Marketing, o Deus da cara de pau

Cláudia Rodrigues
Essa semana três notícias dadas pela mídia convencional celebraram a total falta de noção ética e social do setor de marketing de instituições públicas e privadas.
Primeiro foi o governo do Rio Grande do Sul que organizou exposição de roupas usadas em local privado, shoppings, para campanha do agasalho, expondo vestuário de inverno doado por personalidades gaúchas. É isso mesmo, 12 peças pregadas em estandes com o histórico sentimental da roupa. Deve ser o que consideram PPP, participação público privada. O slogan seria: “Ricos, comovam-se com a história sentimental de uma roupa”
Coca-cola, Pepsi e AMBEV exibiram nos jornais o press release de bom mocismo barato sobre o relacionamento alimentar abusivo que mantêm com crianças e adolescentes desde a década de 1960. Para quem não sabe a comida industrializada é a principal  responsável por problemas endócrinos, respiratórios, alérgicos e cardiológicos de crianças e adolescentes do país. O fenômeno atinge todas as classes sociais.
As empresas aproveitam o ensejo para anunciar que seu relacionamento abusivo com crianças e adolescentes continuará firme, mas agora, garantem, estão preocupadas com a saúde.
Os pequenos até 12 anos poderão tomar achocolatados repletos de açúcar, carboidratos, gorduras e ínfima porção de cacau. Ou aqueles sucos 100% fruta fermentada e fervida até morrer, também com muito açúcar. Tudo com corante, acidulante, espessantes.
Quem acha essa comida prática e fácil de comprar, consumir e descartar as embalagens, beleza. É só achar bacana o descarte de refrigerantes para os estudantes de até 12 anos.
A partir dos 12 pode tudo e até os 12, tudo menos refrigerantes.
O que mudou?
Nada, a não ser a ideia de que a Coca Cola, Pepsi e  Ambev estão preocupadas com a saúde infanto-juvenil e trabalhando nisso com afinco.
O Conselho Federal de Medicina exibiu-se no noticiário acatando a lei contra a qual vinha brigando: cirurgia cesariana a pedido da gestante somente após 39 semanas, a fim de baixar os níveis alarmantes de prematuridade de bebês no Brasil.
Se a cesariana eletiva fosse o único problema ético e prático da obstetrícia, seria uma boa notícia. Assim como o Brasil serviu de plataforma para a industrialização da alimentação, promovida por nossas relações internacionais, especialmente com os norte-americanos, serviu à indústria da cesariana. Não haveria problema algum se ações e argumentos usados fossem de natureza científica, fisiológica, biológica, psicológica, social, política, histórica e econômica, nessa ordem.
Infelizmente o que temos são argumentos baseados exclusivamente em mercado, consumo e marketing. Não em primeiro lugar, mas onipotente. Onipresente sobre toda e qualquer consideração de problemas e estudos humanos, sob bases exclusivamente econômicas de exploração, mais-valia e com argumentos baseados em crenças para justificar implantação de métodos abusivos, desnecessários e iatrogênicos.
Curioso que essas notícias sejam dadas assim pelo lado curinga da força. Quem trabalha com pesquisas sobre os prejuízos da alimentação industrial, por exemplo, não foi ouvido. Quem trabalha com alimentação limpa, sem veneno e orgânica, ficou fora da pauta, alheio ao mercado.
Labncheira_saudávelAlimentar bem crianças em escolas públicas e privadas deveria ser algo levado de maneira séria, em prol da saúde e do desenvolvimento, ou seja, educação alimentar. Governos e escolas que se preocupassem com educação sobre saúde procurariam manter relações melhores e mais estreitas com produtores locais de comida limpa, orgânica, sem venenos, com fruticultores, apicultores, gente brasileira que vive da terra, investindo em mercado interno e fortalecimento da economia por meio de relação direta entre gestores de educação e produtores de comida saudável e fresca.
A Zero Hora conseguiu entrevistar uma nutricionista que trabalha para duas escolas privadas. A profissional está revoltada com a proibição da venda de refrigerantes para estudantes de menos de 12 anos. “Para a especialista em nutrição infantil Magali Martins, que trabalha com cantinas de duas escolas particulares de Porto Alegre, parar de vender esse tipo de bebida nas escolas não deve mitigar o desejo de consumo. Sou contra a proibição, porque acho que tudo o que é proibido se trona desejável. As crianças não vão comprar na escola, mas vão levar de casa, ou pior, sair da escola para comprar. O pai que dá refrigerante para o filho não vai deixar de dar – avaliou.”
Cada escola tem apenas uma cantina, assim que os refrigerantes estarão lá, expostos. O que muda de fato?
Nada, a não ser a falsa polêmica criada pela Zero Hora ao colocar a fala de uma entrevistada que vai contra toda e qualquer pesquisa sobre alimentação infantil saudável. Especialista de mercado, para o mercado e pelo mercado, tipo opinião de bêbado em final de festa, temos.
O Conselho Federal de Medicina, em vez de assumir que embaça há anos para respeitar o tempo de gestação natural, que pode passar das 40 semanas, segura a bola nas 39 semanas, mas somente para situações em que a gestante pede a cirurgia. Obstetras continuam livres para mentir sobre ser cordão enrolado indicação para cesariana, assim como pressão alta, diabetes ou a famosa “ausência de dilatação”, que na maioria dos casos é apenas dilatação lenta e progressiva, absolutamente fisiológica. Continuarão os obstetras fazendo episiotomias, kristeller e outras manobras condenadas pela OMS.
O que muda de fato?
Nada, a não ser o falso cartaz de que o Conselho Federal de Medicina está atuante por menores índices de nascimentos prematuros, quando o fato é que vinha lutando contra e conseguiu no tapetão uma brecha para algo aviltante que mantinha como rotina.
O governo  do Rio Grande do Sul em vez de investir em relação direta com associações comunitárias e de bairros, fornecendo carros para buscar roupas ou organizando brechós solidários em praças e parques, por exemplo, se dá ao luxo de promover uma exposição chique com roupas usadas em shopping!
Era isso, três exemplos de operações de marketing, de verniz sobre coisas muito mais amplas que já contam com comprovação científica e lógica. Fica assim um sabor no ar de viva a Coca-Cola e nossa cerveja de milho transgênico, viva as gestantes que poderiam passar de 40 semanas, mas agora são levadas a entender que seus bebês de 39 precisam nascer porque depois de 39 pode, é seguro. Viva as celebridades e suas lindas relações sentimentais com o vestuário.
O que mudou de fato?
A cara de pau do marketing, cada vez mais encerada.

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