, isso sem falar nas fraudes. A Espanha comprou kits de testes rápidos que prometiam 80% de certeza na detecção do vírus e, ao serem testados, se viu que a precisão era de 30%. Esse material foi devolvido, mas o tempo perdido não se recupera. Pessoas inescrupulosas tentando ganhar dinheiro a qualquer custo, e o custo, neste momento, é a vida de milhares.

Por outro lado, vimos também diversas pessoas trabalhando como voluntários para auxiliar os sanitários a conter o vírus, pessoas ajudando a anciões que não tinham quem os ajudasse, empresários produzindo álcool em gel, máscaras, respiradouros, luvas, alguns famosos doando dinheiro para comprar equipamentos, lojas de esportes doando todas as máscaras de mergulho que poderiam ser adaptadas como respiradouros, etc. Solidariedade ainda existe.

Enquanto assistia e lia o que outros países estavam fazendo para enfrentar esta crise sanitária, todos considerando o isolamento social extremamente necessário para se evitar novas contaminações e mais mortes, no Brasil, o abominável presidente tentando colocar o país no caos e chamando o trabalhador para ir às ruas e voltar a trabalhar, alegando que o vírus era uma “gripezinha”. Assistimos as primeiras  carreatas em algumas capitais brasileiras sob o lema “O Brasil não pode parar”. Pode e deve!

Felizmente, apesar da pressão vinda do Planalto, muitos governadores e prefeitos adotaram o isolamento atendendo, pelo menos em parte, as recomendações de cientistas.

Entrando na terceira semana de isolamento na Espanha, em 31 de março, com novas regras mais restritivas. Nesse dia, o número de mortes caiu para 748 e o número de novos casos registrados diariamente também caiu, de 7.846 (dia 30/03) para 6.461 (31/03).

No entanto, o maior número de mortos se deu no dia 02 de abril, quando chegamos a atingir 961 mortes, sendo este considerado o pico da quarentena na Espanha. Quando isso acontece, a emoção toma conta, o sentimento é de impotência diante de tanto sofrimento. E a solidariedade se torna imprescindível para continuarmos vivendo. Como me disse uma amiga chilena, Marta, nesse dia: já virá a primavera esperada!

Alicante, Espanha . Arquivo pessoal

Após a Páscoa, depois que se firmasse a queda nos números de novas contaminações (3.804) e mortos (603), a Espanha liberou o funcionamento dos estabelecimentos de comida para entrega, de serviços como eletricidade, encanamento, centros médicos, etc. E o governo já estuda como realizar o retorno às atividades de uma maneira segura.

E com a esperança de que esse novo mundo que vamos iniciar seja mais igualitário e as relações mais humanitárias!

* Bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.  

7 comentários em “JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte I”

  1. Josi, muito profundo o teu relato. Obrigado por compartilhar. Te desejo muita sorte e sucesso aí na Espanha e que o Sr te Proteja. Fique bem.
    Abraço

    1. Oi, Sílvio, obrigada pelas tuas palavras! Estou enviando mais artigos, acho que estes relatos são uma boa maneira de divulgar mais informações sobre a pandemia no mundo e assim fazer uma comparação das situações. Sucesso pra tí também, fica bem!

  2. Belíssimo texto, Josi!!!

    Estamos em um período que é necessário guardar-se e refletir muito sobre o futuro, as tomadas de decisões exigem seriedade e bom senso. É momento de racionar e repensar no materialismo, é o tempo de potencializarmos a fé e a espiritualidade. É momento de sermos críticos quanto as informações e as políticas públicas. A vida é essencial e insubstituível.

    Por outro lado, vejo tantas histórias de solidariedade, humanidade e amor ao próximo. O que contrapõe ao desespero, a brincadeira de outros, e ao descaso absurdo dos lideres políticos. Que o bem e o amor prevaleçam e que esta tempestade leve os dias difíceis e a primavera traga muita aprendizado.

    Abraços e cuida-te mucho, mamacita!!

    1. Oi, Elivania, muito obrigada por teu comentário. VC tem toda razão, é hora de repensarmos a vida como vinha sendo até agora. Quando bate o desespero pelas incertezas do momento o melhor é olhar ao redor e ver as boas ações sendo feitas. São muitas! Beijo grande e força!

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